Quando o centro imita as periferias
Foto: Circuito Fora do Eixo

Quando o centro imita as periferias

Ir de bike pra feirinha de orgânicos logo depois de aproveitar a Paulista Aberta de domingo – mas bom mesmo seria curtir o Parque Augusta. Enquanto parte da classe média de São Paulo adere a práticas e causas sustentáveis, moradores das periferias que já cultivavam esses hábitos veem o assunto ser tratado como novidade e questionam a transformação real que isso provoca na cidade enquanto aproveitam a visibilidade dos temas para garantir direitos

    Até 2015, a jornalista Renata Penzani, 28, pedalava 10 km todos os dias na região do centro expandido de São Paulo para ir de casa ao local de trabalho. Da Vila Mariana, onde mora, até o escritório em Perdizes, ela demorava 45 minutos pra chegar. Neste ano, com a mudança para um novo emprego em Pinheiros, a jornalista teve que retornar para o transporte público. Além de voltar a gastar com as passagens, ela leva os mesmos 45 minutos na viagem de 8 km.

    “Isso indica um problema urbano grave: o lugar secundário que a qualidade de vida ocupa nas políticas de gestão pública”, diz ela, que agora utiliza a bike apenas nos finais de semana. Renata vê a bicicleta como uma forma de resistência e transformação no meio urbano. “Uma cidade ocupada é mais segura e acolhedora para todo mundo, não só para quem pedala, mas para quem anda, corre, buzina.”

    Apesar da crítica, em comparação com o passado recente, o cenário atual é mais animador para quem pedala: nos últimos quatro anos, São Paulo ganhou mais de 400 km de ciclovias e quase 300 estações de compartilhamento de bicicletas (280 bike sampa e 17 ciclosampa).

    A adoção da bike no dia a dia por um número maior de pessoas faz parte de uma série de mudanças comportamentais vividas por uma parcela da população em busca de maior qualidade de vida no centro urbano: comprar alimentos orgânicos na feira do Parque Ibirapuera, criar hortas comunitárias nas pracinhas do bairro, ocupar o Minhocão fechado para os carros no final de semana, comer em algum food truck enquanto aprecia músicos de rua, fazer uma cisterna em casa para acumular água da chuva…

    Se, por um lado, a classe média tradicional desperta o interesse para reviver a cidade, por outro, isso pode “gourmetizar” tais práticas, por exemplo, deixando mais caro comprar orgânico só porque agora é “moda”. Assim, se escancara uma desigualdade. Mas, enquanto algumas mudanças “gourmetizam” e acentuam desigualdades, outras levantam discussões que são importantes para resgatar direitos para todos que habitam as cidades.

    Esses velhos hábitos estão sendo retomados por parte da classe média como novidade, mas são conservados desde sempre por muitos que vivem nas periferias. A diferença é que, enquanto quem mora em uma determinada região tem acesso a políticas públicas que asseguram o direito de reviver a cidade, nas margens isso não está plenamente garantido.

    Um exemplo são as ciclovias, com boa parte da infraestrutura concentrada no centro expandido de São Paulo, assim como o empréstimo de bicicletas, restrito ao quadrilátero Campo Belo-Vila Madalena-Barra Funda-Vila Matilde. Essa região também é melhor atendida por linhas de metrô, corredores e faixas exclusivas de ônibus, serviços de táxi ou Uber.

    Por outro lado, quem mora nas bordas se vira como sempre, subindo na magrela para economizar dinheiro. “A bike é uma cultura que aos poucos vem quebrando paradigmas na região central da cidade, mas há muitos anos já é uma realidade na nossa periferia”, diz o também ciclista Paulo Alves, de 31 anos, que começou a pedalar ainda criança entre a casa no Grajaú e a escola em Cidade Dutra, ambos distritos do extremo sul.

