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'Eles não conseguiam brecar Dom Paulo!'

'Eles não conseguiam brecar Dom Paulo!'

Sacerdote foi além da sacristia para se tornar um empenhado ativista dos direitos humanos e da democracia

“Maldito seja aquele que mancha as mãos com o sangue do seu irmão”. As palavras de dom Paulo Evaristo Arns ecoaram pela Catedral da Sé, para um público de oito mil pessoas, lotação máxima da igreja. O evento era a cerimônia ecumênica em homenagem ao jornalista Vladimir Herzog, o Vlado, morto uma semana antes. Nas palavras do sacerdote, uma condenação indireta àqueles que haviam assassinado Herzog. Realizada em 31 de outubro de 1975, a missa viria a ser um importante ato de desafio à sistemática violência que vinha sendo praticada pelo Estado brasileiro.

Herzog foi encontrado sem vida em uma cela do DOI-CODI (Destacamento de Operações de Informação - Centro de Operações de Defesa Interna), órgão de repressão política da Polícia Civil. O laudo oficial indicava suicídio. Como depois se comprovaria, Herzog na verdade foi morto durante uma sessão de tortura nas mãos dos agentes policiais. Diretor de jornalismo da TV Cultura, era acusado de associação com o partido comunista. Fazia parte de uma lista de profissionais da imprensa que estavam na mira da repressão política. “Sua prisão foi o clímax de um processo de perseguição a jornalistas”, lembra Audálio Dantas, na época presidente do Sindicato dos Jornalistas.

O sindicato tinha certeza que não fora suicídio. Dom Paulo também. Logo após a notícia da morte, representantes da entidade procuraram o líder religioso. “Sabíamos que podíamos recorrer a ele nessas horas difíceis”, diz Dantas. Surgiu então a ideia de uma homenagem ecumênica na Sé. “Absolutamente na hora, sem nenhuma dúvida, dom Paulo respondeu que assumiria a organização religiosa desse culto”, recorda Dantas.

Dom Paulo recebeu então em sua casa um grupo de rabinos da Congregação Israelita para falar da homenagem, uma vez que Herzog era judeu. Os religiosos, entretanto, acreditavam na versão oficial e não queriam participar da celebração, pois a crença judaica não permitiria celebrar a morte de um suicida. Dom Paulo lhes garantiu que Vlado havia sido morto. Depois de um período de silêncio tenso, um dos rabinos, Henry Sobel, deu um passo à frente: “Eu estarei lá com o senhor na missa”.

Estudantes queriam usar a ocasião para protestar e fazer do ritual um ato político. Dom Paulo pediu que se contivessem. Sabia que, ao menor sinal do que poderia ser encarado como provocação, a repressão interviria. Um arcebispo havia sido procurado por dois emissários do então governador de São Paulo, Paulo Egydio Martins, que pediram que o culto não se realizasse pois poderia haver “derramamento de sangue”. Dom Paulo se recusou a atender o pedido. “A minha obrigação como religioso é estar onde está meu povo”, disse.

Quando o culto terminou, as pessoas saíram em pequenos grupos, de modo pacífico. A praça estava tomada por policiais. “Foi um protesto silencioso”, observa Dantas. “Havia ameaças diárias, mas a firmeza, a presença dele na catedral, conduzindo aquele ato, foi fundamental para que acontecesse como aconteceu.”

 

Dom Paulo foi muito além de suas atribuições de religioso, enfurecendo aqueles que achavam que seu lugar era na sacristia. Ao contrário, ele se aproveitou da imunidade que o posto lhe dava (prender ou eliminar um arcebispo ou cardeal seria demais até para o regime militar), para confrontar a ditadura. “Era de uma firmeza maravilhosa”, descreve Dantas.

“Eles não conseguiam brecar dom Paulo!”, lembra a historiadora Evanize Sydow, coautora de “Dom Paulo Evaristo Arns: um homem amado e perseguido”, biografia do sacerdote que morreu em dezembro de 2016, aos 95 anos.

Luta pela democracia

A participação de Dom Paulo na resistência à ditadura militar, visitando presos, protegendo perseguidos, invadindo delegacias, questionando autoridades, mobilizando cidadãos, organizando grupos de ação e estudo, divulgando denúncias no Brasil e no exterior, documentando a história e homenageando mortos, fez dele um personagem fundamental na luta pela democracia nos anos 70 e 80.

