O processo criativo de Hilda Hilst, a partir dos depoimentos de 5 pessoas próximas da autora
Foto: Hilda Hilst

O processo criativo de Hilda Hilst, a partir dos depoimentos de 5 pessoas próximas da autora

Obra poética da escritora obscena foi redescoberta pelo público recentemente

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    Foto: acervo Lygia Fagundes Telles/Instituto Moreira Salles
    Hilda Hilst
    Hilda Hilst e Lygia Fagundes Telles, em 1960
     

    Hilda Hilst era conhecida pelo esmero com a criação de seus livros. A primeira coletânea a reunir toda sua obra, “Da Poesia”, foi lançada em 2017 sem os olhos atentos da autora, que morreu em 2004. Mas como seria de seu apreço — e como costumava definir obras extensas — é um “livro que para em pé”.

    Foram, ao todo, 25 volumes de poemas publicados em vida ao longo de 45 anos por diferentes editoras. Há, ainda, textos inéditos acrescentados ao compêndio, resultado de uma pesquisa nos acervos da autora resguardados na Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), uma carta de Caio Fernando Abreu, dois trechos de Lygia Fagundes Telles, uma entrevista e ilustrações feitas pela própria.

    Para reconstruir a trajetória que levou a tamanha obra, o Nexo conversou com cinco pessoas próximas à escritora ou a suas palavras buscando entender o processo criativo de uma das maiores poetas da literatura brasileira — embora, para seu desgosto, o reconhecimento tenha vindo tardiamente em vida. São elas:

    • Daniel Fuentes, presidente do IHH (Instituto Hilda Hilst) e herdeiro dos direitos autorais
    • Olga Bilenky, artista plástica e amiga da escritora
    • Julia de Souza, poeta e pesquisadora, responsável pela pesquisa de inéditos no acervo da Unicamp
    • Alice Sant'Anna, poeta e editora de “Da Poesia”
    • Leusa Araújo, jornalista, escritora e pesquisadora. Foi amiga de Hilda e responsável pelo estabelecimento do texto em “Da Poesia”

    A Casa do Sol

    A Casa do Sol é um capítulo à parte na vida de Hilda Hilst e essencial para entender sua obra, como já mostrou o Nexo em podcast. A residência, localizada hoje num condomínio fechado de Campinas, foi construída por Hilda em um terreno pertencente à fazenda de sua mãe. 

    Formada em direito e cansada da vida boêmia paulistana, Hilda se mudou para lá em 1965, aos 35 anos, para se dedicar exclusivamente à literatura.

    Por mais que tenha sido criado o mito da vida reclusa em torno da mudança de ares da autora, a escritora certificava-se de estar bem alimentada ali pelas notícias e lançamentos da época. Certificava-se, também, de estar rodeada de amigos, intelectuais e cientistas de então, com quem conversava, trocava ideias, inspirava-se e apaixonava-se.

    Alguns deles viviam na casa, como eram os casos do escritor Mora Fuentes e da artista plástica Olga Bilenky — ela ainda hoje lá reside. O filho do casal, Daniel Fuentes, tornou-se o herdeiro dos direitos autorais de Hilda Hilst.

    “O que de fato acontecia [na Casa do Sol] era a reunião de artistas, poetas, físicos e inúmeros amigos queridos. Porém, o centro de tudo era a produção de Hilda. Esta nunca escondeu o prazer de conversar sobre as questões em torno de sua obra. Por exemplo, sentávamos para ler e comentar os últimos artigos publicados sobre seus livros; as resenhas do jornal ‘O Estado de S. Paulo’ sobre novos escritores; cartas de estudantes interessados em estudar sua obra [...] E também os acontecimentos que pudessem reforçar as impressões da autora”

    Leusa Araújo

    jornalista, escritora e pesquisadora, ao Nexo

    Foto: Hilda Hilst
    Aquarelas
    Aquarelas de Hilda Hilst de 1977, publicadas no livro 'Da Morte, Odes Mínimas', de 1980

    Leitura

    Posto o cenário de fundo da criação, a poesia de Hilda Hilst começava na leitura. Ao menos cinco livros abertos adornavam a mesa sobre a qual criava na Casa do Sol, como conta Daniel Fuentes.

