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    <title>Nexo Jornal</title>
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      <title>Nexo Jornal</title>
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    <description>Informação clara e bem explicada você encontra aqui. Nexo, leitura obrigatória para quem quer entender o contexto das principais notícias do Brasil e do mundo.</description>
    <language>pt-br</language>
    <item>
      <title>O impacto da poluição do ar na Mata Atlântica paulista</title>
      <link>https://www.nexojornal.com.br/externo/2026/09/07/arvore-meio-ambiente-poluicao-mata-atlantica-bioma-sao-paulo-sp</link>
      <pubDate>Mon, 07 Sep 2026 19:50:19 GMT</pubDate>
      <description>
        <_cdata>&lt;p&gt;Estudo procurou árvores resilientes ao fenômeno e que tenham potencial para o reflorestamento urbano&lt;/p&gt;
&lt;media:content url="https://nexo-uploads-beta.s3.amazonaws.com/wp-content/uploads/images/2026/09/peroba-blogwikiparques-1920x1280-1.webp" type="image/webp" medium="image"&gt;
  &lt;media:title&gt;
    O estudo demonstra que a peroba-rosa, considerada uma das espécies mais ameaçadas da Mata Atlântica, é uma das árvores que mais sofre com a poluição do ar
  &lt;/media:title&gt;
  &lt;media:credit&gt;
    Antonio Cândido Guilherme da Silva / WikiParques
  &lt;/media:credit&gt;
&lt;/media:content&gt;
&lt;p&gt;Um cenário muito conhecido das grandes cidades é o trânsito intenso e a fumaça industrial. Essas cenas urbanas, tão presentes no imaginário coletivo e tão comuns no cotidiano de milhões de pessoas, são as principais fontes de poluição do ar. Os efeitos dessa contaminação na saúde humana, por exemplo, incluem doenças respiratórias e cardiovasculares, que afetam principalmente crianças, idosos e pessoas com doenças crônicas. Porém, não são apenas os humanos que sentem os impactos dessa poluição; as plantas também absorvem essas toxinas e oferecem importantes informações sobre a qualidade do ar dos locais que habitam.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Para compreender esta situação, um grupo de pesquisadores do Instituto de Pesquisas Ambientais (IPA) de São Paulo investigou árvores nativas da Mata Atlântica e avaliou a resistência delas à poluição do ar. O estudo mediu a capacidade de cerca de 350 árvores da Reserva da Biosfera do Cinturão Verde de São Paulo (RBCV-SP) de acumular toxinas e revelou que as plantas têm sido intensamente contaminadas por poluentes gerados pela ação humana.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;“O fato desses organismos responderem de maneira integrada ao estresse ambiental permite avaliar não apenas o acúmulo de um determinado poluente, mas também como a planta responde ao conjunto de condições ambientais às quais está exposta. Além disso, o biomonitoramento pode representar uma alternativa mais acessível em relação aos métodos de monitoramento físico-químico tradicionalmente utilizados pelas agências ambientais”, pontua Ricardo Nakazato, doutor em Biodiversidade Vegetal e Meio Ambiente pelo IPA e professor da Universidade Guarulhos (UNG).&lt;/p&gt;



&lt;p&gt;O estudo mapeia quais árvores avaliadas estão ameaçadas pela poluição do ar e quais espécies são mais resistentes a essa contaminação. De acordo com Ricardo, o principal objetivo foi “compreender como esse conhecimento poderia ser aplicado em projetos de reflorestamento e arborização urbana”.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A arborização urbana é o plantio controlado de árvores e plantas de pequeno e médio porte dentro das cidades, em locais como calçadas, praças e quintais. Já o reflorestamento é o cultivo planejado de árvores e vegetais de diferentes portes em quantidades e áreas maiores. Essa prática tem objetivos específicos e é realizada em locais mais densos das cidades e em seu entorno, como áreas de preservação permanente (APPs), margens de rios e grandes parques.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Além da melhora na qualidade do ar, essas ações promovem o bem-estar e a saúde humana e trazem, entre outros benefícios, a redução da sensação térmica nas cidades e o aumento da umidade do ar e da drenagem da água das chuvas. Esses serviços ecossistêmicos – como são chamados esses benefícios que a natureza oferece às pessoas – auxiliam no enfrentamento às emergências climáticas, pois podem evitar, por exemplo, ilhas de calor, enchentes, inundações e alagamentos nas cidades.&lt;/p&gt;
Poluição do ar sob a perspectiva das árvores da Mata Atlântica
&lt;p&gt;A RBCV-SP é considerada um hotspot ecológico global, ou seja, é uma reserva com rica biodiversidade e espécies endêmicas – que só existem no local. O Cinturão foi declarado uma Reserva da Biosfera pela UNESCO em 9 de junho de 1994, e reconhecido por sua capacidade de integrar a preservação dos ecossistemas urbanos e da biodiversidade com o desenvolvimento sustentável, a segurança alimentar e a melhoria da qualidade de vida de milhões de pessoas.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Ao todo, o local abrange 78 municípios do estado de São Paulo e é responsável por  aproximadamente 20% do PIB nacional, além de agregar cerca de 24 milhões de pessoas – quase 10% da população brasileira. A área engloba distritos urbanos, parques, reservas e áreas protegidas que contêm fragmentos de Mata Atlântica e do Cerrado, com diferentes formas de uso da terra – como zonas industriais, urbanização intensa, diversos tipos de agricultura e remanescentes florestais.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Por essa combinação entre intensa pressão humana e alto valor de conservação, a RBCV-SP foi escolhida como local de estudo. “Com isso, fizemos um grande esforço amostral, culminando na coleta de cerca de 350 árvores de 29 espécies diferentes em 4 parques localizados em São Paulo, Cotia e Iperó. Sob diferentes fontes de emissão de poluentes e condições climáticas”, relata Ricardo.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Os resultados da pesquisa revelam que, das 29 espécies, 6 foram consideradas sensíveis à poluição, 17 moderadamente resistentes, 4 tolerantes e 2 variaram de acordo com o local. “Esses estudos mostraram que o nível de tolerância ao estresse oxidativo induzido por distúrbios ambientais varia consideravelmente entre as espécies arbóreas nativas da Mata Atlântica”, explica a ecóloga Marisa Domingos, coordenadora da pesquisa no IPA e integrante do Núcleo de Análise e Síntese de Soluções Baseadas na Natureza – BIOTA Síntese.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O guamirim-de-inverno (E. cerasiflora) – conhecido também como guamirim-flor-de-cereja e pitanga-cereja – é uma das espécies que demonstrou maior tolerância à poluição do ar. Árvore endêmica da Mata Atlântica, ou seja, que só existe nesse bioma, ela possui médio porte e pequenos frutos vermelhos que são consumidos tanto pelas pessoas como por diversos animais e aves – o que ajuda na dispersão de suas sementes e aumenta suas chances de sobrevivência e reprodução. Os frutos dessa espécie, que amadurecem entre o inverno e a primavera, exercem uma função ecológica essencial, pois fornecem alimento aos animais em um período de escassez.  Suas flores brancas melíferas são ricas em néctar e pólen, atraindo também abelhas e polinizadores.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Já entre as espécies mais sensíveis à contaminação do ar está a peroba-rosa (A. polyneuron) – considerada uma das espécies mais ameaçadas da Mata Atlântica. Essa árvore, de grande porte, que pode ultrapassar 50 metros de altura, foi intensamente utilizada na construção civil e na fabricação de móveis e hoje também sofre com os impactos nocivos da poluição.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O tanheiro (A. triplinervia) – conhecido como tapiá, tamanqueiro e boleiro – também demonstrou no estudo resistência à poluição. Árvore de médio porte, essa espécie possui pequenos frutos vermelhos, que são consumidos por diversas aves – o que ajuda na dispersão de suas sementes e aumenta suas chances de sobrevivência e reprodução.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;“Mais do que uma lista de espécies recomendadas para o reflorestamento e arborização urbana, o principal legado do estudo é o modelo estabelecido, que permite a inclusão e a avaliação de novas espécies no futuro”, conclui Ricardo.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A pesquisa completa, que foi financiada pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), por meio do núcleo BIOTA Síntese e pelo Plano de Desenvolvimento Institucional em Pesquisa (PDIP/IPA), pode ser consultada na íntegra no artigo publicado pelos pesquisadores na revista “Restoration Ecology”.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Tatiana Maria Soares Araujo é doutoranda na Universidade de São Paulo e jornalista do núcleo Biota Síntese por meio da bolsa Mídia Ciência de Jornalismo Científico da Fapesp.&lt;/p&gt;</_cdata>
      </description>
      <category>Externo</category>
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    </item>
    <item>
      <title>O que os candidatos prometem para a economia</title>
      <link>https://www.nexojornal.com.br/expresso/2026/09/07/candidatos-presidente-eleicoes-2026-plano-medidas-economia</link>
      <pubDate>Mon, 07 Sep 2026 19:45:38 GMT</pubDate>
      <description>
        <_cdata>&lt;p&gt;O ‘Nexo’ elenca as principais propostas registradas nos planos de governo dos presidenciáveis. Responsabilidade fiscal, redução de impostos e atração de investimentos são ideias comuns&lt;/p&gt;
&lt;media:content url="https://nexo-uploads-beta.s3.amazonaws.com/wp-content/uploads/images/2026/09/dinheiros-abr.webp" type="image/webp" medium="image"&gt;
  &lt;media:title&gt;
    Economia é um dos maiores preditores de voto
  &lt;/media:title&gt;
  &lt;media:credit&gt;
    Rafa Neddermeyer / Agência Brasil
  &lt;/media:credit&gt;
&lt;/media:content&gt;

  



&lt;p&gt;Os principais candidatos à Presidência defendem em seus planos de governo responsabilidade fiscal em maior ou menor grau, sem detalhar o que pretendem de fato fazer. Investimentos e redução de impostos também são propostas comuns na tentativa de ganhar o eleitor.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;53%&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;dos brasileiros avaliam que a economia está ruim ou péssima, segundo pesquisa BTG/Nexus, divulgada em 31 de agosto&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A percepção negativa da economia brasileira pode ajudar a definir a eleição, apesar dos resultados positivos em índices como PIB (Produto Interno Bruto), inflação e desemprego.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Neste texto, que integra uma série sobre os planos de quem pretende governar o Brasil, o Nexo elenca e analisa as principais propostas econômicas dos seis candidatos à Presidência mais bem colocados nas pesquisas de intenções de voto.&lt;/p&gt;



Lula: defesa do legado
&lt;p&gt;O plano de governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) é basicamente uma defesa de seu legado, prometendo manter as políticas de estímulo ao crescimento e de valorização do trabalhador, com aumento do salário mínimo. Há também propostas focadas em inteligência artificial e minerais de terras raras.&lt;/p&gt;
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  &lt;media:title&gt;
    Lula (PT) durante primeiro ato de campanha, em São Bernardo do Campo
  &lt;/media:title&gt;
  &lt;media:credit&gt;
    Paulo Pinto / Agencia Brasil 16.08.2026
  &lt;/media:credit&gt;
&lt;/media:content&gt;
&lt;p&gt;A despeito da alta dívida pública, a questão fiscal não ganhou muito espaço no programa do petista.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;As principais propostas incluem: &lt;/p&gt;

articular o fim da escala 6×1 e a diminuição da jornada de trabalho para 40 horas, sem redução salarial
manter a política de valorização do salário mínimo
combate à pejotização, com fiscalização e regras mais rígidas
ampliar políticas para os trabalhadores autônomos e pequenos empreendedores, com acesso ao crédito, simplificação tributária e programas de qualificação 
simplificação do ambiente de negócios, com implementação da reforma tributária e estímulo à inovação
elevar a taxa de investimento da economia
criar as condições para uma redução sustentada das taxas de juros, com inflação controlada e política fiscal responsável
ampliar a produção local em cadeias produtivas estratégicas e inserir o Brasil nas tecnologias da Indústria 4.0
desenvolver uma política para minerais críticos e terras raras, para evitar a simples exportação de matérias-primas estratégicas
expandir infraestrutura computacional, com data centers, nuvens e outras estruturas para IA acompanhadas de salvaguardas socioambientais obrigatórias
acelerar a difusão da inteligência artificial no setor produtivo, com foco em agro, saúde e serviços financeiros

&lt;p&gt;O programa também fala, de forma genérica, em uma “política macroeconômica comprometida com o crescimento”, citando redução das desigualdades, valorização do trabalho, responsabilidade ambiental, responsabilidade fiscal, queda dos juros e inflação controlada.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Para Rafael Ribeiro, professor de economia da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais) e pesquisador Made-USP (Centro de Pesquisa em Macroeconomia das Desigualdades da Universidade de São Paulo), o plano de governo de Lula defende os feitos do petista e aponta para políticas de inovação.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;“Por um lado, tem uma cara de defesa de um legado, apontando a continuidade do fortalecimento das políticas sociais, de política de valorização do salário mínimo e de políticas que tentam fortalecer a classe trabalhadora e o mercado de trabalho, como a pauta do fim da escala 6×1”, afirmou ao Nexo.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;“Tem um outro aspecto que é uma visão mais estratégica, olhando para o futuro, dando uma especial atenção a políticas de inovação, integração produtiva e de incorporação da inteligência artificial no setor produtivo brasileiro no âmbito nacional. E também investimentos em setores estratégicos, como minerais críticos e terras raras”, acrescentou.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O economista Mauro Rochlin, coordenador acadêmico da FGV (Fundação Getulio Vargas), avaliou que “são preocupantes” as propostas de Lula de elevar a taxa de investimentos da economia e de valorização do salário mínimo, sem nenhum comentário a respeito do impacto fiscal de aumentar o piso salarial.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;“Lula insiste em medidas que representam um risco muito grande em termos de crescimento econômico no curto e médio prazo porque as propostas insistem numa política fiscal muito perdulária. Por exemplo, não se fala nada sobre desvincular os benefícios de saúde, educação e Previdência do salário mínimo. Para mim, isso é mais do que um problema, é um risco porque o país está muitíssimo endividado”, afirmou ao Nexo.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;“O programa do Lula é o único que tem alguns aspectos mais associados ao desenvolvimentismo econômico. Os demais programas têm aspectos mais similares a uma agenda mais liberal”, avaliou Ribeiro.&lt;/p&gt;
Flávio: entre o ajuste fiscal e mais investimentos
&lt;p&gt;O plano econômico de Flávio Bolsonaro (PL) fala sobre equilíbrio fiscal e promete investimentos bilionários em infraestrutura e cortes de impostos.&lt;/p&gt;
&lt;media:content url="https://nexo-uploads-beta.s3.amazonaws.com/wp-content/uploads/images/2026/08/d6a8898.webp" type="image/webp" medium="image"&gt;
  &lt;media:title&gt;
    Flávio Bolsonaro (PL) em lançamento de sua campanha no Rio de Janeiro
  &lt;/media:title&gt;
  &lt;media:credit&gt;
     Fernando Frazão / Agência Brasil 16.08.2026
  &lt;/media:credit&gt;
&lt;/media:content&gt;
&lt;p&gt;O senador propõe ainda desregulamentação de setores econômicos, privatizações e flexibilização nas regras do mercado de trabalho.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;As principais propostas do programa incluem: &lt;/p&gt;

promover o redimensionamento e a revisão da reforma tributária e de aumentos de impostos feitos pelo governo Lula
criação de uma nova regra fiscal, não detalhada, para substituir o arcabouço aprovado em 2023
investir, em quatro anos, R$ 900 bilhões em infraestruturas como rodovias, hidrovias, portos, aeroportos e ferrovias
promover um amplo “revogaço” regulatório
simplificar a conta de luz, racionalizando encargos e reduzindo subsídios cruzados
apoiar a produção nacional de fertilizantes
promover campanhas educativas e de conscientização sobre os riscos do endividamento com jogos
criar um contrato de 44 horas de trabalho para jovens de 18 a 24 anos em busca do primeiro emprego
criar um contrato para estimular o emprego de pessoas com 50 anos ou mais
implementar a Estratégia Nacional de Inteligência Artificial para levar a IA a micro, pequenas e médias empresas
retomar o Programa Nacional de Desestatização, para privatização de estatais

&lt;p&gt;O documento também usa o termo “tesouraço” para se referir ao conjunto de cortes de gastos e enxugamento da máquina pública. A expressão remete ao plano da “motosserra” de Javier Milei, que chegou à presidência da Argentina após uma campanha baseada em promessas de redução de despesas e enfrentamento a supostos privilégios da burocracia e de políticos no país.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;“O plano de governo sinaliza na direção de corte de impostos ou de simplificação tributária. Não está muito claro exatamente o que seria ou em que direção iriam essas medidas. Tem uma sugestão de um plano muito ambicioso de investimento na casa de R$ 900 bilhões em quatro anos, mas não está claro se esses investimentos seriam públicos ou um mix de público e privado”, afirmou Ribeiro.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Para Rochlin, “o programa do Flávio não diz nada”. “Ele [Flávio], na verdade, marca a sua plataforma muito mais por tratar questões coadjuvantes do que fundamentais”, disse.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O economista da FGV pontuou que o candidato do PL propõe reduzir impostos, investir R$ 900 bilhões em infraestrutura, criar corredor logístico inteligente, promover um “revogaço regulatório” e apoiar a produção de fertilizantes, sem explicar como vai lidar com o problema fiscal. “Ele está falando de gastar mais e arrecadar menos”, destacou.&lt;/p&gt;
Augusto Cury: foco no empreendedorismo
&lt;p&gt;Em seu plano de governo, Augusto Cury (Avante) propõe transformar o Brasil em “uma das nações mais empreendedoras do planeta”.&lt;/p&gt;
&lt;media:content url="https://nexo-uploads-beta.s3.amazonaws.com/wp-content/uploads/images/2026/08/SaveClip.App_717236416_18593169826059701_6833857449128432759_n-1080x650-1.webp" type="image/webp" medium="image"&gt;
  &lt;media:title&gt;
    Augusto Cury, em evento de lançamento da pré-candidatura em São Luís, no Maranhão
  &lt;/media:title&gt;
  &lt;media:credit&gt;
    Divulgação / Avante - 05.06.2026
  &lt;/media:credit&gt;
&lt;/media:content&gt;
&lt;p&gt;Diante disso, o capítulo econômico do programa é dedicado basicamente a estímulos ao empreendedorismo a partir de clubes, escolas, bancos e outras iniciativas. Outro foco é a agricultura.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;As principais propostas do programa incluem:&lt;/p&gt;

promover a responsabilidade fiscal, com a perseguição do deficit zero, controle dos gastos públicos e reforma administrativa
criar o Ministério do Empreendedorismo
criar 10 mil Clubes de Empreendedorismo em escolas, universidades, igrejas e comunidades
criar a Escola de Empreendedorismo
criar o Banco do Empreendedor com o Fundo Nacional do Empreendedor
elevar o papel do Sebrae a um centro estratégico de formação, acompanhamento e segurança do empreendedorismo nacional
 fortalecer a agricultura familiar com crédito, assistência técnica, irrigação, cultivo protegido, cooperativismo e acesso a mercado
promover a reindustrialização, atraindo ou instalando agroindústrias, usinas de etanol de milho e centros de proteína animal

&lt;p&gt;Ribeiro destacou o enfoque do programa de Cury em questões sociais do empreendedorismo.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;“Esse diagnóstico parece, no entanto, desconsiderar fatores estruturais e de organização coletiva que, por sua vez, permitem a criação de um setor produtivo mais pujante. E também [desconsidera] estruturas econômicas que tendem a permitir que a economia se desenvolva”, avaliou Ribeiro.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;“É uma visão que me parece partir de um diagnóstico de que o desenvolvimento e a prosperidade estão associados a um caráter de iniciativa absolutamente individual, dando um peso menor a políticas coletivas”, afirmou o professor da UFMG.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Rochlin destacou outro aspecto do plano de governo de Cury, comum a todos os candidatos. “O candidato Cury também bate na tecla da responsabilidade fiscal, mas não falou o mais importante, que é dizer como vai se alcançar isso. Dizer que vai promover responsabilidade é fácil; difícil é dizer como vai fazer”, afirmou.&lt;/p&gt;
Renan Santos: reformar tudo
&lt;p&gt;Renan Santos (Missão) defende em seu programa de governo quatro eixos relacionados às questões econômicas: justiça tributária, legislação trabalhista, regulação financeira e governança. Além disso, propõe a reforma do funcionalismo público como principal medida fiscal.&lt;/p&gt;
&lt;media:content url="https://nexo-uploads-beta.s3.amazonaws.com/wp-content/uploads/images/2026/09/RenanSAntos-abr.webp" type="image/webp" medium="image"&gt;
  &lt;media:title&gt;
    Cofundador do MBL, Renan Santos (Missão) é candidato à Presidência
  &lt;/media:title&gt;
  &lt;media:credit&gt;
    Divulgação / @Renansantosmbl/Agência Brasil
  &lt;/media:credit&gt;
&lt;/media:content&gt;
&lt;p&gt;Segundo o plano de governo do cofundador do MBL (Movimento Brasil Livre), o Brasil vive uma crise de produtividade desde os anos 1990. “Essa paralisia é estrutural, fruto de instituições que reproduzem distorções, subsidiam setores ineficientes e distribuem recursos de forma caótica”, diz o documento.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;As principais propostas do programa incluem:&lt;/p&gt;

apresentar a PEC (Proposta de Emenda à Constituição) do Equilíbrio Fiscal, com desindexação de benefícios do salário mínimo e mudanças nos pisos de saúde e educação
ainda dentro da PEC, revisão do abono salarial e a redução de renúncias fiscais
reforma do funcionalismo público, com fim dos supersalários
mudanças nas emendas parlamentares
criação de uma nova lei das finanças públicas, substituindo o arcabouço fiscal
redução do papel estatal na economia
apresentar projeto de reforma do assistencialismo, com a substituição do Bolsa Família por um programa de inserção no mercado de trabalho
criar Zonas Econômicas Especiais no Nordeste

&lt;p&gt;Ao propor a PEC do Equilíbrio Fiscal, o programa de governo de Renan Santos cita abertamente uma inspiração nas políticas de Milei.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;“Ele [Renan] fala de reforma administrativa, com cortes nos salários no setor público, redução de renúncias fiscais e — um ponto importante aqui — a desvinculação do piso da saúde e da educação da receita corrente líquida. Esse ponto já está em debate há bastante tempo. Mas sinto falta no programa de um detalhamento maior sobre qual será a regra de ajuste dos gastos ou do piso da saúde e da educação”, disse Ribeiro.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O professor da UFMG disse ainda que falta clareza nas propostas de “realinhar incentivos em toda a economia” e de substituir o Bolsa Família por um programa de Frentes Cidadãs.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Para Rochlin, Renan Santos é o candidato “que mais explicitamente coloca a forma como suas propostas vão ser materializadas”. “Ele fala sobre desindexação de benefícios de salário mínimo. Ou seja, diz com todas as letras que quem vai pagar a conta em parte é o aposentado, é aquele que ganha salário mínimo, é quem precisa de saúde e educação públicas”, disse.&lt;/p&gt;
Caiado: aumento da produtividade
&lt;p&gt;Ronaldo Caiado (PSD) defende em seu plano de governo o ajuste fiscal e, sobretudo, o aumento da produtividade. &lt;/p&gt;
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  &lt;media:title&gt;
    O ex-governador de Goiás Ronaldo Caiado (PSD) durante entrevista à imprensa
  &lt;/media:title&gt;
  &lt;media:credit&gt;
    Valter Camargo / Agência Brasil - 10.ago.2023
  &lt;/media:credit&gt;
&lt;/media:content&gt;
&lt;p&gt;De acordo com o programa do ex-governador de Goiás, o crescimento será baseado no aumento do investimento e da produtividade, e “não em estímulos temporários ao consumo que terminam em inflação, déficit e desvalorização”. “A iniciativa privada será o principal motor; o Estado coordenará prioridades, removerá obstáculos, investirá onde o retorno social supera o retorno privado e assegurará regras previsíveis”.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;As principais propostas do programa incluem: &lt;/p&gt;

estabilizar a dívida pública em relação ao PIB, recuperar superávits primários e reduzir a despesa de juros
fazer as despesas obrigatórias crescerem abaixo do PIB nominal, desacelerando o crescimento automático do gasto
rever subsídios, subvenções e benefícios tributários
corrigir pagamentos indevidos de benefícios sociais
coordenar políticas fiscal e monetária com respeito à autonomia do Banco Central
instituir a Estratégia Brasil 2040, com metas de produtividade e investimento, e prioridades territoriais
elevar o investimento privado e público
executar uma agenda nacional de produtividade, simplificando regras, ampliando concorrência e avaliando sistematicamente o custo regulatório
reindustrialização por áreas como energia limpa, agro, minerais, saúde, defesa, digitalização e bioeconomia
fortalecer micro e pequenas empresas, simplificando obrigações e ampliando crédito e garantias

&lt;p&gt;Segundo Ribeiro, algumas das propostas contidas no programa de Caiado são comumente listadas no debate público. Em alguns casos, como na proposta de ajuste das contas públicas com revisão de subsídios e subvenções, não estão claras a viabilidade política ou o impacto fiscal.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;“Eu vejo muitas questões associadas a reformas microeconômicas, à redução do papel do Estado por meio de revisões de gastos e ao intuito de promover a elevação da produtividade com reformas. E o grande plano de estratégia Brasil 2040 não está bem detalhado. É difícil saber se serão medidas industriais e setoriais ou se serão medidas microeconômicas de redução de burocracia e flexibilização de regras que permitiriam eventualmente que as firmas possam aumentar a produtividade e crescer”, afirmou o professor da UFMG.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Rochlin também destacou que Caiado propõe um plano para estabilizar a dívida pública e produzir superavit primário sem explicar como pretende fazer. “Fala em reduzir subsídios, em reduzir despesas obrigatórias, mas não diz como ou quais medidas específicas vão ser adotadas”, disse.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Superavit primário ocorre quando as receitas superam as despesas públicas, sem considerar o pagamento de juros da dívida do governo. Quando esses gastos superam as receitas, há um deficit primário.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;“É muito incisivo para tratar do problema fiscal, mas fala pouco sobre as medidas específicas que serão adotadas”, acrescentou.&lt;/p&gt;
Zema: defesa do Estado mínimo
&lt;p&gt;O capítulo econômico do programa de governo de Romeu Zema (Novo) foca na redução do papel do Estado na economia, com reformas da Previdência e administrativa, privatizações de todas as estatais e facilitação da atuação de empresas privadas em áreas estratégicas.&lt;/p&gt;
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  &lt;media:title&gt;
    O ex-governador de Minas Gerais Romeu Zema (Novo) fala com jornalistas
  &lt;/media:title&gt;
  &lt;media:credit&gt;
    Marcello Casal Jr / Agência Brasil
  &lt;/media:credit&gt;
&lt;/media:content&gt;
&lt;p&gt;Em seu plano, o ex-governador de Minas Gerais também defende o ajuste fiscal e, ao mesmo tempo, o corte de impostos.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;As principais propostas do programa incluem:&lt;/p&gt;

promover uma reforma da Previdência definitiva, com mecanismo de reajuste automático da idade mínima
unificar programas de transferência de renda e reduzir fraudes no Cadastro Único
promover uma reforma administrativa, reduzindo os ministérios, cortando cargos comissionados e revisando as autarquias e fundações do governo
privatizar todas as empresas estatais
ampliar as parcerias público-privadas em todos os serviços públicos, inclusive saúde e educação
 fixar metas progressivas de redução de impostos
garantir a queda da curva de juros por meio de um choque fiscal para estabilizar a relação dívida/PIB
reduzir gradualmente os programas de crédito direcionado, incluindo linhas subsidiadas do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social)
reformar o IRPJ (Imposto de Renda de Pessoa Jurídica) e simplificar o pagamento de impostos das empresas
revisar os marcos regulatórios, facilitando a operação do setor privado em áreas da infraestrutura
atrair investimentos para as cadeias de inteligência artificial, garantindo segurança jurídica para o setor
facilitar a atuação de empresas privadas para a exploração de minérios, principalmente terras raras
oferecer ao trabalhador e ao empregador um regime alternativo à CLT (Consolidação das Leis do Trabalho), permitindo trabalho e pagamento por dia, semana ou quinzena

