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Moedas em pote de vidro
Educação financeira não é ciência, mas uma série de boas práticas
 

Quando vira o ano, é comum as pessoas se sentirem inspiradas para mudar radicalmente algo na vida, seja ligado a alimentação, saúde, relacionamentos ou trabalho. O dinheiro e o que fazemos com ele não é uma exceção. Para quem tem dificuldade em gerir o próprio orçamento e está sempre correndo de dívidas, talvez seja uma boa pegar carona no otimismo do novo ano para adotar uma postura diferente em relação às suas finanças.

Abaixo listamos algumas dicas que podem ajudar a dar o primeiro passo rumo a uma melhor organização pessoal ou familiar das economias. Dívidas acumuladas, dificuldade em poupar ou dinheiro mal utilizado; para todos os casos – relacionados na maioria das vezes a decisões econômicas mal tomadas – existe uma série de orientações que podem ajudar a resolver o problema.

“Educação financeira é um campo amplo, mas, se fôssemos defini-la, ela se resume a boas práticas, não é exatamente uma ciência”, diz o professor de finanças no Insper, Ricardo Rocha.

Quanto vem e para onde vai?

Perceber a existência de um problema não é o suficiente para lidar com ele, é preciso, de imediato, identificar o que o está causando. Quando o assunto é dinheiro, colocar receitas e despesas do ano anterior em uma planilha e estudá-la serve, invariavelmente, como um grande iluminador.

Se a habilidade para fazer uma planilha não for muita, há uma série delas disponíveis na internet, como esta da BM&F Bovespa (acessível também em uma versão online, de onde é possível fazer o download ou criar uma cópia para si).

De um lado, comece com todo o dinheiro que entrou, mês a mês. No caso de um assalariado, basta recuperar o informe de rendimentos do ano ou os holerites de cada mês. Tudo deve estar lá: salários, remuneração de férias, 13º, etc. Tratando-se de um trabalhador autônomo, com receitas variáveis, basta levantar os balanços mensais e relembrar tudo o que entrou no caixa e, de lá, o que ficou reservado para o seu bolso.

Na outra ponta, vem a parte azeda: as despesas. Comece classificando as despesas entre quatro tipos (seguindo a organização da planilha da BM&F Bovespa).

Categorias de despesas

Fixas

São aquelas que, se nada extraordinário acontecer, serão as mesmas todo mês. Envolvem gastos com habitação (aluguel ou prestação da casa, condomínio, salário da empregada doméstica), transporte (prestação de automóvel), saúde (plano de saúde), educação (mensalidade de escola/faculdade ou cursos de idiomas) e impostos (IPTU e IPVA).

Variáveis

São as despesas que se tem obrigatoriamente todo mês, mas cujos valores sobem ou descem, dependendo do mês, e podemos tentar reduzi-las. São exemplos as de habitação (contas de luz, gás, água, celular, TV e internet), transporte (tarifas de metrô, ônibus ou combustível), saúde (remédios de uso constante), além de alimentação (compras de mercado) e outros como cabeleireiro e manicure.

Extras

Nesta categoria estão os gastos não previstos e que acabam se tornando inevitáveis, como: consulta médica particular, cirurgias, consertos de automóvel ou reforma da casa. 

Adicionais

São os gastos dispensáveis, aqueles que podem não só ter o valor variável, como não precisam existir. Exemplos são os feitos com viagens, cinema, restaurantes, roupas e presentes em geral.

Pagar dívida, viajar ou comprar casa?

Antes de sair cortando gastos, decidindo o quanto economizar ou procurando novas fontes de receita, a recomendação principal é: defina um objetivo.

Além de ajudar a ter disciplina com o comportamento a ser adotado com seu dinheiro, a definição de um “prêmio” é uma ótima maneira de se conquistar coisas, como adquirir uma casa nova, fazer uma grande viagem ou comprar uma bicicleta.

Esses três exemplos, aliás, podem ser rotulados como objetivos de longo, médio e curto prazo – que podem ser realizados em 20 anos, três anos ou seis meses. Isolar esses três tipos de objetivos é fundamental para a definição de quanto será preciso economizar para a realização de cada um, sem frustrações.

A definição dos objetivos depende do resultado do orçamento: se tudo estiver no verde, as metas são mais livres; caso contrário, o foco deve ser a inversão do quadro negativo

Simplificadamente, apenas para exemplificar, ignorando os efeitos da inflação e dos juros, para se comprar uma casa de R$ 300 mil em 20 anos, seria necessário economizar R$ 1.250 por mês. Para uma viagem de R$ 10 mil em três anos, a poupança teria que ter um adicional de R$ 278. Já para a bicicleta de R$ 1 mil em seis meses, a economia a mais seria de R$ 167. No total, são R$ 1.695 salvos dos gastos por mês para a realização de três sonhos, no mínimo – isso porque atingido um objetivo, basta definir um novo para ocupar o lugar dentro do mesmo estilo de prazo.

