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A intersexualidade e as questões que ela suscita

Em série, o 'Nexo' apresentou diferentes visões sobre tema e expôs o debate em torno dos procedimentos médicos

Na quinta-feira (28), o Supremo Tribunal Federal permitiu que transgêneros alterem nome e registro de sexo no registro civil sem passar por autorizações na Justiça.

A medida é um marco no reconhecimento de direitos civis LGBT no Brasil, e ocorre em um momento em que a sociedade tem se sensibilizado para o entendimento de que sexo biológico não determina necessariamente o gênero de uma pessoa. E, também, para as necessidades de travestis e transexuais.

Ainda há, no entanto, relativamente pouca compreensão na sociedade sobre intersexuais, cujos corpos não se encaixam nas definições típicas de masculino e feminino. A letra I não foi plenamente incorporada ao movimento LGBT brasileiro.

Há dezenas de variações genéticas que podem fazer com que pessoas desenvolvam corpos com diferentes formatos do sexo, distribuição de pêlos, gordura corporal ou órgãos reprodutivos internos. Segundo a ONU, entre 0,05% e 1,7% da população mundial se encaixa nesses casos.

Essa realidade da biologia humana é pouco conhecida. E é comum que famílias só entrem em contato com a noção de intersexualidade durante o atendimento médico neonatal, após o nascimento de bebês com variações intersexuais.

Para grande parte da comunidade médica, essas variações constituem desvios de desenvolvimento sexual, que precisam ser tratados com procedimentos como cirurgias e terapias hormonais para que os corpos se aproximem das ideias típicas de masculino e feminino.

Uma visão, adotada em grande medida por indivíduos que assumem as particularidades de seus corpos e se identificam como intersexuais, reivindica, porém, que a questão seja afastada de um ponto de vista estritamente médico.

Essa visão critica procedimentos precoces, e pede que a questão seja abordada em outros âmbitos que não apenas o hospitalar.

Na série sobre o tema, publicada ao longo das últimas cinco semanas, o Nexo buscou trazer visibilidade e compreensão sobre a intersexualidade, e abordá-la sob diferentes pontos de vista em um debate público.

A reportagem conversou com o sociólogo intersexual Amiel Vieira. Seu corpo é menos sensível a hormônios masculinos, por isso ele nasceu com órgãos genitais lidos pelos médicos como ambíguos.

Ele passou por cirurgias e terapias hormonais, foi criado como menina e só descobriu a verdade sobre a própria história aos 33 anos. Depois disso, identificou-se com o gênero masculino e mudou de nome.

Além de criticar o segredo em torno de sua história, Vieira questiona o fato de que operações ocorram tão cedo e sejam determinadas por médicos e famílias, não pelos próprios intersexuais.

A reportagem apresentou ainda o caso da modelo belga Hanne Gaby Odiele, que também é intersexual, mas se identifica com o gênero feminino que médicos e família lhe atribuíram quando bebê. Como Vieira, ela critica o sigilo em torno das cirurgias e a falta de autonomia de intersexuais sobre elas.

O caso foi comentado pela antropóloga Barbara Pires, que ressaltou a importância da visibilidade intersexual, e destacou que a presença de intersexuais e transexuais em esportes tem gerado fortes embates.

O Nexo apresentou também o ponto de vista da professora Berenice Bilharinho de Mendonça, diretora da unidade de endocrinologia do desenvolvimento do Hospital das Clínicas de São Paulo, ligado à Faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo), onde leciona.

Ela avalia que uma minoria das intervenções gera insatisfação, e diz que os procedimentos estão se aprimorando. Bilharinho é a favor das cirurgias precoces e, por ocupar um posto em um centro médico de referência, tem um ponto de vista influente sobre o tema no Brasil.

O Nexo explicou uma pesquisa da qual a professora participou, e que é usada no Brasil, para defender as cirurgias precoces. E apresentou também a crítica a ela, feita pela pesquisadora Marina Cortez, do Instituto Fernandes Figueira, ligado à Fundação Oswaldo Cruz.

Ela questiona o ponto de vista pró intervenções precoces, porque a pesquisa compara pessoas com acesso à cirurgia pouco após o nascimento com indivíduos que só tiveram acesso a ela mais tarde em suas vidas.

A comparação, em sua opinião, deveria ser entre pessoas que tiveram acesso a cirurgias pouco após nascer e outras que obtiveram atendimento psicológico e social adequados como alternativa à operação.

Em um ensaio intitulado “Pelo fim das intervenções médicas precoces e não emergenciais em intersexos”, que responde à série de reportagens, pesquisadores da Labei (Liga Brasileira de Estudos em Intersexualidade) e pessoas próximas à entidade marcaram posição contra essas intervenções médicas precoces.

Eles criticam pontos de vista defendidos pela professora Bilharinho, e afirmam que importantes trabalhos médicos atualizados têm dado ênfase à necessidade de garantir autonomia para que intersexuais façam as próprias escolhas. Eles ressaltam que essa é a posição endossada por ONU e Organização Mundial da Saúde, entre outras entidades.

Em seguida, você encontra todos os textos da série.

O que é intersexualidade. E como é se descobrir intersexual

 

O 'Nexo' conversou com o sociólogo Amiel Vieira; criado como menina, ele descobriu aos 33 anos que nascera com o sistema reprodutor masculino

Leia na íntegra

 

O debate sobre se bebês intersexuais devem ou não ser operados

Trabalho de pesquisadores da USP com mais de 140 intersexuais operados indica que é melhor intervir mais cedo, mas dados são questionados

Leia na íntegra

 

Uma visão médica sobre intersexualidade: pela cirurgia precoce

 

Na terceira reportagem sobre o tema, o 'Nexo' conversou com a professora Berenice Bilharinho sobre o que a medicina nomeia como 'desvios de desenvolvimento sexual'

Leia na íntegra

 

 

O impacto causado por uma modelo ao se assumir intersexual

Para a antropóloga Barbara Pires, operações em bebês cercadas de sigilo e segredo seguem protocolos adotados internacionalmente, mas geram estigma e isolamento

Leia na íntegra

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