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Redesignação do sexo: a mudança física em busca da saúde mental
Foto: Reprodução

Redesignação do sexo: a mudança física em busca da saúde mental

Desde 2008, o Sistema Único de Saúde oferece a cirurgia. Espera, porém, é longa, podendo durar até 20 anos

Nascida, batizada e criada como menino em uma família conservadora, a transexual Cristiane Beatriz Santos não se conformava com seu órgão sexual desde os seis anos. “Entortava para ver se desaparecia”, usava cuecas apertadas. Mais de uma vez levou surras de seus pais por motivos como usar uma presilha no cabelo.

Ela nasceu no começo dos anos 1980, na zona rural de Firminópolis, município com 11,6 mil pessoas a 100 km de Goiânia. Na adolescência, a aparição na TV da figura da transexual Roberta Close foi como uma “luz no fim do túnel”.

Cristiane Beatriz domou os trejeitos e abriu mão de usar roupas ou penteado feminino na frente da família. Tornou-se um garoto estudioso e recluso, mas intimamente decidido: passaria pelo mesmo procedimento de Roberta Close assim que se tornasse independente.

A história de Cristiane é representativa de um drama pelo qual milhares de transexuais mulheres e homens passam no Brasil na luta por assumir a própria identidade. Em 2009, ela realizou a cirurgia de redesignação sexual no Hospital das Clínicas de Goiânia, ligado à Universidade Federal de Goiás.

“As pessoas acham que estamos brincando de ser mulher, mas não é assim. A coisa é muito importante para a gente. Desde que me entendo por gente sentia que tinha algo errado comigo no sentido biológico. Eu não entendia por que tinha aquele órgão”

Cristiane Beatriz Santos

Educadora Social e militante transexual do Fórum de Transexuais do Estado de Goiás

A cirurgia se tornou mais acessível no país a partir de 2008, quando o SUS (Sistema Único de Saúde) passou a pagar por ela. Até 2015, foram realizadas 10.710 operações pelo SUS no Brasil, segundo o Ministério da Saúde.

Evolução

 

 

Cristiane entrou com o pedido para realizar o processo no Hospital das Clínicas de Goiânia em 2007, antes mesmo de o procedimento ser formalmente adotado pelo SUS. Esse foi um dos fatores que permitiram que realizasse a operação após espera de apenas dois anos, um tempo relativamente curto.

O Ministério da Saúde não tem dados sobre a quantidade de pessoas aguardando para realizar o procedimento, já que a fila é gerida de forma dispersa pelas instituições que o oferecem. Mas a espera é longa.

Daniel Mori, psiquiatra do Ambulatório Transdisciplinar de Identidades de Gênero e Orientação Sexual do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas, ligado à USP (Universidade de São Paulo), busca preparar suas pacientes para aguardar de 15 a 20 anos.

Essa é a mesma informação passada pela psicóloga Salete Amador, que assessora a Coordenadoria Regional de Saúde do Centro da Secretaria Municipal de Saúde de São Paulo, voltada ao atendimento de transexuais.

No Brasil, os passos para realizar o processo de redesignação sexual são estabelecidos pela portaria 457 de 2008. O acesso passou a se estender também para trans-homens a partir de 2013, com a portaria 2.803. As regras valem para o SUS, mas também costumam ser adotadas como referência na rede privada, afirma Mori.

Alteração física e saúde mental

Cristiane conta que antes da operação não se sentia bem para ter intimidade com um parceiro sexual. Por não ter uma vagina, sempre achou muito difícil se sentir como mulher. “Eu falava ‘preciso operar porque preciso me sentir completa’.”

Mas nem todo transexual tem a mesma experiência, e não é necessário realizar qualquer operação para se entender como trans. Aos 57 anos de idade, a cartunista Laerte se assumiu transexual sem realizar nenhum procedimento, por exemplo.

O processo de redesignação pode se limitar ao uso de hormônios, ou a cirurgias plásticas em outras partes do corpo. Ele não precisa necessariamente incluir cirurgia no órgão sexual, e é buscado por transexuais que desejam fortalecer características associadas ao gênero com o qual se identificam, como ter pelos em mais partes do corpo no caso de trans-homens ou ter a voz mais fina no caso de trans-mulheres. Nas palavras de João Nery, o primeiro trans-homem brasileiro:

“Não é a cirurgia que faz você mudar seu gênero, ela é apenas uma adequação para você se tornar inteligível na sociedade”

João Nery

Primeiro trans-homem brasileiro a realizar a cirurgia de redesignação sexual, psicólogo e militante da causa trans no Brasil

O SUS reconhece que o processo de redesignação sexual não é um procedimento meramente estético, mas que diz respeito à saúde mental daqueles que o buscam. O sentimento de inadequação em relação ao próprio corpo está relacionado a problemas como depressão, ansiedade, traumas e mesmo suicídios.

Tratamento controverso

Por causa de todos esses problemas, a portaria 457 de 2008, do Ministério da Saúde, define a cirurgia de redesignação sexual como tratamento para a transexualidade. Ou seja, por um lado reconhece o direito de um transexual pleitear mudar o próprio corpo, mas por outro encara a transexualidade como uma doença.

Essa ideia é combatida por militantes LGBT. Mas, assim como a homossexualidade foi considerada um transtorno mental pela Organização Mundial de Saúde até 1990, a transexualidade ainda é tratada como doença, também pelo governo brasileiro. A expectativa, no entanto, é que esse entendimento seja modificado na próxima versão da CID (Classificação Internacional de Doenças), que deve ser publicada em 2016.