Em 1973, o cardeal celebrou uma missa em homenagem ao estudante de geologia da USP (Universidade de São Paulo) Alexandre Vannucchi Leme, membro da ALN (Ação Libertadora Nacional), encontrado morto aos 22 anos com sinais de tortura. Cerca de 5 mil pessoas foram à Catedral da Sé na cerimônia.

“A minha obrigação como religioso é estar onde está meu povo"

Dom Paulo Evaristo Arns

Cardeal de São Paulo, em 1975

O ato é considerado um “ponto de virada” na resistência ao regime, pois contribui para inibir outras mortes entre os presos políticos. A missa, de acordo com Fernando Altemeyer, assessor de imprensa de dom Paulo na década de 90 e amigo de longa data, “deixou furioso o famoso torturador [capitão Albernaz], que ficou socando as portas das celas gritando ‘esse cardeal FDP não vai deixar a gente trabalhar direito’”.

Dom Paulo aproveitava de seus muitos contatos e viagens ao exterior para espalhar a palavra sobre o que acontecia no Brasil. No país, o regime censurava rotineiramente o jornal da Cúria Metropolitana, “O São Paulo”, e chegou a fechar a rádio da igreja, a Nove de Julho, ainda que seu conteúdo já fosse “autocensurado”. Cada passo seu era vigiado pelo Deops (Departamento de Ordem Política e Social, um dos órgãos responsáveis pela repressão política), que manteve relatórios diários de suas atividades entre 1970 e 1989, de acordo com Sydow.

Em 79, dom Paulo celebrou a missa para o operário Santo Dias da Silva, morto a tiros pela Polícia Militar em um piquete em frente a uma fábrica. Cerca de 30 mil pessoas compareceram ao cortejo fúnebre que teve início na igreja da Consolação e foi até a Catedral da Sé, se constituindo em outro grande ato simbólico de oposição ao regime militar.

Ele se aproveitou da imunidade que o posto lhe dava para confrontar a ditadura

Ao lado de dom Claudio Hummes, bispo de Santo André, e dom Mauro Morelli, bispo da Regional Sul 1 da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil), dom Paulo apoiou o movimento operário e prestou assistência em diversos momentos. Quando o então ministro Said Farhart, da Secretaria das Comunicações do Planalto, disse que padres também poderiam ser enquadrados pelas leis, dom Paulo disse: “Penso que o momento não é de ameaça, mas de busca de solução”. Quando Lula, na época um dos líderes dos grevistas, foi levado pela polícia, dom Paulo tratou de espalhar a notícia no Brasil e no exterior, temendo pela integridade física do operário.

Mesmo com a abertura política já em andamento, na década seguinte, o empenho do cardeal não arrefecia. No ano de 1985, publicou o livro “Brasil Nunca Mais”, uma compilação de relatos e documentos de vítimas da repressão política de mais de 300 páginas. No livro “aparecem, quase diríamos, de viva voz, o que se sabe sobre ‘subversão’, tortura, vítimas, violência contra lei e pessoas humanas”, escreveu dom Paulo em uma coluna no jornal “O São Paulo” de 85.

A nova Igreja

Para além de sua personalidade destemida e generosa, dom Paulo foi muito influenciado pela corrente progressista e social da Igreja Católica da década de 60. Sob o papado de João 23, coroado em 1958, o Vaticano fomentou a modernização de ideias e práticas, vistas como necessárias para fazer frente às profundas mudanças políticas, sociais e tecnológicas do mundo pós-Segunda Guerra Mundial. A palavra escolhida pelo pontífice para resumir esse processo foi “aggiornamento”, que em italiano significa “atualização”. Naquele momento, o Vaticano vinha de séculos de associação com ideias tradicionais. A Igreja proposta por João 23 queria dialogar com o mundo contemporâneo.

 

Entre 1962 e 1965, aconteceu o Segundo Concílio do Vaticano, que ao longo de quatro sessões reuniu 2 mil prelados de todo o mundo para discutir posicionamentos da Igreja em diversas áreas. Ao seu final, o Concílio havia produzido diversos documentos de diretrizes e orientações. O decreto Inter Mirifica tratava da mídia de massa. Na Constituição Pastoral sobre a Igreja no Mundo Moderno, o principal documento produzido pelo encontro, é enfatizada a opção pelos pobres. Não só os cristãos são individualmente chamados ao dever da solidariedade, como o texto cobra que países ricos busquem transações comerciais justas e conscientes com nações mais pobres. Entre as conclusões do documento, está a recomendação de que se constitua um organismo da Igreja para o desenvolvimento “em toda a parte” da justiça e amor que Cristo direcionava aos mais pobres.

