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Energia geotérmica: possibilidades e riscos do calor do fundo da Terra
Foto: Fabíola Ortiz/Nexo

Energia geotérmica: possibilidades e riscos do calor do fundo da Terra

Países da América Latina apostam em energia geotérmica como opção à queima de combustíveis fósseis. Mas, assim como no caso das hidrelétricas, essa alternativa pode trazer impactos socioambientais

Está no horizonte de boa parte dos governos pelo mundo gerar energia elétrica cada vez menos ligada aos combustíveis fósseis.

Afinal, quanto mais se usam as usinas termelétricas, que produzem energia elétrica a partir da queima de carvão ou óleo diesel, mais se polui atmosfera.

Alguns países se beneficiam de sua geografia para obter outras fontes. No Brasil, por exemplo, os rios caudalosos permitem o uso intenso de hidrelétricas.

Mais recentemente, países da América Latina têm se voltado a uma outra alternativa de energia renovável, também ligada às suas condições geográficas. São as usinas geotérmicas.

A exploração se dá em áreas vulcânicas. Funciona assim: o magma dos vulcões esquenta reservatórios de água subterrâneos. A partir da perfuração de poços, essa água é drenada e, ao emergir, produz vapor com calor suficiente para rodar turbinas e gerar energia. A água utilizada pode ser depois reinserida na terra.

A usina geotérmica

 

 

Em países que têm cinturões vulcânicos voltados para o Oceano Pacífico, como México, Guatemala, Nicarágua e Costa Rica, essa fonte natural de calor é apontada como saída para garantir a produção de energia.

A tecnologia para gerar eletricidade do calor da Terra já não é mistério e vem sendo desenvolvida na Europa desde o início do século 20. Os entraves centrais para o uso desse tipo de energia renovável são os investimentos, que precisam ser altos nas etapas iniciais de perfuração, e os impactos no ecossistema local e nas comunidades que ficam próximas às usinas.

Trata-se de um problema também presente no caso das hidrelétricas, cuja construção interfere fortemente no meio ambiente e obriga a remoção de populações.

Em se tratando das usinas geotérmicas, o cheiro dos gases liberados junto com o vapor d’água e, em alguns casos, o afundamento do solo na região onde elas são instaladas estão entre os efeitos colaterais para o ambiente.

Técnicos afirmam, porém, que se forem tomados cuidados, como a reinserção da água no solo e o tratamento dos gases emitidos - que não são tão relevantes para o efeito estufa como aqueles produzidos nas termelétricas - o impacto ambiental tende a ser minimizado.

Estimativas do Banco Mundial indicam que a América Latina não usa nem 5% de seu potencial para gerar eletricidade a partir deste recurso geotérmico – que é de 300 terawatt-hora (TWh) por ano, algo capaz de iluminar uma população de 60 milhões de pessoas.

Produção mundial

 

 

Um pequeno país na América Central

A descoberta de que a energia geotérmica poderia ser uma fonte de ouro para muitos países latino-americanos ocorreu no início dos anos 70, durante as sucessivas crises do petróleo, explica o geólogo e vulcanólogo Guillermo Alvarado da Universidade da Costa Rica. “Demorou um bom tempo para conseguirmos desenvolver esse conhecimento”, afirmou Alvarado.

 

O geólogo conversou com o Nexo em seu escritório na sede do ICE (Instituto Costarriquenho de Eletricidade), na capital San Jose.

Ele afirmou que, em 2015, a fonte geotérmica representou 13% da geração elétrica desse pequeno país de não mais de cinco milhões de habitantes localizado na América Central. A principal fonte local são as hidrelétricas, responsáveis por produzir mais de 70% da eletricidade costarriquenha.

Localizada entre o Panamá e a Nicarágua, a Costa Rica está tentando limpar cada vez mais sua matriz energética. No ano passado, foram 255 dias sem queimar uma gota de combustível fóssil para gerar energia elétrica – motivo de orgulho para a população.

Onde fica

 

 

A Costa Rica tem mais de 100 pontos onde é possível instalar usinas geotérmicas e é atualmente o segundo produtor mais importante desse tipo de energia na região.

“Quando você descobre uma fonte de calor de ótima qualidade, é como se tivesse encontrado a Mercedes-Benz das energias renováveis. Não depende de sol, vento ou chuva. Quando decidimos construir a nossa primeira usina geotérmica em 1994, já tínhamos mais de vinte anos pesquisando sobre isso. Esta fonte nunca desliga”

Javier Orozco

Diretor-geral de desenvolvimento e planejamento elétrico do ICE

 

Miravalles foi a primeira central de captação de energia geotérmica inaugurada nos anos 90 no país. No sopé do vulcão que leva o mesmo nome, a central fica localizada no cordão vulcânico de Guanacaste, 270 km a noroeste da capital San Jose, e abastece 283 mil residências.

Depois veio a central Las Pailas, no vulcão Rincón de la Vieja, vizinho a Miravalles, com uma capacidade de um quarto do que produz Miravalles. Em mais dois anos, uma nova expansão de Las Pailas trará uma produção capaz de iluminar uma cidade de cerca de 200 mil habitantes.