&lt;p&gt;Ribeiro destacou que o programa de governo de Zema é o que tem “caráter mais liberal em relação aos demais”, com diversas propostas que visam reduzir o papel do Estado na economia.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;“Essas propostas partem de um diagnóstico de que o problema da economia está fortemente associado à presença do Estado na gestão de certos setores e que eliminar a gestão estatal automaticamente corrigiria esses problemas”, afirmou.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Segundo Ribeiro, a proposta de uma reforma da Previdência com a implementação de algum mecanismo de reajuste automático na idade mínima de aposentadoria é positiva, ainda que o programa não detalhe bem a medida e a apresente como “definitiva”. “O que me parece precipitado”, afirmou.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Rochlin também destacou a proposta da reforma da Previdência do candidato do Novo. “Ele bate na tecla de uma reforma da Previdência que seja dinâmica no sentido de que de tempos em tempos os benefícios sejam revistos por causa de mudanças na pirâmide etária da população”, afirmou.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O economista da FGV ponderou que, apesar da defesa da redução das despesas, Zema fala de redução de impostos. “É muito bonito falar de redução de impostos, mas isso não está bem alinhado com quem busca superavit primário”, disse Rochlin.&lt;/p&gt;</_cdata>
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      <category>Expresso</category>
      <dc:creator>Marcelo Montanini</dc:creator>
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      <title>É preciso demolir mitos sobre o voto feminino</title>
      <link>https://www.nexojornal.com.br/ensaio/2026/09/07/e-preciso-demolir-mitos-sobre-voto-feminino</link>
      <pubDate>Mon, 07 Sep 2026 08:50:31 GMT</pubDate>
      <description>
        <_cdata>&lt;p&gt;À beira de mais um pleito, debate público discute mulheres candidatas, mas a reflexão sobre as mulheres eleitoras ainda derrapa e reproduz um repertório sexista que precisa ser rejeitado&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Nos últimos pleitos, ouvimos falar cada vez mais sobre a importância do voto feminino. Fala-se muito do seu potencial decisivo, de sua capacidade de definir resultados nas urnas. De acordo com o TSE (Tribunal Superior Eleitoral), com 83,9 milhões de títulos e 52,8% do total, o eleitorado feminino é o maior do país. Nós, mulheres, podemos ser o fiel da balança nas eleições. Somos uma fatia do eleitorado disputada tanto pelo campo conservador quanto pelo campo progressista. O saldo dos primeiros dias de campanha eleitoral para Presidência comprovou essa percepção: todos os candidatos mencionaram o enfrentamento à violência contra meninas e mulheres como prioridade.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Neste contexto, muito se fala sobre mulheres candidatas, mas a reflexão sobre as mulheres eleitoras ainda derrapa e reproduz um repertório sexista que precisa ser demolido.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Os bolsonaristas do campo conservador, por exemplo, vêm protagonizando uma trama recheada de tensão na busca desses votos. Uma novela na qual Flávio Bolsonaro (PL) divide protagonismo com Michelle Bolsonaro – que vinha fazendo um trabalho consistente à frente do PL Mulher. Independente de divergências ideológicas, há que se reconhecer seu olhar estratégico, seu empenho e sua capacidade de engajamento.&lt;/p&gt;



&lt;p&gt;Em especial, Michelle construiu uma relação de bastante confiança com eleitoras conservadoras evangélicas. A ex-primeira dama se tornou, enfim, uma figura de peso no xadrez eleitoral. Diante da tensão entre enteado e madrasta, a campanha de Flávio passou semanas em busca de uma vice mulher. Fracassou e terminou com uma chapa puro sangue e com Alfredo Gaspar como vice.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Homens e mulheres votam igualmente movidos por interesses, por preocupações legítimas que nada têm a ver com uma natureza estanque ou com essências distintas e imutáveis&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Sem Michele e diante da dificuldade de encontrar uma vice mulher, Flávio precisa das mulheres que a madrasta é capaz de mobilizar, mas não parece saber como conquistar o voto desse grupo. A realidade é que Flávio precisa de Michelle, mas Michelle não precisa do enteado.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Na outra ponta desse cabo de guerra, o campo progressista preocupa-se com a fidelização do voto feminino. No Brasil, tradicionalmente, eleitoras tendem a votar em chapas progressistas. Por quê? Em primeiro lugar, claro, devido à misoginia que reina absoluta na ala bolsonarista e ao silêncio da ala conservadora mais moderada diante disso. A cristalização dessa clivagem de gênero é prioridade da esquerda. A esquerda precisa que o “ele não” vire “eles não”.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Mas é preciso atentar para um fato: as campanhas à direita e à esquerda, boa parte dos analistas que se debruçam sobre o tema e a mídia patinam reiteradas vezes ao tentar compreender com maior profundidade o voto feminino.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O que se vê em profusão na mídia são análises rasas a respeito do que move as mulheres quando vão às urnas. Há uma lastimável percepção equivocada de como pensam as eleitoras. Mulheres se preocupam com saúde e educação em razão de sua inclinação natural ao cuidado; mulheres têm aversão a campanhas que se enfrentam com truculência porque são naturalmente avessas a conflitos; mulheres dedicam atenção especial às propostas que tratam dos direitos de crianças e adolescentes porque têm instinto materno; mulheres não têm interesse em temas como economia, enfrentamento ao crime organizado ou política externa; mulheres só se preocupam com segurança pública quando fala-se de violência de gênero. Esses são só alguns dos raciocínios superficiais que são ecoados em tempos eleitorais.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Noutras palavras, persiste a pecha de que homens votam baseando-se em critérios objetivos e preocupam-se com as reais prioridades a serem debatidas nesta eleição. As mulheres, por sua vez, deixam falar mais alto sua natureza e suas emoções quando vão às urnas. Homens pensam, mulheres sentem. Homens votam tendo em vista projetos de país. Mulheres votam pensando na família e no que impacta a vida dos seus, da porta para dentro. São equívocos sexistas que estão no cerne de como direita, esquerda e a própria mídia pensam quando falam do voto feminino.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Precisamos compreender que o que preocupa as eleitoras brasileiras não diz de sua natureza – que seria distinta da natureza masculina. Diz da sua condição de maioria minorizada, da dupla jornada, do uso que fazem de equipamentos públicos e da vulnerabilidade que as persegue. Do Brasil que experienciam. Homens e mulheres votam igualmente movidos por interesses, por preocupações legítimas que nada têm a ver com uma natureza estanque ou com essências distintas e imutáveis. Mulheres votam mobilizadas pelo que as atinge como cidadãs, tal qual os homens.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Desempenhará bem junto ao eleitorado feminino e saberá interpretá-lo com competência quem levar as eleitoras a sério, em vez de tratá-las como indivíduos subalternos, frágeis e emotivos. Quem entender que não há a mulher brasileira, há mulheres brasileiras. Quem rejeitar o mito de que mulheres são seres sensíveis e impressionáveis que votam pensando no aqui e agora, ao passo que homens são seres racionais que conseguem, nas urnas, mirar o futuro. Quem, enfim, compreender que homens e mulheres são cidadãos igualmente preocupados com aquilo que os afeta, com a qualidade dos serviços públicos à sua disposição e com políticas públicas baseadas em evidência.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Manoela Miklos é mestre e doutora em relações internacionais pelo Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais San Tiago Dantas (Unesp, Unicamp, PUC-SP), especialista em direitos humanos e estudos de gênero e pesquisadora visitante da John Jay College of Criminal Justice na Universidade da Cidade de Nova York.&lt;/p&gt;</_cdata>
      </description>
      <category>Ensaio</category>
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    <item>
      <title>Como projetos coletivos melhoram a saúde mental juvenil</title>
      <link>https://www.nexojornal.com.br/externo/2026/09/06/saude-mental-de-jovens-adolescentes-coletivos-grupos-terapia</link>
      <pubDate>Sun, 06 Sep 2026 18:53:30 GMT</pubDate>
      <description>
        <_cdata>&lt;p&gt;Grupos de adolescentes com interesses em comum provam como estar entre os pares ajuda na saúde mental da nova geração&lt;/p&gt;
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  &lt;media:title&gt;
    Jovens caminhando na rua
  &lt;/media:title&gt;
&lt;/media:content&gt;
&lt;p&gt;Aos 13 anos, Ryan diz não ter vergonha de subir em um palco e falar ao microfone. “Se for para falar sobre meio ambiente e a minha comunidade, eu vou falando mesmo”. Morador da comunidade rural do Brito, em Cascavel, interior do Ceará, o menino conta que sempre foi de falar muito, mas não tinha a oportunidade para trocar ideias com mais gente além dos poucos colegas da escola rural e dos três irmãos. “Desde que participei da Conferência para o Meio Ambiente e conheci o Coletivo Jovem, pude aprender com muitas pessoas e me expressar mais em público”, lembra.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Ele é um dos delegadinhos do Coletivo Jovem de Meio Ambiente do Ceará, uma mobilização infanto-juvenil vinculada a projetos do Ministério do Meio Ambiente. Ryan representa sua comunidade em reuniões e eventos, participa de decisões importantes para o grupo e compartilha experiência com pessoas da mesma idade e jovens mais velhos. “Assim como um bebê aprende com os pais o jeito de falar, sinto que, quando estou junto do coletivo, aprendo como falar e ensino também. Nosso legado é saber que jovem educa jovem”, afirma.&lt;/p&gt;
Os efeitos do coletivo jovem na autoconfiança dos adolescentes
&lt;p&gt;A autoconfiança de Ryan veio não só de uma razão para lutar, mas foi moldada com experiências dentro do coletivo. A coordenadora e mobilizadora do grupo, Bárbara Cruz, conta que, nas escolas em que o Coletivo Jovem atua, os estudantes mais interessados iniciam o caminho como delegadinhos, participando de reuniões e de comissões sobre meio ambiente.&lt;/p&gt;



&lt;p&gt;Nesses encontros, Bárbara observa que, quanto mais se engajam, melhoram o rendimento dentro e fora de sala de aula. “Os adolescentes demonstram maior interesse pelos estudos, tornam-se mais participativos na escola e desenvolvem habilidades de liderança. O sentimento de pertencimento e de valorização faz com que eles se sintam motivados”, afirma.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Ela também percebe que os adolescentes mais tímidos ou inseguros para se expressar passam a se comunicar melhor e a defender suas ideias. “Eles ficam mais confiantes, ampliam os círculos de amizade, aprendem a trabalhar em equipe, desenvolvem empatia e convivem com pessoas de diferentes realidades e opiniões”, pontua.&lt;/p&gt;
Valter e Jean: duas trajetórias dentro do coletivo jovem
&lt;p&gt;Assim, foi o caso de Valter Júnior, de Groaíras (CE), que desde os 13 anos participa do coletivo. Hoje, aos 26 anos, afirma que o principal aprendizado foi a socialização. “Ao longo desse caminho, aprendi muito mais do que questões ambientais. Aprendi sobre liderança, trabalho em equipe, mobilização social, escuta, diálogo e sobre entrega ao próximo.”&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Além disso, outro participante é Jean Júnior, de Maracanaú (CE), que atualmente mobiliza outros meninos e meninas em escolas do estado. “Fazer parte do projeto transformou minha conscientização individual em ação coletiva. Ajudou no meu senso crítico e a entender que a educação ambiental é essencial desde a educação básica até a vida adulta”, diz.&lt;/p&gt;
Quando estar junto faz bem para a saúde mental
&lt;p&gt;Os participantes do Coletivo Jovem demonstram que pertencer a um projeto com encontros regulares, tarefas conjuntas e um propósito traz benefícios para a infância e a adolescência. Estar junto com os pares é uma maneira positiva de estimular habilidades sociais, sobretudo em um cenário em que de 11 e 20% da população de 10 a 19 anos enfrenta algum transtorno mental no Brasil. Os dados são do relatório do Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS), que mapeou pesquisas sobre saúde mental de crianças e adolescentes no país.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Em Manaus (AM), a estudante Isadora, de 17 anos, recorda a dificuldade em se aproximar de outras pessoas fora do círculo familiar. “Eu era mais tímida e tinha receio de conversar com pessoas novas. Participar de um projeto me ajudou a desenvolver mais confiança para me expressar e compartilhar minhas opiniões”, conta.&lt;/p&gt;
O que é o Juntô Jovem
&lt;p&gt;Atualmente, a adolescente faz parte do projeto Juntô Jovem, uma iniciativa brasileira de saúde mental de crianças e adolescentes, que reúne um comitê jovem para discutir e sugerir melhorias nas políticas públicas dessa área.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;“Conhecer jovens de diferentes lugares e realidades, e ouvir suas histórias ampliou minha visão de mundo e sobre a saúde mental”, diz. “O Juntô me ajudou a me conhecer melhor, a compreender minhas emoções e a desenvolver um olhar mais atento e humano para mim mesma e para os outros.”&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Atualmente, o comitê tem 11 adolescentes e jovens das cinco regiões do país. Coordenado pelo IEPS e pelo Child Mind Institute (CMI) — organização internacional de pesquisa e ações para a saúde mental de crianças e adolescentes —, o projeto é um dos exemplos de como a oportunidade de estar entre os pares é transformadora.&lt;/p&gt;
Autoconhecimento: o que muda na saúde mental
&lt;p&gt;“Quando os adolescentes percebem que podem contribuir de forma concreta para transformar a realidade ao seu redor, deixam de ser apenas participantes e passam a se reconhecer como agentes de mudança.”&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Carolina Costa&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;gerente do Child Mind Institute&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Igualmente, Daniel, de 20 anos, compartilha a experiência de fazer parte do Juntô, no Rio de Janeiro (RJ). “Aprendi a ter um olhar mais atento para todas as camadas que as pessoas apresentam, reconhecendo e acolhendo sua história, sua origem e toda a diversidade que uma vida pode ter.”&lt;/p&gt;
O que os especialistas dizem sobre o impacto do coletivo jovem
&lt;p&gt;Esses aprendizados, segundo Carolina Costa, gerente nacional do CMI, confirmam como os coletivos são ferramentas eficazes no desenvolvimento psicossocial de quem está conhecendo o mundo. “É importante para os adolescentes terem relações afetivas que gerem sentimento de pertencimento. As atividades coletivas têm o potencial de reduzir o sentimento de isolamento e proporcionar ambientes nos quais eles se sentem compreendidos e aceitos”, diz.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Para ela, quando os jovens estão conectados, desenvolvem, sobretudo, autoconhecimento. “Somado a hábitos saudáveis e a boas condições de vida, o convívio em grupo ajuda a lidar com o estresse e a atravessar adversidades sem adoecer.”&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;De fato, foi o que aconteceu com Isadora. Nos encontros presenciais e virtuais do comitê, ela aprendeu a conhecer seus colegas e seus próprios sentimentos. “Hoje consigo ouvir com mais atenção, acolher amigos quando precisam de apoio e perceber quando uma situação pode exigir ajuda profissional. Isso me ajudou dentro de casa, especialmente na convivência com meu irmão, tendo mais compreensão, empatia e sensibilidade diante de algumas situações.”&lt;/p&gt;
Permitir o protagonismo é a virada de chave
&lt;p&gt;Aliás, um dos pontos principais para o bem estar nesses grupos é o empoderamento. Segundo Carolina Costa, quando os jovens se dão conta de que podem fazer parte de alguma transformação social, se entendem como protagonistas.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;“Eles querem mais participação nas tomadas de decisão. As queixas mais frequentes são em torno da formação da própria identidade, sexualidade e decisões importantes como a faculdade”, explica. “Então, quando estão em grupo, trocando entre os pares, desenvolvem habilidades sociais e são encorajados a tomar decisões.”&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;De fato, Isadora confirma essa importância. “Quando temos a oportunidade de participar, percebemos que nossas vozes têm valor e que também podemos contribuir para a construção de soluções.”&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Nesse sentido, no Coletivo Jovem do Ceará, Bárbara defende o mesmo e ressalta que a escuta cuidadosa é uma ferramenta certeira para criar conexões. “Queremos garantir que os adolescentes sejam protagonistas das transformações que desejam ver em suas comunidades. Por isso, buscamos criar espaços onde eles possam ser ouvidos, respeitados e reconhecidos como sujeitos de direitos.”&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Da mesma forma, Valter, que cresceu entre as atividades coletivas, afirma que a maior lição é perceber a importância de estar junto. “Conviver com jovens de diferentes realidades me ensinou a compreender que ninguém cresce sozinho. Transformar o mundo começa pelas pequenas atitudes de cuidado, acolhimento e serviço.”&lt;/p&gt;
A mobilização pode começar agora
&lt;p&gt;Contudo, nem todos os meninos e meninas têm a oportunidade de estar em um grupo mobilizador. Os motivos para essa falta são diversos: dificuldades financeiras em manter os grupos, agendas corridas e pouca circulação de informações.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;“Quando falamos de jovens, precisamos lembrar que eles estudam, trabalham, cuidam dos irmãos, enfrentam longos deslocamentos no transporte público e muitas vezes têm poucos recursos”, pontua Carolina Costa. Ela ressalta que, se um participante deixa o grupo, não significa falta de vontade ou de compromisso.&lt;/p&gt;
Como os adultos podem apoiar a formação de um coletivo jovem
&lt;p&gt;Além disso, para que os adolescentes encontrem seus pares, existe um caminho que pode ser mediado pelos adultos. Segundo Carolina Costa, a experiência no Child Mind Institute fez entender que é possível criar coletivos de acordo com a realidade de cada comunidade. Entenda os principais pontos:&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Escuta ativa: crie espaços genuínos de escuta. Se os jovens sentem que suas opiniões não serão levadas a sério ou que as decisões já estão tomadas pelos adultos, perdem a vontade de participar.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Temas de interesse: projetos coletivos dão certo quando abordam questões que os jovens vivenciam no dia a dia, como saúde mental, meio ambiente, cultura, educação ou oportunidades para o futuro.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Referências: ver outros jovens participando, liderando iniciativas e gerando impacto costuma ser um dos maiores motivadores para que novos adolescentes se envolvam.&lt;/p&gt;
Como manter o grupo ativo sem depender de financiamento
&lt;p&gt;Ademais, é importante lembrar que muitos coletivos não contam com financiamento do governo ou de organizações. Nesse contexto, Carolina sugere três pontos principais&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Gestão descentralizada: as responsabilidades precisam ser compartilhadas entre os membros para não acumular apenas em uma pessoa. A sobrecarga pode desmotivar o participante a continuar no grupo.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Grupo ativo e aberto a novos participantes: os próprios membros podem mobilizar suas redes, convidar amigos e conhecidos e apresentar o coletivo para outras pessoas usando ferramentas digitais, com grupos no WhatsApp, um perfil no Instagram ou no TikTok. Isso permite manter o vínculo mesmo quando as pessoas não conseguem se encontrar presencialmente.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Gerar valor para quem participa: As pessoas precisam enxergar sentido naquele espaço, seja porque encontram pertencimento, porque têm voz, porque aprendem alguma coisa, porque conseguem transformar uma realidade ou porque constroem relações importantes.&lt;/p&gt;</_cdata>
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      <category>Externo</category>
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    <item>
      <title>Como os ecossistemas se recuperam depois do fogo?</title>
      <link>https://www.nexojornal.com.br/externo/2026/09/06/fogo-floresta-incendio-florestal-queimada-ecossistema-recuperacao</link>
      <pubDate>Sun, 06 Sep 2026 18:33:54 GMT</pubDate>
      <description>
        <_cdata>&lt;p&gt;Savanas, campos e florestas de coníferas coevoluíram com o fogo e dependem dele para manter sua diversidade. A Floresta Amazônica, não&lt;/p&gt;
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  &lt;media:title&gt;
    Incêndio florestal
  &lt;/media:title&gt;
  &lt;media:credit&gt;
    Valter Campanato / Agência Brasil
  &lt;/media:credit&gt;
&lt;/media:content&gt;
&lt;p&gt;A cada temporada de queimadas, a mesma pergunta retorna: a floresta volta? A resposta curta é sim, alguma vegetação sempre volta. A resposta longa é menos tranquilizadora, porque o que volta pode ser muito diferente do que existia antes, e a direção desse retorno depende de quantas vezes o fogo passou e do que sobrou vivo no lugar.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Savanas, campos e florestas de coníferas coevoluíram com o fogo e dependem dele para manter sua diversidade. A floresta amazônica de terra firme, não. Ali o fogo foi historicamente raro, restrito a secas excepcionais e ao manejo indígena em pequenos mosaicos.&lt;/p&gt;
Mudança de cenário
&lt;p&gt;Estudos conduzidos em Paragominas, no leste do Pará, na década de 1990, mediram combustível, microclima e umidade em quatro coberturas vegetais. Os pesquisadores verificaram que, na floresta madura, a combustão sustentada — que é aquela em que o fogo consegue se manter por conta própria, sem precisar de uma fonte externa de calor — não se estabelecia nem depois de longos períodos sem chuva.&lt;/p&gt;



&lt;p&gt;A Amazônia, no entanto, não é mais impenetrável ao fogo. As mudanças climáticas geram parte dessas alterações da floresta, mas não são as únicas responsáveis. O fogo na Amazônia é sintoma de uma degradação anterior, e não há uma causa isolada. Há décadas, por exemplo, a transformação da floresta em pastagem e a exploração madeireira vêm contribuindo para deixar a Amazônia mais vulnerável às queimadas.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Outro estudo, também em Paragominas, mostrou que a temperatura nas pastagens, ao meio-dia, era quase 10 °C mais alta que na floresta e a umidade relativa era 30% menor. Já a exploração seletiva de madeira elevava a carga de combustível de 30 a 60 Mg/ha para 180 Mg/ha. A carga de combustível em Mg/ha (Megagramas por hectare) é uma medida utilizada no manejo de incêndios para quantificar a carga de material combustível vegetal (vivo ou morto) disponível em uma determinada área.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O estudo da regeneração dessas áreas também nos ensinou uma lição. A sucessão ecológica (processo de reorganização e recuperação da vegetação após uma perturbação, como é o caso das queimadas) em pastagens abandonadas depende da intensidade do uso anterior e da distância das fontes de sementes que permitem que a vegetação volte a brotar. Essas “fontes de propágulos” podem ser a vegetação que sobreviveu à queimada, áreas de vegetação próximas ou animais que transportam sementes.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Locais em que o uso da área foi intenso, a vegetação estacionou em gramíneas. Por outro lado, manchas de vegetação — como o estudo com o arbusto Cordia multispicata bem mostrou — facilitam essa sucessão, atraindo aves e formando núcleos de regeneração.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A recuperação depende menos do que morreu e mais do que sobrou vivo e de quem transporta as sementes.&lt;/p&gt;
Mudança de escala
&lt;p&gt;Hoje, passadas cerca de quatro décadas desses estudos, o problema mudou de escala. O El Niño de 2015 e 2016 matou cerca de 2,5 bilhões de caules em uma região equivalente a apenas 1,2% da Amazônia brasileira, com emissão de 495 teragramas de CO2 (1 teragrama, ou Tg, equivale a 1 milhão de toneladas).&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;No Baixo Tapajós, os incêndios atingiram florestas manejadas por populações tradicionais em territórios coletivos. Os estudos que fizemos na Reserva Extrativista Tapajós-Arapiuns mostraram perdas expressivas. A biomassa acima do solo caiu 44% após um incêndio e 71% após dois. A área basal (que é a área ocupada pelos troncos das árvores no chão, o que nos ajuda a estimar a quantidade de madeira presente em uma floresta) diminuiu 27,5% e 53,8%, e o dossel (camada formada pelas copas das árvores) foi mais afetado pelo segundo fogo, diminuindo 44%.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A riqueza da fauna caiu pela metade depois de dois incêndios, atingindo espécies dominantes e raras. A floresta madura converteu-se em um mosaico dominado por pioneiras de vida curta e por poucas espécies menos sensíveis ao fogo.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Outros trabalhos na mesma paisagem completam o quadro. O banco de sementes do solo, que é a reserva de sementes viáveis acumuladas na terra, foi examinado como via de recuperação dessas florestas queimadas. O estudo mostrou que, embora apresente altas densidades de sementes, esses bancos são naturalmente pobres em espécies.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Já levantamento de dez espécies de palmeiras do território mostrou que a riqueza não diferiu entre habitats, mas a abundância foi maior nos ambientes perturbados. Isso porque as palmeiras são verdadeiras “sobreviventes ao fogo”.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Quando uma floresta sofre com queimadas, as árvores grandes morrem, o que abre o dossel da mata e deixa a luz entrar direto até o chão. Como as palmeiras adoram luz, têm sementes resistentes e tecidos que suportam o calor, elas aproveitam esse espaço vazio e iluminado para se multiplicarem rapidamente.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O que essas pesquisas mostram é que a contagem de plantas se recompõe. A identidade da floresta, não.&lt;/p&gt;
Comparação com o cerrado
&lt;p&gt;A comparação com o cerrado ajuda a entender o problema. Ali o fogo é constitutivo. Ao longo do gradiente que vai do campo limpo ao cerrado sentido restrito, as cargas de combustível ficam entre 7.128 e 10.031 kg/ha. As gramíneas representam de 91% a 94% da biomassa e os incêndios consomem cerca de 97% do combustível fino. Existe ali uma relação circular entre vegetação, combustível e comportamento do fogo, que favorece as gramíneas ao danificar os tecidos aéreos de árvores e arbustos.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Plantas de cerrado têm casca espessa e suberosa, órgãos subterrâneos de reserva, rebrotam e florescem depois da queima. Plantas amazônicas não. O mesmo evento que abre nichos no cerrado destrói estrutura na floresta.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Na Amazônia, as árvores pagam a conta porque têm casca fina. Em florestas queimadas do leste amazônico, a mortalidade de copa ficou entre 64% e 97% e, oito meses depois, de 36% a 69% das árvores estavam mortas, sem qualquer rebrota. As sobreviventes rebrotaram da base, mecanismo comum em plantas de savana e raro na flora florestal.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O fogo recorrente empurra a floresta na direção de um estado dominado por gramíneas e ainda mais inflamável.&lt;/p&gt;
Restauração biocultural
&lt;p&gt;Para quem vive nesses territórios, o que importa não é o número de caules por hectare, mas quais espécies voltam. Uma floresta degradada pelo fogo deixa de fornecer frutos, fibras, remédios, madeira e caça. Daí a proposta de tratar essas florestas pela via da restauração biocultural, uma abordagem de recuperação ambiental que considera ao mesmo tempo a natureza e a cultura das pessoas que vivem ou têm relação com aquele território.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;É possível combinar a ecologia da restauração com o conhecimento tradicional. Em três comunidades indígenas da Resex Tapajós-Arapiuns, nossos estudos mostraram que os residentes identificam as causas e as consequências da degradação pelo fogo, reconhecem as perdas e estão dispostos a agir.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O caminho tem duas frentes:&lt;/p&gt;

Prevenir, com manejo integrado do fogo, brigadas comunitárias e redução das fontes de ignição;
Restaurar, conduzindo a regeneração natural, enriquecendo as áreas com espécies bioculturais prioritárias, apoiando redes de sementes e a organização comunitária.