Tratamento hormonal

Depois que pleiteiam o processo de redesignação sexual, pacientes são avaliados por uma equipe multidisciplinar formada por assistentes sociais, psiquiatras, psicólogos e endocrinologistas, que buscam entender qual seu desejo. Muitos transexuais buscam apenas a terapia hormonal e não têm interesse em realizar a cirurgia para a redesignação sexual, por exemplo.

Salete Amador afirma que no geral psicólogos dão sem grandes problemas o aval para que transexuais tomem hormônios.

Cristiane conta que antes de ter acesso ao tratamento, tomava anticoncepcionais seguindo a indicação de amigas transexuais, mas que a diferença foi maior com o tratamento hormonal.

Transexuais com identidade de gênero feminina usam progesterona e estrógeno. Cristiane diz que, com a terapia hormonal, o cheiro de seu suor ficou mais ameno, feminino e seus pelos mais macios. Até hoje, toma 180 comprimidos por mês que retira junto a uma unidade básica de saúde. Se pagasse pelos comprimidos, gastaria R$ 200 por mês, uma verba de que não dispõe.

Segundo Mori, do Hospital das Clínicas de São Paulo, entre as modificações corporais nas quais o tratamento hormonal resulta estão: redistribuição da gordura corporal, que passa a se acumular mais no culote, nos seios e nas nádegas, crescimento das mamas e diminuição da quantidade de pelos pelo corpo. Os hormônios não alteram a voz.

Para transexuais homens o tratamento é a base de testosterona. Esse hormônio também redistribui a gordura corporal, que fica menos concentrada nas nádegas, no culote e nos seios e mais na região abdominal. As mamas diminuem, o clitóris aumenta e mais pelos se proliferam pelo corpo. A voz fica mais grave.

Tratamento psicológico

A portaria do Ministério da Saúde estabelece que a idade mínima para procedimentos ambulatoriais, como a hormonoterapia, é de 18 anos. A idade mínima para procedimentos cirúrgicos é de 21 anos.

Quando fez o pedido para realizar a operação, Cristiane já tinha quase trinta anos, e um histórico de militância na causa trans. Mesmo assim, precisou obter a aprovação de uma psicóloga para tomar hormônios, um procedimento determinado pela portaria do Ministério da Saúde. Essa também prevê pelo menos dois anos de atendimento psicológico antes das cirurgias.

Muitos militantes LGBT criticam essa etapa por avaliarem que o psicólogo ou psiquiatra retira a independência de transexuais para decidirem sobre o próprio corpo.

Daniel Mori, do Hospital das Clínicas, afirma que a maior parte do trabalho do psicólogo é "ajustar expectativas". “É muito comum o pensamento de que ‘quando operar, vou conseguir um emprego melhor, não vou ser visto como mulher trans ou homem trans, vou me casar’. Mas algumas coisas continuam as mesmas, situações de preconceito continuam sendo vividas”, diz.

Cristiane diz que parte das transexuais decide, durante a terapia, que está satisfeita apenas com a terapia hormonal e não precisa realizar a operação de redesignação sexual. Ela avalia sua experiência com a psicóloga como positiva.

“Foi como uma preparação. Contava do meu passado, contava da minha vida, não senti como se fosse uma triagem e nunca tive que provar que eu era mulher. Quando acordei na sala de recuperação, cheia de fios, imobilizada, confesso que disse ‘meu Deus o que fiz na minha vida?’, fiquei muito apreensiva por um momento. E minha psicóloga estava sempre do meu lado”

Cristiane Beatriz Santos

Educadora Social e militante transexual do Fórum de Transexuais do Estado de Goiás

Procedimentos cirúrgicos

Para transexuais homens, as operações incluem a mamoplastia, a metoidioplastia e a histerectonomia. A mamoplastia masculinizadora é a retirada das mamas para atingir o padrão masculino. A metoidioplastia altera o clitóris aumentado pelos hormônios de forma que esse passe a se parecer mais com um micropênis - o tamanho pode chegar a sete ou oito centímetros. A histerectonomia retira o útero e os ovários.

As operações entre transexuais mulheres incluem operação de feminilização facial e condroplastia tiroidea, que é a retirada do pomo-de-adão. São inseridas próteses de silicone e é realizada a neovaginoplastia, a cirurgia para a redesignação do sexo.

Cristiane diz que, como é magra, optou por colocar pouco silicone, para evitar que seus seios ficassem desproporcionais. Ela também fez uma correção no nariz, que achava “muito batatinha”. E esticou as cordas vocais. “Minha voz não era grave, mas mesmo com fonoaudiologia era muito oscilante”.

Os pacientes também devem passar por acompanhamento pós-operatório. Mulheres transexuais, por exemplo, precisam utilizar um molde vaginal para que a cirurgia de redesignação sexual tenha o efeito desejado.

Mesmo depois do fim da cirurgia, o acompanhamento é constante. Cristiane Beatriz diz que já teve que fazer cirurgias para retocar sua neovagina, assim como uma reparação em sua uretra. Esse tipo de cuidado faz com que transexuais tenham que continuar vivendo próximos dos poucos médicos que os atendem.

A aproximação da aposentadoria do único cirurgião plástico que realiza operações de redesignação sexual em Goiânia se tornou uma preocupação para todo o movimento trans da cidade, afirma Cristiane. Sobre sua cirurgia de redesignação, apesar de algumas limitações, não se arrepende.

“Quando participo de palestras, a pergunta é sempre 'você tem prazer, goza?' Eu falo que sim. É uma curiosidade universal. Também me perguntam se  eu me arrependi, e eu respondo: ‘jamais’. Hoje é como se nunca tivesse tido um pênis, é algo natural. Não sinto falta e sou uma pessoa muito mais completa, feliz e realizada”

Cristiane Beatriz Santos

Educadora Social e militante transexual do Fórum de Transexuais do Estado de Goiás

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