Em uma enquete com a população de San Jose feita em janeiro, metade dos 80 entrevistados afirmou que apoiaria a exploração de energia geotérmica dentro de parques nacionais mediante o cuidado com a natureza.

“Na minha opinião, a geotérmica parece uma boa opção. Mas penso que é preciso fazer consultas mais amplas e abrangentes à população”, comentou a gestora ambiental María Jose Vasquez, uma das fundadoras da ONG Costa Rica Limpia, criada para monitorar temas ambientais na agenda de políticos.

 

Na América Latina, hoje, as hidrelétricas são a principal fonte de geração de energia (55% do total). Cerca de 40% da produção, porém, ainda vem da queima de combustíveis fósseis nas termelétricas, segundo balanço do BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento). A energia geotérmica não representa mais do que 1% em toda a região.

Isso tende a mudar, acreditam especialistas como Alvarado, uma vez que a crescente preocupação para reduzir as emissões de gases de efeito estufa está forçando as autoridades a repensarem o consumo energético de seus países e a limparem mais sua matriz.

No México, exploração é cercada de polêmicas

A diretora de energia geotérmica da Secretaria de Energia do México, Michelle Ramírez, argumenta que essa fonte provou ser viável.  “Há estudos que indicam o potencial de um gigawatt para cada vulcão ativo. Só no México, temos 25 vulcões”, afirma.

Na avaliação de Ramírez, essa fonte é uma das melhores opções à disposição hoje da sociedade mexicana para ajudar a limpar sua matriz elétrica.

“Contudo, a indústria é ainda pequena e requer muitos investimentos”, pondera. Ainda se demandam muitos recursos de grande porte que um Estado não é capaz de aportar e que uma empresa privada tampouco se arriscaria.

Investimento e incerteza

Apesar de estudos para tentar confirmar o potencial geotérmico de uma área, só é possível ter certeza sobre a capacidade de um reservatório quando são perfurados os primeiros poços. Apenas na hora da perfuração é que se pode confirmar ao certo quanto um reservatório poderá oferecer de calor.

As técnicas de perfuração de um poço geotérmico são muito similares às de um poço de petróleo – utiliza-se, na verdade, a mesma tecnologia.

O custo para perfurar um único poço com uma profundidade de até 5 mil metros no fundo da Terra pode ser algo como US$ 6 milhões. Um alto montante diante do risco de não dar em nada.

O México é o primeiro produtor de energia geotérmica da região e, entre os 25 países produtores no mundo, ocupa a quarta (rumo à terceira) posição global.

Sua primeira central geotérmica entrou em operação no início dos anos 70 e foi a pioneira da América Latina.

A reforma energética no centro do debate

Apesar deste reconhecido pioneirismo, a fonte ainda tem um futuro incerto neste país. A razão de tantas dúvidas se deve a uma nova reforma energética pela qual o México está passando, com a abertura ao setor privado. Antes da reforma, a geração de eletricidade estava a cargo da empresa pública Comissão Federal de Eletricidade (CFE).

O desenvolvimento deste setor se transformou nos últimos anos na América Latina, explicou José María Valenzuela, coordenador de política energética da WWF-México. “Muitos países tiveram seus mercados liberalizados e grandes investimentos passaram a ser feitos em colaboração com o setor privado, deixando de ser apenas concretizados pelo poder público.”

 

No pacote da reforma energética, se criou a chamada Lei da Geotermia, em 2014, para dar um arcabouço legal a um setor que até então nunca havia tido qualquer tipo de regulação. “O grande princípio da lei é o de assegurar ao setor privado a possibilidade de explorar este recurso”, afirma Valenzuela.

"É provável que a energia geotérmica no México passe a ocupar uns 10% da matriz elétrica do país", calcula a ativista ambiental e especialista em renováveis da Universidade Autônoma do México, Beatriz Olivera.

Contudo, essa transformação não ocorre sem gerar dúvidas, críticas e desconfianças – especialmente quanto ao processo de licenciamento e concessão dos novos campos de exploração geotérmica.

“A nova legislação não foi amplamente discutida pela sociedade. Faltou debate público para saber se a sociedade realmente estava de acordo com esta reforma. Parece que foi totalmente imposta”, questionou Beatriz.

Na opinião de Olivera, ainda há um longo caminho para que seu país aprenda quais são os limites e ameaças que esta energia representa, mesmo sendo considerada limpa e renovável. É preciso, ainda, aprender a lidar com os impactos nas comunidades locais.

A reação dos movimentos sociais

No México, movimentos sociais se posicionaram contrariamente à abertura para a exploração de recursos naturais, como a energia geotérmica, por parte do setor privado.

“Não me sinto confiante que o governo ou o judiciário mexicano sejam capazes de regular, fiscalizar e punir companhias privadas em caso de desastres ou de violações de direitos humanos”, ressalta Olivera.

