Ir direto ao conteúdo

A água que bebemos. E o que fazer para mantê-la limpa

Cotidiana e essencial para a vida, água pode ser contaminada por agentes físicos, químicos e biológicos. O ‘Nexo’ reuniu informações sobre o tema e dicas para atestar a potabilidade

A água que você consome está limpa? Está contaminada? Qual a  concentração de cloro que ela contém? E de outros componentes químicos? Ela atende a critérios mínimos de qualidade? De onde essa água vem? E quem é responsável por tratá-la?

Uma preocupação crescente de brasileiros que passaram a conhecer os efeitos da poluição está na contaminação da água distribuída para consumo — seja por agentes biológicos, como vírus e bactérias, seja por agentes químicos (como chumbo e glifosato) ou plástico e metal.

A Anvisa (Agência Nacional de Vigil��ncia Sanitária), vinculada ao Ministério da Saúde, estabelece regras de captação e distribuição e parâmetros de qualidade de água que devem ser cumpridos por companhias de saneamento ligadas aos estados e municípios e por empresas que comercializam água em garrafas de plástico.

Uma análise da Agência Pública, da Repórter Brasil e da organização suíça Public Eye publicada em 15 de abril de 2019 sobre dados do Ministério da Saúde, no entanto, mostrou que, entre 2014 e 2017, 1 em cada 4 cidades no Brasil tinham até 27 agrotóxicos em sua rede de abastecimento, alguns deles associados a doenças crônicas.

Em outro caso, a água de algumas cidades do ABC Paulista, como Diadema e São Bernardo do Campo, passou a chegar às torneiras das pessoas com a cor amarelada ou barrenta e com “cheiro forte de podre” em abril de 2019, depois de a região ter passado por enchentes intensas no mês anterior.

Acesso a água limpa e saudável para consumo é um direito básico de todas as pessoas — e, no Brasil, um dever do Estado. Não é, no entanto, uma prerrogativa universalizada no país, que mostra problemas ao fiscalizar a qualidade e que pouco expandiu suas redes de abastecimento e esgoto, apesar da abundância de suas reservas.

Abaixo, o Nexo organiza informações sobre a origem e o tratamento da água no Brasil, sobre as possibilidades de contaminação em água engarrafada e o que é possível fazer, por conta própria, para evitar utilizar água poluída — ou, no mínimo, verificar a qualidade do produto que se consome.

De onde vem a água para consumo

Se você tem água encanada em casa, é provável que ela tenha sido levada até seu bairro depois de ter passado por uma ETA (Estação de Tratamento de Água), nome que se dá ao local, em companhias de saneamento, em que a água vinda de fontes naturais é tratada até se tornar adequada para consumo.

Em estações como essa, que existem em todo o país, a água é captada em rios, mananciais ou poços e passa por diversas etapas de purificação até que o líquido esteja sem cor, sem sabor, sem cheiro e sem microorganismos e outros contaminantes. Para isso, as ETAs adotam diferentes processos físicos e químicos, como filtragem, decantação, cloração e desinfecção.

Por estar associado à garantia de direitos como à saúde e à água potável, o saneamento básico é ele mesmo um direito, reconhecido pela Assembleia Geral das Nações Unidas e pela Lei do Saneamento Básico (lei federal n. 11.445, de 2007), que define como dever do Estado a universalização dos serviços de abastecimento de água e tratamento da rede de esgoto.

83,3%

dos brasileiros contam com água encanada, mas apenas 51,9% têm acesso a tratamento de esgoto, segundo dados de 2015 do Instituto Trata Brasil

A oferta de serviços de saneamento cabe aos estados e municípios, que têm companhias públicas ou mistas ou fazem parcerias com a iniciativa privada, que se tornam responsáveis por expandir as redes locais de tratamento e esgoto. A rede de saneamento em Porto Alegre é pública, mas em Manaus (AM) foi totalmente privatizada, por exemplo.