Com a morte de João 23, em 1963, subiu ao trono papal Paulo 6o, que dá continuidade ao foco da Igreja na justiça social. Em 1967, ele publicou a encíclica “Populorum Progressio” (“Sobre o Desenvolvimento dos Povos”), que fala da “universalidade da questão social”, de que “deve cada um tomar consciência”. O documento cita duas viagens de Paulo 6o, à América Latina, em 1960, e à África, em 1962, que teriam colocado membros da Igreja em contato com “os lancinantes problemas que oprimem continentes tão cheios de vida e de esperança”. O texto diz também que “Ninguém tem direito de reservar para seu uso exclusivo aquilo que é supérfluo, quando a outros falta o necessário”. As novas ideias não eram recebidas de maneira unânime: a ala mais tradicional tratou de rechaçá-las, enquanto a maioria moderada as via com muitas ressalvas.

Em Medellín, Colômbia, aconteceu em 1968 a 2a Conferência-Geral do Episcopado Latino-Americano, que expressou o compromisso dos bispos da região com a questão social. “Medellín era como o [o Segundo Concílio do] Vaticano traduzido para a América Latina”, disse dom Paulo em entrevista em 2004. Nomeado bispo em 1966, o religioso sofreu influência de muitas ideias da conferência.

O golpe

Descendente de alemães, dom Paulo nasceu em 1921 na colônia de Forquilhinha, perto de Criciúma, Santa Catarina. Em 1945, foi ordenado sacerdote em Petrópolis, Rio de Janeiro. Pouco depois, foi estudar teologia e línguas na universidade da Sorbonne, em Paris. Lá, conheceu as ideias do pensamento filosófico francês do pós-Guerra, de nomes como Jean-Paul Sartre. Depois de feito doutor na instituição francesa, dom Paulo retornou a Petrópolis, em 1953.

 

Muito de seu tempo na cidade era dedicado ao trabalho nas favelas. Quando as tropas militares passaram por Petrópolis rumo ao Rio, colocando em marcha o golpe militar de 1964, dom Paulo via o movimento com bons olhos. Seguindo posição comum dentro da Igreja Católica, também se preocupava com a perspectiva do avanço da doutrina comunista. O apoio durou pouco. “Minha mudança ocorreu com a cassação dos antigos presidentes. Quando cassaram o Juscelino Kubitschek, o Jânio Quadros e um grupo de pessoas de importância política, embora se possa discutir seus valores, minha simpatia acabou. As pessoas eram cassadas, sem julgamento, por ordem superior, como se fosse questão administrativa”, disse em entrevista ao jornal “O Estado de S.Paulo”, em 2004.

Aos 44 anos, dom Paulo foi nomeado bispo auxiliar de São Paulo e ficou baseado na zona norte da cidade. Entre suas atividades, o sacerdote visitava presos, comuns e políticos, nas unidades prisionais da região, como a Casa de Detenção, do Carandiru, e o Barro Branco. “Ele costumava observar que era na Zona Norte que estavam todos os presídios de SP”, recorda Fernando Altemeyer.

O grande impacto vem depois de 1968, quando é decretado o AI-5, a repressão política no país endureceu e as prisões políticas se multiplicaram. Em 1969, um grupo de frades dominicanos foi levado ao Presídio Tiradentes, onde sofreram torturas pesadas. Um pouco depois, se juntou a eles, trazido do sul, o frei Betto.

Alertado pelo frei Gilberto Gorgulho, dom Paulo passou a acompanhar a situação dos frades dominicanos, até que um dia resolveu ir visitá-los no Deops. “Quando tentaram me barrar, ergui a voz, disse que era o arcebispo de São Paulo e que a Constituição me assegurava o direito de visitar os religiosos. Entrei e conheci as pessoas torturadas. Eram tantas. Saí de lá dizendo: ‘Não é possível conviver com um regime que tortura’”, relatou em entrevista ao Estado de S.Paulo, em 2004.

