Os técnicos estrangeiros que impulsionam o sonho olímpico do Brasil
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Os técnicos estrangeiros que impulsionam o sonho olímpico do Brasil

Comitê Olímpico Brasileiro quer bater o recorde de medalhas. Para isso, buscou reforço internacional para 'passar conhecimento aos brasileiros'

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    O Comitê Olímpico Brasileiro (COB) estabeleceu para si mesmo a tarefa de bater nos Jogos do Rio, marcados para o mês de agosto, o recorde de medalhas do Brasil em uma edição do evento (a marca atual é 17, obtida em Londres/2012) e, ao mesmo tempo, colocar o país entre os dez primeiros colocados do quadro geral do evento, o que jamais aconteceu.

    Evidentemente, o conforto de competir em casa e a força da torcida vão dar um enorme impulso à delegação nacional, mas os dirigentes do COB concluíram que isso não seria suficiente e decidiram buscar reforços além das nossas fronteiras.

    COB não revela quanto paga aos treinadores estrangeiros

    Desde que o Rio de Janeiro ganhou o direito de sediar os Jogos, em outubro de 2009, vários treinadores chegaram ao Brasil para melhorar o nível de preparação das equipes para a Olimpíada, especialmente em esportes que não são muito tradicionais por aqui. Atualmente, são 48 profissionais de 21 modalidades, todos eles com salários pagos direta ou indiretamente pelo COB, que não revela o valor investido mensalmente nesse projeto.

    A maioria desses técnicos veio da Europa, mas há representantes de todos os continentes. Tem gente que não precisou viajar muito para chegar a seu novo lar, como os três profissionais que vieram da Argentina, e outros que tiveram de atravessar o planeta para desembarcar na terra dos Jogos de 2016, caso dos três treinadores vindos da Nova Zelândia.

    Marcus Vinícius Freire, diretor executivo de esportes do COB, diz que a contratação de treinadores estrangeiros tem dois objetivos: aumentar as chances de bons resultados do Brasil na Olimpíada carioca e elevar o nível dos técnicos brasileiros. “A participação de treinadores qualificados no processo de preparação de atletas e equipes é condição fundamental para o sucesso de uma campanha em Jogos Olímpicos”, diz. “Esses treinadores vêm com a proposta de liderar a equipe da casa em uma edição olímpica, além de passar conhecimento aos brasileiros.”

    Por trás do sucesso do handebol feminino, um treinador dinamarquês

    O mais bem-sucedido treinador estrangeiro em atividade no Brasil, ironicamente, não veio ao país por causa dos Jogos do Rio, mas assim mesmo tornou-se um exemplo a ser seguido pelos demais forasteiros. Morador de São Paulo há dez anos, o dinamarquês Morten Soubak foi essencial para a transformação da seleção feminina de handebol em uma potência da modalidade, status adquirido com a conquista do título mundial em 2013, e uma das principais candidatas à medalha de ouro no Rio.

     

    A primeira aventura de Soubak no Brasil ocorreu em 1993, quando ele atravessou o Oceano Atlântico para conhecer a terra de um de seus maiores ídolos: Pelé. “Sempre adorei futebol e o Pelé. Minha primeira redação na escola, aos 13 anos, foi sobre ele”, conta o dinamarquês. “Tinha o sonho de conhecer o país do Pelé e vim inicialmente como turista. Rodei o Brasil inteiro, conheci o Rio, a Bahia, a Amazônia, foi maravilhoso.”

    Naquela época, ele já era treinador de handebol e aproveitou a visita para fazer contatos com a Confederação Brasileira da modalidade. O resultado foi um convite recebido em 1995 para trabalhar em uma equipe de Osasco, mas a segunda aventura de Soubak no país durou pouco. O projeto era amador demais e ele voltou para a Dinamarca no ano seguinte. Em 2005, o Brasil voltou a cruzar seu caminho. “Fui convidado para trabalhar no Pinheiros (tradicional clube de São Paulo), onde encontrei um ambiente muito mais profissional. E nunca mais fui embora. Adoro o Brasil, sinto que estou em casa”, comenta o técnico, que é casado com uma brasileira e tem um filho nascido aqui.

     

    Comandante da seleção desde 2009, Soubak conta com satisfação que hoje é muito mais fácil ser técnico de handebol no Brasil do que na época de sua chegada ao país. Segundo ele, as condições de trabalho melhoraram bastante e a popularidade da modalidade cresce a olhos vistos – fato obviamente impulsionado pelo título mundial de 2013. Quem também se beneficia desse novo cenário é o espanhol Jordi Ribera, treinador da seleção masculina, que, embora não tenha alcançado o nível de sucesso da equipe feminina, também tem experimentado progressos evidentes.