&lt;p&gt;A floresta amazônica se recupera do fogo. Mas, ao contrário do cerrado, ela não se recupera sozinha nem volta a ser a mesma. Recuperação, aqui, é algo que precisa ser construído.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Ima Vieira é pesquisadora do Museu Paraense Emilio Goeldi e assessora da presidência. Trabalha na Finep (Financiadora de Estudos e Projetos).&lt;/p&gt;</_cdata>
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      <category>Externo</category>
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    <item>
      <title>Quais os caminhos para defender o ECA e proteger a infância</title>
      <link>https://www.nexojornal.com.br/ensaio/2026/09/06/crianca-infancia-proteger-defender-eca-janusz-korczak</link>
      <pubDate>Sun, 06 Sep 2026 18:21:18 GMT</pubDate>
      <description>
        <_cdata>&lt;p&gt;Aplicação dos princípios da lei passa por construção de uma cultura democrática baseada no respeito cotidiano aos direitos das crianças, seguindo os ensinamentos do educador Janusz Korczak&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A história da infância no Brasil é marcada por profundas desigualdades e sucessivas violações de direitos. Durante séculos, crianças, sobretudo negras e indígenas, foram submetidas à colonização, à escravidão, ao abandono, à falta de moradia digna, ao trabalho precoce e a diversas outras formas de violência. Essa herança permanece no racismo estrutural, nas desigualdades sociais e na dificuldade histórica do Estado em garantir proteção integral às crianças, especialmente nas periferias brasileiras.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Foi para romper com essa tradição que, em 1990, o Brasil aprovou o ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente), uma das legislações mais avançadas do mundo na proteção da infância. Inspirado na Constituição Federal de 1988 e na Convenção sobre os Direitos da Criança das Nações Unidas, o Estatuto reconheceu crianças e adolescentes como sujeitos de direitos, pessoas em condição peculiar de desenvolvimento e prioridade absoluta das políticas públicas.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Entretanto, 36 anos depois, persiste a pergunta: conseguimos transformar esse princípio jurídico em realidade?&lt;/p&gt;



&lt;p&gt;Os dados mostram que ainda não. Entre 2021 e 2023, o Brasil registrou mais de 15 mil mortes violentas de crianças e adolescentes, sendo 83,6% das vítimas negras. Somente em 2024, 407 crianças e adolescentes morreram em decorrência de intervenções policiais, das quais 85,1% eram negras. Mais de 18 mil denúncias anuais de violações de direitos chegam ao Disque 100, principalmente por negligência e violências psicológica e física. Mais de 60% das vítimas de estupro no país têm até 13 anos. O Unicef (Fundo das Nações Unidas para Infância) estima que 5,7 milhões de crianças e adolescentes vivem sem moradia adequada no Brasil, enquanto pesquisas da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais) apontam cerca de 9.000 crianças vivendo em situação de rua. Esses números revelam que a proteção prevista no ECA continua sendo profundamente desigual.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Crianças não podem ser tratadas como problema, mas como prioridade ética, política e civilizatória&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Antes mesmo de os direitos das crianças serem reconhecidos internacionalmente, o médico, educador e escritor Janusz Korczak defendia que a criança já é uma pessoa completa, digna de respeito, participação e escuta. Sua obra influenciou a Declaração Universal dos Direitos da Criança e encontrou no Brasil importantes defensores, entre eles o jurista Dalmo de Abreu Dallari, colaborador da elaboração do ECA e tradutor da obra “O Direito da Criança ao Respeito”, publicada por Korczak em 1929.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O legado do educador permanece atual porque nos lembra que proteger crianças significa construir uma cultura democrática baseada no respeito cotidiano aos direitos da infância.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Nos últimos anos, o debate sobre as tecnologias digitais tornou-se indispensável. Redes sociais, inteligência artificial, cyberbullying, exposição precoce e coleta de dados exigem respostas urgentes, e o chamado ECA Digital representa um importante avanço. Porém, existe o risco de concentrarmos toda a atenção nas novas tecnologias e esquecermos que milhões de crianças continuam tendo suas infâncias roubadas por formas muito mais antigas de violência.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Infâncias são roubadas a cada vez que uma criança apanha, a cada tapa naturalizado como educativo, a cada murro, a cada grito que impede a escuta e o diálogo, a cada abuso sexual silenciado dentro do quarto, a cada criança que precisa parar de estudar ou de brincar para ir vender bala no farol. Uma vida toda é roubada quando um jovem precisa deixar a universidade para trabalhar; quando a urgência do café da manhã, do almoço e da janta é mais urgente que o vestibular. A infância é roubada quando uma criança se torna mãe e, sozinha, precisa cuidar de outra criança.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Também é roubada quando a violência doméstica destrói os vínculos afetivos, quando mulheres são agredidas diante dos filhos, quando crianças crescem convivendo diariamente com o medo e aprendem que a violência é uma linguagem comum das relações humanas. A infância é roubada quando o Estado se faz ausente nos territórios mais vulneráveis, oferecendo apenas respostas repressivas onde deveriam existir educação de qualidade, arte, ciência, cultura, esporte, saúde, assistência social, transporte público gratuito, acesso à cidade e às oportunidades de desenvolvimento pessoal e comunitário. A infância é roubada quando crianças e adolescentes são privados do direito de desenvolver pensamento crítico, autonomia intelectual e participação cidadã.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Uma democracia depende da formação de sujeitos autônomos, conscientes e capazes de dialogar com a diversidade. Toda forma de manipulação ou negação desse direito compromete não apenas o desenvolvimento individual, mas a própria democracia.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Antes do crime, muitas vezes houve abandono. Antes da punição, houve omissão coletiva. Uma sociedade que abandona suas crianças não possui legitimidade ética para cobrar segurança pública. Crianças precisam de escolas de qualidade, professoras e professores valorizados, espaços verdes, cultura, artes, esporte e oportunidades de desenvolvimento, não de prisões. A penitenciária é um dos maiores exemplos da presença do racismo ainda nos dias de hoje na concepção e política de justiça.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Por isso, propostas como a redução da maioridade penal não contribuem para enfrentar as causas estruturais da violência. Deslocam o debate para a punição e ignoram desigualdades históricas, raciais, econômicas e educacionais que atingem principalmente a juventude negra e periférica.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Mais de três décadas após sua promulgação, o desafio do ECA não é apenas responder às novas violências digitais, mas cumprir aquilo que determina desde 1990: garantir proteção integral, prioridade absoluta e igualdade de oportunidades para todas as crianças.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Experiências desenvolvidas por educadoras, educadores, escolas e projetos sociais demonstram que a efetivação desses direitos depende da articulação permanente entre sociedade e Estado. A legislação, sozinha, não transforma a realidade; ela precisa ser acompanhada por políticas públicas consistentes, financiamento adequado e compromisso coletivo.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Defender o ECA é reconhecer que crianças não podem ser tratadas como problema de segurança pública, mas como prioridade ética, política e civilizatória. Como ensinava Janusz Korczak, a qualidade de uma democracia pode ser medida pela forma como trata suas crianças, pela forma como as crianças ocupam e participam dos espaços e da vida pública.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Enquanto houver uma criança submetida à violência, ao racismo, à fome, ao abandono, ao trabalho infantil, à exclusão escolar ou à negação de seus direitos, a promessa inaugurada pelo ECA permanecerá incompleta.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Fortalecer e atualizar o estatuto significa reafirmar o compromisso do Brasil com a dignidade humana, a justiça social e a construção de uma verdadeira cultura de proteção às infâncias. Não se trata apenas de proteger crianças, mas de decidir que sociedade desejamos construir para que elas não sejam punidas pelos crimes cometidos contra suas infâncias. Para tanto, podemos nos inspirar e aprender com a tradição e a sabedoria das aldeias e dos quilombos como referências fundantes da nossa história e territórios, dentro de uma perspectiva cultural diversa, plural, democrática e científica.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Denis Plaper é cientista social e professor licenciado pela PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo) e mestre em filosofia da educação pela Faculdade de Educação da USP (Universidade de São Paulo). É coordenador pedagógico, tendo atuado no Programa de Desenvolvimento Docente da FGV-SP (Fundação Getulio Vargas de São Paulo)&lt;/p&gt;</_cdata>
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      <category>Ensaio</category>
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      <title>A meta do Acordo de Paris sofreu um baque. Qual a estratégia agora</title>
      <link>https://www.nexojornal.com.br/expresso/2026/09/06/aquecimento-global-acordo-de-paris-2015-fracassou-pnuma-relatorio-onu</link>
      <pubDate>Sun, 06 Sep 2026 17:58:34 GMT</pubDate>
      <description>
        <_cdata>&lt;p&gt;Órgão de meio ambiente da ONU admite que aumento da temperatura média global deve ultrapassar 1,5ºC até 2030. Relatório sugere modelo de ‘ultrapassagem, pico e declínio’ para reduzir danos mais graves&lt;/p&gt;
&lt;media:content url="https://nexo-uploads-beta.s3.amazonaws.com/wp-content/uploads/images/2026/09/pint9886.webp" type="image/webp" medium="image"&gt;
  &lt;media:title&gt;
    Pessoa na rua durante onda de calor em São Paulo, em 2025
  &lt;/media:title&gt;
  &lt;media:credit&gt;
    Paulo Pinto / Agência Brasil - 27.12.2025
  &lt;/media:credit&gt;
&lt;/media:content&gt;
&lt;p&gt;O Pnuma (Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente) publicou um relatório na quarta-feira (2) reconhecendo que o aumento da temperatura média da Terra irá ultrapassar 1,5°C em relação aos níveis pré-industriais. A constatação ocorre pouco mais de uma década após a assinatura do Acordo de Paris, tratado internacional criado com a meta de limitar o aquecimento global a esse valor.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;“O calor escaldante deste verão, os incêndios florestais devastadores e as inundações mortais são um alerta para o que está por vir. Devemos fazer com que o aumento da temperatura acima de 1,5ºC seja o menor e mais breve possível. Isso exige uma ambição ainda maior”&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;António Guterres&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;secretário-geral da ONU (Organização das Nações Unidas), em comunicado à imprensa&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Para o Pnuma, a constatação não representa o abandono dos objetivos do Acordo de Paris. Segundo o relatório, a melhor estratégia neste momento é a adoção de um modelo de “ultrapassagem, pico e declínio”. A proposta tenta fazer com que o aquecimento global atinja um máximo de 2ºC acima dos patamares pré-industriais e, a partir de ações de mitigação, retorne aos níveis anteriores.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Neste texto, o Nexo relembra o que foi o Acordo de Paris, apresenta as conclusões do Pnuma e como é a nova estratégia de mitigação. Além disso, conversa com especialistas sobre a viabilidade do novo plano.&lt;/p&gt;



O Acordo de Paris
&lt;p&gt;O Acordo de Paris é um tratado internacional sobre mudança do clima. O texto busca limitar o aquecimento global a um valor “bem abaixo” de 2ºC – idealmente, a 1,5ºC – em relação aos níveis pré-industriais até o fim do século 21. Mais de 190 países o assinaram na COP21, em Paris, em 12 de dezembro de 2015.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O acordo é considerado histórico por representar a primeira vez que um tratado climático envolveu todos os países na adoção de compromissos para a redução nas emissões de gases de efeito estufa. O texto estabelece que os signatários devem renovar suas NDCs (Contribuições Nacionalmente Determinadas) — ou seja, planos de combate à mudança do clima na escala nacional — a cada cinco anos.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O tratado substituiu o Protocolo de Kyoto, que restringia a responsabilidade de combater a mudança climática às nações desenvolvidas. O texto foi assinado em 1997, na COP3, e não foi bem-sucedido. Os países industrializados o consideraram rígido demais, e grandes poluidores, como Estados Unidos e China, não aderiram às suas metas.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O Acordo de Paris também determinou a criação de um fundo de combate à mudança do clima. Por meio dele, os países desenvolvidos devem ajudar os mais pobres a reduzir suas emissões e se adaptar aos efeitos mais danosos da crise do clima.&lt;/p&gt;
As dificuldades de implementação
&lt;p&gt;Desde a ratificação do Acordo de Paris, em 2016, o tratado teve lacunas. “A principal dificuldade está na distância entre prometer, implementar e transformar”, disse ao Nexo Pedro Torres, professor do Instituto de Biociências da Unesp (Universidade Estadual de São Paulo) e integrante do Grupo de Trabalho 2 do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas da ONU).&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O relatório Emissions Gap Report, publicado em novembro de 2025 pelo Pnuma, mostrou que as emissões de gases de efeito estufa bateram novo recorde naquele momento, chegando a 57,7 milhões de toneladas de CO2 equivalente em 2024. Além de não terem caído, as emissões cresceram em nível mais acelerado que no ano anterior.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;2,3%&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;foi quanto as emissões de CO2 equivalente (unidade de medida que compara diferentes gases de efeito estufa) cresceram em 2024 em relação a 2023&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Outro exemplo de lacuna de implementação envolve o financiamento para o combate ao aquecimento global. Em 2024, a COP29, em Baku, foi considerada decepcionante ao estabelecer que países ricos deveriam pagar US$ 300 bilhões anuais para ações de combate e adaptação à crise do clima em países em desenvolvimento, enquanto a meta inicial dessas nações era de US$ 1,3 trilhão.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;No ano seguinte, a COP30, em Belém, estabeleceu a meta de triplicar o financiamento para a adaptação climática — mas a ambição precisa sair do papel. “Para acelerar a transição, o relatório [de 2026 do Pnuma] pede um aumento sem precedentes do apoio aos países em desenvolvimento e mudanças na arquitetura financeira internacional”, afirmou Torres.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;25%&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;dos países que ratificaram o Acordo de Paris não renovaram suas NDCs em 2025, uma condição necessária para o avanço do tratado&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O Acordo de Paris também se viu em meio a disputas geopolíticas, apesar do esforço multilateral para colocá-lo em prática. O presidente Donald Trump voltou a tirar os Estados Unidos do tratado no início de seu segundo mandato, em 2025. Na primeira vez que assumiu a presidência, de 2017 a 2020, ele já havia tomado essa decisão, afirmando que o texto prejudicava a economia americana.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;2ª&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;é a posição dos EUA no ranking de países com as maiores emissões de gases de efeito estufa; o primeiro lugar está com a China&lt;/p&gt;
As conclusões do Pnuma
&lt;p&gt;O ano de 2024 foi considerado o mais quente já registrado da história, dando sequência a 10 anos com temperaturas médias recordes. Foi a primeira vez que o aquecimento global ficou acima de 1,5ºC em relação aos níveis pré-industriais.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;15,1ºC&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;foi a temperatura média do planeta Terra em 2024. No ano seguinte, o valor ficou 0,02ºC abaixo&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Marcio Cataldi, meteorologista e professor do Departamento de Engenharia Agrícola e Meio Ambiente da UFF (Universidade Federal Fluminense), afirmou que o ano de 2026 deve ultrapassar novamente os 1,5ºC. “[Fenômenos como] El Niño e La Niña estão se somando ao aquecimento antropogênico do planeta”, disse ao Nexo. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;De acordo com o relatório “Limiting Overshoot” (“Limitar a ultrapassagem”, em tradução livre), o objetivo atual é fazer com que o aquecimento global não tenha um crescimento vertical contínuo, mas sim uma curva de desaceleração e recuo para 1,5ºC ou menos.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Ou seja, mesmo com a ultrapassagem da meta do Acordo de Paris, o Pnuma defende que é possível retornar a níveis menores de aquecimento. A intenção é que o retorno ao patamar desejado ocorra até 2100.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;No cenário mais otimista, o relatório do Pnuma indica que o pico mundial de aumento da temperatura seria de 1,8ºC. Depois, o valor começaria a diminuir.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Mas, segundo a publicação, o atual estágio de políticas e ações humanas podem levar a Terra a um aumento de 2,6ºC em relação aos níveis pré-industriais.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O retorno ao patamar de 1,5ºC ainda é uma meta a ser perseguida, pois, segundo o relatório, temperaturas acima desse valor podem gerar impactos como:&lt;/p&gt;

aumento mais rápido do nível do mar
maior probabilidade de colapso de ecossistemas, como os recifes de corais
ondas de calor e incêndios florestais mais extremos
mudanças na criosfera, a camada da superfície da Terra com gelo e neve

&lt;p&gt;“Cada décimo adicional de aquecimento aumenta os riscos climáticos, os danos e as perdas, além de elevar o risco de mudanças irreversíveis”, disse Torres.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O aquecimento global também deve resultar em impactos severos sobre a saúde humana, a segurança alimentar e as cidades. De acordo com o professor, esse cenário iria expor ainda mais o racismo ambiental e as desigualdades, já que os impactos do aumento de temperatura são diferentes para cada grupo social.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;“Uma onda de calor de 40°C não produz o mesmo efeito numa família que mora em uma casa arborizada e climatizada e numa família que vive numa periferia densamente ocupada, com telhado que acumula calor, pouca arborização, falta de água e saneamento”, afirmou.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;“Eu resumiria a mensagem do relatório numa frase: 1,5°C não deixou de importar porque provavelmente será temporariamente ultrapassado; passou a importar ainda mais reduzir quanto ultrapassamos, por quanto tempo e, sobretudo, quem será mais afetado nesse período”&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Pedro Torres&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;professor do Instituto de Biociências da Unesp e integrante do Grupo de Trabalho II do IPCC, em entrevista ao Nexo&lt;/p&gt;
A viabilidade do plano
&lt;p&gt;Para que o modelo “ultrapassagem, pico e declínio” seja efetivo, o relatório do Pnuma elenca ações de curto, médio e longo prazo a serem tomadas. Segundo o texto, os planos devem adotar estratégias voltadas simultaneamente para:&lt;/p&gt;

mitigação climática, ou seja, redução das emissões de gases de efeito estufa
adaptação climática, ou seja, adaptação das sociedades e dos sistemas naturais aos impactos já existentes da mudança do clima

&lt;p&gt;A redução da emissão de gases de efeito estufa é uma das principais medidas para que o modelo de ultrapassagem e declínio gere resultados. O fim da dependência dos combustíveis fósseis e a substituição por fontes renováveis de energia é o principal objetivo elencado pelo relatório.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Em 2022, os subsídios globais para a exploração de combustíveis fósseis atingiram a marca de US$ 7 trilhões, o equivalente a cerca de 7,1% do PIB (Produto Interno Bruto) mundial na época. “A verdade é que existe movimentação do setor ambiental e de parte da sociedade, mas o capital do mundo ainda incentiva a exploração de petróleo e vai continuar incentivando”, afirmou Cataldi, professor da UFF.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Além disso, o Pnuma afirmou que ações de CDR (remoção de dióxido de carbono), como reflorestamento ou tecnologias de captura de gases da atmosfera, são essenciais para que a estratégia seja implementada, embora não sejam milagrosas.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;“Para reduzir a temperatura em apenas 0,1°C, seria preciso remover e armazenar aproximadamente o equivalente a cinco anos das emissões globais atuais de CO2”, disse Torres.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Também seriam necessárias ações como o aumento do financiamento climático. No entanto, na opinião de Cataldi, esse caminho é difícil: “Teríamos que ter políticas públicas, conscientização, e medidas muito enérgicas e drásticas que não são feitas exatamente porque existe um compromisso – do qual a ONU é omissa – com o subsídio para a exploração de petróleo”.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O acordo final da COP30, chamado de Pacote de Belém, trouxe avanços na agenda de adaptação e transição energética justa, mas não adotou um mapa do caminho sobre o desmatamento e a transição dos combustíveis fósseis.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A COP31 será realizada entre 9 e 20 de novembro em Antalya, na Turquia, com as negociações sendo lideradas pela Austrália – solução encontrada após impasse sobre a sede. A presidência compartilhada traz incertezas sobre a efetividade da conferência. Espera-se que os países encontrem mais soluções práticas para o que já foi anunciado, como o mapa do caminho para a transição energética, do que novos anúncios.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Em comunicado de janeiro, André Corrêa do Lago, presidente da COP30, afirmou que o mundo precisa adotar um “multilateralismo em dois níveis”, baseado em consenso entre os países e implementação mais rápida de ações para frear o aquecimento global.&lt;/p&gt;</_cdata>
      </description>
      <category>Expresso</category>
      <dc:creator>Lucas Zacari</dc:creator>
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      <title>De Dandara a Canudos: os games inspirados na cultura brasileira</title>
      <link>https://www.nexojornal.com.br/externo/2026/09/05/dandara-game-turi-kaapora-jogos-nacionais</link>
      <pubDate>Sat, 05 Sep 2026 20:15:14 GMT</pubDate>
      <description>
        <_cdata>&lt;p&gt;Estúdios independentes enxergam na diversidade uma forma de contar novas histórias e aproximar jogadores da multiplicidade cultural do país&lt;/p&gt;
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  &lt;media:title&gt;
    Imagem do jogo “Dandara”
  &lt;/media:title&gt;
  &lt;media:credit&gt;
    Reprodução / Dandara
  &lt;/media:credit&gt;
&lt;/media:content&gt;
&lt;p&gt;A cultura popular brasileira está em mais lugares do que se imagina. Além de inspirar filmes, livros, peças, animações e diversas outras formas de expressões, a multiplicidade cultural que pulsa nas comunidades do Brasil inspira também jogos digitais, cujas histórias carregam elementos vivos que ora remontam à musicalidade brasileira feita nos tambores, ora trazem às telas de monitores e celulares as paisagens da floresta amazônica. Mas não sem sensibilizar para a história e atualidade do país a partir da crítica.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;No jogo “Dandara” (2018), do estúdio independente mineiro Long Hat, a personagem central, que é inspirada na guerreira e liderança do Quilombo dos Palmares de mesmo nome, tem a missão de lutar contra a opressão e garantir a sua liberdade num mundo de espíritos antes livres. Uma das habilidades que a protagonista ganha é dada por uma personagem inspirada no Abaporu, de Tarsila do Amaral.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Em “Turi – Kaapora”, jogo estúdio independente Vortex Indie Games em fase de desenvolvimento, Kaapora é uma entidade guardiã ancestral da floresta amazônica que luta contra a devastação promovida por uma empresa em seu território. Seus armamentos e habilidades incluem instrumentos indígenas e a força de animais encantados e de espíritos da floresta.&lt;/p&gt;



