Foto: Enrique de la Osa/Reuters

Pertences de Hemingway
Objetos pessoais de Ernest Hemingway expostos em Havana, Cuba
 

Quando o irmão do escritor russo Anton Tchekhov lhe pediu conselhos sobre escrever bem, recebeu uma carta com diversas orientações. Uma falava do papel que os detalhes podem exercer em uma descrição. Para Tchekhov, era sempre preferível recorrer a eles do que se utilizar de uma frase literal. Em vez de, por exemplo, escrever literalmente “era noite de Lua cheia”, Tchekhov propôs um relato baseado em particularidades: “no dique do moinho um pedaço de vidro de uma garrafa quebrada brilhou como uma pequena estrela brilhante”.

Embora a maior parte das pessoas não tenha a ambição de se tornar um Tchekhov, todos queremos escrever bem. Isso vale tanto para quem aspira escrever um romance como para quem procura elaborar um projeto profissional atraente.

A linguagem escrita ganhou maior relevância em nossas vidas com a internet. O e-mail de trabalho, a mensagem profissional de WhatsApp ou o textão do Facebook são algumas das situações em que também precisamos usar bem a escrita.

São muitas as dificuldades de se chegar em um bom texto, sendo que algumas já aparecem antes que se escreva (ou tecle) a primeira letra. Destravar o caminho entre o que existe na sua cabeça e o papel/tela às vezes é mais complicado do que parece. A recomendação geral para ultrapassar esse obstáculo é: apenas comece. “Você aprende a escrever escrevendo”, resumiu William Zinsser, escritor e editor americano, autor de “On Writing Well”.

Ter clareza da mensagem que você quer passar, ler muito, analisar trabalhos de autores e criar um ambiente de isolamento para desenvolver seu texto são outras dicas bastante citadas por profissionais da escrita.

O Nexo conversou com cinco escritores e pediu que compartilhassem dicas para uma boa escrita baseadas em suas experiências pessoais. São recomendações que servem tanto para as situações mais corriqueiras quanto para quem quer fazer da escrita o seu ofício. Algumas valem para quem quer produzir ficção, outras para material que trata da realidade.

Foto: Rafael Marchante/Reuters

Escritores de Portugal
Estátuas dos escritores portugueses Fernão Lopes, Gil Vicente, Luis de Camoes e Eça de Queirós
 

“Nunca pare o fluxo durante a escrita pra mexer em alguma coisinha”, indica Ronaldo Bressane, que, além de escritor, dá cursos de técnicas literárias. A importância de aproveitar momentos de inspiração é enfatizada por Bernardo Kucinski, jornalista e autor de “K”: “Quando estou inspirado, escrevo de uma vez só e não preciso lapidar.”

Outro destaque é a necessidade de deixar o texto “descansar” para que seja lido posteriormente com novos olhos. “Texto precisa de no mínimo um pernoite”, afirma Eliane Brum, colunista do “El País” e autora de “A vida que ninguém vê”, livro de crônicas-reportagem premiado com um Prêmio Jabuti em 2007. “Deixo o texto dormir por algumas semanas para ter certeza”, reforça Clara Drummond, que escreveu “A festa é minha e eu choro se eu quiser”.

Veja outras dicas:

‘Clareza, sonoridade e expressividade’

Bernardo Kucinski

Autor de “K” e “Você vai voltar pra mim”

“Quando estou inspirado, escrevo de uma vez só e não preciso lapidar. A narrativa flui de dentro de mim como se já estivesse escrita na minha mente. Procuro sempre clareza, sonoridade e expressividade. Evito frases feitas e clichês. Evito sujidades: artigos, preposições e outras muletas que quebram a força das palavras. Nos diálogos, procuro autenticidade; as falas como são de fato faladas. Quando decido escrever sem estar plenamente inspirado, a tarefa se mostra dificultosa, reescrevo várias vezes e preciso combater certos vícios meus, entre eles a tendência ao didatismo. Nessas situações, recorro muito a dicionários analógicos e de sinônimos. Nem por isso resulta tão bom quanto as narrativas que fluem naturalmente. São dois estados de espírito bem diferentes.”

‘Texto bom é feito pra falar’

Anderson França

Autor de crônicas publicadas em seu Facebook. Algumas delas serão reunidas em livro, que tem o título provisório de “Leblon em Shamas”

“Escrever precisa ser visual. você precisa fazer com que palavras virem cenários, pessoas, objetos. É pra isso que palavras servem, pra serem coisas. Isso eu acredito que é uma coisa importante. Não é: ‘na mesa tinha um telefone”, mas, “o telefone, sobre a mesa, gritava comigo’. Saca? Coisas. Narrar o bêbado tomando cachaça como se você fosse a cachaça que ele toma. Acho também que ser jovem ajuda, jovem por dentro. Ouvir os jovens. como eles falam, não como escrevem. O jovem fala lindamente, cheio de gíria, de dança, de sorriso e deboche. Boa parte do que escrevo vem da boca de um jovem. Pra mim, texto bom vai pra boca, é feito pra falar. dá vontade de falar. Por isso, as pessoas, talvez, gostem dos meus. Porque elas não ficam com inveja querendo escrever, mas querem falar o que leem. Eu escrevo pro outro e só sou inteiro quando eu escrevo e o outro lê. Eu não existo no texto. Eu só existo quando o outro me dá vida, na boca dele. Eu escrevo falas. A gente tem que ser livre pra expressar, é tipo grafite. Pode tudo. Grafitar num muro, com palavras, e o muro é a tua boca. Fodace (sic) a norma culta.”