O caminho da água

 

Como verificar a qualidade

Saiba o que está na lei

A portaria n. 2.914, do Ministério da Saúde, define os padrões de potabilidade da água para consumo no país e estabelece procedimentos de controle e vigilância de sua qualidade. A água saudável deve apresentar temperatura e valores de pH (indicador que mede acidez ou não) determinados e quantidade mínima tolerável de agentes químicos (como chumbo e arsênio), por exemplo. Por sua vez, as companhias de saneamento devem apresentar às autoridades de saúde pública da região onde atuam um plano de amostragem que comprove o cumprimento desses parâmetros.

Consulte o poder público

As prefeituras têm obrigação de fiscalizar a qualidade da água e disponibilizar os resultados de análises ao público. É possível encontrar essas informações em relatórios de monitoramento de águas disponíveis tanto nos sites das companhias prestadoras de serviços de saneamento municipais quanto nas agências reguladoras desses serviços. Se elas não estiverem nesses locais, contate seu município, a companhia que atende à sua localidade ou ONGs envolvidas com o monitoramento de água.

Use os sentidos

Em casa, verifique o cheiro, o gosto e a cor da água e observe se, por exemplo, há partículas suspensas no líquido. Uma amostra saudável deve ser incolor, inodora (sem cheiro) e insípida (sem gosto). Impressões diferentes dessa podem indicar que o líquido está contaminado.

O que fazer para reduzir os riscos de contaminação

Além de monitorar e cobrar do Estado pela qualidade da água tratada nas companhias de saneamento, é possível, por conta própria, tomar pequenas medidas domésticas a fim de garantir que a água que vem das estações seja adequada  para o consumo doméstico.

A instalação de filtros, de caixas d’água e de outras peças hidráulicas, além da limpeza e manutenção adequada desses equipamentos, pode servir para reduzir o risco de contaminação da água que chega à sua casa. Aqui, o Nexo reúne produtos, dicas e passo a passo para você mesmo cuidar da água que você consome da melhor maneira.

Instale um filtro

Ainda que a água de torneira deva, por regra, chegar às casas já limpa, adotar um filtro doméstico de uma marca conhecida pode reter componentes químicos e impurezas do líquido que tenham passado ilesas pelo tratamento das companhias, ajudando a garantir que a água em sua casa esteja saudável para consumo.

Antes de comprar um filtro, leve em conta suas necessidades em casa, seu orçamento, o local em que você vive e suas fontes de abastecimento de água. Uma dica é analisar as etapas do tratamento feito na companhia de saneamento de sua cidade e checar se o filtro escolhido pode realmente complementar a purificação já feita pela empresa.

Mais importante é verificar se, no filtro, há um selo de verificação do Inmetro (Instituto Nacional de Metrologia, Normalização e Qualidade Industrial), pois a marca garante que o produto em mãos foi aprovado para desempenhar a função descrita na embalagem. Esse selo indica ainda se o filtro pode ou não reter os diferentes tipos de impurezas — partículas (como as de glifosato), cloro, vírus e bactérias, entre outras.

A escolha por um filtro (um purificador, por exemplo) não exclui a compra de outro (como um filtro central). Cada modelo tem desempenhos e funções distintas, e mais de um deles pode ser usado na mesma residência, a fim de garantir a melhor água possível para diferentes atividades da casa.

Assim como os usos, as vantagens e desvantagens variam a cada filtro e mesmo a cada marca — o mesmo vale para a manutenção e limpeza dos aparelhos. Use um filtro de barro se quiser uma opção mais acessível e que não demande energia elétrica. Se quiser um filtro bactericida e de longa durabilidade, prefira um purificador ou um ozonizador.

Os tipos de filtros

 

 

Limpe sua caixa d’água

A limpeza da caixa d’água é outro meio acessível pelo qual as pessoas podem contribuir para melhorar a qualidade da água em suas casas. Ainda que esteja potável e livre de microorganismos quando chega à sua casa, a água pode se contaminar — com o contato com insetos, por exemplo — se esses reservatórios não estiverem limpos e desinfetados.

6 meses

é o intervalo recomendado entre uma limpeza de caixa d’água e outra, segundo a Sabesp (Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo)

Abaixo, o Nexo compilou dicas que a Sabesp (Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo) reúne em seu site para quem deseja limpar por conta própria o reservatório de água que abastece sua casa — ou seu prédio, caso a pessoa seja responsável por executar esse serviço no condomínio.