    “Lembro muito do escritório dela, que é exatamente como está hoje no instituto. Tinha a mesa, onde ela trabalhava, e do outro lado várias cadeiras e os cachorros. Lembro muito das pessoas indo lá conversar com ela. Ela passava muitos períodos sozinha, estudando, com quatro, cinco livros abertos. [A Hilda] sempre valorizou muito a criação, o ensaio. Às vezes tinha uma ideia no meio do banho, saia pelada e escrevia, mas a questão do estudo era muito forte. Estudava ao mesmo tempo vários livros. Há muita coisa anotada, grifada, que hoje é um tesouro na nossa biblioteca”

    Daniel Fuentes

    presidente do Instituto Hilda Hilst, ao Nexo

    Hilda estudou durante oito anos em um internato de freiras marcelinas, onde aprendeu francês e latim. Apesar de sua formação tradicional, ela iria se tornar uma jovem transgressora, leitora de Camus, Sartre, Kafka e Kierkegaard. “Era uma leitora voraz”, define Leusa.

    “Amavisse”, publicado originalmente em 1989, foi dedicado às memórias do escritor americano Ernest Becker e do filósofo francês Vladimir Jankélévitch — leituras que a levaram aos poemas ali assinados.

    “Ela deixa pistas no momento em que dedica. Os livros dela respeitam muito a época em que foram escritos. Voltam-se para um filósofo, um escritor, pessoas as quais ela estivesse muito próxima. E são por vezes autores pouco lidos. Não é que ela não acreditava em inspiração, mas combinava a leitura com coisas que estava investigando”

    Leusa Araújo

    jornalista, escritora e pesquisadora

    Pouco conhecido, Vladimir Jankélévitch foi parar nas mãos de Hilda com a ajuda de Leusa, que a pedido da poeta buscou o volume do filósofo francês na biblioteca da USP (Universidade de São Paulo). “Era daqueles exemplares que precisavam passar a faca para separar as páginas. Nunca tinha sido lido”, lembra ela.

    Anotações, comentários, desenhos e rasuras deixadas nas bordas e contracapas de leituras de Hilda — as chamadas marginálias — são o tesouro do acervo preservado hoje na Casa do Sol. Conforme eles são organizados e digitalizados, revelam cada vez mais sobre o processo criativo da escritora.

    “Se você pega os livros dela nas estantes da Casa do Sol, vê que tem muita coisa grifada, anotada. Ela estava o tempo todo em contato com as leituras. Apesar de morar longe da cidade, não era uma poeta que se isolava do que estava sendo escrito e pensado. Anotava também em seu próprio processo de escrita. Fazia anotações à mão nas margens dos poemas que estavam datilografados, anotava mudanças, cortava, mudava palavras. Dá a impressão também que sua grafia foi mudando muito, ficando cada vez mais difícil de ler. Algumas anotações não consegui decifrar”

    Julia de Souza

    poeta e pesquisadora, ao Nexo

    Ouvir

    Não só olhos vorazes, Hilda tinha também ouvidos aguçados. Não à toa, certificava-se de estar próxima a pessoas que considerasse interessantes e cujas histórias poderiam lhe servir de inspiração.

    De sua infância na Casa do Sol, Daniel lembra de quando os pais entravam no escritório de Hilda para conversar, fazer brincadeiras, espalhar fofocas, compartilhar leituras.

    “A Hilda gostava muito de ouvir a voz das pessoas. Vivia com um radar ligado para todo mundo ao redor dela. Minha mãe, até hoje, quando lê algo escrito de Hilda, sabe dizer de onde veio. ‘Ah, isso aqui foi a tia de uma empregada que trabalhou aqui que contou essa história.’ Mas que foi transformado numa coisa impressionante. Ela era muito interessada no outro, tanto faz quem era o outro, se era rei ou faxineiro. Havia um interesse imenso na vida das pessoas.”

    Daniel Fuentes

    presidente do IHH

    “As pessoas também para ela eram fonte impressionante, não só da literatura como do próprio cotidiano. Era uma mulher muito generosa, aberta e tinha um interesse excepcional pelo outro. Uma pessoa que chegasse aqui [na Casa do Sol] se sentia muito acolhida, porque ela tirava o melhor de todos.”

    Olga Bilenky

    artista plástica

    Hilda ouvia também seus sonhos. Nas pesquisas que fez de manuscritos e anotações da autora, Julia de Souza deparou-se com descrições sistemáticas de visões noturnas — imagens que por vezes apareciam em sua poesia, prosa ou desenhos.

