Uma nova era de escrita e sociabilidade proporcionada por livros virtuais
Foto: Ricardo Monteiro/Nexo

Uma nova era de escrita e sociabilidade proporcionada por livros virtuais

Wattpad reúne milhões de obras de escritores anônimos que se tornam celebridades com milhares de seguidores. Mas só entram na Bienal do Livro se forem publicados em papel

O Nexo é um jornal independente sem publicidade financiado por assinaturas. Este conteúdo é exclusivo para nossos assinantes e está com acesso livre como uma cortesia para você experimentar o jornal digital mais premiado do Brasil. Apoie nosso jornalismo. Conheça nossos planos. Junte-se ao Nexo!

No aplicativo de escrita Wattpad, lar de milhões – sim, milhões – de livros, os escritores são sociáveis e ativos. As obras, caudalosas mas incorpóreas, vivem bem no equilíbrio frenético dessa nuvem de arquivos que conecta celular, tablet e computador. Publicar em papel é um processo seletivo e lento demais, e os leitores do aplicativo – 45 milhões, espalhados pelo mundo – não aceitam esperar. São entusiasmados e têm pouco da disposição saturnina típica da espécie: atuam deixando comentários para os autores, quase sempre em tom positivo, quase sempre pedindo novos capítulos, quase nunca seguindo as regras da gramática, essa normativa. Desde 2006, quando o Wattpad foi lançado por dois engenheiros canadenses, uma nova era de escrita e sociabilidade começou: os filmes de “high school” que corram atrás, os clichês já não são mais o que eram.

Para quem aqui estiver sendo pego de surpresa, um rápido guia de como tudo isso funciona. Uma vez que se tem acesso à internet, basta baixar o aplicativo Wattpad e fazer login. Imediatamente pipocam sugestões de leitura, separadas pelos gêneros de maior sucesso: romance, fantasia, ficção científica e terror (incluindo-se, frequentemente, o complemento “hot"). O leitor talvez sinta uma atração por ler não só o texto principal, mas os comentários dos outros leitores, e seus dedos coçarão até que comece ele também a registrar suas opiniões. Poderá, como os demais, "favoritar" obras – para receber as notificações de atualização – e seguir o autor nas redes sociais, a fim de acompanhar, virtualmente, os caminhos que entrelaçam arte e vida, Wattpad e Facebook.

Ao contrário do que prega certo senso comum – “as novas gerações não gostam de ler” –, no Wattpad, quanto mais longo o livro, maior o fã-clube: ganha pontos a história que tiver mais de setenta capítulos. Se fizer parte de uma série, então, ainda melhor. Entrar em uma obra dessas é conhecer algo do funcionamento do tempo – não é pelas páginas que se mede a extensão de um texto, mas em um cálculo estimado de minutos que se leva para seguir um trecho até o final. A barra de avanço no topo da janela fica lá para nos lembrar: faltam oito minutos até o final do capítulo; sete minutos; seis… Talvez a constante interrupção de notificações do WhatsApp lembrem ao usuário que ainda há um mundo lá fora. Ou melhor, lá dentro. Ou alhures – nesse espaço sem espaço que é a virtualidade, dentro e fora são categorias que enlouqueceram.

Se tudo isso parece estranho a quem está mais acostumado a ler livros feitos de – respirem fundo – árvores assassinadas, saiba o leitor que o estranho é ele. Os números entregam que o verdadeiro submundo da literatura é o das editoras e livrarias, onde livros são pagos antes de serem lidos e os autores recebem seus royalties. No Wattpad, pessoas ao redor do mundo passam um total de 250 milhões de horas lendo livros no aplicativo, ou seja, 15 bilhões de minutos, 900 trilhões de segundos. São números que dizem a mesma coisa, é claro, mas o que eles dizem é de uma grandeza tão incompreensível que vale dizê-lo de todos os jeitos, e ainda assim não captamos totalmente seu significado. Qual editora, afinal, poderia sonhar com uma série cujo tomo inaugural foi lido mais de 1,3 bilhão de vezes, com 6 milhões de comentários registrados?

 

Pois foi o que ocorreu com “After”, da norte-americana Anna Todd, que, até começar sua fanfic (para os leigos: ficção feita por fãs) semierótica sobre os membros da banda One Direction, servia waffles numa lanchonete do Texas. De lá pra cá, o livro não só migrou do Wattpad para a editora Simon & Schuster (uma das maiores do mundo anglófono), como seus direitos foram comprados pela produtora de cinema Paramount. E então desceu aos trópicos e se aclimatou no solo da Paralela, selo da Companhia das Letras, que já não precisa mais sonhar.

