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120 anos de Pixinguinha, palavra que resume a música popular brasileira
Foto: Acervo Pixinguinha/IMS

120 anos de Pixinguinha, palavra que resume a música popular brasileira

Também neste ano, comemora-se o centenário de ‘Carinhoso’, clássico da MPB de sua autoria. Como músico, compositor e arranjador, ele teve participação definidora no que se entende hoje pela música brasileira

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O diminutivo carinhoso do apelido esconde a forma superlativa usada por músicos, críticos, pesquisadores e admiradores quando falam de Pixinguinha. Ficou conhecida, por exemplo, a frase do historiador e crítico Ary Vasconcelos: “Se você tem 15 volumes para falar de toda a música brasileira, fique certo de que é pouco. Mas se dispõe apenas do espaço de uma palavra, nem tudo está perdido. Escreva depressa: Pixinguinha”.

Fernando Faro, criador do tradicional programa musical “Ensaio”, da TV Cultura, chegou a canonizar o músico. “Era um gênio. Mais do que um gênio, era um santo, por isso morreu na igreja”, disse na edição que foi ao ar em 1999 em homenagem ao músico, fazendo referência à morte de Pixinguinha na igreja Nossa Senhora da Paz, em Ipanema, em 1973, durante a celebração de um batizado.

Santo ou não, uma das personalidades mais fundamentais da música popular brasileira completaria 120 anos em 2017 – no dia 4 de maio, descobriu-se recentemente, e não em 23 de abril – data em que, por isso, se comemora o Dia Nacional do Choro –, como se acreditava até então.

Também neste ano, comemora-se o centenário de sua canção “Carinhoso”, clássico da música popular brasileira regravado por centenas de intérpretes após se popularizar na década de 1930 na voz de Orlando Silva, com letra de João de Barro.

O arquivo pessoal de Pixinguinha está sob a guarda do Instituto Moreira Salles desde 2000. Agora, inteiramente digitalizados, milhares de partituras manuscritas, além de fotos, recortes de jornal, documentos, correspondências, registros de memória oral, discografia e outros itens estarão disponíveis, a partir deste domingo (23), em um site (o pixinguinha.com.br) lançado pelo instituto.

Um grupo de pesquisa liderado por Bia Paes Leme, coordenadora de música do instituto, mergulhou no arquivo há quase uma década. “Nosso trabalho vem acontecendo desde o início de 2009 e não o consideramos concluído, pois Pixinguinha é um personagem múltiplo e complexo”, diz em entrevista ao Nexo. “Daí a ideia do site, uma publicação que pode ser permanentemente atualizada”.

Paes Leme acredita que a maior contribuição da iniciativa, além de agregar todo esse material, é o primeiro “Catálogo Crítico da obra de Pixinguinha”, assinado pelos pesquisadores Pedro Aragão e José Silas Xavier. Parte do site, o catálogo dá a cada música de Pixinguinha um verbete exclusivo e associa as canções às partituras e gravações disponíveis.

Pixinguinha foi músico, compositor de melodias e arranjador. Abaixo, o Nexo destrincha essas três facetas de sua arte. 

O instrumentista

Quando Pixinguinha tinha 15 anos, mandaram buscá-lo em casa para um teste. Se fosse aprovado, tocaria flauta em sessões de filmes mudos e peças do Cinematógrafo Rio Branco, uma das salas de espetáculo mais famosas do Rio de Janeiro do início do século 20.

Não deram crédito ao menino negro, vestindo calças curtas, quando ele adentrou a atmosfera refinada do Rio Branco, relata o escritor Lira Neto em seu livro  “Uma História do Samba: As Origens”. Mas Pixinguinha foi contratado imediatamente depois de executar a partitura que estava à sua espera: até improvisou, causando sensação entre os outros músicos da orquestra.

Pixinguinha havia começado a tocar por volta dos dez anos de idade. Seu pai, também flautista, o introduziu ao instrumento e desde cedo o expôs às rodas de choro em casa. Com os irmãos, aprendeu violão e cavaquinho. Logo foi incluído pelo compositor e músico Irineu Batina em sua roda de choro e na orquestra do rancho carnavalesco (os ranchos eram agrupamentos festivos comparáveis aos blocos de carnaval de hoje) Filhas da Jardineira.

O mundo começou a parecer maior para o artista em 1919. Foi o ano em que o grupo Oito Batutas se formou e foi contratado pelo Palais, um cinema frequentado por “senhores engravatados e ‘demoiselles’ de chapelões com plumas”, como definiu Lira Neto.

 

Pixinguinha tocava flauta no grupo ao lado do grande amigo Donga, de seu irmão China e de outros companheiros. No mesmo ano, a gravadora Odeon assinou com o grupo para gravar seis canções e os Batutas saíram em turnê pelo Brasil, foram a Paris e a Buenos Aires.