     

    “Não aguentava pegar o trânsito das avenidas Belmira Marin e da Teotônio Vilela em ônibus sempre lotados. Atualmente, uso a bike para fazer compras, mercado, eventos, algo que não é impossível, pelo contrário”, diz ele, que adotou a bicicleta para economizar dinheiro, se apaixonou e não desce mais dela.

    Com a falta de vias adequadas para pedalar, atualmente Paulo segue de magrela do bairro Riviera (no distrito do Jardim Ângela), em meio a ônibus e automóveis, por avenidas movimentadas até chegar às ciclovias localizadas nas regiões das avenidas Berrini, Paulista e Vereador José Diniz, onde trabalha.

     

    À espera da cidade

    Em bairros como o de Paulo, os moradores chegaram antes da cidade e todos seus benefícios – isso explicaria a falta de infraestrutura e, consequentemente, de garantia de direitos. Entre 1940 e 1950, mais de 100 mil migrantes chegaram a São Paulo, especialmente pessoas vindas das zonas rurais do Nordeste e de Minas Gerais, que se fixaram nos territórios mais distantes do centro. Se o asfalto e o saneamento não chegavam, por outro lado o “isolamento” do Estado permitiu a preservação de práticas de sitiantes locais ou trazidos pelos novos moradores, como a criação de animais e o cultivo de pequenas roças.

    “Costumo dizer que, antes de existir a palavra ‘orgânico’, meu avô já produzia orgânicos”, conta Jaison Pongiluppi Lara, permacultor e educador, que aos 25 anos mantém o legado da família na Ilha do Bororé, uma península margeada pela represa Billings no extremo sul da cidade. Para chegar ao bairro de aspecto rural e localizado em uma área de preservação ambiental, é preciso pegar uma balsa. A Sabesp, empresa estatal responsável pelo fornecimento de água e coleta de esgoto, não oferece saneamento básico. Internet fixa também não chega. Os 5 mil moradores se garantem perfurando poços e fossas, e com o modem 3G plugado no computador em busca de sinal.

    Foi nesse lugar, durante o Programa de Gestão Participativa da Península do Bororé, realizado por duas décadas no espaço comunitário Casa Ecoativa, que Jaison cresceu e aprendeu na prática um conceito muito em voga ultimamente. Rodeada pela Mata Atlântica, a iniciativa tem por finalidade promover a agroecologia, atividades culturais e o desenvolvimento da comunidade a partir da preservação da biodiversidade local. “Eu era o moleque que ficava ali correndo, fazendo capoeira e plantando coisas sem saber que isso já era permacultura”, diz. O termo foi cunhado na década de 1960 para definir a criação de ambientes humanos sustentáveis e produtivos em harmonia com a natureza. Nos últimos anos, o tema tem despertado o interesse de uma parcela da classe média que se preocupa com questões ambientais. Em uma instituição na Vila Madalena, um curso de 80 horas sobre o assunto custa em média R$ 1.000.

    “Permacultura é o mesmo que fazemos, só que por aqui chamamos de tecnologias verdes periféricas”, observa Renato Rocha Lima, um dos fundadores do coletivo Dedo Verde. Desde 2012, o coletivo trabalha no Jardim São Luís e no Jardim Ângela, nas periferias da zona sul de São Paulo, com a implementação de minicisternas para aproveitar a água da chuva, minhocários para transformar resíduos úmidos em adubo e reciclagem de óleo, entre outras práticas, sempre buscando a geração de renda e o desenvolvimento econômico local.

     

    Verde gourmet

    Cada qual com suas escolhas. Mas qual é o ponto em que a legítima adesão a práticas sustentáveis não contribui para mudanças significativas na cidade e passa a atender uma onda de “gourmetização” que distancia ainda mais quem está de um lado ou de outro da ponte?

