Foto: Derek Finch/Reprodução/Flickr

Notebook com Google Keep
Processador, miliàmpere, memória RAM, terabytes e gigahertz... sabe?
 

Notebooks, tablets e, sobretudo, celulares se tornaram itens portáteis banais no dia a dia. Sabemos usá-los de forma tão natural que, mesmo sem conhecimento técnico, obrigamos as tais máquinas a fazer exatamente o que queremos. Tirar uma foto, acessar uma determinada rede social, procurar o melhor trajeto em meio ao trânsito, o que for. Mas usar é uma coisa, entender do que são feitas e o que torna uma melhor para o seu tipo de uso, demanda um esforço um pouco maior.

Proponha-se o exercício: você precisa comprar um novo notebook e se depara com as seguintes configurações: processador i5 6200U, 6GB de RAM, 1TB de HD e placa de vídeo “dedicada” de 2GB. Ou então um celular: trata-se de um com processador de oito núcleos rodando a 2.0GHz, câmera de 12 MP e tela de resolução Full HD.

A convivência com esses aparelhinhos certamente ajuda com um sigla ou outra. Mas você diria que sabe exatamente o que significa cada uma delas? Ou então como elas contribuem para você fazer o que precisa mais rapidamente ou com um visual melhor? Se não, basta olhar os números e quanto maior, melhor. Certo? Na verdade, não é bem assim.

O Nexo consultou especialistas das fabricantes desses tipos de produtos para produzir uma orientação básica para o consumidor sobre o que olhar em uma especificação técnica e, assim, comprar o celular, tablet ou notebook mais adequado para o uso que fará dele. Fique avisado que preço não entra nessa avaliação, já que disso todo mundo entende. O mesmo não dá para dizer de processamento, memória e pixels, certo?

Antes de começar: para que você quer isso mesmo?

Para evitar perda de tempo de pesquisa ou de amolação de algum vendedor por aí, é fundamental tirar uns minutos para refletir sobre o propósito da compra. O que você espera fazer com seu novo celular? Se a conclusão for tirar fotos e usar redes sociais, guarde essa informação, ela será útil. O que você espera do seu notebook? Jogar jogos recém-lançados, com uma qualidade de imagem incrível? Anote aí. Ter o objetivo de uso como foco e enquadrar-se em um perfil de usuário, diminui suas opções de compra de “qualquer um” para uma meia dúzia.

Partindo do sistema

Tendo em mente as decisões que moldaram o seu perfil de usuário – definido no item anterior –, é preciso pensar sobre o sistema operacional da sua preferência. Para quem não associou o nome à coisa, sistema operacional é aquilo que faz a interface entre a máquina mais suas estruturas e o usuário com suas demandas.

Entre notebooks, há produtos com Windows (da Microsoft), macOS (da Apple) ou com um baseado em Linux, como Ubuntu (da Canonical). Entre celulares e tablets, você reconhecerá os nomes Android (Google) e iOS (Apple), que rodam em 99,6% dos celulares mais novos no mundo.

Computadores com Windows são muito comuns – o sistema está em cerca de 84% deles. Ainda assim, quem trabalha com imagem (edição de foto, vídeo, design, etc), por exemplo, é comum ter preferência por aparelhos da Apple.

“Enquanto isso, usuários de Linux costumam ser pessoas com mais conhecimento técnico”, diz Breno Vivarelli, engenheiro de produtos na Positivo Tecnologia.

Já no caso dos aparelhos móveis (celular e tablet), a escolha pelo sistema operacional deve considerar, além da funcionalidade, o consumo que ele faz de dados e energia, bem como a qualidade e diversidade da sua loja de aplicativos – já que cada sistema tem a sua.

Ainda processando

Na tentativa de traduzir o que faz um processador, não é raro encontrar analogias a um coração, cérebro ou motor. Elas dão uma ideia da importância desse componente para o todo do aparelho. Todo comando dado a um computador passa necessariamente por ele.

“É ele que vai transformar uma instrução (uma lógica de programação) em algo visual ou numa tarefa realizada. O processador, resumindo, vai processar todas as informações e disponibilizar para o sistema operacional gerenciar e mostrar na tela para o usuário”, explica Breno Vivarelli.