A definição dos objetivos, no entanto, vai depender do resultado da análise do seu orçamento. Se tudo estiver no verde, os objetivos são livres e podem envolver até a aplicação de parte desse saldo positivo para aumentar suas receitas (veja mais abaixo). Mas no caso da sua planilha orçamentária apontar um resultado negativo – com dívidas, por exemplo – alguns dos objetivos (de curto, médio e longo prazo) terão que se voltar para a inversão desse quadro.

“Eu falo que educação financeira tem três fases: consciência, planejamento e conhecimento. A primeira me parece que todo mundo tem: ‘eu não posso gastar mais do que gero de receita’. Da segunda, como mostra a realidade, a pessoa foge porque vai implicar mudança de hábito”, diz o professor do Insper. “Mudar não é fácil, mas depois do período de choque, isso vai trazer benefícios para todos”.

De frente para o orçamento

Mês a mês, analise as faturas de cartão de crédito, os extratos do cartão de débito e consulte sua lista de gastos feitos com dinheiro (se não costumava anotar, considere começar agora). Há diversos aplicativos para celular gratuitos (como GuiaBolso, Minhas Finanças, etc) que, vinculados à sua conta bancária, monitoram suas atividades, separam o tipo de despesa e ajudam ainda a atingir metas, como economizar certa quantia de dinheiro em um dado prazo.

Olhando para o ano que passou, qual foi o resultado? Se os gastos foram maiores que a receita, algo está errado e é muito provável que você seja uma pessoa com dívidas. Nesse caso, antes que o ano comece com novos compromissos financeiros, é bom reajustar o orçamento. Isso significa cortar gastos ou, se a lista de despesas já estiver enxuta, buscar novas fontes de receita.

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Colocando o orçamento no papel
Organizar uma planilha com ganhos e despesas ajuda na decisão sobre onde cortar
 

Nesse caso, comece estudando sua planilha passada buscando identificar excessos e meses mais complicados – de partida, note que em janeiro e fevereiro são cobrados IPVA e IPTU, além de ser o mês de, para quem tem filhos, compra de material escolar e uniformes – e já prepare uma nova planilha para o ano que começa, projetando sua receita atualizada de um lado, e as despesas de tipo fixas e variáveis (adote uma média para cada uma dessas).

Se tem dívida…

Se as dívidas estão no seu encalço, o seu principal objetivo neste novo ano é zerá-las. Isso porque elas acabam sendo sempre um fantasma gerador de intranquilidade, que pode manchar seu nome, e não te deixa gerar excedente para atingir seus verdadeiros objetivos. Além do mais, os juros no Brasil são altos e as dívidas podem virar bolas de neve rapidamente. Para quitá-las, será necessário fazer uma rearranjo dos gastos, gerar uma sobrinha e estabelecer um prazo para dar fim a essa história.

Quanto de economia é suficiente vai depender do tamanho da sua dívida, mas como dica geral é possível seguir uma divisão conhecida como regra 50-20-30 – proposta pela ex-professora de Harvard e senadora americana Elizabeth Warren –, a depender da porcentagem para cada coisa. Em essência, ela sugere que um bom quadro de despesas se distribui assim:

  • 50% das receitas para necessidades (que podem envolver os de tipo fixos e variáveis, mencionados acima)
  • 20% das receitas para economias, que permitirá criar uma base econômica sólida, como a quitação de uma dívida ou a reserva para um investimento ou poupança
  • 30% das receitas para desejos, como a compra de um celular novo ou um corte de cabelo (em geral, os gastos de tipo adicionais)

Para adequar seus gastos, olhando para a planilha, comece cortando de baixo para cima, partindo das despesas de tipo adicionais e depois para as variáveis – como resultado, você provavelmente conseguirá enxugar os gastos de desejos e de necessidades para que sobre mais para economia.

Para reduzir os gastos do tipo adicional, troque o cinema por um filme no sofá, o restaurante por refeições em casa, as roupas novas pelas esquecidas no fundo do armário. Já entre os itens de gastos variáveis, considere economizar o consumo de energia e de compras de mercado, renegocie o valor das contas de TV, celular, internet, academia e serviços de assinatura – se a situação estiver muito crítica, considere cortar a despesa de vez.

O ideal é nem olhar para as fixas, já que são despesas obrigatórias. Não pagá-las significa se tornar inadimplente e você não quer mais essa para o seu novo ano. Mas se a situação estiver realmente feia, como último recurso, considere medidas extremas como buscar planos de saúde e escolas mais em conta, mudar-se para uma casa de aluguel mais baixo ou vender bens (como um automóvel).