&lt;p&gt;Tanto “Turi – Kaapora”, que significa fogo de caipora na língua tupi-guarani, quanto “Dandara” retratam cenários de diferentes momentos brasileiros a partir de elementos que constituem a cultura popular. Quando o aspecto didático dos jogos encontra referências no próprio território onde são desenvolvidos, muitos caminhos podem se abrir, principalmente aqueles relacionados à identificação que uma narrativa já conhecida e presente de alguma forma na vida das comunidades brasileiras pode causar nos jogadores. Essa aproximação é basilar na cultura de criação de jogos do Vortex Indie Games.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;“Enquanto tantas produções olham constantemente para fora em busca de referências, sentimos que a nossa missão é justamente olhar para dentro e mostrar o quanto existe aqui”, diz Victória Motta, diretora de arte do estúdio. Ela conta que um dos principais objetivos do estúdio é levar o jogo para diferentes comunidades indígenas, com tradução para o Tupi Potiguara, o Guarani Mbya e o Nheengatu, “contribuindo para que essas línguas possam ocupar também novos espaços dentro do universo dos jogos”. Para alcançar esse objetivo, o estúdio contou com a participação de consultores, atores e atrizes falantes das respectivas línguas indígenas e profissionais especializados em tradução.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A ideia do jogo foi concebida ainda no curso de Design de Games da Universidade Anhembi Morumbi, durante o Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) do grupo que forma o Vortex, cujo tema foi a representação indígena na mídia de jogos digitais. Num primeiro momento, o grupo então formado por cinco estudantes pretendia abordar os incêndios e garimpos ilegais em áreas de Mata Atlântica.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Definida a temática central do jogo, pareceu natural que o arco narrativo do jogo fosse centrado em e liderado por uma entidade indígena, se tornando uma conexão direta com a narrativa que o Game/level designer e Tech art Rafael, o Sound design Ryan, o Programador lead Murillo, o Bizdev João e Victoria pretendiam construir. Desde então, o grupo tem buscado “criar representações respeitosas que dialoguem de forma genuína com a cultura e cosmovisões dos povos indígenas do Brasil”.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Assim como diversos setores da cultura que enfrentam dificuldades para conseguir financiamento para seus projetos, o Vortex Indie Games ainda não possui previsão de lançar “Turi – Kaapora” oficialmente em virtude da falta de recursos. Até o final deste ano, o estúdio pretende lançar uma versão demo com a primeira das cinco partes do jogo, a ser disponibilizada na plataforma de jogos Steam. Ao Nonada, a diretora de arte do estúdio disse que a expectativa é concluir e lançar o jogo dentro de dois anos, “mas só se conseguirmos algum financiamento de edital”. Atualmente, o estúdio desenvolve o jogo sem verba.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Conheça 8 jogos de estúdios independentes brasileiros cujas histórias foram desenvolvidas a partir de elementos da cultura do Brasil:&lt;/p&gt;
‘Mandinga: A Tale of Banzo’, 2021
&lt;media:content url="https://nexo-uploads-beta.s3.amazonaws.com/wp-content/uploads/images/2026/09/Mandinga-a-tale-of-banzo-1536x868-jpg-600x339.webp" type="image/webp" medium="image"&gt;
  &lt;media:title&gt;
    Jogo “Mandinga: A Tale of Banzo”
  &lt;/media:title&gt;
  &lt;media:credit&gt;
    Reprodução / Mandinga: A Tale of Banzo
  &lt;/media:credit&gt;
&lt;/media:content&gt;
&lt;p&gt;Ambientado no período colonial brasileiro, o jogo traz a história de dois guerreiros trazidos à força do continente africano para servir de mão de obra escravizada em fazendas no Brasil. Akil, um muçulmano intelectual de origem mandinga, e Obadelê, forte guerreiro iorubá e mestre da capoeira, lutam contra as opressões de seus algozes em busca de suas liberdades. Segundo Lahiri Abdalla, roteirista e desenvolvedor do jogo, essa multiplicidade da identidade dos personagens, com destaque para suas individualidades, é uma maneira de desconstruir o estereótipo de que os povos africanos escravizados eram todos iguais.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Na história, lançada em 2021, Akil e Obadelê fogem para o Quilombo de Urubu, o quilombo mais importante da Bahia durante a escravidao, situado no Subúrbio Ferroviário de Salvador liderado por uma mulher, Zeferina. A fuga dos heróis é marcada por batalhas contra capitães do mato, bandeirantes, feitores, mercenários e animais selvagens, em referência aos desafios reais enfrentados pelos povos negros que resistiam às correntes da escravidão imposta pela branquitude brasileira.&lt;/p&gt;
‘Huni Kuin: Beya Xinã Bena’, 2026
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  &lt;media:title&gt;
    Jogo “Huni Kuin: Beya Xinã Bena”
  &lt;/media:title&gt;
  &lt;media:credit&gt;
    Reprodução / Huni Kuin: Beya Xinã Bena
  &lt;/media:credit&gt;
&lt;/media:content&gt;
&lt;p&gt;Desenvolvido em colaboração com o povo Huni Kuin do Acre, pela Associação dos Povos da Terra (Apoti) e pelo estúdio brasileiro Philosophical School of Games, Beya Xinã Bena é um jogo baseado em sete histórias ancestrais que perpassam por mitos e cantos do povo de mesmo nome. Cada uma das fases do jogo, cujo visual é em 2d, representa um conto tradicional dos Huni Kuin e um encontro com seres encantados, animais sagrados e mistérios de uma floresta que é viva. Ao longo das fases, o personagem, um indígena do povo Huni Kuin, atravessa a floresta munido de arco e flecha e enfrenta serpentes, fogo fátuo e outras criaturas, ora pegando carona no nado de peixes, ora esbarrando em pinturas com representações indígenas. O jogo está previsto para ser lançado até o final do 3º trimestre de 2026.&lt;/p&gt;
‘Dandara’, 2018
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  &lt;media:title&gt;
    Imagem do jogo “Dandara”
  &lt;/media:title&gt;
  &lt;media:credit&gt;
    Reprodução / Dandara
  &lt;/media:credit&gt;
&lt;/media:content&gt;
&lt;p&gt;Com uma protagonista inspirada na guerreira e liderança do Quilombo dos Palmares durante o período colonial no Brasil, Dandara mistura referências culturais à fantasia. Ao longo da história, a personagem luta pela sua liberdade no mundo de Sal, cujos cidadãos, antes espíritos livres, passaram a ser oprimidos e isolados. Para escapar da opressão, Dandara luta contra criaturas místicas e desvenda uma série de mistérios. O  jogo possui animação 2d e segue o gênero “Metroidvania”, em que o progresso no jogo está à mercê da descoberta de habilidades. Uma das personagens que desbloqueia uma das habilidades de Dandara é inspirada no Abaporu, de Tarsila do Amaral. Desafiando a gravidade, a movimentação no jogo ocorre exclusivamente através de saltos, com os personagens saltando do chão ao teto e para as paredes em ordem de avançar na história. Disponível tanto para console, PC, Nintendo Switch e mobile, o jogo foi desenvolvido pelo estúdio Long Hat, de Belo Horizonte, Minas Gerais.&lt;/p&gt;
‘Língua’, 2021
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  &lt;media:title&gt;
    Jogo “Lingua”
  &lt;/media:title&gt;
  &lt;media:credit&gt;
    Reprodução / Lingua
  &lt;/media:credit&gt;
&lt;/media:content&gt;
&lt;p&gt;“Língua”, ambientado no sertão nordestino, conta a história de Beto, um jovem garoto que mora numa pequena fazenda em território árido. Depois que seu animal de estimação, um bode, desaparece na caatinga, Beto acaba adentrando um mundo encantado onde o cotidiano e o mágico se fundem, encontrando elementos do folclore brasileiro. A partir daí, a missão do personagem deixa de ser apenas o reencontro com o seu amigo e se transforma na libertação de espíritos animais da paisagem através de puzzles e desafios, se tornando uma jornada bem maior do que Beto imaginava. Desenvolvido por Guilherme Giacomini, o jogo foi lançado em outubro de 2021.&lt;/p&gt;
‘A nova Califórnia’, 2017
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  &lt;media:title&gt;
    Jogo “A Nova Califórnia”
  &lt;/media:title&gt;
  &lt;media:credit&gt;
    Reprodução / A Nova Califórnia
  &lt;/media:credit&gt;
&lt;/media:content&gt;
&lt;p&gt;Baseado no conto de mesmo nome do escritor brasileiro Lima Barreto, “A nova Califórnia” mistura o fúnebre e o mistério numa experiência inusitada de ação e aventura. Na pacata cidade de Tubiacanga, interior do Rio de Janeiro, um crime incomum dá início à uma investigação para saber quem está roubando os ossos dos defuntos do cemitério local. Na mesma época em que o crime acontece, chega à cidade um forasteiro misterioso, que logo levanta suspeitas sobre sua aparição. No jogo, a missão de quem joga é utilizar picaretas para quebrar tumbas e furtar ossadas de entes queridos sem ser flagrado pelo famoso boticário da cidade, Bastos, que se responsabiliza pela investigação do crime. Além da ação que permeia o jogo, a presença de recursos estratégicos psíquicos e morais, como o ego e a ética, e de sentimentos como ganância, atribuem maior complexidade à sua jogabilidade.&lt;/p&gt;
‘TURI – KAAPORA’, 2026
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  &lt;media:title&gt;
    Jogo “TURI – KAAPORA”
  &lt;/media:title&gt;
  &lt;media:credit&gt;
    TURI – KAAPORA
  &lt;/media:credit&gt;
&lt;/media:content&gt;
&lt;p&gt;“Quem não escuta a voz da terra, tenta possuí-la à força.” Com uma história inspirada na cosmovisão indígena tupi-guarani, Kaapora é uma guardiã ancestral da floresta que enfrenta a destruição causada por humanos, munida com a força de animais encantados, entidades espirituais e instrumentos indígenas. Para impedir que a escuridão devastadora crie raízes no território de Nhe’ery, Kaapora batalha contra os soldados armados de uma empresa cuja exploração da floresta resulta em degradação ambiental. O jogo conta com animação em 3d e as escolhas realizadas ao longo do jogo mudam as possibilidades de luta da personagem. Desenvolvido pelo Vortex Indie Games, “Turi – Kaapora” ainda não tem previsão de lançamento.&lt;/p&gt;
‘Arida: Backland’s Awakening’, 2019 
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  &lt;media:title&gt;
    Jogo “Arida: Backland’s Awakening”
  &lt;/media:title&gt;
  &lt;media:credit&gt;
    Reprodução / Arida: Backland’s Awakening
  &lt;/media:credit&gt;
&lt;/media:content&gt;
&lt;p&gt;Neste jogo desenvolvido pela Aoca Game Lab, a personagem Cícera explora o sertão nordestino ao mesmo tempo que luta pela sua sobrevivência numa travessia para reencontrar seus pais. Ambientado no fim do século XIX, na Bahia, o jogo traz referências diretas à região de Canudos, onde ocorreu a sangrenta Guerra de Canudos, em 1896. Para conseguir encarar a seca, conseguir água, cortar milho e abrir caminhos, os equipamentos de Cícera, como o facão e a enxada, são indispensáveis. Além dos equipamentos, a interação com os habitantes mais velhos do vilarejo é tão necessária quanto, à medida que é através dos conselhos recebidos que Cícera descobre novas formas de conseguir água e comida. Ao encontrar objetos perdidos, a protagonista também descobre novas histórias sobre o lugar onde nasceu. Árida, lançado em 2019, foi financiado pela Secretaria de Cultura do Estado da Bahia através do Edital de Culturas Digitais (FCBA) de 2014. O sucesso do jogo também garantiu o “Arida 2”, que está em desenvolvimento e deve ser lançado em breve. Confira também a a entrevista com o estúdios realizada pelo Nonada.&lt;/p&gt;
‘Cuca Catch’, 2022
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  &lt;media:title&gt;
    Jogo “Cuca Catch, 2022”
  &lt;/media:title&gt;
  &lt;media:credit&gt;
    Reprodução / Cuca Catch, 2022
  &lt;/media:credit&gt;
&lt;/media:content&gt;
&lt;p&gt;Baseado no folclore brasileiro e com um visual inspirado em cordel e xilogravura, “Cuca Catch” é um jogo que se joga com as expressões faciais do rosto a partir de tecnologia de identificação facial. Voltado para aparelhos móveis, neste jogo de competição para se tornar o melhor aprendiz da Cuca (personagem do Sítio do Picapau Amarelo), o jogador precisa coletar os ingredientes solicitados. Utilizando as sobrancelhas, é possível mover o personagem para cima e para baixo, enquanto o biquinho feito com a boca é usado para direcionar o personagem para a esquerda ou direita. Os desafios propostos pela Cuca podem se tornar mais complexos a depender do modo em que se joga, fácil, médio ou difícil. O jogo foi desenvolvido pelo desenvolvedor de software Matheus Kulick e lançado oficialmente em 2022.&lt;/p&gt;</_cdata>
      </description>
      <category>Externo</category>
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    </item>
    <item>
      <title>‘Não basta minar desinformação, é preciso ocupar as redes’</title>
      <link>https://www.nexojornal.com.br/entrevista/2026/09/05/como-se-informar-sobre-saude-informacao-entrevista-nina-santos</link>
      <pubDate>Sat, 05 Sep 2026 20:05:07 GMT</pubDate>
      <description>
        <_cdata>&lt;p&gt;Jornalista Nina Santos fala ao ‘Nexo’ sobre o avanço e as consequências da desinformação em saúde, especialmente com o impulso de ferramentas de inteligência artificial&lt;/p&gt;
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  &lt;media:title&gt;
    A jornalista e pesquisadora Nina Santos
  &lt;/media:title&gt;
  &lt;media:credit&gt;
    Reprodução / Arquivo pessoal
  &lt;/media:credit&gt;
&lt;/media:content&gt;
&lt;p&gt;A Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) fez um novo alerta em agosto sobre conteúdos falsos que prometem tratamentos médicos milagrosos sem respaldo científico. A prática cresceu nas redes nos últimos anos com o impulso da inteligência artificial generativa e desafia autoridades a endurecer medidas de controle e fiscalização.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Para a jornalista Nina Santos, pesquisadora do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Democracia Digital da UFBA (Universidade Federal da Bahia), o cenário tem consequências sociais e orçamentárias que afetam toda a sociedade, demandando esforços para além de regular as plataformas.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;“Não basta querer tirar as informações nocivas do ambiente digital; precisamos ocupá-lo com informação de qualidade, e isso precisa ser viável inclusive do ponto de vista financeiro”, disse em entrevista ao Nexo.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Abaixo, ela avalia os fatores que alimentam a desinformação em saúde, as consequências do cenário e os mecanismos que podem combater o fenômeno.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Por que a desinformação em saúde encontrou um terreno tão fértil no Brasil? De quais vulnerabilidades esse campo se alimenta?&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;NINA SANTOS A desinformação não é só sobre uma informação específica que não deveria existir. É uma tentativa de ataque a instituições, especialmente à ciência. São discursos que, de maneira geral, tentam descredibilizar a ciência como uma forma legítima de produção de conhecimento. E certamente a saúde é um dos campos mais afetados, porque os desenvolvimentos [de pesquisas nessa área] são rápidos. Estamos o tempo todo tendo mudanças nos protocolos, felizmente, porque a ciência está avançando e está trazendo novas possibilidades. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Em meio a isso, o cenário da pandemia de covid-19 foi um elemento particular. Aquele momento fez com que todo mundo ficasse isolado socialmente e o consumo de informação online aumentasse muito, gerando uma preocupação generalizada sobre o que fazer. Especialmente no Brasil, tivemos um questionamento muito forte sobre as vacinas — algo que até então era minimamente pacificado. O movimento antivacina sempre existiu, mas ganhou mais força quando o tema passou a ser claramente uma pauta de um dos lados do espectro político.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Por que a experiência da pandemia a partir da profusão de informações falsas sobre tratamentos médicos não se converteu em aprendizado?&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;NINA SANTOS A informação está muito arraigada na visão de mundo das pessoas. Na pandemia, muitos acreditavam que a vacina não funcionava contra a covid-19 ou que poderia gerar supostos danos — como virar jacaré ou ter um chip instalado no seu corpo. Passado esse período, essas pessoas continuam tendo uma visão de sociedade em que esse tipo de discurso se encaixa e vai se reproduzindo [em outras áreas].&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Isso não significa que não tenhamos avançado em nada nos últimos anos. Foi após essa onda de negacionismo que houve, de fato, uma defesa da necessidade da vacinação e da saúde pública como direito essencial. Mas isso não foi o suficiente. Infelizmente, não é só provando cientificamente que algo está certo ou errado que o discurso [negacionista] some.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A inteligência artificial generativa inaugurou uma nova fronteira nesse campo. O que isso nos diz sobre os limites da desinformação?&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;NINA SANTOS Há duas mudanças marcantes nesse cenário. A primeira é a possibilidade de gerar conteúdos, inclusive falsos, com muito mais facilidade. Antes, falávamos que algo tinha sido feito no Photoshop, o que ainda exigia um mínimo de conhecimento. Mas, hoje, [a manipulação] é muito mais simples do que isso, o que torna essas imagens [falsas] mais frequentes e todos os esforços de conter sua circulação, prejudicados. Tanto que, para contextos específicos, simplesmente se proíbe [o uso de IA], inclusive porque há a ideia de que não é possível conter [os efeitos da manipulação] — como é o caso do cenário eleitoral.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Uma segunda questão importante tem a ver com as novas formas de consumo de informação. Pesquisas apontam que cada vez mais brasileiros estão consumindo informação por sistemas de IA, que não são neutros e estão o tempo inteiro tomando decisões. Estamos cada vez mais distantes das fontes reais de informação e da capacidade de avaliar o que é confiável e o que não é.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Além disso, o discurso de autoridade está prejudicado. Nós já identificamos isso, especialmente em vídeos do YouTube, com pessoas usando o discurso de “sou médico” para vender fórmulas prontas, medicamentos manipulados ou e-books. Com a inteligência artificial, isso ficou muito mais grave. Passamos, inclusive, a ter a voz de médicos famosos em vídeos falsos. Está ainda mais difícil estabelecer os limites dessa construção de autoridade.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Quais as consequências de a sociedade se expor à desinformação em saúde a curto e longo prazo?&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;NINA SANTOS Há uma dimensão coletiva [dessas consequências] que se expressa em diferentes campos. Elas se refletem na saúde pública, por exemplo, na medida em que temos uma diminuição cada vez maior das taxas vacinais e [aumento da] circulação de doenças que já haviam sido erradicadas. Ou seja, não estamos falando só do efeito individual de uma pessoa que não vai se curar ou terá piora no seu quadro, mas de um efeito social coletivo. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Soma-se a isso o mau uso do dinheiro público ou o desenvolvimento de políticas públicas inadequadas. Durante a pandemia, o discurso falso de que a cloroquina curava a covid-19 não só gerou uma série de mortes, como também gastos enormes de dinheiro público para produzir, comprar e desenvolver um protocolo de tratamento precoce com o medicamento. Houve um desenvolvimento institucional para legitimar esses discursos falsos, que trouxe prejuízos para o interesse público de maneira geral, inclusive do ponto de vista orçamentário. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Outro efeito é a descredibilização da ciência, cada vez mais forte e frequente. Passa-se a questionar cada vez mais os centros de produção de conhecimento, como as universidades e os institutos de pesquisa, o que diminui ainda mais nossa capacidade de ter uma visão comum da realidade. Quando questionamos a autoridade de todo mundo, deixamos de ter capacidade de construir minimamente o que é nosso mundo comum, em que mundo estamos vivendo. As pessoas podem e devem ter opiniões diferentes, o que é muito bem-vindo numa sociedade democrática. Mas opinião não é a mesma coisa que fato. Quando deixamos de ter o mínimo de concordância sobre fatos, isso vira um problema extremamente grande.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O Ministério da Saúde e a Anvisa têm feito parcerias com plataformas pelo menos desde 2023 na tentativa de frear a circulação de conteúdos falsos em saúde. Essas estratégias têm surtido efeito? Quais são seus limites?&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;NINA SANTOS A primeira coisa é admitir que, de fato, as empresas são essenciais para conter a circulação desses conteúdos — tanto de forma orgânica quanto via publicidade digital. É bom lembrar que o modelo de negócio dessas plataformas é baseado na venda de publicidade e, muitas vezes, são esses espaços que são usados para disseminar conteúdos falsos. Não estamos falando simplesmente de um cidadão que acreditou numa desinformação e a publicou numa rede social, mas de alguém que tem um objetivo financeiro em divulgar esse conteúdo e recorre a esses mecanismos.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;No entanto, o que tem se mostrado em várias frentes é que essa espécie de autorregulação — na qual as big techs propõem regras próprias para conter a circulação de discursos falsos — é bastante limitada. É preciso ter também medidas regulatórias. &lt;/p&gt;
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  &lt;media:title&gt;
    Profusão de conteúdos falsos em saúde preocupa autoridades
  &lt;/media:title&gt;
  &lt;media:credit&gt;
    Yasmin Menezes / Nexo Jornal
  &lt;/media:credit&gt;
&lt;/media:content&gt;
&lt;p&gt;Vimos recentemente no Brasil pelo menos duas grandes ações sobre as plataformas digitais: a aprovação do ECA digital e o julgamento do Supremo Tribunal Federal sobre o artigo 19 do Marco Civil da Internet, que criam mecanismos de responsabilização dessas empresas. Quando falamos dessas parcerias [entre plataformas e governo], as empresas podem se comprometer e não cumprir, e não há nenhum tipo de responsabilização ou fiscalização. Ou seja, é preciso ter também medidas regulatórias que, de fato, obriguem big techs a conter a circulação de conteúdos falsos. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Portanto, são coisas complementares. As parcerias e o diálogo são necessários, mas têm suas limitações. As questões tratadas de maneira regulatória podem ser muito mais efetivas; por outro lado, temos tido dificuldade em fazer esse tema avançar, pois não é simples conseguir que isso saia do papel.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O que é preciso para garantir que a população tenha acesso a informações de qualidade? O Brasil tem estrutura para implementar essas medidas?&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;NINA SANTOS O Brasil é um dos países mais bem colocados no mundo para lidar com a questão digital e tem sido visto no exterior como pioneiro em várias ações. Mas, claro, estamos no meio de uma transformação em curso, o que não me dá segurança para dizer que temos toda a capacidade de implementar o que for necessário.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Responsabilizar plataformas tem sido uma frente na qual, em alguma medida, avançamos nos últimos tempos. Mas ela, sozinha, não basta. Precisa ser acompanhada de medidas educativas, ou educação midiática, para que as pessoas aprendam a lidar com essas novas tecnologias, especialmente porque elas mudam rapidamente.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Outra frente essencial é a valorização da informação de qualidade. Temos uma confusão no mundo digital e as populações têm acesso a informações de fontes muito diversas. Em meio a isso, os modelos de negócio do jornalismo estão ameaçados: o dinheiro fica cada vez mais com as plataformas digitais e cada vez menos nos veículos. Isso significa que nossa capacidade, enquanto sociedade, de produzir informação de qualidade vai diminuindo. Sempre digo que não basta querer tirar as informações nocivas do ambiente digital: precisamos ocupá-lo com informação de qualidade, e isso precisa ser viável inclusive do ponto de vista financeiro. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Por fim, é preciso garantir o acesso da sociedade à informação plural e diversa. Vale lembrar que hoje, no Brasil, a maior parte da população acessa a internet pelo celular, com planos pré-pagos e limite nos seus pacotes de dados. Isso significa que as pessoas ficam presas à ferramenta do “zero rating”, [uma prática das empresas de telefonia] que permite acessar apenas serviços digitais de parceiros das operadoras quando o pacote de dados termina. Com isso, o usuário que está no WhatsApp e recebe um link [de uma notícia] não consegue sequer abri-lo para ter acesso à informação completa.&lt;/p&gt;




  
    
      
    
    Este conteúdo é parte da cobertura especial “Promover a saúde na era da desinformação”, feita com apoio da Umane, uma associação civil, independente, isenta e sem fins lucrativos que apoia iniciativas no âmbito da saúde pública.</_cdata>
      </description>
      <category>Entrevista</category>
      <dc:creator>Mariana Souza</dc:creator>
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    </item>
    <item>
      <title>Autuados pelo Ibama já doaram R$ 6,6 milhões a 136 candidatos</title>
      <link>https://www.nexojornal.com.br/externo/2026/09/05/eleicoes-2026-candidatos-doacao-autuados-ibama</link>
      <pubDate>Sat, 05 Sep 2026 19:34:44 GMT</pubDate>
      <description>
        <_cdata>&lt;p&gt;Levantamento cruzou doações declaradas ao TSE com autos do Ibama lavrados desde 2000. 267 financiadores destinaram R$ 6,6 milhões a 136 candidatos a governador, senador, deputado federal e estadual&lt;/p&gt;
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  &lt;media:title&gt;
    Destruição de máquinas usadas em garimpos ilegais
  &lt;/media:title&gt;
  &lt;media:credit&gt;
    Fernando Martinho / Repórter Brasil
  &lt;/media:credit&gt;
&lt;/media:content&gt;
&lt;p&gt;Governador de Minas Gerais e candidato à reeleição, Mateus Simões (PSD) recebeu R$ 200 mil como doação de campanha de um empresário do agronegócio autuado por desmatamento ilegal.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;No Paraná, o deputado federal Zeca Dirceu (PT), novamente postulante a uma vaga na Câmara, recebeu a mesma quantia de um empresário do setor madeireiro autuado seis vezes pelo Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis).&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Ambos fazem parte de uma lista de 136 candidatos que receberam R$ 6,6 milhões em doações de pessoas autuadas pelo Ibama por infrações ambientais como desmatamento, descumprimento de embargo e funcionamento de atividade potencialmente poluidora sem licença.&lt;/p&gt;



