Foto: Rafael Marchante/Reuters

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Concluir um livro demanda clareza de ideias e objetivos

Em qualquer área,  até as boas ideias enfrentam dificuldades para não ficarem restritas aos planos, idealizações ou abstrações e ganharem vida. Isso também vale para os livros. Mesmo entre aqueles que começaram a ser colocados em prática, boa parte não passou de um rascunho ou se perdeu no percurso por falta de clareza, organização ou dedicação. Escrever um livro passa por uma série de questionamentos e etapas. No caso dos escritores estreantes, o percurso pode ser ainda mais desafiador.

Se você tem este sonho ou já está com um projeto em andamento, vale a pena conhecer as experiências de autores publicados. O Nexo procurou quatro autores com vivências e trabalhos bastante distintos para que contassem como foi o processo de criação de seu primeiro livro. Como formularam o conceito de seus trabalhos? Como organizaram seu tempo? Como encaixaram o projeto em seu dia a dia? De que forma contemplaram o leitor?

Leia a seguir os relatos de Rafael Gallo (“Revéillon e outros dias”, coletânea de contos, editora Record), Gabriela Barretto (“Como cozinhar sua preguiça”, livro de receitas, editora Melhoramentos), Ilona Szabó (“Drogas: as histórias que não te contaram”, dramas semificcionais, editora Zahar) e Matheus Leitão (“Em nome dos pais”, jornalismo com autobiografia, editora Intrínseca).

‘É um trabalho de escultura com cinzel, de ficar batendo no mesmo ponto até surgir algo’

Rafael Gallo

Foi finalista do prêmio Jabuti em 2013 com sua coletânea de contos “Réveillon e outros dias”. No ano passado, publicou seu primeiro romance, “Rebentar”, que ganhou o Prêmio São Paulo de Literatura para estreantes de até 40 anos.

Converse consigo mesmo

“Sempre gostei de livros até que um dia decidi escrever. Conforme fui praticando, comecei a pensar na escrita como algo mais sério e, então, pensei que podia ser interessante elaborar um livro de contos. Precisei elaborar as personagens e situações para cada história. Não sou de fazer muito planejamento em relação à estrutura ou enredo. O que faço é pensar muito nos conceitos que quero para a história, no seu ‘subterrâneo’, para depois elaborar quais personagens e situações vou usar para potencializar isso que busco abordar. É muito mais um trabalho de encontrar, em longas conversas comigo mesmo, qual é a melhor maneira de dizer aquilo que é o coração da história.

Foto: Divulgação

rafael gallo
Para escritor Rafael Gallo, meta é coisa de ‘empresa de seguros’

Sempre mexo muito nos textos, aliás, sinto que minha escrita é 80% - no mínimo – feita de rearranjar as coisas. Nunca escrevo um monte de coisas, nunca ando muito adiante, é sempre de passo em passo, e voltando pra trás para rever. Um trabalho de escultura com cinzel mesmo, de ficar batendo ali no mesmo ponto até surgir algo.”

Pense no conjunto

“Não foi um tempo organizado, eu não tinha metas ou algo assim. Acho que isso é coisa de empresa de seguros. Mas eu tinha o projeto ‘artístico’, digamos, e isso acho importante para quem pensa em escrever o primeiro livro. Eu sabia, a partir de certo ponto, que seria um livro de contos com dez ou doze histórias, e daí fui elaborando o ‘corpus’ do livro. Acho importante pensar nesses termos, em algum ponto do caminho, em vez de simplesmente ir escrevendo a esmo e depois, quando se tem a ‘gaveta’ cheia, simplesmente pegar tudo isso, enfiar entre duas capas e materializar um livro. Basta pensar nos seus autores preferidos, para ver que seus livros sempre têm um conjunto coeso, não são simples despejos de ideias.

Eu não tinha exatamente um lugar especial para escrever. Cheguei a escrever em ônibus, durante viagens, mas sempre tentei ter um tempo que me era razoável e a possibilidade de concentração. Sentar por 15 minutos e tentar fazer algo nunca deu certo pra mim. Eu sempre tento sentar para ficar horas escrevendo (até hoje) porque sou lento. Por isso, para mim o tempo é mais importante do que o lugar. E a vida não para pra gente escrever, em geral. O livro tem que sair em meio aos boletos, a oficina mecânica, a jornada de trabalho etc.”