Não por acaso, é comum aparecer primeiro nas descrições de produtos e especificações técnicas. E as informações normalmente aparecem trazendo nome da fabricante (Intel ou Qualcomm, por exemplo) e/ou marca (Core ou Snapdragon, respectivamente) e seu modelo (i5 ou 820). Em seguida, o número de núcleos (dual core, quadcore, octacore, etc) e a frequência do clock (1,6 GHz, 2,4 GHz, etc). O que entender disso tudo?

Foto: Reprodução/Tested/Youtube

Celular desmontado
 

O “clock” é a frequência de operação de um processador, como uma rodada de trabalho, que é medida em Hertz. Daí a sigla GHz, que significa Gigahertz, relativo a um bilhão. Já os núcleos são divisões dentro do processador que lidarão com diferentes tarefas ao mesmo tempo. Tanto para a frequência como para os núcleos, valeria a ideia de “quanto mais, melhor”, mas os especialistas explicam por que não funciona assim.

“Um octacore de 1.8 Ghz, quando comparado a um octacore de 1.6 Ghz, não é necessariamente melhor”, diz o gerente de produtos da Motorola, Thiago Masuchette. “Você pode ter um processador que opera numa velocidade mais baixa, mas que tem um processamento e um gerenciamento melhor de informação, com desempenho melhor e que consome menos bateria.”

Já que não dá para desempatar uma comparação entre processadores olhando para número de núcleos e frequência, a recomendação é olhar para a geração. É aí que entram em jogo o nome da fabricante, marca e modelo.

“Aí não tem jeito, o consumidor tem que fazer a lição de casa e buscar as informações sobre as gerações do processador na internet ou com os promotores de vendas nas lojas”, diz o executivo da Motorola.

Tanto no universo de celular e tablets como no de notebooks, o objetivo das fabricantes atualmente é o de aumentar desempenho, mas “de forma otimizada”, explica Breno Vivarelli, da Positivo. E para alcançar uma melhor versão, essas empresas lançam novas gerações todo ano. “No caso do que é mais comum em computadores, estamos na sétima geração dos Core da Intel esse ano. Ano que vem já muda. É algo que evolui muito.”

Em termos de tipo de uso e faixa de preço, vale notar que as fabricantes criam “linhas” de processadores com níveis diferentes, do mais simples até o mais avançado.

Para chegar a uma conclusão do melhor processador para você, a melhor estratégia é, então, definir uma pequena lista a partir dos seus conhecimentos sobre marca, geração, núcleo e frequência, e buscar na internet por testes de performance que comparam um com o outro, os chamados testes de benchmark. 

Memória curta

Foto: Reprodução

Memória RAM
Essa é a cara de uma memória RAM
 

Aliado ao processador, a memória RAM cumpre um papel fundamental para o desempenho do dispositivo. Ela funciona como uma memória de curto prazo que permite gerenciar várias atividades ao mesmo tempo. Nas especificações de modelos de dispositivos móveis e notebooks mais novos, ela pode aparecer tendo de 1 GB até 32 GB.  

“Nada mais é do que a quantidade de informações que seu aparelho vai conseguir buscar na memória e retornar para fazer essa aplicação funcionar”, explica Thiago Masuchette, da Motorola. Mas por ter um limite, uma baixa memória RAM pode acarretar travamento e demora na abertura de uma aplicação.

Cada aba aberta no seu navegador, por exemplo, consome uma parte da memória RAM. Abrir várias pode fazer a memória chegar no seu limite. Quando isso acontece, segundo o engenheiro de produtos da Positivo, Breno Vivarelli, “o sistema vai eliminar parte da informação gravada e vai passar a guardar novas informações mais recentes no lugar. Nesse processo tem lentidão porque o sistema está gerenciando o que deve ser armazenado.”

Como referência, para os parâmetros médios de uso, 4 GB de RAM é uma quantidade adequada, opina Vivarelli. Se você pretende usar seu celular, tablet ou notebook para assistir Netflix, rodar programas não muito pesados e acessar a internet, você se enquadra nessa média.

“Mais que isso, é para um perfil de uso mais avançado, como um gamer, com 8 GB. Para quem não pretende fazer um uso complexo, essa quantidade seria desperdício de recurso.”