&lt;p&gt;Levantamento exclusivo da Repórter Brasil identificou 267 doadores de campanha com autos de infração lavrados pelo Ibama desde 1º de janeiro de 2000. Juntos, eles destinaram exatos R$ 6.615.680,04 às eleições deste ano.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A análise cruza as prestações de contas de campanha da base do TSE (Tribunal Superior Eleitoral) gerada até 31 de agosto deste ano com os autos de infração registrados nos CPFs dos doadores. Infrações atribuídas a empresas das quais eles são sócios não foram incluídas.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Entre os doadores autuados estão investidores, grandes produtores rurais, empresários da madeira e nomes ligados ao agronegócio. Eles repassaram os valores para candidatos de diferentes campos ideológicos. Além de Simões e Dirceu, aparecem políticos do PL, PSDB, Republicanos, Avante, PSB, entre outros.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Um auto de infração não equivale a uma multa definitiva nem a uma condenação criminal. A medida pode ser contestada administrativamente, cancelada ou permanecer sob recurso. Porém, mesmo que o auto seja convertido em multa posteriormente paga pelo infrator, não há garantia de recomposição do dano ambiental.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Os valores citados na reportagem são os valores nominais registrados pelos Ibama na época da autuação, sem correção pela inflação.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Procurada, a campanha de Zeca Dirceu não respondeu os questionamentos enviados pela Repórter Brasil. Leia o posicionamento da campanha de Mateus Simões logo abaixo.&lt;/p&gt;
Governador de MG recebeu doação de empresário com R$ 178 mil em autos de infração
&lt;p&gt;Um dos beneficiados é o governador mineiro Mateus Simões (PSD). Advogado e ex-vereador de Belo Horizonte, ele foi secretário-geral do governo Romeu Zema (Novo), tornou-se vice-governador em 2023 e assumiu o Palácio Tiradentes em março deste ano, após Zema deixar o cargo para disputar a Presidência.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Simões recebeu R$ 200 mil de José Maria Bortoli, cofundador do Grupo Bom Futuro, conglomerado do agronegócio fundado no Mato Grosso, com atuação em grãos, algodão e pecuária. A contribuição representa 18% dos R$ 1,088 milhão em recursos privados arrecadados pelo governador até o recorte da reportagem — a campanha de Simões também recebeu R$ 2,7 milhões em recursos de partido político.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Bortoli aparece em quatro autos do Ibama que somam R$ 178,6 mil em valores nominais. Um deles, de R$ 56 mil, foi cancelado. Os demais envolvem desmatamento, dano em área de reserva e exploração de madeira sem licença válida, entre 2000 e 2011.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Após a publicação da reportagem, a assessoria de imprensa de Mateus Simões encaminhou nota à redação. Segundo o texto, o governador foi professor “de toda segunda geração do grupo [Bom Futuro] na Fundação Dom Cabral”, uma instituição de ensino privada de Minas Gerais, e “atuou como conselheiro da família por vários anos, desde 2017”.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Ainda segundo a nota, “a doação tem caráter exclusivamente pessoal, de um empresário que acredita nas propostas do candidato e confia nele como político, mesmo sem ter qualquer negócio em Minas Gerais ou investimentos no estado, nem muito menos qualquer vinculação direta ou indireta com o governo de Minas”.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Procura pela Repórter Brasil, a assessoria de imprensa do Grupo Bom Futuro não se pronunciou.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;No Paraná, Zeca Dirceu (PT) recebeu R$ 200 mil de Odacir Antonelli, fundador do Grupo Repinho, ligado à indústria de madeira, compensados e reflorestamento. A contribuição representa cerca de 89% dos R$ 223,9 mil privados arrecadados pelo deputado até 31 de agosto. Filho do ex-ministro José Dirceu, que neste ano disputa uma vaga na Câmara por São Paulo, Zeca está no Congresso desde 2011 e tenta o quinto mandato consecutivo.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Antonelli tem seis autos do Ibama em seu nome, somando R$ 3,81 milhões em valores nominais. Três foram aplicados em julho de 2022, em Inácio Martins (PR): R$ 2,45 milhões por destruir 49 hectares de vegetação nativa em área de preservação permanente; R$ 609 mil por queimar 58 hectares de Mata Atlântica em estágio médio de regeneração; e R$ 530 mil por impedir a regeneração de 106 hectares de floresta nativa. Em novembro de 2023, recebeu outros três autos, de R$ 75 mil cada, por não cumprir determinações para retirar pinus e eucaliptos das áreas atingidas.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Em nota enviada à Repórter Brasil, o Grupo Repinho afirmou que “não possui ingerência sobre atos, manifestações, relações ou questões de natureza estritamente particular de seus sócios, razão pela qual não lhe compete prestar informações, emitir juízos ou se manifestar sobre assuntos relacionados à esfera privada de qualquer um deles”.&lt;/p&gt;
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  &lt;media:title&gt;
    Deputado federal e candidato à reeleição, Zeca Dirceu (PT) também recebeu doação de campanha de R$ 200 mil de madeireiro autuado seis vezes pelo Ibama
  &lt;/media:title&gt;
  &lt;media:credit&gt;
    Bruno Spada / Câmara dos Deputados
  &lt;/media:credit&gt;
&lt;/media:content&gt;
&lt;p&gt;O posicionamento informa também que a companhia recorre nas esferas administrativa e judicial. “Enquanto não houver decisão definitiva, a empresa considera inadequada qualquer antecipação de conclusões acerca das matérias ainda submetidas à apreciação das autoridades competentes”, afirma na nota enviada.&lt;/p&gt;
Ruralistas autuados bancam campanhas em Mato Grosso
&lt;p&gt;Mato Grosso concentra vários casos de financiamento eleitoral por infratores ambientais. Um dos favorecidos é Antonio Galvan (Avante), candidato a uma das duas vagas ao Senado. Produtor rural, ele ganhou projeção nacional à frente da Aprosoja Brasil, representante de produtores de grãos, e tornou-se uma das vozes políticas mais conhecidas do agronegócio durante o governo de Jair Bolsonaro.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Dos R$ 324 mil privados arrecadados por Galvan, R$ 200 mil vieram dos irmãos Felipe e Rafael Bilibio. Os dois são produtores rurais em Vera, no norte de Mato Grosso, e sócios da Agropecuária Irmãos Bilibio, dedicada principalmente ao cultivo de soja. Rafael preside o Sindicato Rural do município.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Felipe tem quatro autos do Ibama, no total de R$ 1,1 milhão. Rafael tem três, somando R$ 1,37 milhão. Todos são de 2016. Há registros de corte raso de vegetação amazônica, impedimento de regeneração natural e intervenção em área embargada.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Em um dos autos, Rafael foi autuado em R$ 1,28 milhão por impedir a regeneração de 255 hectares de vegetação nativa amazônica na Fazenda Floresta I, em Vera, segundo o Ibama. A área estava embargada (interditada) desde 2007.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A advogada que representa os irmãos Bilibio disse que não pode informar sobre os andamentos das autuações. “Razão pela qual o mérito ou pormenores das demandas não será comentado”, afirmou. “Também não é possível que eu responda quais as motivações pessoais dos meus clientes para doações que os mesmos decidam ou não realizar”, complementou.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Em 2021, quando presidia a Aprosoja Brasil, Galvan foi investigado no STF (Supremo Tribunal Federal) por suspeitas relacionadas ao financiamento dos atos antidemocráticos de 7 de Setembro daquele ano.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Na época, a Repórter Brasil mostrou que ele próprio havia sido multado por desmatamento de 500 hectares e respondia a disputas judiciais sobre possível plantio clandestino de soja e suposta tentativa de invasão a uma fazenda vizinha. A assessoria de imprensa de Galvan não respondeu aos questionamentos da reportagem.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Já Otaviano Pivetta (Republicanos), candidato ao governo de Mato Grosso, recebeu R$ 150 mil de dois financiadores com autos no Ibama.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Osmar Ribeiro de Mello, responsável por R$ 100 mil em doações, tem quatro autos em seu nome que somam R$ 2 milhões. O maior, de R$ 1,2 milhão, foi aplicado em 2013, por destruir 251 hectares de floresta amazônica em Feliz Natal, segundo o Ibama. Em 2017, recebeu outros dois, de R$ 525 mil e R$ 215 mil, por destruição ou dano a 146,8 hectares de vegetação nativa.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Os outros R$ 50 mil vieram do ex-prefeito de Lucas do Rio Verde e fundador da Fiagril  Marino José Franz, autuado em R$ 793 mil em 2015 por executar manejo florestal em 792 hectares das fazendas Taipas I e II, em Nova Maringá, sem autorização prévia do órgão ambiental, segundo o Ibama. Nem a campanha de Pivetta, nem seus doadores responderam às perguntas enviadas pela Repórter Brasil.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Também em Mato Grosso, Samantha Brunini (PL) disputa uma vaga na Assembleia Legislativa. Esposa do prefeito de Cuiabá, Abilio Brunini (PL), ela foi a vereadora mais votada da capital em 2024 e neste ano concorre com o nome de urna “Samantha do Abilio”.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Até 31 de agosto havia recebido R$ 301,8 mil em recursos privados, dos quais R$ 300 mil vieram de uma única pessoa: Elizeu Zulmar Maggi Scheffer, empresário do Grupo Scheffer.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A candidatura de Samantha também recebeu o apoio explícito de Michelle Bolsonaro. No fim de agosto, a ex-primeira-dama apareceu em vídeo ao lado da candidata e de Abilio Brunini afirmando que Samantha era “minha candidata a deputada estadual”.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O Grupo Scheffer atua na produção de soja, algodão e milho, pecuária, armazenagem e fertilizantes. Scheffer foi autuado pelo Ibama em 2002 em R$ 24 mil por desmatar 200 hectares de Cerrado na Fazenda Rafaela, em Sapezal.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Elizeu é o fundador do grupo, criado depois que sua família chegou a Mato Grosso em 1980. Nem a candidata nem o grupo Scheffer retornaram aos questionamentos da reportagem.&lt;/p&gt;</_cdata>
      </description>
      <category>Externo</category>
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      <title>O que fez o Supremo chegar a tamanha crise institucional</title>
      <link>https://www.nexojornal.com.br/expresso/2026/09/05/mendonca-e-moraes-fachin-crise-no-stf-ministros</link>
      <pubDate>Sat, 05 Sep 2026 19:26:42 GMT</pubDate>
      <description>
        <_cdata>&lt;p&gt;Edson Fachin frisa implementação de código de conduta e fala em encerrar inquérito das fake news. Professores de direito constitucional analisam a instabilidade na corte, considerada inédita &lt;/p&gt;
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  &lt;media:title&gt;
    Os ministros do Supremo André Mendonça, Alexandre de Moraes e Edson Fachin
  &lt;/media:title&gt;
  &lt;media:credit&gt;
    Antonio Augusto / STF 02.09.2026 
  &lt;/media:credit&gt;
&lt;/media:content&gt;
&lt;p&gt;O embate entre os ministros Alexandre de Moraes e André Mendonça em relação às investigações sobre o Banco Master gerou o que é considerada a maior crise institucional já vivida no Supremo Tribunal Federal, para a qual o atual presidente da corte, Edson Fachin, vem buscando uma solução. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;De um lado, Mendonça retirou, na terça-feira (1°), o sigilo de um relatório da Polícia Federal que mostrou proximidade entre Moraes e o banqueiro Daniel Vorcaro, com conversas sobre a Operação Compliance Zero, que investiga fraudes no sistema financeiro nacional. Os investigadores também descobriram, entre outros fatos, que Moraes foi o último a editar a minuta de um contrato firmado entre o Master e o escritório Barci de Moraes, de sua esposa, Viviane.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;R$ 131 milhões&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;era o valor do contrato firmado entre o Master e o Barci de Moraes Sociedade de advogados &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Mendonça determinou de ofício a investigação de Moraes, ou seja, sem provocação das partes envolvidas no processo. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;No mesmo dia, o ministro — que é relator do caso Master no Supremo — enviou o relatório para parecer da Procuradoria-Geral da República, que se manifestou pela nulidade da investigação.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O procurador-geral da República, Paulo Gonet, afirmou que o relator não deveria pedir apuração sem manifestação do Ministério Público ou da Polícia Federal, acrescentando que “ao juiz não cabe acusar, menos ainda ao juiz cabe realizar investigações pré-processuais”. Gonet é citado em conversas de Vorcaro por meio de um interlocutor — neste sábado, a Associação Nacional dos Delegados de Polícia Federal pediu que o procurador-geral se declare impedido de atuar na apuração de atos em que é citado.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Após a ação de Mendonça, Moraes encaminhou na quinta-feira (3) a Fachin um pedido de investigação contra o colega no âmbito do inquérito das fake news, aberto em 2019. O magistrado disse que há fortes indícios de improbidade administrativa, abuso de autoridade e crime de responsabilidade na relatoria dos casos do Master e das fraudes no INSS (Instituto Nacional do Seguro Social), também sob a alçada de Mendonça.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Moraes baseou a petição em relatórios de inteligência da Polícia Federal que mostram que Mendonça determinou que a corporação fizesse a diligência em relação ao colega sem assinar a decisão judicial nem fazer a comunicação pelas vias de procedimentos legais. O documento diz ainda que o relator adota posturas distintas em relação a outras autoridades que também aparecem no caso Master.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Na sexta-feira (4), Fachin retirou o pedido para investigar Mendonça do inquérito das fake news, determinando que tanto as apurações sobre ele quanto as sobre Moraes fiquem num inquérito sob sua relatoria. A Procuradoria-Geral da República deve apresentar, em cinco dias úteis, manifestação sobre se o procedimento cumpre as exigências legais – o que deve ocorrer até sexta-feira (11), por causa do feriado da Independência.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;No domingo (6), Mendonça liberou para julgamento em plenário o caso envolvendo Moraes e Vorcaro. A decisão sobre se e quando o relatório será analisado cabe a Fachin, presidente da corte, que também deverá determinar se a sessão será aberta ou fechada.&lt;/p&gt;
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  &lt;media:title&gt;
    O ministro Edson Fachin em sessão plenária do Supremo
  &lt;/media:title&gt;
  &lt;media:credit&gt;
    Luiz Silveira / STF 05.03.2026
  &lt;/media:credit&gt;
&lt;/media:content&gt;
&lt;p&gt;Em evento realizado na sexta (4) no Palácio do Planalto para a sanção de projetos relacionados ao Judiciário, Fachin discursou sobre a crise no Supremo. Disse que tem urgência em cumprir três metas na presidência do tribunal: &lt;/p&gt;

encerrar o inquérito das fake news
adotar um código de ética para os ministros do Supremo
modernizar o sistema de Justiça brasileiro

&lt;p&gt;Fachin defende a adoção do código desde que assumiu o comando da corte, em setembro de 2025, mas encontra resistência da maioria do colegiado.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;“A gravidade dos fatos não autoriza atalhos. Ao contrário: quanto maior o desafio, maior deve ser o compromisso com a legalidade, o devido processo legal e as garantias constitucionais. Não haverá precipitação, tampouco omissão. A resposta institucional será firme, proporcional e rigorosa”&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Edson Fachin&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;presidente do Supremo, em discurso no Palácio do Planalto na sexta-feira (4)&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Para avaliar os motivos que levaram à escalada de instabilidades no Supremo, o Nexo conversou:&lt;/p&gt;

Conrado Hübner Mendes, professor de direito constitucional da USP (Universidade de São Paulo)
Emílio Meyer, professor de direito constitucional da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais)

&lt;p&gt;O que permitiu que o Supremo chegasse a tamanha crise institucional? Como avalia a atuação dos ministros André Mendonça e Alexandre de Moraes?&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Conrado Hübner Mendes É muito fácil atribuir a crise do Supremo às circunstâncias externas pelas quais o tribunal teria sido levado de roldão. Claro que as razões dessa crise não têm apenas a ver com o momento difícil da democracia — momento esse, inclusive, que o Supremo ajudou a construir. Também não dá para reduzir e simplificar [a discussão] à ideia de que a crise é inteiramente interna e endógena. Ela é, claro, um pouco das duas coisas. O que cabe pensar, neste momento, é o quanto das razões muito graves, que são endógenas, que se devem à instabilidade jurisprudencial, à deliberada desconstrução de imagem de respeitabilidade e imparcialidade, conduta de ministro que não é mera falha de etiqueta ou bom gosto. Isso afeta a percepção que nós temos de decisões que continuam a oscilar, que continuam muito instáveis.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A explicação [para a crise] precisa incluir uma avaliação de uma conduta absolutamente promíscua e desrespeitosa de ministros que não estão mais respeitando nenhuma distinção entre público e privado, estão menosprezando as constantes e já antigas críticas da sociedade. Então tem um problema sério de conduta. Mas não é só isso. Também tem um problema de instabilidade nas decisões. Tem um problema não só de promiscuidade, mas de arbitrariedade jurídica. A percepção é a de que o direito sumiu.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Emílio Meyer Acho que o cerne da questão é o problema de não se enxergar corretamente a legitimidade institucional. O Judiciário brasileiro vem padecendo do problema de um certo isolamento em relação a que tipos de práticas éticas seriam relevantes para consolidar uma posição institucional legítima perante a sociedade. Talvez pensem que são ministros que produzem e tomam boas decisões — e que essas decisões fazem o trabalho de legitimar a instituição do STF perante a sociedade —, mas muito do que a sociedade enxerga e deposita no Supremo é sobre o comportamento dos ministros dentro e fora da corte.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Tem havido uma ausência de percepção [entre os ministros] de que há necessidade de que eles sejam mais comedidos, mais responsáveis nas relações que estabelecem. Eles precisam enxergar que não há uma distância grande entre o que se demanda de qualquer servidor público e o que se demanda de juízes, especialmente de ministros do Supremo Tribunal Federal.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Não dá para dizer que existe uma necessidade de respeito daquilo que é feito no âmbito privado em relação à conduta do ministro Alexandre de Moraes. Há um contrato específico para o qual foi pago um valor, e esse valor envolvia o escritório da esposa dele [a advogada Viviane Barci de Moraes]. A confusão sobre o que se pode fazer eticamente como ministro do STF está colocada e não evapora.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Por outro lado, não vamos deixar de encontrar problemas na atuação do ministro André Mendonça, que supôs que tinha uma bala de prata em relação a Alexandre de Moraes e suspendeu o sigilo de uma investigação com uma relevância política imensa à beira de um processo eleitoral. Não deixa de haver uma conduta que deve ser discutida e é censurável em relação ao que se espera de um ministro do Supremo. Nos dois casos [Moraes em Mendonça], estamos diante de condutas que são muito aquém daquilo que se espera de ministros da mais alta corte. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O presidente da corte, Edson Fachin, tem apostado na criação de um código de conduta. O presidente Lula fala em reforma do Judiciário. Essas seriam soluções efetivas? &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Conrado Hübner Mendes Solucionar a crise não é algo que se possa fazer num único gesto. Solucionar essa crise — que foi construída ao longo do tempo — também envolve um exercício de enfrentamento sincero, inteligente e estratégico. A proposta de um código de conduta não é um remédio, nem panaceia, mas continua a ser, mesmo assim, um passo importante, uma espécie de explicação à sociedade, um compromisso de tomar mais cuidado com a imagem pública da corte. Inclusive, ensina a própria sociedade a avaliar o comportamento de ministros.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Quando se fala em reforma do Judiciário, essa é a palavra mais genérica que podemos imaginar. Mais do que uma reforma, que pode ser parte do processo, precisamos exigir publicamente, com a participação da sociedade civil, um processo de transformação. E não é só do Judiciário, porque o Judiciário não construiu sozinho essa crise. É uma transformação do sistema de Justiça e de todas as profissões jurídicas que o circundam. Não é um problema só de juiz e de ministro. É um problema de procurador, promotor, de advogado do Estado, de advogados privados. É esse conjunto de profissões que corrompe o funcionamento da engrenagem da Justiça.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Reforma no Judiciário pode significar um monte de coisa. Até aqui, isso tem sido usado como um slogan vazio, com o perigo, neste momento, de ser mais diversionista do que qualquer outra coisa. Mas, claro, se a reforma for inteligente, pensada, conversada, ousada, enfrentar problemas reais, é bem-vinda. É uma forma de construir um processo de enfrentamento da crise, e não uma solução da crise.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Emílio Meyer Elas são um primeiro passo. É preciso [entender] exatamente o que se quer dizer quando se fala em reforma do Judiciário. O presidente Lula já passou por isso no seu primeiro mandato, quando ocorreu, em 2004, a Emenda Constitucional n° 45. Essa reforma não foi muito longe, apesar de ter criado o Conselho Nacional de Justiça. O CNJ ainda é visto como pouco efetivo em relação ao que é necessário fazer, e temos visto repetidamente condutas censuráveis de juízes censuráveis,  e um modo problemático como eles veem suas próprias prerrogativas. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Sobre o código de conduta, esse é um primeiro passo que o Supremo tem que dar. A Suprema Corte dos Estados Unidos adotou um código de ética há pouco tempo diante de repetidos fatos e acusações de membros da corte [relacionados] com doadores do Partido Republicano. O código [nos EUA], por si só, resolveu todos os problemas? Não. Mas fez com que juízes ficassem mais expostos à possibilidade e à necessidade de se declararem suspeitos ou impedidos. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O Supremo [no Brasil] tem condições de exigir e demandar que seus ministros se declarassem suspeitos ou impedidos de forma mais recorrente. Mas o Supremo diz que não, que a norma precisa ser lida de forma mais permissiva, a ponto de permitir que escritórios de esposas ou pessoas relacionadas ao ministros possam atuar em casos em que não deveriam. Também temos uma série de outros pontos que dizem respeito sobre a forma como esses juízes têm se relacionado com outros escritórios e empresários — que promovem eventos, que, no fim, tornam o acesso aos ministros mais fácil do que ocorreria nos diversos processos no Supremo. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Acredito que Edson Fachin, como presidente da corte, precisa observar uma certa liturgia. É preciso uma certa calma neste momento para que a fervura abaixe um pouco, e o Supremo tem feito isso de forma apropriada. Não estou dizendo que o STF deve achar uma solução de consenso, que evite responsabilidades. Mas o que estamos vendo é uma série rápida de ação e reação que foi extremamente danosa à corte. Temos um ministro [André Mendonça] querendo que sejam encontrados elementos sobre um colega em relação a uma investigação mais ampla [do Banco Master]; quando a Polícia Federal traz esses elementos, ele se propõe a submeter isso ao colegiado. Em paralelo, outro ministro [Moraes] se utiliza da mesma Polícia Federal, com base num inquérito que já dura sete anos [o inquérito das fake news], para poder fiscalizar o trabalho do mesmo colega. Isso mostra que não há nenhum tipo de fair play entre os ministros, que estão se colocando como inimigos na própria corte. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Talvez, de imediato, o que possa acontecer de mais importante, mencionado pelo ministro Fachin, seja o fim do inquérito das fake news. Mas ele não vai fazer isso sozinho. É necessário que ele convença Moraes, que é relator desse inquérito, para que ele possa, de fato, chegar a um relatório final que permita o encerramento. Isso é importante, porque, por exemplo, não haveria mais base para que ocorresse a investigação — dentro desse inquérito, que não acaba nunca — de um colega sobre outro.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Mas acho que a corte não pode tomar uma decisão pouco pensada ou pouco refletida. O plenário não pode se sentir pressionado por nenhuma das partes.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Como avalia outras possibilidades, como mandatos fixos para ministros do Supremo ou mudanças na forma de nomear esses juízes? Um impeachment seria uma solução ainda mais desgastante para a democracia brasileira?&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Conrado Hübner Mendes Acho sobretudo que isso deve ser conversado de modo mais sistêmico. Seja na transformação da Justiça numa chave mais ampla, que estou tentando sugerir, seja na chave de reforma do Judiciário,  temos que tomar cuidado com a ansiedade meio diletante de buscar a grande bala de prata. Mandato fixo para ministro e mudança no modo de nomeação são variáveis muito importantes, mas apenas duas variáveis. Para levar isso a sério, poderíamos considerar, numa reforma mais sistêmica, muitas outras coisas, como competências do STF, arbitrariedade jurisprudencial e modos de controle social. O processo e o sistema recursal são outra coisa. Conflitos de interesse e a possibilidade de participação na relação entre advogado e ministro são outra coisa. Tem muita coisa para fazer. Essas duas variáveis [mandato fixo e mudanças na nomeação], sozinhas, não resolvem nada.  &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Emílio Meyer O impeachment talvez seja muito complicado para o período que estamos vivendo, com crises políticas sucessivas desde 2014. Um impeachment prolongaria ainda mais essa crise. Por outro lado, é difícil pensar num outro modo de fazer com que um ministro tão aguerrido nas suas posições e decisões [como Moraes] tenha contenção. Críticas e debates parecem não ter funcionado.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A adoção de um código de ética pode ajudar a frear um pouco dessas posições — a exigir muito mais cautela em relação à publicização das decisões e posições de cada ministro, fazer com que eles tenham responsabilidade perante os processos em que estão atuando. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Sobre as demais reformas do Supremo, continuo achando que, diante destas sucessivas crises políticas, elas chegariam em momentos extremamente agudos, de alta polarização, e não seriam aprovadas de um modo refletido, beneficiando a corte. Eu esperaria ou torceria por algum grau de maior estabilidade política nos próximos dois ou três anos e, assim, amadurecer questões sobre mandato fixo, controle de decisões singulares dos ministros da corte ou outras reformas salutares, como a própria composição do Supremo. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Os fatos indicam que o modelo estabelecido está chegando ao exaurimento. Do jeito que está, parece que não vai oferecer boas soluções para os tempos que se aproximam. Por outro lado, não temos um contexto político saudável para fazer essas reformas. &lt;/p&gt;</_cdata>
      </description>
      <category>Expresso</category>
      <dc:creator>Isadora Rupp</dc:creator>
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      <title>Polymarket: proibido no Brasil, mas com apostas nas eleições</title>
      <link>https://www.nexojornal.com.br/externo/2026/09/05/polymarket-eleicoes-brasil-apostas</link>
      <pubDate>Sat, 05 Sep 2026 00:11:21 GMT</pubDate>
      <description>
        <_cdata>&lt;p&gt;Perfil no Instagram fez mais de 100 publicações desde abril. Alcance é ampliado com perfis de fofoca e influencers&lt;/p&gt;
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  &lt;media:title&gt;
    Pessoa usando o computador
  &lt;/media:title&gt;
  &lt;media:credit&gt;
    Kaitlyn Baker / Unsplash
  &lt;/media:credit&gt;
&lt;/media:content&gt;
&lt;p&gt;“Última hora: chances de Flávio vencer a eleição disparam”. A chamada, publicada em 31.ago.2026 no página do Polymarket no Instagram voltada ao público brasileiro, foi feita num carrossel com oito imagens, com uso de conteúdos da imprensa para dar contexto, memes sobre a situação e, no meio, o gráfico de previsões da empresa sobre quem deve ganhar as eleições presidenciais no Brasil.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;No final, há um aviso de que as negociações de contratos envolvem riscos, não estão disponíveis em todas as jurisdições e são proibidas para menores de 18 anos. O post foi publicado em collab com a página @opoeteiro, que soma mais de 2,3 milhões de seguidores, e não há indicação se é uma publicidade.&lt;/p&gt;