Fuja dos modismos

“Acho que há muitas dificuldades nesse processo todo, tanto dentro da própria escrita como fora dela (conhecer editoras, cavar oportunidades, não desanimar, ter o referencial da qualidade do próprio trabalho etc.). Acho importante que quem escreva tenha a convicção de escolher a liberdade quanto a seu próprio livro. Se alguém ficar se preocupando muito com escrever algo que seja mais conforme os modismos, ou que pareça ter o perfil de ganhador de prêmios ou que os leitores vão gostar, está se enganando terrivelmente. A melhor coisa a fazer é escrever o livro que você quer escrever, o livro com o qual você se importa de verdade. Se não tiver isso em mãos, pelo menos, atravessar as dificuldades vai se tornar insuportável. Aliás, se você ficar se enganando, mesmo o sucesso pode se tornar um estorvo.

Não contei com nenhuma ajuda profissional. Quando escrevi, não tinha muito conhecimento do meio literário, não conhecia ninguém das editoras, tampouco algum escritor. Também não sabia das possibilidades de oficinas literárias ou de quem seria mais indicado. Pois é, eu era bem desinformado e isso é uma coisa da qual me arrependo. Um conselho bom para novos autores talvez seja tentar conhecer melhor esse ecossistema literário, porque pode ajudar a não ficar tão no escuro.”

‘Definir o conceito foi muito pensar no que o livro não iria ser’

Gabriela Barretto

Proprietária e chef do restaurante Chou, em São Paulo, estreou nos livros em 2016 com “Como cozinhar sua preguiça”. A publicação compila 51 receitas, em um texto que mistura informações sobre ingredientes e vivências pessoais.

Que livro é o seu?

“O mais importante é entender qual o conceito do livro. É difícil, porque um livro pode ser muitas coisas. Tem que fazer um processo de afunilamento. Para mim isso foi muito pensar no que o livro não era. Daí fui excluindo: não quero que seja um livro sobre a minha vida, não quero que seja só sobre o restaurante. Acho que no primeiro livro, a tendência é querer explicar tudo, porque a gente chegou até ali, tem esse impulso de querer colocar tudo, e muitas vezes isso não é legal. É a parte mais difícil do processo, fazer esse mergulho íntimo para entender qual é a proposta do livro. Cheguei nesse formato de misturar memórias pessoais com receitas.

Foto: Divulgação

gabriela chou
Gabriela Barretto, chef e proprietária do restaurante Chou, misturou receitas e vivências pessoais

Não queria uma coisa muito seca: aqui está como se faz a receita e pronto. Eu acho que o livro de gastronomia tem que contar uma história, seja do restaurante, seja do chefe ou daquele tipo de cozinha. Sou muito consumidora destes livros e geralmente tem essa tríade receitas interessantes, imagens bonitas e texto que revela a história por trás. Meu background é em literatura, formada em letras pela Unicamp.”

Pense em quem vai ler

“Escrevi todo o texto. A [jornalista] Guta Chaves me ajudou a formatar o texto das receitas, o que foi muito importante. No restaurante, às vezes a gente faz de um jeito que parece óbvio pra gente, mas pro leitor leigo não é nada óbvio. A primeira coisa foi definir as receitas que iam entrar, então tínhamos que pensar no conceito do livro em termos de estrutura. Não queríamos aquela coisa muito clássica de livros de receita, que começam com entradas e depois vão para os pratos principais e sobremesa. Nesse caso, quem me ajudou muito foi meu marido, que é designer e diretor de arte.

A segunda etapa foi a produção de fotografia, que é fundamental. Receita tem em qualquer lugar, no Google. Então tem que ter a parte estética, para fazer a pessoa comprar o livro. Aqui em casa fazemos muito mais receitas com foto do que as que não têm. O livro foi projetado tanto para pessoas que tivessem interesse nas receitas e quisessem cozinhar como para uma pessoa que achasse bonito. Livro de gastronomia também serve para inspirar com as imagens. Queria que não fosse só técnico, mas agradável, bonito. Tivemos muito cuidado em selecionar papel, impressão, local da impressão.”

Busque a imersão

“A partir do deadline da editora, estabelecemos um cronograma. Tivemos uns 9 meses para fazer. Tinha metas ao longo do trabalho, da editora e nossas.O texto foi a parte mais difícil. Escrever sob demanda é f***. Não poderia jamais ser jornalista. Foi difícil, fui espremendo.