Tampouco faltam exemplos nacionais: a fluminense Chris Salles, com seu “O Diário Internacional de Babi”, sobre uma adolescente que se muda para a tão sonhada Orlando, teve 6 milhões de leituras, e recentemente saiu do aplicativo e foi para a editora Planeta, com título em letra cursiva sobre fundo rosa. Agora o livro frequenta livrarias – em formato virtual, já havia atravessado o Atlântico, ganhando popularidade entre leitores portugueses e moçambicanos.

Do celular para as livrarias

Felipe Sali, de 24 anos, usa óculos (mas não do tipo fundo de garrafa), não tem espinhas no rosto e nem ao menos é tímido. Das 24 horas de cada dia, chega às vezes a passar duas delas só respondendo às fãs: elas lamentam que ele agora tenha namorada, mas sabem, no fundo de seus suspiros, que ao menos Pablo, o herói do romance “Mais Leve que o Ar”, sempre será fiel a cada uma que sonha que ele é só dela. Das 22 horas restantes, Felipe dedica seis ao estágio e quatro à faculdade; toda noite, por duas horas, escreve novos capítulos, contos ou poemas, que na manhã seguinte revisa em trinta minutos. Aqui e ali arranja tempo para atualizar Facebook, Instagram (o pessoal e o da conta que criou para um de seus personagens), Snapchat e canal no YouTube, e cumpre as funções (voluntárias) de diplomata da plataforma no Brasil. Dorme um número mínimo de horas, no quarto alugado que divide com um amigo em São Paulo.

Em 2015, Sali aproveitou a Bienal do Livro no Rio de Janeiro para marcar um encontro com seus leitores, à margem da programação oficial do evento. “Percebi que não precisava ter um livro impresso para começar a me comportar como autor”, explicou. Afinal, seu primeiro romance postado, “Ick Perspectiva”, teve 100 mil leituras em menos de um mês. E então ele se deu conta de que poderia participar de toda sorte de atividade exercida por escritores e outros popstars, como as tardes de autógrafos. O encontro na Bienal foi um dos muitos que ele combinou pelas redes sociais, mas, uma vez lá, os seguranças do evento pediram que ele e seus seguidores se retirassem do local: não havia livro físico que justificasse o número de pessoas. Sair de lá não foi problema, mas voltar para a casa em que se hospedava, sim: somando todos os trocados do fundo do bolso, não tinha o suficiente para pagar o metrô. É um engano dos nossos ouvidos acreditar que “fama" rima com “grana”.

 

Ainda que o aplicativo tenha arrecadado quase 70 milhões de dólares vindos de investimentos de capital de risco, são raros os usuários que veem algum retorno para além dos “likes”. A assessoria do Wattpad diz trabalhar para reverter a “realidade injusta” dos autores, e já criou, por exemplo, o Wattpad Studios, que transformará histórias populares em filmes e séries. Nas Filipinas, segunda colocada na lista de países que mais utilizam o aplicativo (perde apenas para os Estados Unidos), o canal TV5 criou o programa Wattpad Presents, com episódios retirados de livros da plataforma, como o muito romântico “He's a Kidnapper” (Ele é um sequestrador, em tradução livre).

Na América do Norte, o projeto Wattpad Stars funciona como uma espécie de agência de talentos, oferecendo escritores para empresas. Um pequeno punhado de nomes figuram como as histórias de sucesso da casa. Rebecca Sky, por exemplo, que faz a linha divertida-romântica com um quê de suspense, como em “The Love Curse” (A maldição do amor, em tradução livre), escreveu uma campanha publicitária para os queijos da marca Athenos, que queria vender seus produtos por meio de uma história sobre uma mulher que soubesse “aproveitar a vida ao máximo”, e nessa vida uma quantidade generosa de laticínios deveria ser consumida.

O Wattpad não revela os valores que circularam nessas transações que agenciam, nem as porcentagens destinadas aos autores. Muito pouco é dito às claras, mas eles insistem: é este o “sonho de qualquer autor”. A descrição no site da plataforma se resume a termos como “divertido”, “experiência fenomenal” e “mudança para toda a vida” – substitutos para números e explicações. Não há exemplos brasileiros de escritores selecionados pela plataforma para parcerias do gênero, mas as editoras nacionais já se adiantaram. “Mais Leve que o Ar”, de Felipe Sali, saiu no segundo semestre de 2016 pela editora independente Lote 42. Talvez então as finanças de Sali melhorem, já que os leitores do mundo virtual costumam obter cópias impressas dos livros que elegem como preferidos.