    “A gente nem precisa repetir o fato de a classe média central achar que qualquer plantio de muda resolve o buraco na camada de ozônio”, alfineta a jornalista e ativista ambiental Mariana Belmont, que cresceu em Parelheiros e hoje mora na zona oeste da cidade. Para Mariana, parte da classe média mantém uma relação abstrata com a sustentabilidade e isso faz com que muitos ambientalistas defendam causas distantes das necessidades das populações periféricas, por exemplo ao criminalizar moradias irregulares em áreas de mananciais enquanto lutam pela criação do Parque Augusta – pertencente a construtoras, a área verde de 24 mil metros quadrados localizada no centro é reivindicada como espaço de lazer por moradores da região.

    “Acredito muito no movimento pró-Parque Augusta como apropriação da cidade e não como movimento pró-conservação ambiental. Mas esse parque se tornou referência da luta por parques e áreas verdes da cidade, enquanto isso já vinha sendo feito em Parelheiros, por exemplo”, observa.

    Ela lembra que os quatro parques naturais municipais criados para compensar o impacto do trecho sul do Rodoanel Mario Covas (Bororé-Colônia, Itaim, Jaceguava e Varginha) seguem fechados ao público por falta de verba, enquanto o povo guarani-mbya aguarda a homologação de 15 mil hectares da terra indígena Tenondé Porã, que fica no local.

    A região concentra nascentes de água que abastecem um terço da cidade e sofre com a grilagem de terras e a chegada de moradores de outros pontos de São Paulo. Projeções demográficas da SMDU (Secretaria Municipal de Desenvolvimento Urbano) estimam que, de 2010 a 2040, a população do município deve aumentar 13,3% enquanto o distrito de Parelheiros (que concentra as áreas de preservação) deve manter a média histórica da última década e registrar um incremento demográfico de 75%.

    Para Mariana, além de falar do Parque Augusta, os coletivos devem abrir o debate para o processo de expansão periférica que continua evoluindo. “Quando a gente fala de preservação ambiental na cidade de São Paulo, a gente pensa de imediato nas bordas verdes, remanescentes frágeis da cidade, que ainda não tiveram seu território totalmente adensado por ocupações, empreendimentos, grandes construções e afins”, ressalta.

    Atravessando a ponte

    Incômodo de um lado, oportunidade de outro. O despertar da classe média para esses assuntos gera visibilidade, e quem sempre esteve na luta encontra brechas para conquistar direitos há muito tempo reivindicados.

    O ciclista Paulo Alves, citado no início da matéria, aproveitou a polêmica da implementação das ciclovias em 2014 para criar a fanpage Bike Zona Sul, onde compartilha dicas de trajetos, soluções e vantagens do uso da bicicleta para internautas da região onde mora. A página se transformou em um coletivo de mobilidade urbana formado por oito pessoas que realiza diversas ações, inclusive com representação para dialogar com o poder público.

     

    No dia 6 de dezembro de 2016, o coletivo se reuniu com o então futuro secretário municipal dos transportes, Sérgio Avelleda, que assumiu a pasta na gestão do prefeito eleito João Doria Jr., para expor as necessidades dos ciclistas das “quebradas”, uma gíria para se referir às regiões periféricas de São Paulo. “Esperamos deles não apenas ciclovias, mas ações educativas de proteção ao ciclista e ao pedestre”. Assim, Paulo espera que as periferias voltem a ser tranquilas para pedalar, como já foram em uma época em que poucas pessoas tinham carro. A diferença é que, agora, ele fica na expectativa de mais investimentos em infraestrutura.

    Já no campo das políticas públicas para a produção orgânica, em 2009 foi sancionada a Lei Federal 11.947, que estabelece que no mínimo 30% do valor destinado pelas esferas de poder ao PNAE (Programa Nacional de Alimentação Escolar) seja utilizado para comprar alimentos de origem de agricultores familiares em geral, priorizando-se assentamentos de reforma agrária, comunidades tradicionais indígenas e quilombolas.

