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Reflexo
"Reflections", de Hovsep Pushman
 

Na teoria, falar ou escrever sobre si mesmo deveria ser algo bem fácil. Afinal, tem assunto mais familiar para você do que “você”?

Em termos práticos, é um caminho bem mais complicado. São muitas as nuances que merecem atenção.

Uma das dificuldades é esta: você quer se mostrar como uma pessoa interessante, mas não quer parecer convencido.

Quando fala sobre você, é importante soar realista. Em outras palavras, a pessoa que você imagina ser deve coincidir o máximo possível com a percepção dos outros sobre você. Um descompasso entre as duas percepções pode atrair, no mínimo, a ridicularização.

O que conduz a outro ponto: o que minha comunicação diz a meu respeito que não estou percebendo? Que sinais a meu respeito estou emitindo que nem me dou conta?

O Nexo conversou com um filósofo, uma fonoaudióloga, uma coach de carreira e uma especialista em comunicação pessoal para saber sobre as nuances e armadilhas que existem quando o seu assunto é você mesmo.

Por que falar de si mesmo?

São muitas as situações em que esta necessidade pode aparecer: pode ser uma simples apresentação em uma reunião profissional. Ou uma mesa de debate na universidade. Pode ainda ser uma história que você quer contar no Facebook. E pode ainda ser uma situação bastante casual, como numa festa, quando alguém pergunta: “O que você faz?”. A especialista em comunicação pessoal Áurea Regina de Sá, lembra que oportunidades podem aparecer nos mais diversos locais, como uma sala de espera. “Parece que se está autorizado apenas quando alguém convida: ‘Por favor, fale um pouco do seu trabalho’. Daí a pessoa acha que tudo bem falar de si mesmo”. Para a especialista, qualquer situação pode ser uma oportunidade para contar sobre si mesmo, contanto que seja adequado ao contexto. Ajuda também, segundo ela, pensar em como o que você faz pode “servir ao outro” e assim introduzir o assunto na conversa.

“Falar de si é criar um posicionamento, ao qual as outras pessoas irão responder, ou seja, é construir identidade”, explica a coach Juliana Bertolucci. “A identidade é quem se é num contexto social. Para cada papel que uma pessoa exerce nas diferentes áreas de sua vida, ela constitui uma identidade, que é um aspecto de toda a sua identidade. É importante lembrar que, para além do ato de falar em si, os comportamentos e ações também constróem essas identidades.”

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Norman Rockwell
"Triple self-portrait", de Norman Rockwell
 

Quem é você?

Como falar de si sem se conhecer direito? O processo de autoconhecimento atravessa várias camadas de percepção e informação e se relaciona com disciplinas como psicologia e filosofia. As chances são de que esse é um processo que nunca se concluirá. “Há limites para o que sabemos sobre nós”, afirma o sociólogo Luis Mauro Sá Martino, que ministrou cursos de autoconhecimento com viés filosófico na Casa do Saber. Para além dos possíveis caminhos terapêuticos, conhecer a si mesmo é um procedimento bastante enfatizado por profissionais do coaching.

Para Juliana Bertolucci, a maneira como se fala de si mesmo é uma escolha. “Quanto maior o autoconhecimento, mais consciente e autêntica é essa escolha e, portanto, sua narrativa”. Para a especialista, se conhecer significa se “apropriar” de sua história e de sua vivência. Nessa narrativa, segundo ela, entra tudo: o que você quer, quem você quer ser, o que você tem de positivo, seus potenciais, valores, crenças, limites. Também contam as percepções e impactos causados nos outros.

“Quando falo sobre mim, em uma conversa ou em um perfil nas redes sociais, escolho o que contar ou não contar de acordo com a representação que tenho de mim mesmo. A história que contamos sobre nós, essa narrativa, mostra em parte (e é bom frisar o "em parte") o que pensamos que somos e como gostaríamos que os outros nos vissem”, afirma Martino.

Para alguns especialistas, entretanto, é importante ter lugar para a espontaneidade. Ensaiar demais, calcular demais, pode ter consequências ruins diante de situações imprevistas, por exemplo, em uma apresentação em público.

A percepção dos outros importa?

Você pode dizer que não, e provavelmente estará mentindo. No âmbito do autoconhecimento, a percepção de outros pode ajudar bastante e faz parte da construção da identidade pessoal. Juliana Bertolucci usa um modelo desenvolvido por psicólogos norte-americanos nos anos 50 chamado Janela de Johari, que funciona como um painel de percepções a respeito de um indivíduo.