Espaço e vazão

A noção de um espaço que guarde todos nossos arquivos, músicas e vídeos é algo mais “próximo”. Todo mundo entende. Se um aplicativo tem um tamanho de 10 MB, em um armazenamento de 1 GB, seria possível ter até 100 aplicativos como esse. A conta é simples. Mas nem o armazenamento tem só esse efeito, nem os espaços disponíveis em celular e notebooks hoje são tão pequenos como 1 GB.

Em celulares, é comum ver especificações que vão de 8GB a 128GB – caso do iPhone, por exemplo. Ou ainda modelos que contam com um teto de memória interna (nomenclatura diferente para a mesma coisa) mais baixo, como um de 32 GB, mas com a possibilidade de adicionar espaço fazendo de um cartão de memória SD. Já entre notebooks, os modelos mais novos podem variar de 500GB a 2TB (terabyte, equivalente a um mil gigabytes).

Além da função de meramente guardar arquivos, a memória interna do dispositivo pode ter efeito no desempenho do celular ou notebook. De duas formas: caso a capacidade esteja sendo quase ou totalmente ocupada, caso a tecnologia não seja a com a melhor desenvoltura.

Em celulares, é fácil perceber. Basta um certo tempo de uso e algumas centenas de fotos e vídeos acumulados e o celular já não parece mais o mesmo. Thiago Masuchette, da Motorola, explica que isso pode ter relação com o armazenamento.

O HD está aos poucos sendo substituído por outras tecnologias de armazenamento, mais rápidas e eficientes, como SSD e SSHD.

“É só pensar o seguinte: se para encontrar uma foto dentro de um universo de 10 arquivos, eu levo um tempo ‘xis’, para encontrar a mesma foto em meio a milhares de arquivos, eu vou levar um tempo muito maior”, diz. Nesse caso, as saídas podem ser acrescentar um cartão de memória externa, passar uma parte dos arquivos para um serviço de nuvem, ou mesmo ser radical e fazer uma limpeza no aparelho.

Além do espaço, o tipo de disco que será feito o armazenamento também gera efeitos no desempenho geral. O mais conhecido é o HD (disco rígido). O caso é que aos poucos ele está sendo substituído ou integrado aos de tipo SSD (unidade de estado sólido) ou SSHD, um modelo híbrido. Siglas à parte, o caso é que as novas tecnologias oferecem mais velocidade, mas sobretudo mais eficiência energética.

Foto: Reprodução

Um disco rígido (à esq.), ou HD, ao lado de uma memória SSD
Um disco rígido (à esq.), ou HD, ao lado de uma memória SSD
 

“Com um SSD, a inicialização de um computador (que a gente chama de boot) é uma fração da com um HD. Ele ajuda a dar vazão ao processador. Não adianta ter um processador e uma memória RAM alta, se o armazenamento for lento e pequeno”, conclui Breno Vivarelli, da Positivo.

Gráfico para quem precisa

Dentre os perfis de usuários, quem costuma se preocupar mais com a parte gráfica são profissionais de vídeo ou de projetos de design, que precisam renderizar seus trabalhos, e gamers. Se você não se encaixa nesse perfil – ser um entusiasta de Candy Crush não te enquadra como um “gamer” – o assunto placa de vídeo não deve ser uma preocupação.

Isso porque tanto em celulares e tablets, bem como na maioria dos notebooks populares, o desempenho gráfico é de responsabilidade de uma GPU, uma unidade gráfica de processamento, que já vem integrada ao processador principal.

Segundo Breno Vivarelli, “processadores gráficos integrados dão conta do recado com tranquilidade”. O especialista diz que modelos mais recentes suportam vídeos com resolução 4K; rodam games de gráficos razoáveis (”como League of Legends, que é um dos jogos mais populares no mundo”), e chegam até a fazer renderização 3D.

No caso de notebooks, quem chegar à conclusão de que a placa integrada não é suficiente, tem que partir para aparelhos com placa de vídeo “dedicada” – o termo se refere à memória que funciona especificamente para a parte gráfica do dispositivo, de forma separada da CPU (unidade central de processamento).