“Muita gente se endivida porque opta por pagar uma boa educação para o filho, mas não quer abrir mão de outras coisas. É preciso escolher: vou direcionar meu orçamento de que maneira? Se não fizer isso, você vai ter que acabar colocando o filho numa escola pior ou criando um endividamento que afeta o emocional da família.”

Ricardo Rocha

Professor de finanças na pós-graduação do Insper

Equilibrada a conta e gerado o excedente necessário, o passo seguinte é medir o tamanho da dívida. Financiamentos, compras parceladas no cartão, cheque especial, contas atrasadas… tudo é dívida. Se uma ou outra assumiu um valor que você considera inviável de pagar nos próximos meses, tente renegociar o valor com o credor. Existe a possibilidade de conseguir uma proposta de carência ou alongamento de prazo do banco para que ao menos ele receba o que lhe é devido.

Em seguida, mire nas contas sobre as quais correm juros maiores. O ideal é pagá-las à vista. Caso contrário, vale fazer os cálculos e conferir se não é melhor pegar um empréstimo (com juros menores do que o da dívida) e quitá-la de uma só vez.

Se essa for a saída, de várias dívidas com juros altos, agora você tem uma com juros menores. Concentre-se nela e divida o valor pela menor quantidade de meses que você puder para quitá-la o mais cedo que conseguir: se necessário, aumente a proporção das despesas com economia e reduza as pessoais para isso.

“Eventualmente, você pode com um simples empréstimo consignado (cujas prestações são descontadas diretamente da folha de pagamento) trocar todas as suas dívidas, alongando o prazo. Como o risco é mais baixo, a taxa também é mais baixa”, diz Ricardo Rocha. “Empresa faz isso o tempo todo. Mas aí precisa deixar de usar o limite do cheque especial.”

Foto: Frankieleon/Reprodução

Cartões de crédito
Financiamentos, compras parceladas no cartão, cheque especial, contas atrasadas… tudo deve ser encarado como dívida
 

O professor de finanças do Insper diz que um modo alternativo é vender um bem (como um carro), quitar a dívida e financiar um bem idêntico ou mais modesto (um carro popular) com uma prestação mais baixa. “Se não alongar sua dívida, você não sai dela no curto prazo porque você não pode parar de comer, pagar escola, aluguel, etc.”

Uma outra boa dica é já se antecipar e considerar o pagamento de impostos e demais custos fixos de janeiro uma prioridade financeira, uma espécie de dívida anual. Para não passar sufoco no fim do ano, divida o valor total a ser pago em janeiro ao longo dos meses do ano e guarde na poupança. Ou ainda, caso seja contemplado com um 13º salário, reserve esse dinheiro a mais para o início do ano seguinte.

Se não tem dívida…

Se você chegou até aqui e conseguiu quitar dívidas e fechar o orçamento do ano com saldo positivo, comemore, você concluiu a primeira fase para organizar sua relação com o dinheiro. Isso não significa que está liberado sair por aí torrando tudo. Na verdade, agora vem a parte mais difícil e que vai demandar maior autocontrole para manter a estrutura de despesas (50-20-30), não para pagar dívida, mas para criar uma poupança inicial. O termo recorrente em educação financeira é “reserva de emergência”.

“É uma economia de algo equivalente ao valor de uma renda mínima de 6 a 12 meses. Se um casal ganha R$ 10 mil por mês e considera R$ 6 mil o mínimo para passar o mês, então a reserva de emergência deve ser de algo entre R$ 36 mil e R$ 72 mil”, exemplifica o professor de finanças, Ricardo Rocha.

Para quem não conta com uma renda estável, recomenda-se olhar para o ano anterior, fazer uma média de salário mensal e poupar de forma proporcional ao que entrou no caixa no período

“Guardar não é aposentadoria, é um dinheiro reservado para a pessoa ficar sossegada e dormir bem todo dia. Com o desemprego elevado, as pessoas têm angústia de serem demitidas. Uma forma de mitigar isso é ter essa reserva. Se for mandada embora, a pessoa pode contar com a indenização da demissão mais a reserva de emergência, o que dá margem para se recolocar no mercado de forma mais digna”, diz Rocha.

Para quem não conta com uma renda estável, recomenda-se olhar para o ano anterior, fazer uma média de salário mensal e poupar de forma proporcional ao que entrou no caixa no período: se num mês a receita foi duas vezes maior que a média, poupe o dobro, pois é possível e provável que em um mês futuro pingue uma quantia menor que a desejada.

Até agora, seguindo a lista de prioridades financeiras, temos o pagamento de dívidas – isolado na frente –, seguido da criação de uma reserva de emergência. Cumpridas tais prioridades, é possível recuperar aquela lista de objetivos e sonhos do início.