    A Prefeitura de São Paulo regulamentou em 2016 a Lei municipal 16.140 do ano anterior, que visa a inclusão de orgânicos na merenda escolar. Já o Governo do Estado deu início ao PPAIS (Programa Paulista da Agricultura de Interesse Social) em 2013, que cria meios para compras de até R$ 22 mil anuais de agricultores familiares. Os alimentos são destinados não somente a escolas, como também a presídios, hospitais etc. Para Jaison, da Ecoativa, a medida ainda não é suficiente, já que é preciso dar, além do incentivo ao produtor, a educação sobre a importância dos orgânicos aos professores e estudantes também.

    “Felizmente, a agricultura orgânica de Parelheiros e de São Mateus (na zona leste) vem trazendo visibilidade para essas regiões, e muitos frequentadores para a compra dos produtos”, aponta Mariana Belmont. Ainda assim, segundo o mapa de Feiras Orgânicas do Idec (Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor), a maioria dos mais de 40 pontos de distribuição de orgânicos na cidade de São Paulo continua concentrada no centro expandido. No Estado de São Paulo, são mais de 150 pontos, e no Brasil inteiro há 641 iniciativas cadastradas.

    Pegando carona nas mudanças de perspectivas, depois de seis anos desativada, em 2014 a Casa Ecoativa retomou as suas atividades com o auxílio de Jaison e outros moradores da Ilha do Bororé. Hoje, o espaço é um centro de difusão de cultura, mídia livre e práticas sustentáveis, com oficinas de cisterna, banheiro seco e fossas sustentáveis. Para Jaison, é importante que se busque a instrumentalização das atividades que já eram praticadas pelos seus avós, pois sempre haverá um ganho em conhecer novos horizontes. Mas se esses cursos que buscam otimizar práticas e recursos estavam concentrados nas regiões centrais, hoje há grupos que atuam especificamente em territórios periféricos. Tanto a Casa Ecoativa quanto o Coletivo Dedo Verde integram a rede PermaPerifa (Permacultura e Periferia), que reúne 12 coletivos de arte e permacultura das periferias com objetivo de difundir os conceitos e instrumentalizar a população das quebradas. “Entendemos que a revolução das periferias vai passar pela apropriação do conhecimento e das ferramentas tecnológicas”, explica Renato.

     

    Mais que isso, Jaison atravessou a ponte para ir à zona oeste, dialogar com os “permaboys”, como ele se refere aos jovens que estão descobrindo a permacultura nas regiões centrais da cidade. Criada por acadêmicos no ano 2000, na Vila Madalena, e com objetivo de fomentar e formular políticas públicas, neste ano a Casa da Cidade vai facilitar um curso de permacultura com vagas gratuitas e subsidiadas na Ilha do Bororé. Além disso, muitos dos orgânicos produzidos no extremo sul já são vendidos ao consumidor final em lojas do centro, como o Instituto Chão, na mesma Vila Madalena. E há alguns meses, com o objetivo de facilitar o acesso de moradores da região a esses produtos que não são encontrados facilmente em feiras ou supermercados locais, eles também são comercializados na própria Ecoativa. “O produto é colhido no dia, chega nas pessoas com o coração batendo ainda”, conta.

    Renato, do Dedo Verde, diz que “parece que, da ponte pra lá, tudo é mais fácil”, em referência ao clássico rap dos Racionais MCs, “Da Ponte Pra Cá”, que fala da realidade vivida por quem atravessa diariamente a ponte João Dias. Para ele, a diferença entre o que acontece de um lado ou de outro do rio Pinheiros – essa barreira invisível que parte a cidade em duas – são os recursos financeiros. “A nossa luta é pra salvar um único planeta, mas percebo que o que realmente nos separa é a importância que dão para os movimentos centrais e que têm mais visibilidade midiática em comparação aos movimentos periféricos que estão se organizando”, observa.

    Mariana Caires e Thiago Borges fazem parte do 'Periferia em Movimento', coletivo de comunicação sobre, para e a partir das periferias criado por jornalistas do extremo sul de São Paulo.

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