&lt;p&gt;Polymarket é um mercado de previsão baseado em criptomoedas. Na plataforma, os usuários podem apostar sobre o resultado de eventos futuros do mundo real, como eleições, esportes e até guerras e outros eventos geopolíticos. Está proibida de ofertar e divulgar seviços no Brasil desde 24.abr.&lt;/p&gt;
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  &lt;media:title&gt;
    Post no Instagram da @polymarketbrasil (agora @polymarketportugues) do dia 31.ago.2026
  &lt;/media:title&gt;
  &lt;media:credit&gt;
    Reprodução / Instagram
  &lt;/media:credit&gt;
&lt;/media:content&gt;
&lt;p&gt;Esse é um dos posts mais explícitos realizado pelo Polymarket, apesar de a empresa estar proibida de ofertar e divulgar o serviço no Brasil desde 24.abr.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Mas não é o único. Até 24.ago, o Núcleo levantou 103 publicações com referência às eleições brasileiras que seguiram o mesmo roteiro, sendo parte delas feitas em colaboração (ou marcação via arroba) com páginas de fofoca, de memes ou comentaristas de esportes e de influenciadores.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Há até referências a site vinculado a aliado de blogueiro bolsonarista e site que recebeu dinheiro de agência ligada ao Banco Master para ampliar alcance (leia mais abaixo).&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A FSB Comunicação, uma das maiores agências de assessoria de imprensa do Brasil, passou a atender o Polymarket neste ano e confirmou ao Núcleo que a página @polymarketbrasil pertence à empresa.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Coincidentemente, logo após os questionamentos da reportagem, a página mudou o nome de usuário para @polymarketportugues na quarta-feira (2.set.2026).&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A assessoria não respondeu objetivamente aos questionamentos da reportagem sobre a operação da página, a relação com sites e outros perfis no Instagram nem sobre os conteúdos publicados.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Em nota, afirmou apenas que o Polymarket não tem equipe no Brasil, apenas prestadores de serviços pontuais e que a empresa “não apoia candidatos, partidos ou correntes ideológicas, não adota posicionamento editorial sobre eleições”. Disse que não vai comentar sobre “parcerias, campanhas, influenciadores e conteúdos específicos”, mas “reforça seu compromisso com práticas de comunicação transparentes e responsáveis” (leia a íntegra ao final do texto).&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Pelos dados do Instagram, a página foi criada em 2021 e mudou de nome de usuário agora pela terceira vez, mas não há detalhes sobre quais foram os outros dois nomes anteriores. Em 2025, a página fez apenas quatro publicações (três em maio e uma em junho) em que uma criadora de conteúdo aparece em vídeos para falar sobre acontecimentos relacionados ao time de futebol do Corinthians. Com a virada do ano, as publicações passaram a ser sobre eventos do Polymarket e o número de conteúdos explode a partir de mar.2026, quando foram ao ar 74 posts. Nos meses seguintes o volume passa de 100 publicações por mês.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Entre os 656 posts coletados pela reportagem até 24.ago, mais da metade tratava de política (tanto nacional quanto internacional e englobando eleições brasileiras), em seguida os temas mais recorrentes são esportes (143), atualidades (131) e tecnologia (42) (Leia a metodologia ao final do texto).&lt;/p&gt;
Conexão com o Not Journal
&lt;p&gt;A página que mais faz collab ou aparece marcada com o Polymarket no Instagram é a @notjournal.ai, com 212 mil seguidores, do site Not Journal, do qual o sócio-administrador e editor-chefe é Bruno Richards de Souza Figueiredo. Desde abr.2026, ele se apresenta no LinkedIN como funcionário da Polymarket e no evento Rio Innovation Week como “country manager” do companhia, ou seja, alguém responsável pelas operações da empresa. Ele divide a sociedade do Not Journal com o engenheiro e empresário Marlon Ceni.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O site, que ostenta um grande banner superior com o logo do Polymarket, foi apontado pela Polícia Federal como integrante do Projeto DV, que englobava contratos firmados com a agência Mithi, do publicitário Thiago Miranda, para atacar o Banco Central pela forma como lidou com a crise do Banco Master.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Segundo reportagem de mai.2026 da Folha de S.Paulo, o Not Journal recebeu R$30 mil por 12 publicações mensais, no site e no Instagram, em 2025. O perfil teria como missão adotar “tom acadêmico, sóbrio e institucional, com foco na eficiência de mercado” nos conteúdos.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Ao jornal, Richards disse que não houve definição de conteúdo e que as postagens alinhadas às especificações do Projeto DV foram feitas por um ex-funcionário. Em nota pública, o editor-chefe afirmou que o contrato se deu estritamente “à produção de conteúdo de lifestyle e negócios para divulgação de empreendimentos” e não fazia referência ao banco nem a Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master. Apontou ainda que a Mithi ofereceu R$5 milhões por 30% do capital do Not Journal, mas que a proposta foi recusada.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O Not Journal também apareceu, no ano passado, na coluna do jornalista Guilherme Ravache, do Valor Econômico, sobre sites, apps e plataformas de inteligência artificial que “roubam” conteúdos produzidos por veículos de imprensa sem remuneração. No site, o Not Journal diz que faz “curadoria editorial com inteligência artificial” e Richards declarou ao colunista, na época, que funciona como se fosse um buscador como o Google, porque dá créditos e indica o link das reportagens originais.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O site continua oferecendo planos de assinatura para receber notícias via Whatsapp, 24h, que variam de R$19,90 a R$49,90, ou um dashboard completo, no valor de R$299,90, mas sem repassar um real aos jornais. Parte das publicações no site creditam informações, mas não informam links.&lt;/p&gt;
&lt;media:content url="https://nexo-uploads-beta.s3.amazonaws.com/wp-content/uploads/images/2026/09/Captura-de-tela-de-2026-09-04-16-59-48-600x328.png" type="image/png" medium="image"&gt;
  &lt;media:title&gt;
    Logo da Polymarket aparece em destaque no topo do Not Journal
  &lt;/media:title&gt;
  &lt;media:credit&gt;
    Reprodução / Not Journal
  &lt;/media:credit&gt;
&lt;/media:content&gt;
&lt;p&gt;O Núcleo tentou contato direto com o Not Journal e o Bruno Richards para pedir entrevista sobre as publicações compartilhadas com a página do Polymarket e o anúncio da empresa no site, mas não teve retorno.&lt;/p&gt;
Fofoca, futebol, memes e política
&lt;p&gt;Outra página que aparecia com frequência nos posts compartilhados é o @ncpjornalismo1, que não está disponível desde 31.ago.2026, mas tinha mais de 1 milhão de seguidores. O nome de usuário faz referência ao site No Centro da Política, que pertence ao jornalista Hugo Alves dos Santos, dono do site Hora de Brasília e aliado do blogueiro bolsonarista Oswaldo Eustáquio – foragido desde 2023 e acusado de associação criminosa em atos golpistas. Nenhum post compartilhado informava se era uma publicidade do Polymarket.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A Target DF Journal Comunicação Ltda., que é a empresa de Alves por trás do Hora de Brasília, consta como responsável pela solicitação do registro de marca do site No Centro da Política no Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI). A empresa também apareceu como prestadora de serviços terceirizados para candidatos em eleições passadas.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Em 2024, recebeu R$30 mil do candidato Derek Bonjardim (PL), que se elegeu a vereador em Atibaia (SP), e R$25 mil de Juninho do Hot Dog, que alcançou a suplência no mesmo cargo e pelo mesmo partido. Já em 2022, cinco candidatos desembolsaram, ao todo, R$594,2 mil à empresa, sendo o deputado federal Otoni de Paula (então pelo MDB-RJ na época, hoje no PSD) responsável sozinho por quase 90% desse valor. A Target DF também recebeu R$11 mil da campanha de Sandra Terena, ex-esposa de Eustáquio, que concorreu a deputada estadual pelo União Brasil no Paraná, e foi secretária nacional de Políticas de Promoção da Igualdade Racial durante a gestão Bolsonaro.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Há também duas publicações compartilhadas em carrossel do Polymarket com o Jornal Cinforme, veículo de Goiás com mais de 683 mil seguidores, em 22.jul.2026. Uma sobre as chances de Renan Santos vencer as eleições presidenciais, a partir de uma chamada que destaca uma declaração sobre extinguir favelas e o programa Bolsa Família. E outra sobre eventos internacionais em que no meio há um gráfico de previsões sobre as chances de uma assinatura de acordo de paz entre Rússia e Ucrânia.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Além desses sites que se apresentam como jornalísticos, as “colabs” ocorrem desde jun.2026 com páginas de fofocas, curiosidades, memes e de influenciadores, como:&lt;/p&gt;

@diferentona (+3,5 milhões de seguidores);
@noticias (+2,6 milhões);
@opoeteiro (+2,3 milhões);
@teatualizou (+1,6 milhão);
@pesmilgrau_ (+1 milhão);
@historiailtda (+863 mil);
@explica.news (+662 mil);
@victor.041 (+627 mil);
@brasilleirou (+559 mil);
@comentaristaedu (+477 mil);
@lancesinesqueciveis (+417 mil);
@dezadafutebol (+387 mil);
@boleiradaa (+371 mil);
@crisao99_ (+366 mil);
@samengo (+327 mil).

&lt;p&gt;Nenhuma delas informa se o compartilhamento se deu mediante pagamento, o que é obrigatório em caso de publicidade.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Há, ainda, uma publicação de 12.ago.2026 em que a página do Polymarket marcou @olavodecarvalho, mas a página de fãs no Instagram do guru bolsonarista não republicou o conteúdo. O post era sobre a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro “ter feito as pazes” com o senador e presidenciável Flávio Bolsonaro.&lt;/p&gt;
Anúncio sem cara de anúncio
&lt;p&gt;Diretor da Data Privacy Brasil, Rafael Zanatta avalia que a utilização de uma linguagem noticiosa ou de meme é uma maneira da página do Polymarket driblar a proibição.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;“A conta oficial está indisponível e tem uma subsidiária na prática fazendo um anúncio escamoteado mesmo que não tenha um link direto para o site”, aponta. Para ele, isso incentiva as pessoas a buscarem acessar a plataforma de alguma maneira, pois a possibilidade de ganho em cima do resultado depende do investimento em dinheiro e do monitoramento dessas “apostas”.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O volume estimado em apostas na eleição brasileira está em US$141,7 milhões até 2.set.2026.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Do ponto de vista eleitoral, o professor Fernando Neisser, da FGV, entende que as publicações, por não terem pedido explícito para acesso à plataforma nem link direto e não se venderem como pesquisa eleitoral, a priori, não indicam ilícito eleitoral. Contudo, ele sinaliza que seria necessária uma apuração mais aprofundada para verificar se o conteúdo mascara uma suposta propaganda irregular do mercado de apostas e se visa prejudicar ou beneficiar algum candidato.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;“Se eles estão realmente visando o lucro, estão fazendo de uma forma com um grau de discrição muito grande, porque não tem um link, um aviso de ‘clique aqui, venha para cá, venha na nossa página, faça um VPN’ para poder acessar”, afirma.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A reportagem verificou que, mesmo com a proibição no Brasil, em alguns estados o acesso ao site do Polymarket continua disponível. A reportagem fez testes bem sucedidos no Rio de Janeiro, Paraná e Santa Catarina em utilização de VPN.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A assessoria da Secretaria de Prêmios e Apostas informou que “o bloqueio já foi implementado pela maioria dos provedores”, após notificação da Anatel, e que “por se tratar de mercado irregular, sua oferta e divulgação no país permanecem vedadas”.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Sobre a página principal do Polymarket no Instagram, a assessoria informou que “dispõe de um canal específico de comunicação com a Meta e demais plataformas digitais para o encaminhamento de ocorrências relacionadas à oferta ou à publicidade irregular de apostas em redes sociais”, com base no acordo de cooperação com o Conselho Digital do Brasil que permite o tratamento de conteúdos irregulares nas plataformas participantes.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A SPA afirma que “já comunicou às plataformas mais de 2 mil conteúdos irregulares, entre eles publicações relacionadas à oferta de apostas nos chamados ‘mercados de previsão’”.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O Núcleo enviou o link da página @polymarketbrasil (agora polymarketportugues), mas a secretaria não deu retorno se tomaria alguma medida. A Meta também preferiu não comentar.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Em nota, a Anatel ressaltou que a sua atuação “se limita ao encaminhamento às prestadoras de serviços de telecomunicações das decisões administrativas emitidas pelo órgão competente, para fins de bloqueio de sítios eletrônicos” e não contempla redes sociais ou plataformas digitais.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Procurada pela reportagem, a assessoria do TSE disse que “não se manifesta sobre casos concretos”, somente em autos processuais.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Em mai.2026, o Núcleo mostrou que ao menos 20 canais do espectro da direita no YouTube estavam utilizando o Polymarket para diagnosticar uma possível intenção de voto, mesmo não sendo uma pesquisa eleitoral que dispõe de registro no TSE e metodologia científica e transparente ao público.&lt;/p&gt;
Nota na íntegra do Polymarket
&lt;p&gt;A Polymarket respeita as autoridades e as regras aplicáveis em cada jurisdição e entende que questões regulatórias devem ser tratadas por meio de diálogo técnico e institucional. A plataforma é uma infraestrutura global de mercados preditivos e informação, que traduz expectativas coletivas em sinais de probabilidade em tempo real, funcionando como uma camada complementar para a leitura de tendências, cenários e mudanças de percepção. A empresa não apoia candidatos, partidos ou correntes ideológicas, não adota posicionamento editorial sobre eleições. A existência de um mercado ou a divulgação de seus dados não representa endosso a qualquer resultado ou posicionamento político, mas a disponibilização de um sinal produzido a partir das expectativas dos participantes. No Brasil, a nossa prioridade é uma comunicação institucional, educativa e responsável, em conformidade com as regras locais, com transparência sobre a natureza da categoria e sem promoção transacional. Em relação a parcerias, campanhas, influenciadores e conteúdos específicos, a empresa não comenta casos específicos sem fatos confirmados e reforça seu compromisso com práticas de comunicação transparentes e responsáveis.&lt;/p&gt;
Metodologia
&lt;p&gt;Os dados da página do Instagram do @polymarketbrasil foram coletados por meio de um navegador automatizado a partir das publicações realizadas entre 2025 e 24.ago.2026, com registro de informações como código único da publicação (trecho da URL que identifica o post), data, tipo de conteúdo, legenda, métricas disponíveis (curtidas e comentários), quantidade e tipo de mídias. O projeto foi desenvolvido em Python, com objetivo de automatizar a coleta, o armazenamento e a transcrição de conteúdos. Os dados coletados foram gravados em um banco PostgreSQL e todas as publicações estavam disponíveis até 25.ago.2026.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A categorização das temáticas dos 656 posts levantados foi realizado de forma manual a partir da análise do conteúdo das legendas e classificados como: política (ao se tratar de conteúdos sobre ações de governos, eventos relacionados a políticos, tanto na esfera nacional quanto internacional); eleições brasileiras (que faziam menção direta à disputa eleitoral, às candidaturas, a hashtag como #Eleições2026); esportes (que se tratavam de jogos, times e atletas); tecnologia (que faziam menção a big techs e inovações tecnológicas); atualidades (que abarcavam assuntos de entretenimento, cinema, curiosidades); judiciário (que abordavam decisões judiciais que não se tratavam de questões relacionadas a políticos ou eleições); e propaganda (quando o Polymarket postava sobre a própria plataforma).&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Esta reportagem é fruto do Laboratório de Investigação Eleitoral.&lt;/p&gt;</_cdata>
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      <category>Externo</category>
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    <item>
      <title>Crédito rural gera mais desmatamento na Amazônia? Depende</title>
      <link>https://www.nexojornal.com.br/ensaio/2026/09/05/agricultura-agropecuaria-amazonia-desmatamento-cradito-rural</link>
      <pubDate>Sat, 05 Sep 2026 00:05:29 GMT</pubDate>
      <description>
        <_cdata>&lt;p&gt;Tratar financiamento para produção agropecuária como ferramenta neutra leva a diagnósticos errados e a políticas que podem falhar&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O crédito sempre foi reconhecido como um importante indutor de desenvolvimento, pois permite que os produtores invistam, seja em máquinas ou em novas tecnologias, e ganhem produtividade. No entanto, onde a agricultura e a pecuária avançam sobre florestas como a Amazônia, o mesmo crédito pode proteger ou destruir a vegetação nativa. Essa ambiguidade é objeto do estudo que publicamos em março, em colaboração com o pesquisador Alex Pfaff, na PNAS (Proceedings of the National Academy of Sciences), com dados de 452 municípios da Amazônia ao longo de 11 anos.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A intuição mais comum é direta, ou seja: mais crédito, mais produção, mais desmatamento. E, de fato, parte do crédito financia a abertura imediata de novas áreas — o chamado efeito rebote, em que ganhos de renda ou de produtividade são reinvestidos em expansão, e tornar-se mais eficiente acaba deixando o desmatamento mais atraente. Mas existe o efeito oposto, conhecido como hipótese de Borlaug, que prevê que, ao permitir maior produção na terra já cultivada, o crédito pode aliviar a pressão sobre a floresta. Qual dos efeitos prevalece na prática depende do lugar aonde o crédito chega.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A Amazônia é um mosaico de diferentes contextos. Em municípios mais densamente povoados e conectados aos mercados externos, a governança fundiária tende a ser mais consolidada, os direitos de propriedade, mais claros e a vegetação nativa, mais escassa, fruto de processos de ocupação mais antigos. Essas condições também facilitam a fiscalização ambiental e restringem as oportunidades de desmatamento. Já nas regiões mais distantes dessa fronteira, ocorre o inverso, uma vez que presença de floresta abundante, posse da terra pouco formalizada, instituições fracas e terra barata fazem com que derrubar a mata seja a forma corriqueira de se estabelecer propriedade.&lt;/p&gt;



&lt;p&gt;É essa geografia que aparece em nossos resultados. Nas fronteiras menos alteradas, o crédito à pecuária impulsiona o desmatamento, uma vez que a expansão das pastagens avança sobre a vegetação nativa e o financiamento reduz as barreiras econômicas à derrubada. O efeito é mais forte justamente onde o monitoramento e a regularização são menores, ou seja, em áreas de baixa densidade populacional e alta cobertura florestal. Nesses lugares, um aumento de 1% no crédito para a pecuária está associado a cerca de 0,5% a mais de desmatamento.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O crédito rural não é, em si, nem vilão nem mocinho. Ele amplifica dinâmicas que já existem no território&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O crédito agrícola, por sua vez, impulsiona o desmatamento onde a produção de lavoura está em expansão sobre pastagens já estabelecidas (muitas vezes degradadas) e sobre a floresta remanescente. Nesses locais, um aumento de 1% no crédito se associa a cerca de 0,18% a mais de desmatamento. O padrão revela uma sequência conhecida, pois a floresta é primeiramente convertida em pasto e depois em lavoura. A pecuária abre a fronteira; a agricultura consolida o modelo de ocupação. O crédito acelera cada uma dessas etapas no território onde ela acontece.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;E onde a terra é escassa e a governança é mais forte? Em municípios consolidados, nenhum tipo de crédito rural tem efeito estatisticamente significativo sobre o desmatamento. Pelo contrário: o crédito para a pecuária chega a apoiar a intensificação em vez da expansão. Em consonância com a Borlaug, sem terra barata e com fiscalização atuante, o dinheiro financia produtividade, não a derrubada da floresta.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O que emerge desse quadro é que o crédito rural não é, em si, nem vilão nem mocinho. Ele amplifica dinâmicas que já existem no território. Tratá-lo como ferramenta neutra (ou como fator único de desmatamento) leva a diagnósticos errados e a políticas que podem falhar.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A boa notícia é que esses efeitos não são inevitáveis. A Resolução nº 3.545, editada pelo Banco Central em 2008, condicionou o crédito rural subsidiado, em municípios críticos, à comprovação de regularidade ambiental. O resultado foi a redução do desmatamento sem perda de produção. Vincular o acesso financeiro a exigências de governança transformou o crédito de acelerador em freio — prova de que o desenho da política, não apenas seu volume, molda as decisões de uso da terra.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A implicação do nosso estudo é clara, pois crédito uniforme para uma Amazônia heterogênea produz objetivos em conflito. Faz mais sentido calibrar o instrumento ao território e combiná-lo com outros complementos. Em fronteiras remotas de alto risco, o crédito para a pecuária voltado à expansão deveria ser restringido. Em zonas de transição, o crédito à lavoura deveria ser condicionado para evitar o avanço sobre a floresta remanescente. Em regiões consolidadas, o foco pode ser financiar a produtividade e recuperar terras degradadas. E, transversalmente, pode-se ampliar o crédito apenas onde regularização fundiária, monitoramento e fiscalização já sejam sólidos, investindo em capacidade institucional antes da expansão financeira.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Reconhecer essas diferenças é o que separa uma política que opõe desenvolvimento e proteção da floresta de outra que os alinha. O crédito pode, sim, ser um dos instrumentos poderosos de conservação na Amazônia. Mas só quando responde à pergunta que nosso estudo coloca no centro: não quanto de crédito deve ser destinado, mas sim quando, onde e como.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Patricia G. C. Ruggiero é bióloga com mestrado e doutorado em ecologia pela USP (Universidade de São Paulo). Pós-doutoranda na Faculdade de Saúde Pública da USP. Foi pesquisadora visitante na Sanford School of Public Policy da Duke University. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Paula C. Pereda é professora titular de economia na USP, pesquisadora associada e membro do comitê de pesquisa da Rede PP&amp;S (Rede de Pesquisa em Produtividade e Sustentabilidade) e presidente da Sociedade Brasileira de Econometria (2026-2027). &lt;/p&gt;</_cdata>
      </description>
      <category>Ensaio</category>
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    <item>
      <title>Palavras Cruzadas do ‘Nexo’: 204 anos da Independência</title>
      <link>https://www.nexojornal.com.br/interativo/2026/09/04/palavras-cruzadas-do-nexo-independencia-brasil</link>
      <pubDate>Fri, 04 Sep 2026 22:26:03 GMT</pubDate>
      <description>
        <_cdata>&lt;p&gt;Brasil tornou-se independente de Portugal em 7 de setembro de 1822. Teste seus conhecimentos sobre o tema&lt;/p&gt;
</_cdata>
      </description>
      <category>Interativo</category>
      <dc:creator>Gabriel Zanlorenssi</dc:creator>
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    </item>
    <item>
      <title>5 livros para conhecer a história do surrealismo no Brasil</title>
      <link>https://www.nexojornal.com.br/estante-favoritos/2026/09/04/livro-literatura-surrealismo-brasil-indicacao-de-leitura-guilherme-ziggy</link>
      <pubDate>Fri, 04 Sep 2026 17:35:08 GMT</pubDate>
      <description>
        <_cdata>&lt;p&gt;A convite da seção ‘Favoritos’, o poeta Guilherme Ziggy indica cinco livros de diferentes momentos do surrealismo brasileiro&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O surrealismo chegou ao Brasil muito cedo. Já na década de 1920, a revista Estética abria espaço para ideias surrealistas, mas foi a passagem do francês Benjamin Péret pelo país que estabeleceu uma relação particularmente profunda entre o movimento e a realidade brasileira. Poeta, militante revolucionário e um dos fundadores do surrealismo, Péret viveu no Brasil entre 1929 e 1931 e voltou em 1955, dedicando-se a investigar as culturas populares, as religiões de matriz africana e a história da resistência dos negros brasileiros. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Péret interessou-se por temas como o Quilombo dos Palmares e a Revolta da Chibata, procurando nessas experiências de insubmissão uma dimensão que também estava no centro da aventura surrealista: a recusa da ordem estabelecida e a busca pela liberdade. Mais tarde, nos anos 1940, a escultora Maria Martins se tornaria uma das principais artistas brasileiras ligadas ao surrealismo, desenvolvendo uma obra marcada pelo erotismo e pelo mito e estabelecendo relações com nomes centrais do movimento, como André Breton e Marcel Duchamp.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A partir dos anos 1960, essa aventura ganhou uma dimensão coletiva, com a formação do Grupo Surrealista de São Paulo, do qual participaram nomes como Sergio Lima, Leila Ferraz, Paulo Antonio Paranaguá e Raul Fiker. Em 1967, o grupo organizou, com a ajuda do escritor francês Vincent Bounoure, a 13º Exposição Internacional do Surrealismo em São Paulo, acompanhada pela revista-catálogo A Phala. A experiência encontraria novos desdobramentos nas décadas seguintes, com o grupo surrealista DeCollage, que mantém viva a atividade surrealista no Brasil por meio de encontros, exposições, publicações e intervenções. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Mais do que uma escola ou uma tendência, o surrealismo se afirma, assim, como uma opção do espírito – uma maneira de experimentar a poesia, o desejo, o acaso objetivo (um conceito de André Breton que significa o encontro entre o destino e a vontade humana) e a realidade absoluta. Indico abaixo livros que atravessaram diferentes momentos dessa história.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
Candomblé e macumba 
&lt;p&gt;Benjamin Péret (100/cabeças, 2026)&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;COMPRAR*&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Publicado originalmente como uma série de reportagens no jornal Diário da Noite, entre 1930 e 1931, “Candomblé e macumba” reúne os relatos de Benjamin Péret sobre suas experiências nos terreiros cariocas. Com olhar atento às cerimônias, à cosmologia dos orixás e à vida das comunidades, Péret registra as religiões afro-brasileiras a partir de uma perspectiva ao mesmo tempo investigativa e profundamente poética. A edição da 100/cabeças, traduzida por Bruno Costa, recupera esses textos pioneiros e traz um amplo aparato de notas e referências bibliográficas, que contextualiza a pesquisa de Péret e suas fontes.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
No temporal 
&lt;p&gt;Decio Bar (Massao Ohno, 1965)&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Publicado em 1965, “No temporal” é uma das obras mais radicais da poesia brasileira de sua geração. Decio Bar constrói uma “novel poema” em que narrativa, delírio e poesia se confundem, numa linguagem marcada pela associação livre e pela escrita automática (técnicas de criação em que o autor escreve sem pensar, deixando as palavras fluírem do inconsciente para o papel). Um livro em que o surrealismo se manifesta como experiência de linguagem e liberdade.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
O dia dos cinco orgasmos
&lt;p&gt;Leila Ferraz (MamaQuilla, 2024)&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;COMPRAR*&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Integrante do Grupo Surrealista de São Paulo e uma das organizadoras da 13º Exposição Internacional do Surrealismo, Leila Ferraz é uma figura central da história do movimento. Em “O dia dos cinco orgasmos”, o desejo, o erotismo, o corpo e o maravilhoso se encontram numa poesia radicalmente livre. A edição recupera uma voz fundamental da poesia surrealista no Brasil.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
A aventura surrealista
&lt;p&gt;Sergio Lima (Editora da Unicamp, Editora Unesp e Vozes, 1995)&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Sergio Lima foi um dos principais articuladores do surrealismo no Brasil. Em “A aventura surrealista”, ele reconstrói a história do movimento e sua trajetória brasileira, defendendo o surrealismo como uma opção do espírito — inseparável da poesia, do amor, da liberdade e da transformação da vida.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
Volta 
&lt;p&gt;Claudio Willer (Iluminuras, 2000) &lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;COMPRAR*&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Em “Volta”, Claudio Willer transforma memória, viagem e experiência em matéria poética. A São Paulo dos anos 1960, a poesia, os encontros e a descoberta do surrealismo aparecem entrelaçados numa narrativa em que o acaso objetivo, o desejo e a aventura conduzem o leitor pelo percurso. O livro dialoga diretamente com a tradição narrativa de André Breton, sobretudo com “Nadja”, de 1928,  e “O amor louco”, de 1937, em que a experiência vivida, os encontros fortuitos e o maravilhoso se tornam matéria literária. “Volta” é, assim, o registro de uma vida assumida como experiência surrealista: uma maneira de estar no mundo em que poesia e existência se confundem.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Guilherme Ziggy é poeta, tradutor e editor de obras do ocultismo e do pensamento mágico. Escreveu “Pequena passarela sobre o abismo” (Edições Loplop, 2026) e “Consultas autônomas” (Selo Demônio Negro, 2019), publicado na Argentina em 2025 pela editora Nulú Bonsai. Traduziu Mark Fisher, Claudia Horn, Mark Bray e Caitlin Schroering. É membro do grupo surrealista DeCollage. &lt;/p&gt;</_cdata>
      </description>
      <category>Favoritos</category>
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    </item>
    <item>
      <title>6 facetas de Ursula K. Le Guin, segundo ela mesma</title>
      <link>https://www.nexojornal.com.br/expresso/2026/09/04/ursula-le-guin-autora-obras-livros-ficcao-cientifica</link>
      <pubDate>Fri, 04 Sep 2026 17:29:29 GMT</pubDate>
      <description>
        <_cdata>&lt;p&gt;Livro reúne entrevistas concedidas pela escritora ao longo de 40 anos de carreira&lt;/p&gt;
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  &lt;media:title&gt;
    A escritora Ursula K Le Guin
  &lt;/media:title&gt;
  &lt;media:credit&gt;
    Marian Wood Kolisch/Oregon State University / Wikimedia Commons
  &lt;/media:credit&gt;
&lt;/media:content&gt;
&lt;p&gt;“Sei mais sobre ser mais velha agora e me sinto compelida a escrever sobre isso”, disse Ursula K. Le Guin em entrevista ao jornalista David Streitfeld, que se sentou cinco vezes com a escritora entre 2015 e 2018. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A entrevista com Streitfeld foi a última de Le Guin, vítima de um ataque cardíaco em 2018. Ela integra “Ursula K. Le Guin: a última entrevista e outras conversas”, lançado em julho pela editora Relicário. O livro abrange entrevistas concedidas pela autora ao longo de quatro décadas, em que ela aborda temas como gênero, ficção científica, o processo de escrita e o futuro do planeta Terra.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Neste texto, o Nexo apresenta Ursula K. Le Guin e traz alguns dos trechos do livro.    &lt;/p&gt;