Consta no livro de Lira Neto, “Uma História do Samba”, ter sido nessa época que Pixinguinha aprendeu, sozinho, a tocar saxofone. O dirigente do Fluminense, Arnaldo Guinle, estava em Paris por coincidência durante a turnê do grupo. Ele os via tocar assiduamente no Palais. Guinle presenteou Pixinguinha com um saxofone confeccionado especialmente para o músico, que se fechou em seu quarto de hotel para domesticá-lo.

 

O grupo durou mais alguns anos e se dissolveu definitivamente no fim da década de 1920. Pixinguinha continuaria tocando, compondo e trabalhando como arranjador em gravadoras. Entre 1947 e 1952, Pixinguinha fez muito sucesso no programa “O Pessoal da Velha Guarda”, da Rádio Tupi, ao lado do cantor e radialista Almirante.

“Este período do programa da Tupi coincide também com um dos pontos altos na carreira de Pixinguinha como instrumentista: a dupla com [o flautista e compositor] Benedito Lacerda, onde Pixinguinha brilhou no sax tenor”, diz Bia Paes Leme, coordenadora de música do IMS. 

Foto: Acervo José Ramos Tinhorão/IMS
Pixinguinha ganhou seu primeiro saxofone do 'mecenas' Arnaldo Guinle
 

“Mas a partir dos anos 1950, o mercado começou a mudar sensivelmente, culminando com a chegada da bossa nova e sua estética minimalista”, diz Paes Leme. “Isso representou uma importante perda de espaço para os músicos da geração de Pixinguinha”.

O compositor

A primeira composição de Pixinguinha foi criada alguns anos antes de ser chamado ao Cinematógrafo Rio Branco. “Lata de Leite” é de 1908, quando o autor tinha 11 anos.

Em 1917, Pixinguinha compôs a melodia de “Carinhoso”. “Ele estava 20 anos à frente de si mesmo”, brinca Marília Trindade Barboza, pesquisadora, historiadora de música popular brasileira e biógrafa de Pixinguinha. Barboza diz isso porque, tendo a sensação de que estava fazendo uma coisa nova, que não seria prontamente aceita, o músico gravou o instrumental da canção e a guardou.

“Vinte anos depois, quando a música ganhou letra, [a música] veio se confundir com o que se chamava de samba-canção”, diz Barboza ao Nexo. O gênero tem ritmo mais lento que o samba, arranjos orquestrais e vocais potentes, como os de Francisco Alves, Orlando Silva, Elizeth Cardoso e Ângela Maria, cantando temas românticos.

Para além do caso marcante que é “Carinhoso”, outras muitas composições de Pixinguinha consolidaram o choro como gênero musical reconhecido, explica a historiadora. 

“Pixinguinha é um herdeiro da tradição musical do século 19 que soube, com seu talento e sensibilidade, trazer o choro para o século 20 e dar-lhe todas as condições de seguir adiante, renovado e renovando-se sempre”.

Bia Paes Leme

Coordenadora de Música do IMS

Suas contribuições não ficam restritas ao choro. Para o músico Hamilton de Holanda, autor do disco tributo “Mundo de Pixinguinha” (2013), o artista é uma síntese de “tudo de bom que era feito na época”.

Cristalizou, além disso, um fraseado melódico com intervalos e brincadeiras de ritmo, que viria a se repetir em músicos como Baden Powell e Tom Jobim, e que hoje reconhecemos de ouvido como brasileiro, disse Holanda ao Nexo

Essa popularidade imediata, de produzir canções reconhecíveis como brasileiras, vem aliada a uma grande sofisticação. É o que diz Holanda, e também Marília Barboza. Para ela, Pixinguinha faz uma música semi-erudita, em termos de sofisticação melódica, mas é inegavelmente popular.

A historiadora explica essa veia definitiva para a música popular pelo fato de Pixinguinha ter conseguido “ser brasileiro, se desvencilhar de europeísmos e usar a percussão”, antes ausente. Os grandes nomes que o antecederam, Chiquinha Gonzaga e Ernesto Nazareth, tinham formação clássica, apesar de terem escolhido a música popular, explica Barboza. Essa tensão ainda se sente nas obras dos dois músicos e compositores. Na de Pixinguinha, ela se resolve.

Mesmo com o “desvencilhamento de europeísmos” e sua brasilidade inconteste, Pixinguinha dialogou com gêneros estrangeiros, como o jazz. Há composições suas com traços de ragtime, gênero precursor do jazz.

O músico, arranjador e compositor André Mehmari enxerga esse empréstimo estrangeiro audacioso: Pixinguinha “fundou” uma escola de choro elaborado, do ponto de vista da harmonia.

“Há uma música chamada ‘One Step’ que é uma das composições mais antigas de Pixinguinha – há um manuscrito datado de 1915 – e a liberdade de se deixar influenciar está presente no próprio título. Mas vale notar que ‘One Step’ já é um autêntico Pixinguinha, e ele tinha no máximo 18 anos quando a compôs”, diz Bia Paes Leme.