Dom Paulo procurou seu superior, o cardeal Agnelo Rossi, para denunciar a situação. O cardeal não deu ouvido às suas denúncias. Em 1970, o religioso, que também era presidente da CNBB, havia declarado que “no Brasil não existe perseguição religiosa e, sim, uma campanha de difamação dirigida do exterior contra o governo brasileiro”. Era o dia 22 de outubro de 1970. No mesmo dia, Paulo 6o determinou a transferência do sacerdote para Roma, onde se tornou prefeito da Congregação de Evangelização dos Povos. Ato contínuo, dom Paulo foi nomeado arcebispo metropolitano de São Paulo pelo papa.

Alguns meses depois, denunciou a prisão do padre Giulio Vicini e da agente pastoral Yara Spadini. Ambos haviam sido torturados no Deops. Dom Paulo foi pessoalmente ao departamento para ver os dois, que lhe mostraram as marcas da violência sofrida na prisão. Saiu de lá determinado a divulgar o que havia visto: emitiu uma nota que denunciava a tortura dos dois presos e ordenou que fosse pregada em todas as paróquias da arquidiocese.

Na periferia

Suas primeiras ações no novo posto estavam alinhadas com as diretrizes do Segundo Concílio. Lançou a Operação Periferia, que teve como objetivo concretizar ações em áreas pobres da cidade. “O problema da periferia nos fere os olhos, o coração, e terá que mobilizar as nossas mãos”, escreveu à época dom Paulo no jornal “O São Paulo”, semanário da Arquidiocese.

 

O novo arcebispo destinou 35% da arrecadação da Campanha da Fraternidade de 1972 a atividades pastorais e missionárias nas regiões mais pobres da cidade. A Operação Periferia tinha como objetivo a realização de uma série de ações pastorais, incluindo constituir CEBs (Comunidades Eclesiais de Base), dar formação religiosa para leigos e animadores e integrar recursos humanos e materiais de todas as comunidades de São Paulo.

Em 1973, o sacerdote ordenou a venda da residência oficial do episcopado, o Palácio Pio 12, e foi morar em um sobrado no bairro do Sumaré. O dinheiro da venda foi usado para a compra de mais de 500 terrenos em bairros periféricos como São Miguel Paulista, Guaianazes, Jardim Vista Alegre e Jardim Tremembé, entre outros, para o estabelecimento de comunidades. Em março desse mesmo ano, recebeu também o título de cardeal.

Apoio jurídico

A presença do engajado novo arcebispo em delegacias, à procura de informações sobre presos, passou a ser uma ocorrência cada vez mais comum. Dom Paulo sabia, entretanto, que a abordagem tinha limites. “Ele percebeu que, mesmo entrando nas delegacias como arcebispo, com roupa vermelha e tudo, estava enfrentando uma máquina de Estado. Não adiantava quixotescamente ficar salvando um aqui, outro ali. Como ele ia acompanhar? Nem toda a igreja queria ficar com ele”, pontua Altemeyer.

Fundou em 1972 a Comissão de Justiça e Paz de São Paulo, de acordo com os ditames do Concílio do Vaticano que recomendava a criação de um organismo da Igreja direcionado aos mais pobres. A comissão lançada por dom Paulo não arregimentou apenas religiosos, mas incluiu também operários, jornalistas e juristas.

“Era de uma firmeza maravilhosa”

Audalio Dantas

Jornalista, presidente do sindicato em 1975

Os juristas eram um grupo de destaque na comissão, pois forneceriam o amparo legal às vítimas da perseguição política. “A ditadura não podia ser absolutamente ilegal, havia habeas corpus”, explica Altemeyer. “Futuros ministros da Justiça passaram pela Comissão da Justiça e Paz”, diz, em referência a José Carlos Dias e José Gregori, que encabeçaram a pasta consecutivamente no governo Fernando Henrique Cardoso.

A comissão imediatamente se constituiu num ponto de apoio para pessoas perseguidas pelo regime militar e suas famílias. A socióloga Margarida Genevois, que seria sua presidente por três vezes e fez parte da fundação do organismo, disse em 2013 ao jornal “Folha de S. Paulo” que a Comissão “era um dos poucos lugares que apoiavam os perseguidos. Eu recebia pessoas que estavam desesperadas, muitas tinham saído de prisões e estavam profundamente marcadas por aquilo tudo. É horrível perder um pai, um irmão que desapareceu feito fumaça no ar”.