Quando foi chegando perto do prazo final, fui passar um fim de semana em um quarto de hotel e terminar, pois em casa não tava conseguindo focar. Fiz uma imersão, só escrevendo, sem me preocupar com a casa, com o gato.  Acho que joguei muita coisa fora, teve uma edição minha de bastante coisa, algumas outras coisas a editora queria cortar o que gerou conflitos. e Tive que bater o pé para manter.”

‘O livro não era para pessoas que pensavam como eu’

Ilona Szabó

Diretora-geral do Instituto Igarapé, quis condensar seu conhecimento e vivência de uma década no campo das políticas de drogas em um livro em que convergem dados técnicos e histórias humanas, semificcionalizadas. “Drogas: as histórias que não te contaram” foi escrito em parceria com a jornalista Isabel Clemente.

Traduza seu conhecimento

“A meta foi trazer mais de dez anos de informações técnicas e experiência, incluindo na coordenação da Comissão Global de Política sobre Drogas, da ONU, para um público que tem barreiras, preconceitos e está acostumado com a narrativa que foi construída ao redor desse assunto, de ser um tabu. Fizemos isso por meio de histórias de personagens que pudessem criar essa empatia, com a meta clara de que cada leitor pudesse se identificar, que vissem como alguém que poderia ser próximo, um filho, alguém que trabalha na casa, alguém com quem se importam. O livro não era para pessoas que pensavam como eu, para que vou botar dez anos de experiência no papel se for para falar com os amigos e convertidos?

De saída, fiz o roteiro pensando que o livro seria a base para um filme de ficção, afinal um produto audiovisual pode alcançar ainda mais pessoas. Depois, chamei a [jornalista] Isabel Clemente para ajudar no texto. Eu a orientava sobre o contexto dos assuntos, passava referências de livros e filmes, para que ela trabalhasse em cima. Tínhamos metas para os personagens, por exemplo, “temos que terminar este até dia 15 do mês que vem”. Todo o trabalho de edição, de revisão, fizemos em 10 meses, com o prazo estendido.”

O que representam seus personagens

“Esse argumento fui eu que fiz, tava na gaveta há dois anos e sempre faltava tempo. Quando pensei na proposta do livro, no roteiro inicial, pensei na quantidade de dados que tinha e no mínimo de personagens que precisava para dar vida e contar essa lógica da cadeia das drogas, da produção, o transporte, a venda. Fui pegando os personagens que dariam conta de passar a informação que eu queria passar, de forma sintetizada e palatável para um público não-técnico.

Os personagens foram pensados, mas com inspiração em pessoas que eu conheci. Eles são todos composições, condensando várias histórias, mas a inspiração veio de alguém de carne e osso, com quem  eu tive contato em algum momento. O primeiro personagem eu conheci num albergue em Bogotá, a história começa real, em uma festa de Halloween quando conheci o menino. Peguei a ambientação de outras crianças na mesma situação, para ter essa liberdade, o contexto do país, obviamente tudo que eu sabia sobre o tema para que aquela história daquele menino que encontrei uma vez na vida pudesse ser o mais real possível dentro de um contexto de ficção. Nunca levei pro contexto da imaginação desconectada da realidade.”

Foto: Ricardo Monteiro/Nexo Jornal

ilona szabo
Ilona Szabó criou personagens que traduzissem seu conhecimento na área de drogas

Não imponha, seja atraente

“Tentei passar as informações de forma isenta o máximo possível. Somos seres humanos e temos a opinião geral de que as coisas estão erradas e estamos mostrando novos caminhos e dramas pessoais, mas queríamos que o leitor pudesse tirar suas conclusões, fazer sua reflexão sem nenhuma imposição. Não queria que fosse dogmático. Li infinitas vezes para que o tom não ofendesse, que passasse uma impressão de que só eu estava certa.

A questão da empatia é proposital, as pessoas realmente estão sofrendo. Temos outras soluções que funcionam em outras partes do mundo, não está na hora de testar?. Queríamos um livro para trabalhar em escolas, pensado em jovens, pais, professores, que estão no dia a dia, precisando lidar com essa questão, Nos preocupamos em ser honestos em um tema em que há muita desonestidade, e dizer o que digo sempre: há solução, não acontece do dia para a noite, é humanidade, estamos lidando com pessoas.”