    “Ela acordava e anotava de um jeito mais ou menos sintético. Não eram descrições muito extensas, mas mais imagens. Não eram páginas e páginas sobre um sonho só, mas flashes. Essas imagens voltavam para o poema. Não sei dizer o que veio antes, na verdade, o sonho ou o poema, se uma coisa contaminava a outra.”

    Julia de Souza

    poeta e pesquisadora

    Foto: Hilda Hilst
    Aquarelas
    Aquarelas de Hilda Hilst de 1977, publicadas no livro 'Da Morte, Odes Mínimas', de 1980
     

    Verbalizar

    Segundo os amigos da escritora que ficaram para contar história, ela vivia uma “rotina monástica”. Acordava às 9 horas, escrevia pela manhã em seu escritório com as portas cerradas e os livros sobre a mesa. Escrevia à mão, depois datilografava, lia em voz alta para quem estivesse por perto, revisava. No final da tarde, interrompia o ritual, via novela, tomava uísque. Mais tarde, substituiria o uísque por vinho do Porto. Escrevia todos os dias, mesmo que não fosse utilizar o material.

    “A memória que tenho mais viva da Hilda é quando ela estava escrevendo as crônicas no Jornal de Campinas. Na hora do café da manhã, ela levava, lia para todo mundo e fazia as últimas correções antes de entregar para o jornal.”

    Daniel Fuentes

    presidente do IHH

    Ler em voz alta era uma prática querida à autora, realizada até o fim da vida a quem lhe desse a oportunidade. A poesia, ainda, era lida com sotaque em português.

    “Ela escrevia com português de Portugal. A mãe dela era portuguesa. Ela era uma poeta clássica nesse sentido, embora moderna em conteúdo. Ela usa palavras portuguesas, que não são tão usadas aqui.”

    Leusa Araújo

    jornalista, escritora e pesquisadora, ao Nexo

    Olga Bilenky, que vivia (e ainda vive) na Casa do Sol, lembra dos tempos em que ela trabalhava em “A Obscena Senhora D” (1982), e saía de seu escritório para se sentar em um banquinho no jardim, onde o também escritor Mora Fuentes dedicava-se à jardinagem.

    “Ele fazia o papel de interlocutor. Ela chegava e pedia também para ele ler, para que ouvisse as palavras em outra voz.”

    Olga Bilenky

    artista plástica

    Tanto lia em voz alta Hilda que foi apelidada de “a barda” pelo jornalista Gutenberg Medeiros. Um filme feito a partir de trechos de áudios deixados pela autora, boa parte deles tentativas de contato com os mortos, está atualmente em processo de finalização — “Hilda Hilst pede contato”, de Gabriela Greeb.

    Foto: Hilda Hilst
    Aquarelas
    Aquarelas de Hilda Hilst de 1977, publicadas no livro 'Da Morte, Odes Mínimas', de 1980
     

    O objeto livro

    Hilda era extremamente ligada ao objeto livro. Aproximou-se e trabalhou por anos com o editor Massao Ohno, um dos maiores entusiastas de sua poesia e responsável por boa parte das publicações da autora. Ela era extremamente cuidadosa com os detalhes do produto final: a capa, a letra, a cor, as ilustrações. Apreciava de fato os livros que “paravam em pé”.

    Tinha estima especial por ilustrações. Muitas de suas obras foram ilustradas por amigos, a convite da escritora. “Da Morte. Odes Mínimas” (1980) foi publicado originalmente com aquarelas de sua autoria, reproduzidas agora em “Da Poesia” e aqui neste texto.

    “Ela desenhava bastante. Há aquarelas, desenhos feitos com caneta esferográfica, escritos também. É uma parte da obra bem interessante. Há imagens recorrentes que são muito presentes na obra. Mulheres que são pássaros, homens-pássaros, cavalos, a relação com animais. A obra desliza entre sonhos, desenhos e poesia.”

    Julia de Souza

    poeta e pesquisadora

    A revisão, no entanto, era o cuidado com o poema, as palavras. Detestava correção ortográfica — essa parte era encaminhada por terceiros.

    Foi a preocupação de Hilda com as palavras que levou Leusa ao minucioso trabalho chamado de “estabelecimento de texto” para a publicação de “Da Poesia”. A tarefa consistiu em encontrar equívocos de textos que foram carregados ao longo de edições — e devolver ao poema seu formato original.

    Para tanto, Leusa recorreu a extensa coleção que juntou ao longo de anos dos livros da autora — “raros e dispersos pelos sebos de São Paulo”, como diz. A própria Hilda não tinha com ela as primeiras edições de suas obras.