“Grupo dos loucos”

Além da CJP, dom Paulo fomentou o surgimento de um grupo de discussões que se reunia quinzenalmente para pensar o Brasil depois da ditadura. Apelidado de “grupo dos loucos”, dele participaram intelectuais como o então sociólogo Fernando Henrique Cardoso e o economista Paul Singer.

“Ele queria pensar no que a gente ia fazer depois que tudo aquilo acabasse, por onde deveria se começar”, conta Altemeyer. “Falavam de Constituinte, educação popular, todo mundo dava palpite, ficavam como que cultivando a sementinha.”

Ao promover a aproximação da igreja com os intelectuais, dom Paulo também procurava se informar sobre aspectos do país e da cidade. Era um tempo de informações controladas, de censura à imprensa e exaltação ufanista da pujança nacional. Nessa época, o Jornal Nacional não falava em problemas urbanos ou desigualdade social.

Em 1974, a Cúria contratou o Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento) para realizar um estudo sobre as condições de vida da população paulistana. O trabalho resultou no livro "São Paulo 1975: Crescimento e Pobreza", que teve tiragem acima dos 300 mil exemplares e “enorme repercussão, não apenas nas universidades, mas também nos meios políticos de oposição”, escreveu Brigitte H. Leoni em “Fernando Henrique Cardoso: o Brasil do possível”. As informações do estudo serviram de base para documentos publicados pela arquidiocese.

Rede sul-americana

Em alguns anos, a fama da Cúria Metropolitana de São Paulo como porto seguro para presos políticos começou a atrair fugitivos de regimes repressores de outros países da região, como Argentina, Chile e Uruguai.

Em 1978, um grupo de opositores ao regime militar decidiu criar o Clamor (Comitê dos Direitos Humanos para os países do Cone Sul), organização de apoio a refugiados da ditadura argentina. “Chegavam histórias de coisas terríveis acontecendo ali, desaparecimentos, campos de concentração, dos quais não se sabia pois não apareciam na mídia”, conta Jan Rocha, na época correspondente da BBC no Brasil e que esteve entre os fundadores do grupo, ao lado do reverendo presbiteriano Jaime Wright e do advogado Luis Eduardo Greenhalgh.

 

O reverendo Wright sugeriu que o grupo se colocasse sob a asa de dom Paulo, uma vez que a Cúria já vinha recebendo refugiados e a operação ficaria em maior segurança. Quando o grupo foi falar com dom Paulo sobre a possibilidade, recebeu apoio imediato e uma sala na sede da Cúria. “Ele nos recebeu de braços abertos e sempre participou ativamente de nossos trabalhos”, diz Jan.

O Clamor prestou assistência médica, psicológica e de moradia para centenas de perseguidos políticos latino-americanos. Ajudou familiares a se reencontrarem e encaminhou refugiados para o exílio na Europa. Além de publicar uma revista própria por anos com denúncias de repressão nos países do Cone Sul, informações sobre refugiados e resistência política, o grupo organizou um amplo arquivo de documentação relacionado a esses temas.

Represálias

A atuação de dom Paulo incomodou diversos setores, começando pela própria Igreja. Membros mais conservadores não aceitavam o que viam como um comportamento que extrapolava os limites da atuação de um clérigo.

Do lado do regime militar, o ódio a sua figura começava pelo próprio presidente Emílio Garrastazu Médici, que “queria ver o diabo na frente, mas não queria ver dom Paulo”, segundo a historiadora Evanize Sydow. “Fui reclamar das injustiças praticadas em São Paulo e ele respondeu que eu estava defendendo bandidos e que meu lugar era na sacristia. Praticamente me expulsou da sala, quando levantou e disse ‘muito obrigado’. Na despedida, me desculpei por tê-lo desagradado, mas insisti que era tudo verdade”, relatou o sacerdote ao jornal “O Estado de S.Paulo”.

O sentimento ecoava entre agentes policiais envolvidos na repressão e tortura. Audálio Dantas lembra de um caso de um jornalista que durante a sessão de tortura ouviu: “Isso não é nada, quero ver o dia que tiver nessa cadeira aquele bispo (sic) viado, que defende bandido e terrorista”.