‘Eu evitava ficar parado em frente a uma tela branca’

Matheus Leitão

No livro “Em nome dos pais”, o jornalista quis encarar de frente os responsáveis pela tortura de seus pais, os jornalistas Miriam Leitão e Marcelo Netto, durante a ditadura militar. A obra une jornalismo investigativo com um relato pessoal, autobiográfico.

A importância da emoção

“Este livro tem uma coisa bem específica, que é meu envolvimento emocional com a história. De certa forma, ela me fisgou como um anzol do qual o peixe não consegue se livrar. Isso me acompanha desde os 12 anos, de forma intensa. São meus pais e meu irmão mais velho, pois minha mãe estava grávida dele. Eu falo no livro que tinha que estar lá com eles. Também sou apaixonado pelo tema da ditadura. Eu acho que você precisa estar apaixonado pelo que vai contar.

No livro  eu tentei também trazer algo novo para um assunto muito explorado, e isso foi inclusive reconhecido pela crítica. Construí essa visão de um filho de pessoas torturadas, de alguém da segunda geração. Acho que a questão do meu envolvimento emocional mexeu muito com as pessoas. A pesquisa foi uma dificuldade, tinha que ir atrás desses militares ou de militantes, foi difícil de encontrar as pessoas. Estruturei a narrativa no sentido de que primeiro fui atrás do delator, depois ia atrás dos militares que atuaram no inquérito policial-militar, até chegar aos torturadores. A narrativa vai e volta, entre o que rolou na época, nos anos 70, e eu indo atrás de militares e militantes que fizeram parte da história.”

Falando de si mesmo

“O livro foi escrito sob influência do conceito do self-journalism [ou jornalismo em primeira pessoa] que conheci na Universidade de Berkeley, na Califórnia, onde estudei. Antes disso, confesso que escrevia, mas me sentia um pouco impedido, por causa do envolvimento emocional. Esse conceito é libertador, ele fala que o sentimento é mais importante, que é ele que traz a riqueza do projeto. Tive acesso aos documentos relacionados à tortura dos meus pais em 2004, mas foi só em 2012 que me senti liberto pra seguir adiante.

Foto: Reprodução

Capa do livro
Capa do livro ‘Em nome dos pais’, de Matheus Leitão

No ‘auto-jornalismo’ você tem que ser fiel aos seus sentimentos. Na hora que sentia tristeza, que sentia raiva, tudo isso tinha que estar no projeto. Na prática, eu anotava tudo. Nos capítulos, tem frente a frente com curador (minha mãe era menor de 21 e precisava de um militar que ‘cuidasse’ dela), delator e torturador. Conversas incidentais que tive com outras pessoas ao longo da apuração que eram relevantes, também encaixei no livro. Passei mal, tive crise de asma, coloquei na história. Tinha parado de ter. Mas ela voltou um pouco antes de começar as entrevistas. Eu voltava muito mexido às vezes. Depois que encontrei o torturador deles, demorei muito e tive dificuldade de escrever o que ocorreu.”

Evite a paralisia

“Na hora de escrever, às vezes ia até 4 da manhã, às vezes não, ficava travado. Eu evitava ficar parado em frente a uma tela branca, ia escrevendo. Se tratava, fazia as coisas práticas, tentava relatar as coisas que ocorreram que eu achava mais importantes, depois ia melhorando o texto. Eu sentava para trabalhar e não perdia tempo, às vezes você senta 50 minutos e não anda, mas tem que andar. Não se deixar paralisar é importante para um escritor.

Não tinha retiro para escrever, fui fazendo enquanto tocava minha vida normalmente, tenho dois filhos, sou jornalista e colunista no G1. Fazia quando tinha tempo, às vezes ia na madrugada, nos finais de semana, sempre escrevia em casa. A família teve que ajudar, ficava com os filhos e depois falava ‘agora o papai precisa ir lá escrever’.  Você tem que de alguma forma se organizar para encontrar este momento em que você está com o livro e você diz “eu vou escrever agora”. Às vezes o texto não flui, mas você tem não pode desistir e deixar pra amanhã. Dormi menos, fiz menos exercício do que gostaria, me alimentei pior, mas valeu a pena. É um livro que eu queria muito escrever, eu tinha que escrever.”