    Em sua segunda passagem pelo país (a primeira foi entre 2005 e 2008), Ribera sente que o Brasil está chegando mais perto das principais potências da modalidade, todas da Europa. Embora uma medalha no Rio talvez seja um sonho ambicioso demais, estar entre os oito melhores do mundo parece uma meta palpável. “Hoje, a cultura do handebol por aqui está mais desenvolvida. Os garotos já conhecem bem os melhores times e jogadores do mundo, o que não acontecia antes”, diz o espanhol, no comando da seleção desde 2012.

    “Antes, havia dois ou três brasileiros jogando na Europa, agora há mais de 40. Isso é uma evolução enorme.”

    Jordi Ribera

    Treinador da seleção masculina de handebol

    Em modalidades menos conhecidas, objetivo não é vencer. É criar dificuldades para os adversários

    Se a paisagem no handebol, esporte muito praticado nas escolas brasileiras, está cada vez mais convidativa, a vida é dura para quem se dedica a modalidades pouco difundidas no Brasil. O argentino Andrés Romagnoli, comandante da seleção masculina de rúgbi sevens (esporte que fará neste ano sua estreia nos Jogos), e a belga Mariette Withages, treinadora da equipe nacional de adestramento, uma das vertentes do hipismo, trabalham para fazer o país começar a ser respeitado pelas principais forças de suas modalidades. Parece pouca coisa, mas não é.

    Romagnoli, por exemplo, sabe que há a possibilidade de seu time terminar o torneio olímpico sem vitórias, mas ele diz que resultados não são a coisa mais importante no momento. “Não estamos pensando em vencer uma ou duas partidas, mas em criar dificuldades para as melhores equipes”, afirma o argentino de Buenos Aires, que está consciente de que a Olimpíada será uma chance de ouro para o rúgbi se popularizar no Brasil. “Nós temos de trazer o público para o rúgbi, fazer com que ele se encante com o esporte. Para isso, será importante termos um time competitivo.”

    A tarefa de Mariette não é muito mais fácil. Em Londres, há quatro anos, apenas uma atleta do Brasil competiu no adestramento, Luiza Almeida, e ela não passou da primeira fase – foi a 47ª colocada entre 50 atletas. A meta nos Jogos do Rio é ir pelo menos um pouco além. “O Brasil ainda é um país novato no adestramento”, lembra a belga. “Se nossos cavaleiros conseguirem chegar à segunda fase no Rio, já será uma grande conquista, um sonho realizado. E, se o país continuar progredindo como tem feito, prevejo resultados ainda melhores nos Jogos de Tóquio, em 2020.”

    Choque cultural: temperatura, temperamento e feijão chamam a atenção de quem vem de fora

    Mariette chegou ao Brasil em 2014, assim como Romagnoli. Integrante da comissão de adestramento da Federação Equestre Internacional por 16 anos, ela diz que aceitou o convite para trabalhar por aqui por causa da oportunidade de desenvolver o esporte que ama em um lugar com pouca tradição na modalidade. Os dois anos passados no país fizeram a treinadora se encantar com o clima quente, bem diferente do que ela encontra na Bélgica, a comida e a hospitalidade do povo brasileiro. E ela não está sozinha nesse último quesito. O temperamento alegre das pessoas é sempre a primeira coisa que vem à cabeça quando qualquer um dos 48 treinadores estrangeiros bancados pelo COB é perguntado sobre as características mais agradáveis do Brasil.

    “Eu fiquei impressionado como as pessoas que trabalham com serviços são simpáticas aqui. Seja no pedágio, no restaurante ou no supermercado, sou sempre recebido com um sorriso. Na Argentina não é bem assim”, conta Romagnoli.

    É verdade que há certos aspectos da vida no país-sede dos Jogos Olímpicos de 2016 que incomodam quem vem de outra cultura. Enquanto Soubak preocupa-se com a violência de São Paulo, Ribera, nascido em uma minúscula cidade da Catalunha chamada Sarrià de Ter, com seis mil habitantes, ainda se assusta com o tamanho de Santo André, cidade do Grande ABC que escolheu para morar. E Romagnoli, além de sentir falta do churrasco argentino, continua achando muito estranha essa mania nacional de comer feijão em todas as refeições. Mas nada disso é páreo para a satisfação proporcionada pela oportunidade de comandar um time da casa na Olimpíada do Rio de Janeiro.

    “Vai ser uma emoção muito grande entrar em um ginásio lotado e ouvir o grito da nossa torcida. Mal posso esperar”, diz Soubak, seguro de que, quando isso acontecer, ele terá o direito de também se sentir um brasileiro.

     

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