Foto: Robert Galbraith/Reuters

Teclado que assusta
'Você aprende a escrever escrevendo'
 

‘É comum voltar e achar tudo ruim’

Maria Clara Drummond

Escritora de “A Festa É Minha e Eu Choro se Eu Quiser” e “A Realidade Devia Ser Proibida”

"O que mais funciona é tentativa e erro, à exaustão. Demoro para achar uma voz, mudo muitas vezes o narrador até um que me satisfaça (primeira pessoa, onisciente etc.), e até mesmo os nomes dos personagens, até intuir que está bom. Deixo o texto dormir por algumas semanas para ter certeza – é comum a opinião mudar, voltar e achar tudo ruim e recomeçar o processo. Costumo anotar no iPhone frases que ouço e acho interessantes. Funciona para diálogos realistas e espertos. Também procuro estudar enredo e trama, que considero o meu fraco."

‘Um bom truque é começar pelo fim’

Ronaldo Bressane

Jornalista, autor de “Céu de Lúcifer” e “O Impostor” e criador de cursos de literatura

“Escreva sem parar, e só pare pra editar depois que terminou de contar uma história. Nunca pare o fluxo durante a escrita pra mexer em alguma coisinha, tenha em mente que o mais importante é contar a história. Daí um bom truque pra começar a contar a história é começar pelo fim, porque acelera o ritmo. Depois de escrita a história, aí volte pro texto, de preferência em outro meio - imprima, mude a fonte, mude o corpo da letra etc. Daí, saia cortando: advérbios, adjetivos, artigos, substantivos abstratos, obviedades, o máximo que der pra cortar. Varie a estrutura das frases, a dinâmica e o tamanho das frases, use todos os aspectos da pontuação. Procure palavras, termos, ecos, rimas, finais de palavras e repetições no editor de texto Word pra cortá-los, seja humilde e lembre-se que é uma ferramenta poderosa de edição de textos que nenhum grande gênio teve disponível (talvez só David Foster Wallace, recentemente). Tudo isso vale pra ficção e não ficção. Quanto à minha própria ficção, se Hemingway pedia pra escrever bêbado e editar sóbrio: eu faço o contrário - escrevo 100% sóbrio e edito bêbado (ou chapado de maconha). É bem mais divertido.”

‘Gosto dos finais que provocam novas dúvidas’

Eliane Brum

Jornalista e autora de “A menina quebrada” e “Uma duas”

“Numa reportagem, o texto é resultado direto da qualidade da apuração. Se a apuração não for rigorosa e detalhista, nem mesmo um prêmio Nobel de literatura vai conseguir fazer um bom texto de reportagem. Gira em falso. No artigo de opinião, o texto é resultado do percurso de investigação de hipóteses. Opinião é bem diferente de achismo. Se for um achismo, daqueles de banco de trás de táxi (ou Uber, agora), não se sustenta. A banalidade – ou a fragilidade – do pensamento se revela no texto e o bom leitor descobre. Assim, pode parecer óbvio, mas tem sido importante dizer: um bom texto de não ficção depende muito mais da clareza do pensamento, produzida por um percurso de dúvidas e de investigação exaustiva de hipóteses, do que de técnicas de escrita.   

Feito esse caminho, artigo escrito, acho importante que um texto durma. Texto precisa de no mínimo um pernoite. No dia seguinte, é possível fazer uma leitura de estrangeiro, aquela leitura em que o autor consegue estranhar seu próprio texto e até duvidar do que escreveu, debatendo consigo mesmo. Nesse momento, é importante eliminar todos os adjetivos que não sejam necessários. Parar em cada um e ver se precisa, mesmo, colocá-lo. Caso conclua que é necessário, vale a pena analisar se aquele é o melhor adjetivo. Quando adjetivos sobram ou não são exatos, o texto empobrece muito. Quanto mais substantivo o texto for, melhor. Quanto menos repetições de palavras, melhor, a não ser que a redundância tenha uma função na construção do texto.   

Assim, é preciso se deter em cada parágrafo para analisar se cada frase é o melhor que poderia ser, e se uma está conversando com a outra. Depois disso, algo que funciona muito para mim é ler em voz alta, prestando bem atenção no que escuto. Em voz alta, conseguimos perceber onde o texto perde o ritmo ou onde sobram palavras ou onde a frase está mal resolvida. As repetições e truncamentos gritam numa leitura em voz alta.   

E, claro, nunca esquecer que o final precisa ser tão impactante quanto o começo. Gosto dos finais que provocam novas dúvidas no leitor, que o impelem a testar novas hipóteses. Acho que bons finais, resultantes de bons textos, são aqueles que desassossegam o leitor. Se o leitor ficar perturbado por dias, conseguimos.”