 

A influência estrangeira, segundo ela, está na origem do choro, que se desenvolveu a partir das danças europeias. “Além disso, Pixinguinha e muitos outros chorões – inclusive mais velhos do que ele – fizeram música para teatro e isso sempre envolvia, em alguma medida, lidar com ritmos estrangeiros”.

Há ainda uma maneira perceptível pela qual os títulos dados às composições de Pixinguinha se justificavam no jogo estabelecido pelos instrumentos, destaca Marília Barboza. “‘Um a Zero’ é uma partida de futebol, em ‘Marreco Quer Água’ se ouve os marrecos pedindo água. O som do Pixinguinha é muito visual”.

 
 

“Não houve um país do mundo [em que estive] que, quando coloquei para tocar ‘Carinhoso’ para músicos, eles não cantaram comigo”, diz Marília Trindade Barboza. “‘Garota de Ipanema’ é a música dos elevadores e aeroportos, mas foi Pixinguinha que ganhou esse espaço, com uma música de 1917, quando esses gêneros musicais não estavam consolidados. É milagroso”.

O arranjador

A partir de 1929, Pixinguinha trabalhou como arranjador para a gravadora Victor. Seu trabalho nessa frente abrasileirou orquestrações e criou introduções para músicas suas e de outros compositores. Nos anos 1940, Pixinguinha já fazia arranjos para todas as rádios.

Segundo Barboza, sambas só com percussão careciam de introduções e, assim, o Pixinguinha arranjador criava introduções que tinham uma marca própria para todo o elenco de cantores do Brasil na época.

O artista passou a exercer essa função no momento em que ela estava sendo inventada no Brasil. O final da década de 1920 e toda a de 1930 correspondem exatamente à consolidação de uma indústria fonográfica brasileira.

“A ação dessa indústria faz a música popular rumar para um apogeu em âmbito nacional. A atividade do arranjo passa, então, a desempenhar um papel decisivo na configuração de algumas características essenciais dessa música”, diz o estudo “Pixinguinha, Radamés e a Gênese do Novo Arranjo Musical Brasileiro”, de Paulo Aragão, publicado nos “Cadernos do Colóquio” do programa de pós-graduação em Música da Unirio. 

“Dentro da coleção de partituras do acervo, há um conjunto de cerca de 300 arranjos escritos para o programa radiofônico ‘O Pessoal da Velha Guarda’. É um material precioso porque, a esta altura, Pixinguinha tinha pleno domínio da escrita orquestral e este conjunto é um dos principais focos do nosso trabalho no IMS”, diz Bia Paes Leme. “Quanto aos arranjos escritos para as fantásticas gravações da Victor, infelizmente suas partituras não sobreviveram. Por outro lado, temos as gravações e é possível transcrevê-las com razoável precisão”. 

Arranjador versátil, não há consenso se a estética de Pixinguinha nesse campo vem das “big bands” americanas de jazz ou de uma herança do universo natural brasileiro. O artigo publicado nos cadernos da Unirio afirma, de todo modo, serem arranjos revolucionários, podendo ir da simplicidade da improvisação sobre a melodia ao excesso.

“Em ‘Chegou a hora da fogueira’ [canção de Lamartine Babo, gravada em 1933] temos o corpo da canção em dó maior. Pixinguinha então elabora uma introdução em dó menor e o solo instrumental central em mi bemol maior. As introduções de Pixinguinha se notabilizaram não só pelas opções harmônicas inesperadas, mas também pela utilização de materiais temáticos totalmente novos em relação àqueles encontrados no corpo das canções, quase como novas composições”, diz o artigo.

A obra que se estende nessas múltiplas dimensões tem, além de sua genialidade constantemente reafirmada, generosidade e perseverança. “Ele é a maior expressão da música brasileira de todos os tempos”, define a historiadora e biógrafa Marília Trindade Barboza.

Para ela, Pixinguinha disputa o título com Tom Jobim, mas, ao contrário do “maestro soberano”, o músico não tinha nenhuma circunstância a seu favor: nem um gênero como a bossa nova, largamente apreciado no Brasil e fora dele, nem a cor da pele.  

Estar atento à faceta menos visível do trabalho de Pixinguinha, a de arranjador, revela uma dimensão de sua pessoa, que Vinícius de Moraes definiu como “o ser humano mais lindo que encontrei em toda minha existência”. Os arranjos de Pixinguinha são o aspecto de sua obra que a excedem, tocando diretamente as obras de outros músicos.

“Um grande músico assim nunca cessa de surpreender. Como não tem um único jeito de tocar uma música dele, não é uma coisa fechada, como uma sinfonia de Brahms, não há meios de pensar que essa música esteja esgotada”, diz o músico André Mehmari. “A limitação é do músico que toca, e não da obra de Pixinguinha”.

Colaborou Murilo Roncolato

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