É possível limpar uma caixa d’água sozinho, tendo em mãos apenas água sanitária, panos, um balde, uma escova e uma escada para acessar o reservatório — além de água pura. Uma limpeza assim costuma durar ao menos duas horas (não tanto mais que isso), mas a Sabesp recomenda que se tire uma tarde de folga para executar bem o serviço.

A limpeza da caixa d’água tem limitações, seguramente. Não desinfeta a água se ela vier das companhias de saneamento já infectada com microorganismos e agrotóxicos — para isso, é preciso comprar um filtro adequado, ou ainda cobrar do Estado o tratamento eficaz da água, pois essa é sua obrigação.

As instruções abaixo são genéricas e valem para todo tipo de caixa d’água. Alguns poucos cuidados específicos, no entanto, valem para quem tem em casa uma caixa d’água grande, com mais de 5.000 litros de volume — a Sabesp mostra mais detalhes sobre os cuidados em seu site.

Em todos os casos, vale a regra: nunca se deve consumir a água da casa enquanto o reservatório estiver sendo limpo, principalmente quando houver solução desinfetante no interior da caixa.

Como fazer a limpeza

 

 

 

O que muda no caso da água engarrafada

Às vezes diferente da água que vem das empresas de abastecimento — seja pelo gosto, cheiro e componentes distintos dos da água residencial —, a água engarrafada no Brasil também deve atender aos parâmetros de qualidade da Anvisa, independentemente da origem (mineral ou não) ou da marca que a comercializa.

Mais do que a água encanada, contudo, uma única garrafa de plástico de água apresenta risco de conter dezenas ou milhares de partículas de microplásticos, cujos efeitos ainda são desconhecidos para a saúde, segundo estudos recentes.

Uma pesquisa de 2018 da Orb Media, organização de jornalismo sem fins lucrativos que trata do tema nos Estados Unidos, analisou mais de 250 garrafas de 11 marcas líderes no mercado, como a Minalba, e atestou a presença de plásticos como polipropileno, náilon e PET (tereftalato de polietileno).

10,4

partículas de plástico de 0,1 mm (a largura de um fio de cabelo) foram encontradas por litro de água pelos autores do estudo

A divulgação da pesquisa levou ao início de uma série de análises da Organização Mundial da Saúde sobre a água engarrafada no mundo — ainda que, no momento, médicos estimem que as consequências da ingestão de microplástico têm gravidade de baixa a média.

Um ano antes, outro estudo da Orb Media havia constatado a contaminação de microplásticos na própria água da torneira — em 83% de 159 amostras de água potável coletadas pelos pesquisadores. As partículas estão em rios, oceanos, no solo e no gelo marinho, devido à onipresença do produto no cotidiano, tornando-se um dos principais problemas de poluição.

A Sabesp, empresa de saneamento de São Paulo, não faz análises para constatar microplásticos em sua água — as portarias do Ministério da Saúde não as exigem, justificou a empresa em reportagem do jornal Folha de S. Paulo. Ainda assim, duas das 28 estações de tratamento de água da empresa têm aparato de nanofiltração, capazes de reter as partículas.

Apesar dos riscos que os estudos revelam sobre partículas de plástico na água engarrafada, vale enfatizar que optar por seu consumo é altamente recomendável em lugares onde a água da torneira pode estar poluída — beber água contaminada por esgoto é uma ameaça muito maior à saúde, afirmou à BBC Bruce Gordon, coordenador de trabalho na OMS na área de água e saneamento.

Como atestar a qualidade da água engarrafada comprada em um supermercado? Algumas das informações sobre indicadores de qualidade estão na própria embalagem do produto, como o pH e a quantidade de minerais no líquido, se a água for mineral. Informações sobre haver ou não microplásticos, no entanto, não são constatadas pelo rótulo.

Colaboraram Thiago Quadros e Giovanna Farah (ilustrações)

Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa Equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project. Saiba mais.

Mais recentes

Você ainda tem 2 conteúdos grátis neste mês.

Informação com clareza, equilíbrio e qualidade.
Apoie o jornalismo independente. Junte-se ao Nexo!