    “Assim pudemos descobrir eventuais supressões ou erros; além de contemplar a ordem desejada pela autora para a publicação de seus poemas, bastante expressa em edições que ela própria acompanhou a edição em vida. Hilda trabalhava intensamente sobre seus livros, revisava, escrevia ao editor, era exigente. Convivi com ela e fui testemunha dessa dedicação intensa à obra.”

    Leusa Araújo

    jornalista, escritora e pesquisadora

    Leusa chegou a encontrar um verso inteiro (“Meu amor, mais nada”) perdido da poesia “Roteiro do Silêncio” desde uma edição de 1967. Em “Da Poesia”, o verso voltou para seu lugar:

    “É antes de tudo a terraMeu amor, mais nadaQuando me vês perdidaE em silêncio.É antes de tudo a terraQue confunde amarga.”

    “Essas edições [antigas] têm muitos erros, circularam por um público muito restrito. Foi importante o olhar da amiga, pesquisadora, de crivar o que é certo, de forma mais crítica”, comenta a editora Alice Sant'Anna sobre o trabalho de Leusa. “São pequenos achados (palavras corrigidas, um ponto, uma vírgula, uma quebra de estrofe fora de lugar) aparentemente desimportantes, mas que iluminam a leitura da obra de Hilda, especialmente para futuros pesquisadores”, completa a amiga.

    Frustração e redescoberta

    Frustrou-se em vida, no entanto, com a pouca atenção e alcance que suas palavras tiveram. A escritora chamava seu restrito rol de leitores de “KGB literária”.

    “Quando chegou na década de 1990, ela estava de saco cheio de não ser lida. É quando desiste de fazer a literatura que chama de ‘séria’ e começa a obra pornográfica”, explica Alice Sant'Anna, responsável pela edição na Companhia das Letras.

    “E aqui, no meu país, eu sou tratada, depois de 40 anos de trabalho, exatamente como era tratada aos olhos dos ‘hipócritas’ quando eu tinha vinte anos: uma puta. Sim, porque eu era tão autêntica, tão livre, tão inteligente, tão bela e tão apaixonante! Ahhhh! O ódio que toma conta das gentes quando o talento é muito acima da média! E como se agrava contra nós esse ódio quando se é mulher! E quando se fica uma velha mulher, aí somos simplesmente velhas loucas, putas velhas, poetisas sacanas, asquerosas, enfim!”

    Hilda Hilst

    em entrevista ao “Correio Popular” de Campinas, em 13 de novembro de 1994

    Ao jornal “O Estado de S. Paulo”, o presidente da editora, Luiz Schwarcz, reconheceu que a publicação é a reparação de um erro do passado. Hilda foi rejeitada pela editora quando enviou para lá seus escritos, na década de 1990.

    À época, ela teria enviado um telegrama para Schwarcz, apelando com versos: “Ó poderoso, esquece rusgas e tretas, edita-me!, pois traças e cupins somam-se por livros e a mim, snif snif. Ó, sede generoso, publica-me para o teu e meu gozo / beijos / fofo / liga-me”.

    Para a amiga Olga Bilenky, porém, o reconhecimento não veio tarde. “Ela achava um absurdo [não ser publicada], mas sabia que chegaria o momento em que todos iriam considerá-la a pop star que virou. Enfim chegou. A Hilda no final da vida se sentiu totalmente realizada pela consciência que tinha da obra que produziu”, diz.

    Boa parte do ressurgimento da escritora nos últimos anos se deve a uma mudança editorial. Publicada por décadas por pequenas editoras, ela ganhou maior espaço nas prateleiras de livrarias quando chegou à Globo Livros, que imprimiu sua obra de forma fracionada, em eixos temáticos, a partir do trabalho do pesquisador da Unicamp Alcir Pécora.

    A mudança para a Companhia das Letras representou um movimento ainda mais agressivo nesse sentido. “Pessoas diziam que a Hilda era muito difícil de ler. Na verdade, ela era muito difícil de encontrar”, comenta Daniel.

    Outra parte, sugerem os especialistas e amigos da escritora ouvidos pelo Nexo, está relacionada ao seu vanguardismo — que tratou em sua obra de temas fundamentais da humanidade, como a morte, o corpo, e a busca por Deus, ao mesmo tempo em que sempre esteve à frente de seu tempo.