Ao promover a aproximação da igreja com os intelectuais, dom Paulo também procurava se informar sobre aspectos do país e da cidade

A secretária de dom Paulo por décadas, Maria Angela Borsoi, que trabalhou com ele durante 40 anos, relatou à imprensa sobre o incessante fluxo de correspondência de ódio direcionada ao religioso. Telefonemas anônimos também eram comuns. E, uma vez, uma bomba foi lançada em direção à casa onde morava e trabalhava o arcebispo, numa rua sem saída no bairro do Sumaré. Foi quando dom Paulo, que não se abalava diante dos ataques, resolveu que o local talvez não fosse tão seguro. “Ele ouviu de um militar que a rua sem saída dificultava uma fuga, se fosse necessário”, relata Altemeyer. Foi morar então na residência que até hoje serve ao arcebispo de São Paulo, hoje dom Odilo Scherer, atrás do Mosteiro da Luz e em frente ao quartel-general da Rota. “Que ótimo, eu tô com a Rota na frente, aí não tem mais como fazer atentados porque ficaria muito evidente ou grosseiro”, disse à época.

Mas, se não podiam atingi-lo, escolhiam como alvo pessoas próximas. Uma destas foi o advogado Dalmo Dallari, integrante da Comissão de Justiça e Paz. Convidado para estar no palco na missa que o papa João Paulo 2º celebraria no Campo de Marte, em São Paulo, em 1980, o advogado recebeu uma visita inesperada na noite anterior. Encapuzados armados o aguardavam na porta de casa. Depois de espancar Dallari longamente, o largaram em um terreno baldio. O advogado conseguiu chegar a um pronto-socorro e, no dia seguinte, subiu de cadeira de rodas ao palco da cerimônia.

 

A década de 80 traria o fim das prisões políticas e a abertura democrática. Dom Paulo já pensava no que fazer quando esse tempo chegasse e dizia que “os pobres vão continuar, o povo vai continuar precisando de nós”. Direcionou a Comissão de Justiça e Paz para atividades mais sociais. Implantou com sua irmã, Zilda Arns, a Pastoral da Criança, em 1983.

No mesmo ano, celebrou um culto ecumênico para Joílson de Jesus, menino de 15 anos morto a pontapés por um procurador, depois de ser acusado de roubar uma correntinha de ouro na Praça da Sé. “Basta de morte de crianças, jovens, trabalhadores, homens e mulheres que constroem a vida. Joílson simboliza todos os meninos e meninas de quem têm sido tirada a possibilidade de viver”, escreveu o cardeal dois anos depois em uma edição do jornal “O São Paulo”.

Sob o papado de João Paulo 2o, o Vaticano tomava um rumo mais conservador. Em 1981, um velho amigo do papa, o cardeal Joseph Ratzinger (que depois se tornaria o papa Bento 16) assumiu a direção da Congregação para a Doutrina da Fé, o principal órgão de difusão da doutrina católica.

A nova direção de Roma condenava o que via como atuações políticas de religiosos, notadamente àquelas inclinadas para a esquerda. Em 1985, Ratzinger impôs um voto de silêncio ao frei Leonardo Boff, principal nome da Teologia da Libertação, corrente que mesclou a teologia com interpretações acadêmicas como antropologia e sociologia, incluindo leituras marxistas. “Dom Paulo bateu de frente com Ratzinger, os dois discutiam em alemão”, conta Sydow.

Em 1989, o papa aplicou um duro golpe a dom Paulo ao seccionar a arquidiocese de São Paulo, criando novas dioceses para Campo Limpo, Osasco, Santo Amaro e São Miguel Paulista.

Em 1998, o cardeal deixou seu posto, pois já havia chegado à idade limite. Foi nomeado arcebispo emérito. Seus últimos anos foram dedicados ao trabalho assistencial para idosos e ao recolhimento dedicado à oração e à leitura.

Em novembro de 2016, dom Paulo deixou a reclusão para ir ao teatro Tuca, em São Paulo, participar de uma homenagem aos seus 95 anos. Estava parcialmente cego, bastante surdo e caminhava com ajuda. Quando subiu ao palco, sorriu e acenou. O teatro, completamente tomado, com muitos ex-participantes da resistência à ditadura, aplaudiu de pé.

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