Atualmente existem quatro campos geotérmicos no México que são operados pela empresa estatal CFE. Além disso, já há duas concessões dadas para exploração pelo setor privado. A estimativa é ter na próxima década 15 novos campos geotérmicos em operação.

O impacto nas comunidades: o risco socioambiental

Para muitas famílias na zona rural de Mexicali, capital do Estado da Baixa Califórnia, no México, ouvir a palavra “Cerro Prieto” é sinônimo de mau agouro e de bastante incômodo.

Cerro Prieto é o nome dado a um vulcão localizado a 30 km da fronteira entre México e Estados Unidos e está sobre a falha geológica de San Andreas, que ao longo de 1.300 km corta de norte a sul o Estado americano da Califórnia, vizinho à Baixa Califórnia.

Onde fica

 

 

Cerro Prieto também dá nome a uma usina geotérmica que se estende ao redor do vulcão, próximo a Mexicali. O entorno da usina é uma zona rural formada majoritariamente por roças e porções pequenas de terra com produção familiar.

Em operação desde 1973, a usina Cerro Prieto é estatal e foi a primeira da América Latina. É considerada uma das maiores do mundo.

São cerca de 220 poços perfurados, produzindo 56 milhões de toneladas métricas de vapor e 67 milhões de toneladas métricas de salmoura – um resíduo líquido geotérmico com altos índices de sais minerais que, se em contato com o meio ambiente ou com o ser humano, pode causar sérios danos.

“Não há mais esperança para esta terra”, lamenta o produtor rural Ramiro Magaña, de 60 anos, morador do pequeno povoado Miguel Hidalgo – um dos onze que rodeiam Cerro Prieto. “Todo dia minha família me pergunta quando vamos embora daqui.”

 

“Nos falaram que teríamos benefícios quando a usina viesse. Mas quais? Não tivemos nada em retorno, apenas sacrificamos nossas famílias e o que ganhamos de volta foi contaminação. Nossos pastos e nossa agricultura já não mais existem”, diz Magaña, que reclama do forte cheiro no ar que causa dores de cabeça.

Os cuidados para ser uma fonte limpa

A energia geotérmica pode ser um recurso renovável e limpo, contudo é preciso cuidado na hora de explorar o calor da Terra para evitar que tragédias como a de Cerro Prieto ocorram, admite Jorge Ramirez Hernandez do grupo de geociências da Universidade Autônoma da Baixa Califórnia.

Um dos grandes problemas é a altamente corrosiva salmoura, que vem junto com o vapor do subsolo. Há ainda a emissão de gases nocivos como ácido sulfídrico, metano, arsênico, amoníaco, sílica, radônio e boro. Se despejados no ecossistema podem causar danos.

 

Uma usina geotérmica só é sustentável se seus fluidos das profundezas do subsolo são manuseados com cuidado e reinjetados de volta no reservatório de onde foram tirados, afirmam especialistas.

Isso, inclusive, prolonga a vida útil de um poço geotérmico que pode produzir por mais de um século.

Não foi o que ocorreu em Cerro Prieto. O passivo ambiental de mais de 40 anos persiste em razão da salmoura que é despejada em uma lagoa de 18 km de comprimento.

Além da contaminação das águas, outra preocupação é com o solo, que foi salinizado e perdeu sua produtividade. Há ainda reclamações em relação ao alto ruído provocado pelos poços, que não têm silenciadores para abafar o som da extração do vapor do subsolo, aos afundamentos do solo, a microssismos e à contaminação do ar ao redor com o pó de sílica, que é prejudicial aos pulmões.

Um exemplo a não ser seguido

O hidrólogo do Instituto de Ciências Agrícolas da UABC, Jesus Román Calleros, testemunhou durante anos a degradação da região e solidarizou-se com a angústia dos moradores próximos de Cerro Prieto. Muitos perderam suas terras por terem ficado completamente salinizadas.

Calleros tornou-se praticamente um ativista em prol das comunidades e compilou dados dos últimos 15 anos comprovando o que todas as famílias ali já sabiam – os altos índices de químicos que contaminam as águas da região da Baixa Califórnia.

 

“Após 43 anos de operação geotérmica em Cerro Prieto, o solo está totalmente deteriorado. Não se pode produzir mais nada aqui”, afirma. Ele estima que cerca de 15 mil hectares de solo estão podres e salinos.

Na época de sua construção, início dos anos 70, a empresa estatal mexicana não se preocupou em realizar estudos de impacto ambiental.

Naquela ocasião, não havia legislação que obrigasse o responsável pelos grandes projetos de infraestrutura a se preocupar com impactos socioambientais.

O diretor da comissão estatal de energia que atua na região, Javier Orduño Valdez, minimiza os danos. “A energia geotérmica é muito importante para a Baixa Califórnia. Se fala muito em contaminação em razão das águas. Há estudos que têm tentado avaliar esta contaminação. O que estamos falando agora é em reinjetar essa água para evitar a contaminação de Cerro Prieto.”

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