Para chegar ao modelo ideal, Vivarelli sugere conferir as especificações sugeridas pelas fabricantes de softwares de edição de vídeo ou pelas produtoras de jogos de interesse do usuário.

Resolução

Uma dica importante é não deixar de conferir as especificações de resolução da tela do aparelho. “Não adianta nada ter um processamento gráfico lindo, se a resolução da tela for baixa. Ou ainda querer assistir vídeo com resolução 4K se a tela não comporta. O resultado vai ser ruim. Esse é mais um ‘casamento’ importante a ser levado em conta”, recomenda Thiago Masuchette, da Motorola.

A resolução importa pois é o que vai dizer quanta informação gráfica caberá em uma polegada de tela. Ela vem na especificação nos detalhes da tela e seu tamanho (dado em polegadas). Uma tela pode, então, ser anunciada assim como “HD” (sigla para “alta definição”), ou assim “1280 × 720” ou ainda “720p” (de progressive scan). É preciso saber que as resoluções costumam ser disso para cima. Logo, resoluções melhores, em ordem, são Full HD (1920 x 1080), 2K ou Quad HD (2048 x 1152 ou até 2560 x 1440) e 4K (3840 x 2160; até 4096 x 2160).

O que uma câmera tem

Foto: Karlis Dambrans/Reprodução/Flickr

Câmera de celular HTC
Para avaliar uma câmera deve-se ir além do megapixel
 

Até bem pouco tempo atrás, o único critério para se decidir sobre o celular com a melhor câmera era o número de MP, ou megapixels – que basicamente é a quantidade de quadradinhos que darão nuances a uma imagem digital. Um teste para se notar a diferença de uma foto com alta resolução de uma com baixa resolução é ampliar as duas: a de baixa resolução deve “pixelizar”, ou seja, no lugar de uma imagem homogênea, se verá um monte de quadradinhos coloridos formando a imagem.

O caso é que agora há um conjunto de fatores que contribuem para uma foto sair melhor ou pior, e a resolução da imagem é apenas um (bem importante) deles. “É importante ver qual tecnologia de flash a câmera possui (se normal ou duplo), lente, sensor; e não esquecer de avaliar também a câmera frontal, caso a pessoa costume tirar selfies”, indica Thiago Masuchette. 

Além desses elementos que compõem sua estrutura, é recomendável ir até uma loja e testar recursos que possam interessar o comprador, como os de modos de disparo (fotos panorâmicas, câmera lenta, etc), conferir se possui HDR (tecnologia que combina imagens com intensidades de luz diferentes), detecção de rosto ou sorriso, ou ainda se permite ajuste para fotos manuais (velocidade, foco, ISO, etc).

Para a produção de vídeo, é fundamental avaliar se a presença ou não de estabilizador é importante e ainda conferir a resolução máxima de gravação.

Bateria, peso e tamanho

No fim, as contas das demais especificações caem todas aqui, na bateria. Isso porque o processador pode ser super rápido, a memória RAM alta, o desempenho gráfico notável, a tela brilhante, mas se o conjunto não se mostrar eficiente em termos de energia, o aparelho terá sido uma péssima escolha.

Mas quanto à bateria, isoladamente, ela é especificada pela sigla “mAh”, que significa miliàmpere-hora. Quanto maior o número antes da sigla, maior é o tempo de autonomia da bateria para um determinado consumo. É comum fabricantes colocarem a quantidade de horas de duração da bateria para perfis de usos. Mas, como explica Breno Vivarelli, da Positivo, a autonomia da bateria é muito relativa.

“Isso porque depende se a sua intensidade de brilho da tela está maior ou menor, se tem muitas aplicações rodando em segunda plano, etc.”, diz. Uma recomendação do especialista é comparar baterias de mesmo material (lítio, por exemplo) entre produtos com processadores semelhantes.

Fora isso, tanto para celulares e tablets quando notebooks, atentar para se uma bateria mais robusta não resultará em um aparelho mais pesado – no caso de isso ser um problema.

ESTAVA ERRADO Em uma versão inicial, este texto apontava que o "p" em 720p se referia a "pixels" e não a "progressive scan". O texto foi corrigido no dia 19 de abril de 2017 às 11h44.