Nele, se situam quatro quadrantes. O primeiro, chamado “arena”, traz informações conhecidas pela pessoa e pelos outros; no segundo, denominado “ponto cego”, estão informações sobre a pessoa que apenas os outros possuem; o terceiro, a “fachada”, apenas o que a pessoa sabe e não compartilha; e o quarto é o “desconhecido”, o que nem a pessoa ou os outros sabem. De acordo com a coach, o recurso “pode ser usado numa reflexão sobre como alguém fala sobre si em diferentes situações, o autoconhecimento e a percepção dos outros”. Segundo Juliana, “é possível perceber, por exemplo, se a percepção que a pessoa tem sobre si está alinhada com as dos outros, e também ganhar consciência sobre qualidades e limitações que os outros enxergam na pessoa e ela mesma não percebia”.

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Ali se gabando
Muhammad Ali costumava falar muito a respeito de si mesmo
 

Qual a dosagem entre humildade e promoção?

“É o maior desafio”, diz Áurea. “A dosagem, que podemos chamar de bom senso, é algo muito subjetivo, não tem receita. Ela tem que ser feita na construção do discurso, na expressividade corporal, no olhar, tudo isso cria um conceito sobre a comunicação da outra pessoa”, aconselha. De acordo com os especialistas ouvidos pelo Nexo, a questão é especialmente presente no Brasil: nossa “cultura da humildade”, que mistura medo de inveja com medo de “se achar”, inibe muitas vezes as pessoas de discorrerem sobre si mesmas.

Isso às vezes conduz a outra prática, que é o “humblebrag”, expressão em inglês para exibicionismo disfarçado de humildade, do tipo muito visto em redes sociais. O verbete em inglês já está no dicionário Oxford, definido como “declaração ostensivamente modesta ou autodepreciativa cujo objetivo verdadeiro é chamar a atenção para algo que é motivo de orgulho”. Em um estudo realizado por pesquisadores de Harvard, cerca de 77% das respostas a “qual seu maior defeito” dadas em entrevistas foram interpretadas como “humblebrags” e 23% apenas foram consideradas como uma fraqueza real.

Já a “síndrome do impostor”, quando a pessoa acredita não merecer suas conquistas, é um estado psicológico que pode deixar a pessoa acanhada na hora de falar em causa própria. Nos últimos anos, a síndrome do impostor foi objeto de inúmeros artigos e estudos de psicologia. A psicóloga americana Amy Cuddy relatou em seu livro “Presence” que pesquisadores encontraram “impostorismo” em dezenas de grupos demográficos e categorias profissionais nos Estados Unidos, de professores a empreendedores, de profissionais veteranos a adolescentes.

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Microfone
O equipamento que intimida tanta gente
 

Na outra ponta, a ostentação de títulos e conquistas aparece como erro recorrente, segundo Áurea. “Não é bom enfatizar títulos só porque a pessoa acha que isso a coloca automaticamente numa posição superior. O efeito pode ser negativo, na verdade. Não é para não contar, mas falar de uma forma que esteja dentro do contexto. Não adianta em uma palestra para jovens de ensino técnico, vir falar de seu MBA, do PhD, e tudo mais. Isso pode criar uma distância. É melhor falar de algo que vai gerar valor para seu interlocutor ou plateia”.

Minha voz faz diferença?

“Quando você fala, você constrói percepção de uma maneira muito importante, muito incisiva, e essa percepção se constrói já nos primeiros segundos de contato com seu interlocutor’, diz a fonoaudióloga e especialista em voz Leny Kyrillos. De acordo com ela, o processo é inconsciente e o interlocutor não sabe como e porque fica impactado. A reação acontece em segundos. Sinais de insegurança na voz podem dispersar o interlocutor quase que imediatamente.

Para Leny, é possível ter controle e ajustar características da voz como o foco da ressonância do seu som, que passa por garganta, nariz e boca. Enfatizar a ressonância na boca, responsável pela articulação, constrói percepção de credibilidade. “Quando capricho na articulação, eu convenço mais, você tem a sensação de que estou segura e intuitivamente confia mais”, afirma. Por outro lado, se um candidato numa entrevista de emprego está muito nervoso e preocupado, isso tende a deixar sua voz mais embutida e internalizada. “Claro que o não-verbal vai corresponder a isso. Vou estar com uma postura mais contida e mais assustada”.

Ajustes também podem ser conseguidos. Para Leny, é possível tentar ampliar a movimentação da boca. Se a pessoa está cansada, a movimentação diminui. “Em uma reunião, eu posso caprichar nesse detalhe e conseguir uma comunicação melhor”. Existem correções que podem ser feitas a partir de orientação direcionada e exercícios. “Se sou uma insegura crônica, introvertida, começo a desenvolver uma flacidez da musculatura da boca, porque tendo a falar mais encolhido. Esses músculos perdem tônus”. Para a especialista, ajuda profissional de fonoaudiologia pode ajudar a melhorar essa condição.