Quem é Ursula K. Le Guin
&lt;p&gt;Ursula Kroeber nasceu em 1929 em Berkeley, Califórnia, filha de dois antropólogos. Sua infância foi permeada por histórias sobre diferentes culturas e mitologias, uma das influências da sua escrita.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Casou-se com Charles Le Guin na década de 1950 e o casal se mudou para Portland, Oregon, onde viveram até o fim da vida. Já assinando como Ursula K. Le Guin, ela publicou em 1966 “O mundo de Rocannon”, seu primeiro romance de ficção científica. Dois anos depois, veio  “O feiticeiro de Terramar”, o primeiro de uma série que a tornou conhecida pelo público.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;“A mão esquerda da escuridão” foi outro marco na carreira de Le Guin. O livro, lançado em 1969, acompanha a trajetória de um visitante da Terra pelo planeta Gethen, povoado por pessoas andróginas que assumem características masculinas ou femininas durante períodos reprodutivos.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;“Eliminei a questão de gênero [em ‘A mão esquerda da escuridão’] para descobrir o que restava”, escreveu a autora num ensaio publicado em 1976. A obra ganhou os dois principais prêmios de ficção científica do mundo, o Hugo e o Nebula, em 1970.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;20&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;é a quantidade aproximada de romances escritos por Ursula K. Le Guin&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;100&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;é a quantidade aproximada de contos escritos pela autora&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Abaixo, o Nexo trouxe algumas citações da escritora retiradas de “Ursula K. Le Guin: a última entrevista e outras conversas”. &lt;/p&gt;
Sobre o rótulo de ficção científica
&lt;p&gt;“É conveniente para a editora – se colocam esse rótulo, é uma venda certa, se você quer saber a verdade nua e crua. É por isso que um rótulo assim não significa mais nada. Eu me sinto muito livre na ficção científica, talvez mais livre para escrever com o rótulo do que sem ele, embora me considere simplesmente uma romancista”&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Ursula K. Le Guin&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;em entrevista a 10 Point 5 Magazine, publicada em 1977&lt;/p&gt;
Sobre conciliar escrita e família
&lt;p&gt;“Eu escrevia quando tinha empregos pelos quais era paga; quando os larguei, ainda tinha um emprego em tempo integral, as crianças e a casa, e mesmo assim escrevia. Quem está fazendo seu trabalho por você, Sr. Escritor em Tempo Integral?”&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Ursula K. Le Guin&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;em entrevista a The California Quarterly, publicada em 1978&lt;/p&gt;
Sobre tecnologia
&lt;p&gt;“Dizer que sou contra a tecnologia me tornaria uma ludita, e isso eu detesto, abomino e temo. As pessoas que acham que podem viver sem as coisas que agora sabemos fazer estão se iludindo. Eu duraria uns cinco dias na mata sem uma boa dose de tecnologia. E além disso gosto de casas e de cidades”&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Ursula K. Le Guin&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;em entrevista a Northwest Review, publicada em 1982&lt;/p&gt;
Sobre filmes de ficção científica
&lt;p&gt;“Esses filmes operam num nível intelectual e moral muito baixo, e em sua cegueira talvez eles cheguem perto dos sentimentos das pessoas, porque eles não são apenas não intelectuais, são anti-intelectuais e de certo modo deliberadamente tolos”&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Ursula K. Le Guin&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;em entrevista a Mother Jones, publicada em 1984&lt;/p&gt;
Sobre ser feminista 
&lt;p&gt;“Foi uma verdadeira mudança de mentalidade. E eu era uma mulher adulta com filhos. E as mães de crianças não eram bem-vindas em meio a muitas das primeiras feministas. Eu estava vivendo um pesadelo. Era mãe. Sabe, sempre há preconceito num movimento revolucionário. Eu sequer tinha certeza se era bem-vinda. E não era, para algumas dessas pessoas. Demorou muito tempo de reflexão até eu descobrir que tipo de feminista poderia ser e por que queria ser feminista”&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Ursula K. Le Guin&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;em entrevista a John Freeman, publicada em 2018&lt;/p&gt;
Sobre a velhice
&lt;p&gt;“A velhice é quando você percebe que não consegue mais fazer o que costumava fazer. Sei mais sobre ser mais velha agora e me sinto compelida a escrever sobre isso. Em parte porque não há muitos velhos na ficção, e eles são tão interessantes quanto os mais jovens.”&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Ursula K. Le Guin&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;em entrevista a David Streitfeld, publicada em 2018&lt;/p&gt;</_cdata>
      </description>
      <category>Expresso</category>
      <dc:creator>Giovanna Castro</dc:creator>
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      <title>Por que o sururu está desaparecendo dos rios do Recife</title>
      <link>https://www.nexojornal.com.br/externo/2026/09/04/pernambuco-recife-poluicao-meio-ambiente-pescador-sururu</link>
      <pubDate>Fri, 04 Sep 2026 17:02:23 GMT</pubDate>
      <description>
        <_cdata>&lt;p&gt;Pescadores pernambucanos enfrentam escassez do marisco. Pesquisadores e comunidades apontam condições de saneamento e presença de lixo como possíveis motivos&lt;/p&gt;
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  &lt;media:title&gt;
    Sururu
  &lt;/media:title&gt;
  &lt;media:credit&gt;
    Arnaldo Sete / Marco Zero
  &lt;/media:credit&gt;
&lt;/media:content&gt;
&lt;p&gt;Enquanto cata sururu na Ilha de Deus num fim de manhã, Cíntia Alves, 49 anos, conta que estava grávida de nove meses do segundo filho quando passou o dia todo na maré. Chegou em casa, tirou a lama do corpo e foi para a maternidade. Criou sozinha os dois filhos com o dinheiro que conseguia vendendo o que pegava na maré. Hoje, diz que isso não é mais possível. Há muitos anos que ninguém mais pega sururu na Ilha de Deus. Para encontrar o marisco, pescadores têm que ir para depois da ponte do Pina: lá para os arredores da escultura de Brennand, na ponte do Limoeiro ou até em Olinda. O sururu, tão amado pelos recifenses, está sob ameaça.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Moradora da Comunidade do Bode, no Pina, outro território pesqueiro do Recife, Juliana Maria dos Santos, de 45 anos, começou a pescar aos sete anos com os pais e segue até hoje. Aprendeu cedo que em época de chuva o sururu diminui. Mas a cada ano essa diminuição tem se acentuado. “Eu fui para a maré ontem [final de julho] e peguei dois quilos de sururu. Isso é muito pouco. Está um bolinho aqui, um bolinho ali. Não é mais como antigamente”, afirma, dizendo que o tempo de procura pelo sururu tem aumentado. “Eu ando duas, três horas para poder achar o sururu e depois mergulhar”.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O sururu vende fácil, mas a margem é curta. Segundo as pescadoras, uma galé cheia rende cerca de três quilos de massa limpa quando o marisco está magro, como está agora. Desses, R$ 30 vão para quem cata. O quilo é revendido por algo entre R$ 25 e R$ 30.&lt;/p&gt;



&lt;p&gt;Em Brasília Teimosa, a marisqueira Edileuza Silva do Nascimento, mais conhecida como Leu, de 72 anos, diz que de vez em quando ainda sai para mergulhar. “Mas sururu não tem mais de jeito nenhum. A gente vai e às vezes não pega um. Marisco a gente só pega um pouquinho, mas não como antes. É muita poluição, muito lixo, muita garrafa pet, muito vidro. A poluição acabou com o rio Capibaribe”, lamenta ela, que, em 2024, recebeu o título de patrimônio vivo do Recife por seu notório saber na pesca.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Os motivos para a escassez do sururu são muitos e nem todos consensuais entre pesquisadores, pescadores e marisqueiras. O mais citado é a falta de saneamento, somada ao lixo despejado no estuário e ao assoreamento dos rios. Mas há também o que não se resolve localmente: o aquecimento dos oceanos e a alteração no regime de chuvas, efeitos das mudanças climáticas. Entram na lista ainda a pesca de mariscos pequenos demais e o possível aparecimento de uma espécie invasora.&lt;/p&gt;
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  &lt;media:title&gt;
    Pescadores têm que ir cada vez mais longe para achar sururu
  &lt;/media:title&gt;
  &lt;media:credit&gt;
    Arnaldo Sete / Marco Zero
  &lt;/media:credit&gt;
&lt;/media:content&gt;
&lt;p&gt;“Na bacia do Pina existe pelo menos uma dúzia de causas para a quantidade de sururu variar, e elas atuam simultaneamente”, diz a oceanógrafa Mônica Costa, professora e pesquisadora da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Mônica Costa afirma que as reclamações sobre a escassez do sururu no Recife são válidas, mas não são novas. “Se a gente for buscar nos registros, desde o século XIX que os pescadores estão falando disso. O que não diminui a importância do alerta, porque eles estão lá todo dia, estão vendo que as coisas mudam”, diz. “Qualquer dia, ou semana, ou mês que os pescadores voltam para casa com menos do que o esperado forma um rombo enorme num orçamento que já é muito pequeno”, acrescenta.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A oceanógrafa explica que as mudanças que têm acontecido no estuário são importantes, principalmente o acúmulo de sedimentos. Mas não adianta apenas fazer dragagens em pontos específicos, já que toda a bacia do rio Capibaribe está comprometida. Dragagens, sozinhas, não resolvem o problema.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;“Desce muita terra para os rios por causa da erosão, da falta de mata ciliar e isso acaba assoreando a bacia. Essa mudança é silenciosa. Vai acontecendo aos pouquinhos e quando você vê está tudo diferente. A questão do Capibaribe tem solução técnica conhecida, mas não tem solução política. O problema não é só no Recife. O problema é integrado, desde lá de Poção até aqui embaixo”, afirma Mônica Costa, acrescentando que a revitalização do rio é um projeto longo, que ultrapassa o ciclo eleitoral: “precisa de uma política pública que amarre o pé e a mão do governador e dos prefeitos, com obrigação de fazer, porque quatro anos não é suficiente”.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O biólogo Gilberto Rodrigues, professor de ecologia na UFPE, explica como as mudanças nas chuvas e o assoreamento dos rios influenciam na quantidade de sururu disponível. “O sururu precisa de uma variação de tempo dentro e fora da água para se reproduzir e crescer. No período em que ele está submerso, ele se alimenta e engorda. No período em que está fora da água, ele metaboliza. O sururu ou está ficando muito tempo no seco, sem se alimentar, ou está ficando muito tempo dentro d’água e não consegue metabolizar o alimento e acaba morrendo”, diz. Essa falta de equilíbrio também é a provável causa da diminuição do tamanho do marisco. “Não se pega mais sururu gordo”, afirma.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Para Mônica Costa, as mudanças climáticas podem ser a “pá de cal” na pesca artesanal do Recife. “A tendência é que a água vá ficando mais quente, e água quente significa menos possibilidade de sobrevivência. As espécies não conseguem se adaptar tão rápido quanto a mudança acontece”, diz. “É possível que a atividade pesqueira exista, desde que ela não seja a principal fonte de renda”, acrescenta, afirmando que o mais urgente é uma solução social e econômica, que garanta a dignidade das famílias pesqueiras mesmo em períodos de baixa produção.&lt;/p&gt;
Projeto analisa situação da pesca artesanal no Nordeste
&lt;p&gt;Nenhum órgão público registra quanto sururu sai dos estuários do Recife. A estatística pesqueira nacional ficou 13 anos sem ser publicada e o painel lançado pelo Ministério da Pesca em 2025 não inclui a pesca de mariscos catados em rios urbanos.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Uma pesquisa do projeto Rede Maris, com financiamento do CNPq, está aprofundando a análise sobre o que está acontecendo com a produção de marisco no litoral nordestino. É um projeto que envolve universidades de todo o Nordeste, como a Universidade de Pernambuco (UPE). A pescadora e estudante de biologia Ana Mirtes Ferreira participou da pesquisa de campo na Ilha de Deus.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;“Acompanhamos os pescadores da Ilha desde agosto de 2025 até julho deste ano e o que vimos é que a pesca está bem precária. Os pescadores dizem que não é mais garantido sobreviver só da pesca na cidade do Recife. Dizem que pegam mais lixo do que sururu. Antes, em questão de uma hora, se pegava até oito baldes, agora passam cerca de três, quatro horas para pegar a mesma quantidade. É mais tempo caçando o sururu do que pescando o sururu”, relatou.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Outra angústia que a pesquisa capturou é que os pescadores e pescadoras não pretendem repassar os saberes tradicionais para seus filhos. “Não é porque é uma profissão que traz vergonha, e sim pela falta de segurança, de valorização também do próprio produto e também pelo risco de acidente com material hospitalar e material de construção. E muitas vezes o INSS não assegura, não associa os acidentes sofridos à atividade”, disse Mirtes. O projeto Rede Maris teve início em 2024 e a pesquisa completa deve ser publicada no começo do próximo ano.&lt;/p&gt;
Sem defeso, pesca do sururu não tem pausa no Recife
&lt;p&gt;Uma questão delicada para a escassez do sururu é a sobrepesca: quando a retirada do marisco é maior do que sua capacidade de se reproduzir. Pescador de Brasília Teimosa, Rosiélio Pereira de Paula, 80 anos, afirma que hoje há mais gente indo para a maré sem conhecer os ciclos do sururu e quando ele deve ser retirado ou não. “Tem muita gente que vai só para pegar e vender, sem ninguém para ensinar”, queixa-se.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;As próprias lideranças reconhecem que a sobrepesca é hoje um dos muitos problemas do sururu. Edvalda Ramalho, mais conhecida como Valma, preside a Colônia de Pescadores Z-20, de Igarassu, que tem quase sete mil associados, sendo 90% deles mulheres marisqueiras. “Quando se passa a pegar o marisco que não está no tamanho ideal, passa a ser pesca predatória. O que vai acontecer é o maior impacto ambiental e o reflexo é acabar o sururu”, conclui.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;É esse impasse que a oceanógrafa Mônica Costa, da UFPE, tem em vista quando fala do papel da própria pesca na escassez. “Da mesma forma que eu compreendo que existe um lado fraco da corda, eles também estão puxando a corda”, afirma. “A pesca artesanal é uma questão de saber tradicional. Se você não se apropria desse saber, você ajuda a detonar o recurso.”&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Ela se refere às regras que os pescadores mais velhos seguiam e que hoje estão se perdendo, como deixar uma área descansar depois de ter sido explorada. De família pesqueira, Jandira Rodrigues, da Comunidade do Bode, descreve como funcionava: quando acabava o sururu num ponto, todos corriam para outro, e quando voltavam, dias depois, o primeiro já tinha se recomposto. “Hoje não tem nem aqui, nem lá”, lamenta.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O problema é que ninguém pode parar. “O marisco se reproduz o ano todo e migra. Porém, no período chuvoso ele se reproduz mais ainda. Mas não é respeitado esse período. Porque o pescador, se não pescar, vai sobreviver de quê?”, questiona Valma. “Como é que eu vou proibir o pescador? Eu não tenho poder para isso, não é minha competência. Mas para eles deixarem de pescar e ser proibido, tem que ter um defeso. Tem que receber”, cobra a presidente da colônia.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A comparação que ela faz é com a lagosta, que tem defeso instituído e seguro pago pelo governo federal. “Os pescadores de lagosta ficam em casa, recebendo um salário mínimo”, diz. Para o marisco e o sururu, o que existe é apenas o Chapéu de Palha, um programa estadual que beneficia também pescadores e pescadoras artesanais.&lt;/p&gt;
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  &lt;media:title&gt;
    Beneficiamento do sururu está mais demorado e expõe marisqueiras a riscos de saúde. Na foto, Cíntia e Edilene, da Ilha de Deus
  &lt;/media:title&gt;
  &lt;media:credit&gt;
    Arnaldo Sete / Marco Zero
  &lt;/media:credit&gt;
&lt;/media:content&gt;
&lt;p&gt;Sandra da Silva Lima, presidente da colônia de pescadores Z-1, no Recife, conta que já foram feitas várias reuniões para que esse defeso seja estabelecido, mas falta apoio político. “Nesse período de chuvas, são quatro meses que a gente tem o programa Chapéu de Palha, que não impacta muito devido a alguns vínculos que tem com o Bolsa Família”, explica. “O defeso seria justamente para esse período mais difícil para as marisqueiras, para que elas pudessem manter suas casas”, cobra.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Representante voluntária da colônia Z-1 na Ilha de Deus, Érika Romão explica que há desconto no Chapéu de Palha para quem é beneficiário do Bolsa Família. “Acho que isso é uma injustiça. Eu e meu esposo somos pescadores: sou do Bolsa Família e ele é do meu cadastro. Recebe só R$ 150. Eu tenho uma irmã, também pescadora, que recebe pouco mais de R$ 380, porque ela não tem Bolsa Família”, explica. “Eu já acho um dinheiro tão pouco. Porque não dá para sobreviver com um salário direito, imagina com R$ 150″.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Procurado pela reportagem, o Governo de Pernambuco confirmou, por meio da Secretaria de Planejamento, Gestão e Desenvolvimento Regional (Seplag), que há um teto menor para quem recebe o Bolsa Família. O benefício do Chapéu de Palha no segmento da pesca artesanal é de até R$ 387,94, pagos em até cinco parcelas. Para quem também for beneficiário do Bolsa Família, o governo do estado paga apenas R$ 150, valor definido como bolsa mínima pela Lei nº 14.492/2011.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Sobre o pedido das colônias para desvincular os dois programas e equiparar o valor a um salário mínimo, a Seplag não informou se há avaliação em curso. Respondeu apenas que, em 2023, a legislação foi alterada para aplicar reajuste de aproximadamente 38% e acrescentar uma quinta parcela ao programa. Em 2026, foram beneficiadas 6.032 pessoas em 58 municípios, sendo 600 no Recife, com investimento de aproximadamente R$ 6,4 milhões. O pagamento vai de maio a agosto, período que, segundo a secretaria, corresponde à escassez natural dos estoques de sururu e marisco no litoral e aos meses mais chuvosos.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Para receber o benefício é preciso comprovar a atividade por meio do Registro Geral da Pesca, emitido pelo órgão federal, e não estar recebendo aposentadoria ou pensão do INSS, seguro-desemprego ou seguro-defeso. Não há previsão para quem cata e beneficia o pescado sem registro, que é a situação de parte das mulheres ouvidas nesta reportagem.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Questionado sobre ações do estado diante da queda na produção da Bacia do Pina, seja de apoio à renda, saneamento ou dragagem, o Governo de Pernambuco não respondeu: limitou-se a dizer que as ações do Chapéu de Palha seguem o que estabelece a lei do programa.&lt;/p&gt;
Lixo dá mais trabalho no beneficiamento do sururu
&lt;p&gt;Para se fixar em pedras, pontes e cascos de navio, o sururu produz um filamento de proteína que endurece em contato com a água, o bisso. Esses fios também prendem os indivíduos uns aos outros, formando um “tapete” no leito do estuário. Quando mergulham, os pescadores trazem à superfície a manta inteira. E como o sururu não escolhe onde se fixar, vem junto o lixo que se acumulou no fundo: embalagens, caco de vidro, até agulhas.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Em todas as catações que a Marco Zero registrou na Ilha de Deus e no Bode havia muito lixo. E isso faz com que o trabalho das catadoras, quase sempre mulheres, demore muito mais. “Antigamente o sururu vinha limpinho. Agora a gente tem que estar com cuidado para não pegar uma agulha, para não pegar um vidro”, diz Edilene Maria Alves da Silva, 58 anos, nascida e criada na Ilha de Deus.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Antes de ser vendido, e depois da catação para separá-lo do lixo, o sururu é fervido, para a abertura da casca, retirado na unha e novamente catado. Se antes era comum ver muitas mulheres na maré, hoje elas ficam mais nas etapas feitas em terra. “As mulheres não estão indo pescar. A maioria está catando. Os homens vão na baiteira, recolhem, trazem para elas beneficiarem. Eles é que fazem o mergulho. Tem algumas mulheres que vão, mas hoje 80% são homens”, detalha Sandra da Silva Lima, da colônia Z-1.&lt;/p&gt;
Espécie invasora pode ameaçar o sururu nativo
&lt;p&gt;Nas muitas entrevistas realizadas para esta reportagem, vários pescadores e pescadoras citaram um sururu que “não prestava para comer” ou um “sururu branco”. “O sururu que dá junto do shopping Rio Mar é aquele sururu branco, que não tem carne, nem nada. Não adianta pegar ele. Está lastrado lá, mas de sururu branco”, contou Juliana Maria dos Santos.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O professor Gilberto Rodrigues acredita que pode se tratar de uma espécie invasora, já registrada em Alagoas. “Eu ainda não tenho o registro dele no Recife, mas não significa que ele não esteja aqui”, diz.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Marisqueiras ouvidas pela Marco Zero dizem que o sururu branco não é tão saboroso quanto o sururu nativo. Os relatos de Alagoas, onde mais de 3 mil pessoas sobrevivem da pesca do sururu, afirmam que é um marisco de casca fina e que se desfaz ao ser cozinhado, o que inviabiliza o consumo e a venda, causando prejuízo econômico.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Pesquisa da Universidade Federal de Alagoas (Ufal) mostrou que o sururu branco tolera melhor do que o nativo as condições da água poluída: pouco oxigênio, muito sedimento, salinidade e temperatura altas. Isso pode ser uma vantagem no estuário do Recife. E como as duas espécies ocupam o mesmo habitat, o risco é que o branco vença a disputa.&lt;/p&gt;
Infecções, lesões e sol: os riscos do trabalho das marisqueiras
&lt;p&gt;A saúde também é cobrada. Edilene reclama que não enxerga mais bem no sol. Cíntia Alves parou porque não aguentava mais as dores no corpo. Mesmo na catação há riscos. Edilene estende as mãos recém-curadas de feridas que coçavam muito. Foram duas semanas afastadas do beneficiamento do sururu, com uma doença dermatológica que ela acredita ter contraído separando o sururu do lixo e da lama poluída. “A médica disse que era germe da lama”, conta. “Sou nascida e criada aqui na Ilha de Deus, sempre pesquei e nunca peguei essas coisas, nunca tive esse negócio de germe, nada. Estou com medo que volte de novo. Recomendaram a luva, mas eu não sei trabalhar com luva”, afirma.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Mestre em saúde pública, Alyne Nascimento afirma que é preciso pensar em soluções coletivas para proteger a saúde das marisqueiras. “É muito difícil a gente chegar e falar: precisa usar luva. Na verdade, o debate precisa ser outro, para além disso: precisamos muito mais dar atenção às questões coletivas, à raiz do problema, que é a questão da poluição, do que focar no risco individualmente”, afirma a biomédica e sanitarista, que pesquisa na Ilha de Deus desde 2020, quando participou de inquérito epidemiológico sobre os impactos do derramamento de óleo de 2019 no litoral pernambucano.&lt;/p&gt;
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  &lt;media:title&gt;
    O trabalho de beneficiamento do sururu é majoritariamente feito por mulheres
  &lt;/media:title&gt;
  &lt;media:credit&gt;
    Arnaldo Sete / Marco Zero
  &lt;/media:credit&gt;
&lt;/media:content&gt;
&lt;p&gt;Pós-doutorando em saúde pública na Fiocruz Pernambuco, o pesquisador José Erivaldo Gonçalves participou da condução de uma cartografia com pescadoras da Ilha de Deus, dentro do Laboratório de Saúde, Ambiente e Trabalho da Fiocruz. “Quando elas foram mapeando os lugares que pescavam sururu, esses lugares estavam muito interligados aos lugares que têm água poluída, que têm o despejo de esgotos naquela região”, afirmou.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Foram identificados vários problemas de saúde por conta do trabalho na maré, como infecções geniturinárias recorrentes. “Há também muitos problemas dermatológicos, inclusive o câncer de pele. Muitas vezes não usam protetor solar, porque é caro. O que muitas mulheres fazem é passar querosene na pele, por conta dos mosquitos que têm no mangue. Então, é mais um processo de exposição a hidrocarbonetos. Ao mesmo tempo que elas se dizem felizes fazendo esse trabalho, ele também é adoecedor”, pondera Erivaldo.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Outro problema encontrado na saúde das mulheres que trabalham ou trabalharam na maré foi por conta da postura durante a coleta dos mariscos. “É um trabalho que exige ficar na mesma posição durante muito tempo. Acaba por ocorrer lesões por esforço repetitivo, doenças osteomusculares”, detalha Alyne.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Com o sururu sob ameaça, o meio ambiente degradado, pescadoras adoecidas e políticas públicas insuficientes, o futuro da pesca artesanal no Recife é incerto. Ao posar para uma foto desta reportagem, Érika Romão teme que a profissão que o pai ensinou a ela vá parar no museu. “Esta foto vai ficar para, no futuro, dizerem: ‘aqui era uma pescadora, isso aqui era um barco, isso aqui era um sururu que existia, mas não existe mais’”, disse. “Quando eu engravidei, há 19 anos, meu pai perguntou: ‘como você vai criar seu filho, pescando?’ E eu criei meu filho na pesca. Hoje em dia eu tenho uma menina de oito anos e eu não sei mais o que é pescar. Vou criar minha filha na pesca? Não dá mais”.&lt;/p&gt;</_cdata>
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      <category>Externo</category>
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      <title>‘Indetectável’: o impacto da aids numa geração de artistas</title>
      <link>https://www.nexojornal.com.br/estante-trechos/2026/09/04/livro-indetectavel-celsim-p-s-literatura-aids-hiv-trecho</link>
      <pubDate>Fri, 04 Sep 2026 16:47:58 GMT</pubDate>
      <description>
        <_cdata>&lt;p&gt;O ‘Nexo’ publica um trecho de ‘Indetectável’, de Celsim P.S. No livro, a autora conta da sua juventude, vivida durante a epidemia de HIV no Brasil, para expor urgências e dores da comunidade LGBTI+&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;7 de novembro de 1994&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Por onde quer que eu comece? Pelo futuro? No futuro haverá remédio, mas não eu. Deixo esta carta para você ler depois de eu ter partido. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Cancelei a apresentação na Alemanha. Estou no hospital, tenho dormido muitas horas seguidas, fico acordado por breves momentos, como agora, quando te escrevo. Meu braço direito está livre dos cateteres, que foram para o braço esquerdo. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Quando nos falamos por telefone e eu te disse que iria para o hospital no dia seguinte, eu ainda andava, mas agora… Faz hoje um mês. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Estava sonhando contigo há pouco, estávamos em Niterói, no Rio de Janeiro, naquela praia sem areia, praia de pequenas pedras brancas sem arestas, polidas, gostosas de pisar, de sentar, o mar na frente a chamar a gente. Você fumava um baseado da lata, lembra a maconha da lata, o Verão da Lata? Eu cantava para você… você pedia para cantar mais uma vez e depois mais uma vez e mais e mais… Cantava “Surabaya Johnny”, do Brecht &amp; Weill e, de repente, uma onda do mar mais forte chegou e lambeu nossos pés, que água gelada! Se não fosse a onda que me acordou, creio que ficaríamos mais doze horas no silêncio entre o mar e a canção, sentados ali de frente para a África na latitude de Angola ou de Nairóbi do outro lado do Atlântico, como você dizia. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Parece que sempre acabei de te conhecer, sinto tanta coisa misturada com o medo de morrer sozinho, sua presença ausente, não sinto mais saudades de um futuro. Sinto que sempre te amei, mesmo antes de conhecer teu olhar para o mundo como se fosse o último segundo, tão semelhante. Sinto saudade da minha mãe e de você. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Minha mãe não conseguiu vir me visitar, ela ficou doente, doente de cuidar do filho dela… Que saudade da minha mãe! &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Antes de vir para o hospital, minha mãe me fazia carinho, mas não falava mais comigo, como se tivesse receio de chorar ao falar, e quando falava minha mãe dizia: Quer um pouco de água, meu filho, quer, Dionísio? Aceitava por gentileza e molhava a boca quando conseguia segurar o copo e, quando não conseguia segurar, minha mãe me dava uma colher de sopa cheia de água, doía engolir até água; uma hora vou parar de falar, falar dói. Celso, vou morrer sem ver minha mãe, eu sei; mas quero tanto te ver, vem me visitar, por favor. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Minha irmã e a Carmem estão se revezando para não me deixar sozinho, e a Norma fica durante a noite toda. Estou num quarto coletivo neste hospital. O médico e algumas enfermeiras daqui têm medo da aids dos pacientes, eu queria ir para o outro hospital. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Lembrei de quando você disse que meus lábios pareciam um suculento bife de contrafilé… estou sorrindo! Renata não entendeu, lembra? Achou grosseiro, te chamou de açougueiro, e você respondeu: Açougueiro, não, filho de açougueiro alimentado com bifes, alho e sal. Bifes crus. Amo essa imagem da minha boca comestível e comedora.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Querido, tenho medo de perguntar… há meses reluto e adio a pergunta… Não sei se você virá me visitar antes, ante… &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Você também…? &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Meu amor, Celso, paro por aqui, não consigo mais escrever, muito cansado… &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Te amarei eternamente, e ainda depois. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Do seu Gal. Dionísio, o Dindi. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;São Paulo, 13 de dezembro de 2024. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Querido irmão Dionísio, meu Dindi &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Passados quase vinte e três anos, reli sua carta em fevereiro de 2017, após ter recebido o novo remédio, através do SUS. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Te amarei eternamente, e ainda mais depois deste livro. Te escrevo de um futuro possível, o único que conseguimos, este presente em que te presentifico. Você estava certo, agora tem remédio, e a aids, antes fatal, agora é uma doença crônica e controlável. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Em 2017, eu olhava durante uma semana toda para o remédio que tanto desejava tomar desde 1984 — um antirretroviral que impedia a infecção do vírus HIV —, mas não tomava a pílula. Chorava. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Chorava sem entender, chorava e falava com você, Dindi, pedia desculpas sem entender. Fazia uma semana que chorava durante o café da manhã, olhando para o frasco de remédio. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Dionísio, me perdoa, mas o remédio não existia… Vou vingar sua dor de garganta, a dor nos seus pés, a tosse interminável, sua febre, a angústia dos primeiros anos das nossas vidas jovens jogadas no labirinto da doença e da vergonha, as feridas, vou vingar a sua existência… Vou escrever, um dia vou escrever sobre a alegria que foi te conhecer, sua inteligência e arte. Vou vingar meu irmão. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Algumas dessas frases eu só pensava, eram de uma voz interior, a maioria delas eu falava em voz alta enquanto chorava e não tomava o remédio. Depois de uma semana, sentei pra tomar café e reli sua última carta, abri o frasco do remédio, peguei uma pílula entre os dedos, ergui a mão na altura dos olhos. Engoli a pílula com um gole de café, engoli o antirretroviral que tornaria meu corpo quimicamente impenetrável para o HIV, indetectável choro. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Dionísio, te conheci em 1987 e você morreu em 1994, fiquei com um buraco, órfão de irmão. Você morreu dois anos antes de surgirem os primeiros antirretrovirais da nova geração, que mudaram tudo. Sou três anos mais novo que você, mas idade não fazia diferença, a aids atravessou nossas vidas e a das pessoas mais velhas com a mesma implacabilidade. A mesma implacabilidade com que você desejou e viveu a sua vida e sua arte, na velocidade do som. Você sempre teve uma pressa singular, bem distinta da pressa dos nossos amigos jovens, e nisso nos aproximamos também e nos tornamos amigos acelerados, mas de formas diferentes. Você se iniciou sexual e amorosamente sem associar o sexo, o prazer e o mistério íntimo à morte, eu não; mas me iniciei nos mistérios da vida, da arte e da morte, em todas elas ao mesmo tempo. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Prometo ser implacável comigo para escrever sobre nós, prometo me inspirar nas nossas cartas, publicá-las e delas inventar o viver em tempos sem esperança, mas tendo como um sopro no coração a arte e a imaginação, o corpo e o movimento, o amor e a queda livre que é estar no mundo sem fundo e sem futuro. Só nos resta viver. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Conhecia a morte desde os cinco anos, quando minha tia-avó Maria morreu, irmã do meu avô materno. Dos cinco aos dezesseis anos não enterrei ninguém. Dos dezesseis aos vinte e nove anos enterrei dezenas de amigos, alunos, irmãos dos meus amigos, amigos dos meus amigos mais velhos, namorados dos amigos da minha idade e você, meu irmão Dindi, todos vítimas da aids. O primeiro enterro foi o do arquiteto e diretor de arte Flávio Império, o melhor amigo da Myriam Muniz, minha tutora, em 1985. Cerca de um ano e meio depois, cheguei a ir ao cemitério duas vezes em uma semana. Aos dezoito anos, já assistente da Myriam, enterrei um aluno da mesma idade que eu. Foi um massacre. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O desmassacre é o que desejo escrever. Essa história não será esquecida, mas também não será julgada. Não há como julgar o que escapa do inferno cantando e invocando o prazer como antídoto.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Seu Sim.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Indetectável&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Celsim P.S.&lt;br/&gt;
Fósforo&lt;br/&gt;
312 páginas&lt;/p&gt;</_cdata>
      </description>
      <category>Trechos</category>
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    </item>
    <item>
      <title>A guerra de relatórios no Supremo, segundo 2 análises</title>
      <link>https://www.nexojornal.com.br/expresso/2026/09/04/fachin-retira-moraes-e-mendonca-inquerito-fake-news-relatorios</link>
      <pubDate>Fri, 04 Sep 2026 16:21:35 GMT</pubDate>
      <description>
        <_cdata>&lt;p&gt;Edson Fachin retira investigação sobre atuação de André Mendonça do inquérito das fake news, relatado por Alexandre de Moraes. Decisões dos ministros se pautaram em análises da Polícia Federal&lt;/p&gt;
&lt;media:content url="https://nexo-uploads-beta.s3.amazonaws.com/wp-content/uploads/images/2026/09/55504524063_8ce5287c14_k.webp" type="image/webp" medium="image"&gt;
  &lt;media:title&gt;
    Os ministros do STF André Mendonça e Alexandre de Moraes, em sessão plenárias
  &lt;/media:title&gt;
  &lt;media:credit&gt;
    Antonio Augusto / Flickr/STF - 02.09.2026
  &lt;/media:credit&gt;
&lt;/media:content&gt;
&lt;p&gt;O presidente do Supremo Tribunal Federal, Edson Fachin, determinou a retirada da investigação sobre a atuação do ministro André Mendonça do inquérito das fake news nesta sexta-feira (4). A solicitação havia sido feita por Alexandre de Moraes, relator da apuração sobre ataques ao Supremo desde 2019, e será incluída em novo processo com relatoria do presidente da corte. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O embate entre os ministros escalou após Mendonça determinar a retirada do sigilo, na terça-feira (1°), de troca de mensagens de Moraes com Daniel Vorcaro, banqueiro preso durante a Operação Compliance Zero, que investiga fraudes no sistema financeiro nacional e revelou o escândalo do Banco Master. Após a medida, Moraes pediu a investigação contra o colega do Supremo por improbidade administrativa, abuso de autoridade e crime de responsabilidade. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Neste texto, o Nexo apresenta os relatórios da Polícia Federal que balizaram as decisões de Mendonça e Moraes e conversa com especialistas sobre os poderes de investigação de ministros do Supremo. &lt;/p&gt;
O relatório da PF apresentado por Mendonça
&lt;p&gt;No âmbito da petição 16.662, André Mendonça levantou o sigilo de diferentes arquivos e mensagens encontrados pela Polícia Federal no celular de Daniel Vorcaro. De acordo com o relatório de mais de 200 páginas da PF, o banqueiro salvou um contato de Alexandre de Moraes em seu telefone em 26 de dezembro de 2023, depois de o número ter sido enviado pelo empresário Fábio Faria, ex-ministro das Comunicações de Jair Bolsonaro (PL). &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A análise da PF documenta que Vorcaro e Moraes se encontraram pessoalmente em pelo menos seis ocasiões desde então. As trocas de mensagens entre os dois seguiam um padrão de capturas de tela de textos escritos no aplicativo notas, enviadas em visualização única. Os investigadores conseguiram acessar as mensagens enviadas pelo banqueiro, mas não as respostas do ministro. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A partir de setembro de 2025, Moraes ativou o recurso de mensagens temporárias no chat com Vorcaro, excluindo-as após 24 horas. Na época, os dois tinham um canal direto sobre as apurações das quais o banqueiro era alvo.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Vorcaro incentivou a interferência de Moraes contra a liquidação do Master pelo Banco Central, além de pedir aconselhamento jurídico sobre o caso. Ainda segundo o relatório da PF, o banqueiro consultou o ministro sobre a possibilidade de deixar o país para escapar da prisão. Dois dias depois, ele foi preso pela Polícia Federal enquanto tentava embarcar num jato particular para Malta, na Europa, e depois para Dubai, nos Emirados Árabes Unidos. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O relatório da Polícia Federal também indica que Moraes foi a última pessoa a revisar, em 11 de janeiro de 2024, a minuta de um contrato de R$ 131 milhões firmados entre o Banco Master e o escritório Barci de Moraes Sociedade de Advogados, dirigido pela esposa do ministro, a advogada Viviane Barci de Moraes. A existência do contrato foi revelada pelo jornal O Globo em dezembro de 2025. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Os investigadores obtiveram a informação da edição do ministro no documento por meio da análise forense dos metadados dos arquivos de PDF trocados entre Viviane e Vorcaro via WhatsApp.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O relatório da PF também traz detalhes de uma relação de proximidade e trânsito de influência entre Vorcaro e o procurador-geral da República, Paulo Gonet. No sábado (5), a Associação Nacional dos Delegados de Polícia Federal pediu que o procurador-geral se declare impedido de atuar na apuração de atos em que é citado.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Mendonça solicitou, em sua petição, que os novos elementos do caso fossem julgados no plenário do Supremo, como uma forma de analisar as informações “de modo técnico e estritamente jurídico”. No domingo (6), o ministro liberou para julgamento em plenário o caso envolvendo Moraes e Vorcaro. A decisão sobre se e quando o relatório será analisado cabe a Fachin, presidente da corte, que também deverá determinar se a sessão será aberta ou fechada.&lt;/p&gt;
O relatório da PF apresentado por Moraes
&lt;p&gt;Em 3 de setembro, dois dias após a decisão de Mendonça, Alexandre de Moraes encaminhou a Edson Fachin um pedido de investigação contra seu colega do STF. No requerimento, ele pede para inserir o ministro no inquérito das fake news por identificar o “intuito de atribuir e/ou insinuar a prática de atos ilícitos por membros da Suprema Corte”, com o vazamento de dados sigilosos.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;No pedido, Moraes cita relatórios de inteligência da Polícia Federal em que aparecem os nomes de cinco ministros do STF: além dele, de Gilmar Mendes, Dias Toffoli, Luiz Fux e Kassio Nunes Marques. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Segundo o ministro, os documentos teriam identificado uma série de condutas irregulares e ilegais de Mendonça na condução da investigação da Operação Sem Desconto, que investiga um esquema de descontos ilegais em benefícios concedidos pelo INSS (Instituto Nacional do Seguro Social), e da Compliance Zero. Moraes disse que houve quebra de imparcialidade judicial e favorecimento a determinados grupos políticos em práticas como:&lt;/p&gt;

