A revolução brasileira de Antonio Callado
Foto: Marcello Casal Jr./ABr

A revolução brasileira de Antonio Callado

Ao destacar os indígenas do país, escritor contribuiu para forjar uma nova identidade nacional na literatura

Era ainda o Brasil da República Velha quando nasceu em Niterói o escritor, jornalista e dramaturgo Antonio Callado, em 26 de janeiro de 1917. Entre os autores brasileiros da segunda metade do século 20, associados à segunda fase do modernismo, Callado não tem a mesma presença na memória cultural brasileira que contemporâneos como Guimarães Rosa ou Clarice Lispector. O autor, entretanto, contribuiu para a construção de uma identidade nacional na literatura que colocou em primeiro plano os habitantes oprimidos do país, as mulheres, os negros, os moradores dos sertões e, especialmente, os indígenas.

A referência automática quando se fala em Callado costuma ser o romance “Quarup”, publicado em 1967, e simbólico de um contexto cultural e intelectual de resistência à ditadura na década de 60, com seu protagonista que começa padre e se transforma em guerrilheiro.

“Quarup” foi descrito assim pelo contemporâneo Ferreira Gullar, na orelha da primeira edição: “Isso é que é, na verdade, a Revolução Brasileira. E a gente acredita mais nela quando surge, diante de nós um livro como ‘Quarup’, porque se vê nele que a revolução continua e se aprofunda, que ela ganha carne, densidade, penetra fundo na alma dos homens”.

Além de escritor, Callado trabalhou como jornalista por quase quatro décadas. Em seu tempo de serviços a redações, esteve em lugares cruciais da história do século 20. Em 1941, trabalhou no serviço brasileiro da BBC em uma Londres sob bombardeio nazista; pouco depois, passou um tempo na Paris ocupada pelos alemães; em 1968, reportou para o Jornal do Brasil do Vietnã do Norte, sendo um dos poucos brasileiros a cobrir a Guerra do Vietnã in loco. 

Literatura do oprimido

Uma dessas viagens lhe colocou na posição de precursor brasileiro do jornalismo literário, estilo que mistura reportagem e apuração de fatos a recursos e técnicas da literatura. Callado participou de uma expedição na área do Alto Xingu, norte do Mato Grosso, que buscava encontrar a ossada do explorador britânico Percy Fawcett, desaparecido em 1925. O resultado foi transformado depois em livro, “Esqueleto do Rio Verde”, descrito assim pelo crítico Davi Arrigucci Jr.: “Não é apenas uma das melhores reportagens já escritas no Brasil, mas uma espécie de desconstrução da reportagem tradicional, minada pela fratura da escrita irônica com que faz e desfaz hipóteses sobre ossos falsos”.

 

A dramaturgia de Callado revela outro pioneirismo: personagens negros em papéis de destaque, com atenção a especificidades culturais da raça, em uma fase conhecida como “teatro negro”. A categoria se inicia com “Pedro Mico”, cuja ação se passa numa favela carioca. Para desgosto do autor, algumas das montagens de textos dessa fase se utilizaram de atores com blackface (recurso onde atores pintam a cara de preto). Os episódios inspiraram parcialmente “A Revolta da Cachaça”, de 1958, que discorre sobre dois atores negros desiludidos com a falta de oportunidades nos palcos. Neste trabalho, “ele aproveitou para acertar contas com o teatro brasileiro, num texto no qual se dão as mãos metalinguagem e recuperação da história”, explica o professor João Cezar de Castro Rocha (Instituto de Letras da UERJ) em prefácio da edição da peça lançada ano passado pela editora José Olympio.

O tema que mais se destaca na obra do escritor, entretanto, é o indígena, que aparece em reportagens, romances e peças. Callado era profundamente interessado na cultura e no comportamento dos habitantes originais do Brasil. Nunca pela lente do exotismo ou do distanciamento acadêmico. Desde o princípio, deu atenção especial ao que os brancos urbanos podiam aprender com eles. “Espécie de elogio implícito da forma de vida indígena capaz de fornecer lições básicas à civilização branca e cristã”, observou sobre “Quarup” a crítica Ligia Chiappini Moraes Leite, da Faculdade de Letras da USP (Universidade de São Paulo).

Além dos já citados “Quarup” e “Elementos do Rio Verde”, os índios fazem parte de outro importante título da bibliografia de Callado, “A expedição Montaigne”, publicado no início da década de 80.