Anna Todd, Chris Salles e Felipe Sali são exemplos de uma escrita que se guia pelos moldes do livro em carne e osso, folha e capa, daí que migrem facilmente do celular para as livrarias. Mas nem sempre é assim. Muito do que se lê no Wattpad circula justamente por um solo gelatinoso de experimentalismo intermidiático. Todo livro deve necessariamente ser publicado capítulo a capítulo, mas dentro desse recorte é possível acrescentar vídeos do YouTube, fotos, emoticons, GIFs, músicas. Aqui se lê, aqui se ouve. Para dar corda ao ânimo dos leitores, mas rédea curta à imaginação, o aplicativo permite ao autor elencar um casting imaginário de atores famosos para cada personagem. Trailers de livros, com cenas de filmes recortadas e remontadas, apresentam aos olhos transeuntes as tramas de suspense e erotismo soft que povoam a plataforma. Às vezes uma postagem em um grupo de Facebook perguntando “Vocês leriam um livro com a seguinte capa?”, acompanhada de uma montagem virtual, é o suficiente para seduzir ou repelir. O público é simpático, mas sabe o que quer.

De fã à celebridade

Foto: Adriely Araújo/Facebook
Capa do livro "A Escolhida"
O livro "A Escolhida", de Drikacsa, ganhou o prêmio The Wattys na categoria que premia as obras adicionadas com mais frequência pelos "wattpadders"

Justin Bieber, por exemplo, é algo que se quer. Foi ele que levou Adriely Araújo, codinome Drikacsa, ao Wattpad. Até descobrir o app, a maranhense de Imperatriz passava os finais de semana em fóruns de fanfic sobre essa celebridade canadense que ensinou a seu país a conjugação intransitiva do verbo brasileiro “causar”. Hoje Adriely passa seus dias equilibrando números contrastantes: 18 anos de idade e 4,6 milhões de leituras de seu livro inaugural, “A Escolhida”. “É algo que eu faço para mim”, diz mais ou menos envergonhada quando lhe pergunto por que escreve. “Mim” e mais uma multidão. Seus pais – a mãe, dona de casa, o pai, motorista de caminhão – só descobriram recentemente que quando a filha se trancava no quarto era para escrever. Seus professores do ensino médio, no qual se formou em 2015, tampouco imaginavam ter uma aluna famosa: nem sempre é evidente, no mundo físico, quem são as celebridades do mundo virtual.

No final de 2016, prestou vestibular para engenharia da computação, e aguarda o resultado. Não que seja boa em exatas – sempre teve mais jeito para humanas, e justamente por isso quer ir atrás do que for mais difícil. A escrita, essa sim, é fácil. “As ideias vêm.” Há pouco tempo foi procurada por uma editora recém-criada, que quer dar existência física para seu livro. Aí, caso aconteça, será provável que questões jurídicas impeçam sua personagem principal de seguir sendo representada como a modelo inglesa Suki Waterhouse, e seu book trailer, se houver, dificilmente continuará tendo cenas recicladas de Kate Winslet e Demi Moore.

Na Bienal do Livro de São Paulo, no final de agosto de 2016, em uma tarde insensata de inverno – fazia muito calor –, fãs e autores novamente se encontraram em evento marcado pelas redes sociais: às 14 horas, em frente ao restaurante Spoleto. E a praça de alimentação foi tomada por autógrafos, abraços e smartphones. Nesses encontros, percebe-se que o Wattpad também serve de ímã para novas amizades, um incentivo à vida social de pessoas e histórias. Sem essa vivência, é bem possível que uma análise desse universo pareça incompleta aos olhos de quem vive conectado à plataforma. O Wattpad pertence ao mundo “dos jovens”, e, como quase tudo dessa categoria, é recebido pelos mais velhos com boa dose de incompreensão. Se este texto cair nas mãos de algum desses jovens – que, aliás, provavelmente detesta ser chamado assim –, ele talvez fique indignado com minha inabilidade de expressar o que o Wattpad é para ele. Mas é possível também que esse jovem hipotético, de tanto conviver com textos, já tenha aprendido uma das maiores lições do universo das palavras: tudo no mundo existe para acabar mal lido.

Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project.