usurpação da direção das investigações das autoridades policiais
condução irregular das tratativas de eventual colaboração premiada
direcionamento de determinados alvos para investigação (o ministro Alexandre de Moraes e o senador Davi Alcolumbre), por motivos pessoais e políticos

&lt;p&gt;No despacho, Moraes afirma que Mendonça ultrapassou sua atuação como julgador e atuou como investigador. Segundo o ministro, o relator dos casos do INSS e do Banco Master interferiu no fluxo de trabalho da PF, acessou dados brutos da investigação e reduziu a supervisão técnica de delegados. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A imprensa teve acesso a pelo menos um dos relatórios de inteligência usados por Moraes. No cabeçalho do documento, que não traz a assinatura de nenhum delegado, está escrito que o arquivo é de “difusão restrita, sem caráter decisório e sem valor probatório”. Ainda segundo o texto, o documento serve apenas para “sustentar decisão de gestão em ambiente de informação incompleta.”&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Fachin desentranhou o pedido de investigação contra Mendonça do inquérito das fake news. E, em fala nesta sexta-feira (4), defendeu o fim da apuração, que já leva sete anos. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;“Não haverá precipitação, mas tampouco omissão. A resposta institucional será firme, proporcional e rigorosa. Os acontecimentos recentes demonstram o acerto e a urgência de três metas de nossa gestão: a adoção de um código de ética, o fim do inquérito das fake news e a modernização do sistema de Justiça”&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Edson Fachin&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;presidente do Supremo Tribunal Federal, em evento nesta sexta-feira (4)&lt;/p&gt;
O poder de investigação do Supremo
&lt;p&gt;O Nexo conversou com dois constitucionalistas sobre a crise do STF e os poderes de investigação de ministros. São eles: &lt;/p&gt;

Juliana Cesario Alvim, professora de direito constitucional da Uerj (Universidade Estadual do Rio de Janeiro) e da Central European University
Thomaz Pereira, doutor em direito pela Universidade de Yale, nos Estados Unidos, e especialista em direito constitucional 

&lt;p&gt;Como avalia a tentativa de Moraes de pedir uma investigação contra Mendonça no âmbito do inquérito das fake news? E como avalia a reação de Fachin?&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Juliana Cesario Alvim A iniciativa de Moraes me parece mais um capítulo – e talvez um ponto particularmente grave – de um processo que já vem se desenrolando há alguns anos. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O STF enfrenta hoje uma crise de legitimidade alimentada pela combinação de diferentes fatores: questionamentos sobre condutas individuais de ministros e suas relações com atores políticos e econômicos, uma concentração excessiva de poderes nas mãos de ministros e uma expansão muito significativa do uso de instrumentos de natureza criminal pela própria corte.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A reação rápida de Fachin é importante justamente porque sinaliza uma tentativa da presidência de reafirmar limites institucionais e impedir que conflitos envolvendo os próprios ministros sejam administrados por meio desses poderes excepcionais de investigação. O episódio expõe, portanto, algo maior do que uma divergência entre ministros: revela uma crise em torno dos limites de poderes que o próprio Supremo expandiu e que agora encontra dificuldades para controlar.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Thomaz Pereira Parece completamente inadequado que isso seja feito nesse inquérito, que já tem diversos problemas em sua origem, amplitude e continuação. É um inquérito que foi aberto num momento em que o Supremo se dizia ameaçado, sob ataque e diante da inércia das instituições, notadamente da Procuradoria-Geral da República. Anos depois, ele continua aberto com um escopo amplíssimo e sem nenhuma perspectiva de fim.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Além disso, o ministro Alexandre de Moraes pedir a inclusão de um colega seu como uma retaliação por este ter encaminhado ao plenário um inquérito no qual ele seria investigado evidencia ainda mais os problemas com essa apuração. É uma investigação que realmente deveria ser encerrada, não se sustenta mais, e esse incidente evidencia o porquê.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Quanto à ação do ministro Fachin, acho que ele desentranhou isso muito corretamente, tratando como uma questão separada e autônoma. Se existe qualquer impropriedade no comportamento do ministro Mendonça, isso é algo que já seria naturalmente discutido no próprio pedido de abertura de inquérito que ele encaminhou ao plenário. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O que o escândalo Master revela sobre os poderes de investigação de ministros do Supremo?&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Juliana Cesario Alvim O caso Master não surge num vácuo institucional. Os poderes individuais de ministros na condução de investigações foram significativamente ampliados a partir do inquérito das fake news e, posteriormente, dos inquéritos relacionados aos atos antidemocráticos. Naquele momento, havia ameaças concretas e extraordinárias às instituições democráticas que ajudavam a explicar a adoção de medidas também extraordinárias.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Desde então, porém, uma questão central era como delimitar essa excepcionalidade: em relação ao seu objeto, aos poderes que ela autorizava e à sua duração no tempo. Esses limites nunca foram estabelecidos com suficiente clareza.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O que o caso Master evidencia talvez seja o ponto de saturação desse modelo. Poderes construídos para responder a situações excepcionais foram progressivamente normalizados e incorporados ao repertório de atuação individual dos ministros. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O que vemos agora é o risco de uma espécie de implosão desse arranjo: poderes ampliados sem limites institucionais suficientemente claros passam a ser mobilizados em conflitos que envolvem os próprios integrantes da corte. O problema já não é apenas a expansão desses poderes, mas a dificuldade do STF de contê-los, uma vez que foram incorporados à sua prática institucional.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Thomaz Pereira Os conflitos que temos visto há anos na condução de inquéritos dentro do Supremo ganham ainda mais visibilidade. Tanto em relação à atuação do relator como pela sua relação com a Polícia Federal e o Ministério Público, em que o tem que escolher os pedidos ou recomendações a se seguir. Em outros casos, ele mesmo pode tomar algumas atitudes de ofício, como nesse caso. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O que o incidente recente tem de diferente é a discussão sobre a investigação de um ministro do Supremo em relação a outro. Mas isso, em si, não é diferente de discussões que vimos no passado com outros investigados que tiveram seus inquéritos conduzidos no Supremo, seja porque eles têm foro [privilegiado], seja porque estão incluídos dentro de um inquérito que apure outra autoridade.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Qual é a saída institucional para uma crise em que dois ministros do Supremo são alvos de pedidos de investigação? &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Juliana Cesario Alvim É difícil apontar uma saída única, mas ela certamente passa por reformas institucionais que vêm sendo discutidas há bastante tempo, inclusive dentro do próprio Supremo. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A iniciativa do presidente Edson Fachin de propor um código de conduta para os ministros é um exemplo importante, mas a crise atual mostra que talvez seja necessário avançar também sobre questões mais estruturais: os poderes individuais dos ministros, as regras de impedimento e suspeição, a transparência e os limites da atuação criminal da corte.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A questão decisiva agora é saber se o STF ainda tem as rédeas desse processo e conseguirá conduzir sua própria reestruturação. Isso provavelmente exigiria reconhecer problemas e rever práticas que a própria corte consolidou – algo que historicamente tem dificuldade de fazer. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A alternativa é que, diante da magnitude da crise, o Supremo seja atropelado por iniciativas dos demais Poderes. Há uma diferença importante entre uma corte capaz de liderar sua própria reconstrução institucional e uma obrigada a se reformar em resposta a uma crise que já não consegue controlar.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Thomaz Pereira Parece ser claro que o plenário vai ter que avaliar se, de fato, existem elementos suficientes para a abertura desse inquérito. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;De qualquer maneira, acho que a saída é a instituição ser capaz de se apresentar publicamente e convencer que está funcionando de fato. Se há elementos suficientes para a abertura de um inquérito, que seja aberto. Isso não significa que haverá uma denúncia, porque só o Ministério Público que vai poder fazer essa avaliação. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Por mais que a condução de um inquérito sobre a atuação de um dos seus membros seja algo sem precedentes, isso pode demonstrar que o tribunal é capaz de lidar com um problema desses com seriedade e que todos estão igualmente sob a lei e sob a Constituição.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Quanto à questão pessoal, não tem muita solução para isso. Claramente dois ministros estão se digladiando publicamente e institucionalmente. É claro que, em termos de relação pessoal, não parece ter muita saída. Pode ser que, caso ambos continuem no tribunal, apenas o tempo consiga estabelecer uma relação minimamente profissional entre eles.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Mas essa não é a questão institucional para o Supremo. A questão institucional é se houve algum problema na condução desse inquérito. [Espero] que o colegiado seja capaz não só de apontar isso com clareza, mas deixar claro quais são as regras para que isso não aconteça de novo. Se há de fato elementos para abertura de um inquérito, que ele seja conduzido adequadamente. Não há saída rápida.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Toda essa crise afeta a percepção pública da legitimidade e da aprovação do tribunal. Só a atuação consistente e coerente no decorrer do tempo pode melhorar sua aprovação e credibilidade diante da população. O que dá para fazer no curto prazo é sinalizar que as regras estão sendo seguidas e ninguém está acima do direito.&lt;/p&gt;</_cdata>
      </description>
      <category>Expresso</category>
      <dc:creator>Lucas Zacari</dc:creator>
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    <item>
      <title>O que a ascensão das universidades chinesas tem a nos ensinar</title>
      <link>https://www.nexojornal.com.br/externo/2026/09/04/pesquisa-universidade-educacao-china-ranking-arwu</link>
      <pubDate>Fri, 04 Sep 2026 14:32:30 GMT</pubDate>
      <description>
        <_cdata>&lt;p&gt;Instituições da China avançam em rankings internacionais. Investimento público em ciência e tecnologia ajuda a explicar movimento&lt;/p&gt;
&lt;media:content url="https://nexo-uploads-beta.s3.amazonaws.com/wp-content/uploads/images/2026/09/Main_building_of_Tsinghua_University.webp" type="image/webp" medium="image"&gt;
  &lt;media:title&gt;
    Universidade Tsinghua, na China
  &lt;/media:title&gt;
  &lt;media:credit&gt;
    そらみみ (Soramimi) / Wikimedia Commons
  &lt;/media:credit&gt;
&lt;/media:content&gt;
&lt;p&gt;Em sua primeira edição, realizada em 2003, o ARWU (Academic Ranking of World Universities), dedicado a classificar as principais universidades do mundo, destacou a USP entre as 200 melhores instituições do mundo, mas não trouxe nenhuma universidade chinesa no topo. Pouco mais de duas décadas depois, a posição do Brasil no ranking segue bem parecida. Já na China, o cenário mudou completamente.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Em 2003, a Universidade Tsinghua estava no grupo das 201-250 melhores universidades do mundo, de acordo com a classificação do ARWU, que também é conhecido como Ranking de Shanghai (a listagem foi feita inicialmente por uma equipe de acadêmicos da Shanghai Jiao Tong). A Universidade de Pequim figurava na sequência, no grupo das 251-300 melhores universidades globais. Ambas ficavam “atrás” da USP, que estava no grupo das 152-200 melhores do mundo naquela época.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Na última edição do ranking, publicada em setembro, no entanto, a China contava com três universidades no chamado primeiro quartil da listagem: Tsinghua (18º lugar no mundo), Pequim (23°) e Zhejiang (24°) — uma ascensão sem paralelos. A USP ainda é a única instituição brasileira entre as 200 melhores universidades do mundo: no último ARWU, figura no grupo das 101-150 melhores universidades globais.&lt;/p&gt;



&lt;p&gt;A posição da USP na classificação, vale destacar, impressiona. Apesar de ser uma das maiores e mais antigas universidades do Brasil, ela está entre as instituições mais jovens no topo da classificação mundial — e compete na produção científica em nível de igualdade. Para ter uma ideia, Harvard (EUA), a melhor universidade do mundo no ARWU desde a primeira edição da listagem, foi fundada em 1636.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;É claro que rankings universitários como esse — e como as muitas listagens globais que surgiram depois dele — trazem um retrato parcial e questionável da educação superior no mundo. No caso do ARWU, por exemplo, os indicadores principais são prêmios internacionais de alto prestígio, como o Nobel e a Medalha Fields (dedicada à pesquisa em matemática), volume e impacto de publicações científicas. Então, são bem classificadas as universidades que se destacam nesses quesitos.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Ainda assim, o avanço das universidades da China nessas classificações tem algo a nos ensinar. O país tem feito um investimento maciço em ciência e tecnologia como política de Estado. A nova potência científica elevou seus gastos em pesquisa de menos de 1% do PIB em 2000 para quase 3% do PIB atualmente. Enquanto a participação da ciência no PIB do país cresceu, o próprio PIB chinês também aumentou no período.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Enquanto o Brasil segue praticamente estável no ranking ARWU desde 2013, a China multiplicou o investimento em ciência e hoje lidera a produção científica mundial&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O resultado aparece nos números. Desde 2020, a China ultrapassou os Estados Unidos e lidera a produção científica mundial em termos de quantidade de artigos científicos. Em 2025, cientistas ligados a universidades, instituições de pesquisa, hospitais e empresas da China publicaram aproximadamente 1,4 milhão de artigos científicos, de acordo com dados da base internacional SCImago. Isso é quase o dobro da produção científica total dos Estados Unidos no mesmo ano.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Mais do que isso, as universidades chinesas foram incentivadas a competir internacionalmente, a publicar em periódicos científicos de alto impacto e a atrair cérebros do exterior — políticas que demandam recursos. Hoje, em conversas com pós-graduandos nos corredores das universidades brasileiras sobre intercâmbios de pesquisa no exterior, as instituições da China costumam se destacar entre os destinos universitários mais desejados.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Como nos ensina a experiência chinesa, um salto quantitativo na produção científica demanda recursos contínuos em pesquisa e desenvolvimento. E deixa claro que o país se desenvolve quando a produção de conhecimento cresce.&lt;/p&gt;
    &lt;p&gt;Este texto foi originalmente publicado por Pesquisa FAPESP de acordo com a  licença Creative Commons CC-BY-NC-ND. Leia o original aqui. &lt;/p&gt;</_cdata>
      </description>
      <category>Externo</category>
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