    Para Alice Sant'Anna, no caso de Hilda Hilst, assim como o de outros poetas, vida e obra se misturam — e o fato de a história da escritora ser tão atraente, ainda nesses tempos, faz com que sua obra ressurja para novos curiosos.

    “Ela foi muito carismática, cheia de boas histórias. Na juventude, foi uma mulher muito bonita, à frente de seu tempo. Formou-se em direito, publicou com 20 anos de idade, teve feitos muito diferentes. Tinha uma vida super agitada e depois passou a se dedicar só à escrita. Essa vida tão saborosa fez com que as pessoas redescobrissem e tivessem interesse em ler a poesia de Hilda. Isso acontece também com outras escritoras, como a Clarice Lispector e a Ana Cristina Cesar."

    Alice Sant'Anna

    editora de “Da Poesia”

    Foto: Hilda Hilst
    Aquarelas
    Aquarelas de Hilda Hilst de 1977, publicadas no livro 'Da Morte, Odes Mínimas', de 1980
     

    Inéditos

    Se a biblioteca pessoal de Hilda encontra-se em grande parte preservada na Casa do Sol, à Unicamp coube guardar os manuscritos da autora — vendidos por ela no final da vida. Foi nesses arquivos que a poeta Julia de Souza mergulhou para realizar a pesquisa de inéditos que seriam incluídos na coletânea.

    Encontrar trabalhos considerados originais não é uma tarefa tão binária como faz soar. “Percebemos versões de poemas que não chegaram a ser concluídos. Ou poemas que têm duas versões diferentes. Ela escrevia a primeira, depois a segunda, chegava às vezes à terceira versão”, conta Julia.

    “O que é inédito é sempre mistério, porque há ali versões de poemas, poemas inacabados, versos que viraram prosa. É sempre muito arriscado definir”, explica Alice Sant'Anna, editora de “Da Poesia”.

    Tanto que o capítulo da coletânea que introduz esses acréscimos é chamado de “Poemas inéditos, versões e esparsos”. Para Alice, mais preciso ainda seria apropriar-se do título dado em uma coletânea de Ana Cristina Cruz Cesar: “visita à oficina”. “A ideia de oficina dá mais uma ideia do processo da poeta”, diz a editora.

    Outro conflito importante nessa escolha é o de publicar algo que, talvez, o autor tivesse considerado impublicável. O que hoje é tratado como inédito antes poderia ser descarte.

    “É complicado com autor morto publicar inédito sem saber se ele consideraria o poema publicável ou não. Publicamos com viés de mostrar processos, coisas que fazem parte da obra, mesmo que com caráter de esboço.”

    Julia de Souza

    poeta e pesquisadora

    O Instituto Hilda Hilst

    Hoje, a casa tombada pela prefeitura de Campinas é sede do IHH (Instituto Hilda Hilst). Ela abriga boa parte do acervo da autora, recebe residentes artísticos ocasionais, peças de teatro e eventos no geral. À exceção de adaptações necessárias para proteger os quilos de papéis de seu patrimônio, a estrutura e decoração originais são preservadas. 

    Desde 2015, o IHH realiza a organização e digitalização do acervo ali guardado. Financiado inicialmente pelo Itaú Cultural, via lei Rouanet, o projeto viu seus recursos minguarem com a crise financeira do país. Para mantê-lo, o instituto criou há cinco meses o clube de assinantes Obscena Lucidez, que alimenta fãs da literatura mensalmente com preciosidades encontradas no acervo.

    “O clube está gerando recursos para o IHH, usados para manutenção, e isso é fundamental para o acervo. Assinar o clube é apoiar a manutenção desse trabalho. Ele abre todas as portas do universo da Hilda, do processo criativo dela.”

    Daniel Fuentes

    presidente do IHH

    Daniel cresceu na Casa do Sol e acompanhou, como criança, a residência efervescer. É dedicado à criança Daniel um dos poemas inéditos do livro, um raro uso da linguagem infantil.

    “Me perguntaram por que esse poema ficou inédito. Respondi que, bem, foi porque ela o deu para mim. Foi um carinho, um presente. Ela sempre me deu muitos presentes. Os últimos deles foram os direitos autorais.”

    Daniel Fuentes

    presidente do IHH

    Nesse poema, Hilda é a Monstra, de muitas caras, mil capas, que gosta dos dedos, que seguram canetas, batem nas teclas e escrevem poemas. “E o que seria da Monstra / Se não fosse poeta”, questiona num verso.

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