“Na entrevista que me deu pouco antes de morrer, Callado insistia para que todos os brasileiros não deixem de visitar, um dia, o Parque do Xingu. O conselho mostra como ele ficou impactado até o fim da vida pela sua experiência com os índios”, explicou ao Nexo Marcelo Ridenti, professor do departamento de sociologia da Unicamp e autor de “Brasilidade revolucionária - um século de cultura e política”.

“Logo que a gente chega ao Posto Culuene, da Fundação Brasil Central, o choque demasiado bruto paralisa o raciocínio.”

Antonio Callado

Em descrição sobre sua primeira visita ao Alto Xingu

O amor de Callado aos indígenas era “concreto’, relatou certa vez sua esposa, a jornalista Ana Arruda Callado, em um discurso realizado em 1994. Ela exemplificou com uma história do Xingu “Vi e vivi um momento de grande beleza quando tomávamos banho no lago Ipavu, da aldeia Kamaiurá... Antonio, cercado de meninos índios, brincava com eles dentro d'água, como um avô dedicado. Os meninos fingiam susto, riam alto, nadavam, pulavam dentro da lagoa, e Antonio, incansável, repetia e repetia a mímica do monstro ameaçador, pois os curumins não queriam largá-lo.” Callado morreu em 1997, aos 80 anos.

A influência do avô

Callado, autodidata, veio de uma família de classe média onde o estudo e o conhecimento eram valorizados. Seu pai, Dario Callado, era médico e poeta. Montou uma ampla biblioteca, rica em obras brasileiras e francesas. Sua mãe, a professora Edite Pitanga, integrava um amplo contingente de mulheres que compunha a família próxima do autor, que incluíam três irmãs e duas tias professoras. Através da mãe, “uma figura mais decisiva que meu pai”, segundo Callado disse ao jornal O Globo, veio a influência fundamental do avô.

Callado tinha apenas um ano de idade quando seu avô faleceu, vítima da gripe espanhola. “A presença do meu avô lá em casa, através dela, era algo muito interessante… a influência dele foi muito grande na minha formação. Inclusive essa coisa de índios”, disse certa vez.

Callado foi batizado em homenagem ao avô. Antônio Ferreira de Souza Pitanga nasceu em 1850, em Salvador, e frequentou a mesma escola de Rui Barbosa e Castro Alves. Foi juiz de direito, desembargador, jurista e escritor, presidente do Instituto Geográfico e Histórico Brasileiro, e um dedicado batalhador dos direitos indígenas. Publicou livros que chamavam a atenção para a condição de vida que resultava de uma cidadania de segunda classe reservada aos indígenas, entre os quais “O selvagem perante o direito”, de 1901, e “A tutela dos índios”, de 1915. Como um dos raros juristas a tratar do tema, seu trabalho é considerado essencial na discussão e definição da situação legal do índio. Serviu como referência para a atuação do Serviço de Proteção ao Índio, órgão governamental criado em 1910 que antecedeu a Funai (Fundação Nacional do Índio), como registra o sociólogo Fabio Carminati em "A utopia perdida: literatura e revolução no Brasil de Antonio Callado".

 

Pitanga esteve em diversos lugares do Brasil na condição de juiz de direito. Um lugar se destacou em sua memória pelo maus tratos à população indígena, segundo Callado: a cidade de Curitibanos, em Santa Catarina. “Sempre que evocava Curitibanos Pitanga mal sopitava a cólera que era ainda a mesma que sentira ao chegar a comarca, como juiz, e constatar que os índios eram chamados ‘imundice’ pelos brancos e que estes os assaltavam, para matá-los e roubá-los e prendê- los em operações de rotina e inteiramente impunes. A isto chamavam ‘dar batida aos bugres’. O primeiro ato jurisdicional do novo magistrado foi tornar público, e sem deixar dúvidas no espírito de ninguém, que o Código Penal fora feito também para o selvagem. Seriam considerados criminosos comuns os que hostilizassem os índios.”

Pitanga defendia posições comuns à época entre os agentes que lidavam com a questão indígena, entre as quais a integração dos povos indígenas à população geral brasileira, a ser conseguida gradualmente, e a “pacificação”, nome dado a um processo de aproximação das tribos consideradas “bravias” através de “índios mansos”. O objetivo era evitar que povos mais hostis fossem simplesmente dizimados em confrontos desiguais. “A triste verdade é a de um permanente conflito entre uma raça invasora impelida pela necessidade ou pela ambição e as tribos nômades, vivendo da caça e da pesca e defendendo até à morte vastas áreas de território, que lhes ministram os elementos de vida”, escreveu Pitanga em “O selvagem perante o direito”.