Tendo em mente a margem de 20% das receitas indo para economias, defina os objetivos de curto, médio e longo prazos. Uma recomendação é escolher como um dos objetivos o de criar uma previdência privada (espécie de reserva de emergência a longo prazo) e atingir um certo valor com ela.

Considere investir

Entre os poupadores, há quem se canse de lidar apenas com poupança. Apesar de ser o tipo de investimento mais popular entre os brasileiros, em 2015 a caderneta de poupança teve rendimento de 8,07% no ano, enquanto a inflação chegou a 10,67% (a mais alta em 13 anos). Isso significou uma perda real para os aplicadores.

Para diversificar os investimentos, é possível reservar parte das economias e colocar em aplicações de renda fixa, como CDB (Certificado de Depósito Bancário), LCI (Letra de Crédito Imobiliário) ou Tesouro Direto; ou de renda variável, como a compra de ações de empresas. A recomendação é conversar com seu banco ou com uma corretora de investimentos para saber quais as melhores opções para a época, para o seu orçamento e para o seu perfil de tolerância a risco.

Como não reincidir no erro

Seguindo as dicas acima e se esforçando para não abandonar as boas práticas adquiridas, você deve dar uma boa camada de ordem ao seu orçamento e melhorar muito sua relação com seu dinheiro. Para encerrar, o Nexo preparou uma lista de pequenas dicas sugeridas pelos especialistas consultados que devem, paralelamente, ajudar.

Dicas para não sair da linha

Grandes ou pequenos, gastos são gastos

Para equilibrar o orçamento, é natural olhar primeiro para os maiores números da lista de despesas. E com razão. Mas não dá para fazer vista grossa sobre os pequenos gastos. “O corte de pequenos gastos, como o café do almoço, pode ter resultado, mas só faz efeito para quem já está com as contas equilibradas”, opina Ricardo Rocha, do Insper. Como exemplo, cita uma pessoa que almoça fora todos os dias. “Se gastar R$ 25 em vez de R$ 50, ele vai ter R$ 125 para poder gastar no final de semana em um restaurante melhor”, diz. “É uma forma de usar melhor o seu dinheiro e melhorar seu orçamento.”

Grandes ou pequenas, economias são economias

Para todas as boas práticas recomendadas, bastaria seguir uma: não deixe de economizar. Se economizar R$ 900 por mês parece muito, experimente dividir o valor por semana (R$ 225) ou por dia (R$ 30). Tenha em mente que fazer uma pequena economia não dói, e o acúmulo de várias delas até o fim do ano pode gerar uma cifra recompensadora.

Dinheiro contado para não cair em tentação

Essa é dedicada a todos os que não se controlam em supermercados, padarias ou livrarias: vá com o dinheiro contado. Se o orçamento prevê um gasto de até R$ 300 com compras de mercado para casa, você pode fazer um saque e ir às compras com dinheiro vivo, por exemplo. Se a compra exceder o limite, esqueça o cartão de débito ou crédito, e deixe por lá o produto que não for essencial.

Faça do crédito a sua última opção

O cartão de crédito costuma ser o vilão dos orçamentos pessoais. Isso porque ele adia para o mês seguinte (ou meses seguintes) um gasto atual, maquiando a capacidade de compra e facilmente resultando na perda do controle financeiro. Assim, sempre que possível, além da dica do dinheiro vivo, na hora de pegar o cartão, prefira a opção pelo pagamento à vista. Leve em conta essa estratégia até mesmo na hora de comprar produtos mais caros, como uma geladeira. Se for possível antecipar a época do gasto, é preferível juntar valores mensais e pagar tudo à vista (e obter descontos), do que pagar a prazo, muitas vezes apelando para juros.

Ajuste as datas de pagamento

Muita gente atropela o orçamento apenas porque teve a chance de ver dinheiro na conta. A chave é aceitar que aquele dinheiro não é seu. Um modo eficiente de tirar a cifra animadora da frente é ajustar os prazos de contas (luz, aluguel, condomínio, energia, etc) para datas imediatamente próximas às de recebimento de salário. Assim, por ordem, quitando as contas você já lidou com os gastos essenciais (50%).

Para saber mais

Além da planilha de orçamento da BM&F Bovespa e de aplicativos de gestão financeira já recomendados, há materiais gratuitos  e úteis para quem quer se aprofundar em educação financeira. Exemplos são o “Caderno de Educação Financeira Gestão de Finanças Pessoais”, e o “Glossário Simplificado de Termos Financeiros”, ambos elaborados pelo Banco Central. A mesma instituição oferece ainda um curso de “Gestão de Finanças Pessoais”, gratuito e online. Bem como a FGV (Fundação Getúlio Vargas), que dispõe do curso “Como organizar o orçamento familiar”, também online e gratuito.