O planeta Xingu

“Inocência também pega. Logo que a gente chega ao Posto Culuene, da Fundação Brasil Central, o choque demasiado bruto paralisa o raciocínio. A gente só sabe que saiu da cidade de São Paulo, num aparelho monomotor, umas sete horas antes: como é possível que agora, à beira daquele rio, homens e mulheres estranhos, mongoloides, inteiramente nus, cerquem o avião?”

O trecho acima está no livro-reportagem “Esqueleto da lagoa verde”, publicado originalmente em partes no Correio da Manhã. Em 1952, Callado integrou um grupo de jornalistas que rumou em direção ao Alto Xingu numa expedição bancada pelo magnata da mídia Assis Chateaubriand. Sua missão era tentar descobrir informações sobre o coronel Percy Fawcett, explorador britânico que tinha se aventurado pela área em 1925, à procura de resquícios de uma cidade perdida dos trópicos que ele chamava de Z. Fawcett e seu grupo nunca mais foram vistos.

O Alto Xingu do início dos anos 50 era um terreno um pouco menos desconhecido e remoto para os brasileiros quando comparado ao  tempo de Fawcett, mas ainda assim provocava “assombro e pavor”, como relata o escritor Jorge Ferreira, no documentário de uma das expedições do sertanista Orlando Villas-Boas. “O Xingu parecia estar em outro planeta. A África ficava mais perto”, narrou Ferreira.

 

Orlando e Claudio Villas-Boas ajudaram a receber o grupo. Em um prefácio para o livro “A marcha para o Oeste”, Callado lembrou da impressão causada pelos trabalho dos irmãos Villas-Boas e do médico Noel Nutels: “Fiquei estupefato de ver como, além do exaustivo trabalho de cada um, todos tinham tempo de acolher os índios, conversar com eles por cima de barreiras de língua, conviver com eles”, escreveu. “Quando lá cheguei a primeira vez, cheguei de botas. Todos andavam de tênis ou sapato velho. Orlando andava quilômetros por dia, no mato, feito os índios: descalço!”

O grupo, do qual também fazia parte o filho de Percy Fawcett, Brian, foi levado a um local apelidado de Lagoa Verde onde havia uma ossada que se suspeitava ser do aventureiro desaparecido. Quem havia encontrado os ossos eram os índios Kalapalos. Enviado para análise no Reino Unido, o material provou ser de um homem mais baixo que o coronel Fawcett.

Apesar de ter resultado em uma pista errada, a semana que passou no Alto Xingu descortinou para o escritor um fascinante universo no sertão brasileiro, povoado por seres humanos que viviam “aquém do Bem e do Mal.”

A utopia de 'Quarup'

Depois da primeira ida ao Xingu, Callado retornou diversas vezes à Amazônia. Em uma delas, foi acompanhado do escritor inglês Aldous Huxley e da poetisa americana Elizabeth Bishop.

“[Huxley] gostou mesmo foi das borboletinhas brancas que surgem em bandos enormes à beira do rio, no barro branco e úmido, a tabatinga. Ele se pôs de cócoras, entre mil borboletinhas miudinhas, e queria saber o que faziam ali, em tamanho frenesi. Ninguém sabia. Os índios pelados, Huxley os olhou com certa incuriosidade, talvez por palidez, para deixá-los à vontade", lembrou Callado em um artigo de 1994.

O escritor passou a estudar sistematicamente a região e os índios. Escreveu a peça “Frankel”, em que uma antropóloga, um geólogo e um jornalista se encontram na região. Tudo serviria como preparatório para seu grande momento literário.

 

Quando “Quarup” foi publicado, o Brasil vivia ainda a fase do governo militar que o jornalista Elio Gaspari chamou de “A Ditadura Envergonhada”. Havia já prisões e censura, mas ainda sem o alcance ou a ferocidade do período posterior ao AI-5 (Ato Institucional número 5, que fechou o Congresso e intensificou a repressão), de 1968. Entre artistas e intelectuais de esquerda, era popular a crença de que era possível resistir e, talvez até, reverter o processo autoritário.

Na história de “Quarup”, o padre Nando é um homem apegado aos ensinamentos da Igreja Católica. Alimenta o sonho de um país igualitário. Sua inspiração é a República dos Guaranis, comunidade “socialista” de jesuítas e índios constituída no Rio Grande do Sul do século XVII.

“Eu considero a ida ao centro do Brasil, onde vivem os índios em estado selvagem, mais importante, muito mais importante do que conhecer o Rio ou São Paulo”, diz o personagem. “É só no Brasil que ainda existem, tão perto das grandes cidades, homens mais em contato com Deus do que com a história, isto é, com o mundo da razão e do tempo. Entre eles a aventura do homem na terra poderia começar de novo.”

Depois da primeira ida ao Xingu, Callado retornou diversas vezes à Amazônia

“Havia uma espécie de utopia romântica no livro, apontando a necessidade de aprender com nossos antepassados indígenas alguns valores perdidos pela sociedade branca capitalista ocidental, como gratuidade, doação, solidariedade, sem se submeter à lógica do lucro e da produção de mercadorias”, pondera o professor Marcelo Ridenti, da Unicamp.

O idealismo de Nando vai se desfazendo à medida em que ele viaja pelo Brasil e conhece situações de sofrimento e desigualdade. Ele acaba por abandonar a batina e junta-se à guerrilha armada no sertão. A história se inicia no governo do presidente Getúlio Vargas, nos anos 50, e vai até o golpe militar de 1964. Movimentos sociais, sindicatos rurais e grupos de luta armada, componentes importantes para se entender o cenário político do período, estão presentes na narrativa.

 

Inspirado por sua viagem dos anos 50, Callado posiciona os indígenas como parte da narrativa, mas também usa a cerimônia que dá nome ao livro como metáfora para a transformação do personagem principal. O Quarup é um rito de homenagem aos mortos que acaba com as almas livres para que elas possam subir ao céu.

“Considero a ida ao centro do Brasil, onde vivem os índios em estado selvagem, mais importante, muito mais importante do que conhecer o Rio ou São Paulo”

Padre Nando

Protagonista de "Quarup"

“Callado foi um pioneiro ao levantar a questão indígena, que ainda não estava no centro dos debates da esquerda nos anos 60”, lembra Ridenti. O sociólogo observa no entanto que “a importância de Quarup para sua geração de artistas e intelectuais esteve menos no sentido de pensar a especificidade da questão indígena, e mais no sentido da resistência contra a ditadura, que o romance expressava muito bem, assim como na afirmação da brasilidade, enraizada nos índios e nos camponeses.”

“O livro dialoga com obras fundamentais da nossa literatura”, escreveu Ligia Chiappini em “Nem lero nem clero: historicidade e atualidade em Quarup de Antonio Callado”. “No mínimo, desde Gonçalves Dias e Alencar a Guimarães Rosa, passando por Mário de Andrade e perseguindo um filão que afirma o Brasil do interior contra o Brasil amaneirado e afrancesado do litoral.”

Xingu distópico

A incursão literária de Callado ao Xingu da década de 80 tem um caráter bastante diferente. Em “Expedição Montaigne”, publicado em 1982, a utopia dá lugar ao sarcasmo e à paródia. O livro foi escrito, segundo Callado, em clima de “ressaca” de duas décadas de “humilhação militar”.

O romance conta a história do jornalista Vicentinho Beirão, que tem como plano reunir um exército de índios para guerrear contra os brancos. Para sua missão quixotesca, procura o índio Ipavu que reside com outros indígenas em um reformatório desativado. Apesar de não serem obrigados, os índios seguem morando no local e se dedicam a furtos e bebedeiras.

Além de escritor, Callado trabalhou como jornalista por quase quatro décadas

Pela via do humor, Callado expõe a tragédia do índio brasileiro, de povos e culturas que vão sendo destruídas pelo inclemente avanço branco. Em 1982, políticas de colonização da Amazônia do governo militar, e obras como a rodovia Transamazônica, já haviam deixado um legado de destruição entre os povos indígenas. O Estatuto do Índio, de 1973, tinha entre seus objetivos proteger os índios e demarcar suas terras, mas mantinha um caráter paternalista e de manutenção do índio como dependente do Estado.

A palavra “expedição” nomeia uma versão nada lisonjeira das missões exploratórias de outros tempos, sempre cheias de heroísmo e propósito, mas que também geraram resultados questionáveis, da aculturação à exposição de povos antes preservados.

Para a professora Rejane C. Rocha, do Departamento de Letras, da Ufscar (Universidade Federal de São Carlos), a obra representa (assim como “Quarup”) um grande esforço de desmonte de uma identidade brasileira erguida segundo interesses conservadores ou oficiais. “É uma resposta à tentativa de construção de uma identidade nacional: desconstruir a homogeneidade da identidade indígena é, por extensão, desconstruir as ideias de origem e de pureza do ‘ser nacional brasileiro’”, escreveu a professora em “Antonio Callado e a Rasura da Identidade Nacional”.

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