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O prefeito Graciliano Ramos e seus relatórios de gestão
Foto: Acervo Graciliano Ramos/Reprodução do livro Viventes das Alagoas

O prefeito Graciliano Ramos e seus relatórios de gestão

Um comerciante que é eleito com velhas práticas, adota políticas administrativas inovadoras, chama a atenção pela qualidade literária de suas prestações de contas e acaba desistindo do cargo. Se tornaria, tempos depois, um dos maiores escritores brasileiros

O Brasil realiza eleições municipais neste 2016, quando a população vai escolher novos prefeitos e vereadores em 5.570 cidades. Por ocasião da disputa, o Nexo resgata a história abaixo. Seu personagem principal reúne alguns elementos inusitados: um comerciante que é eleito com velhas práticas, adota políticas administrativas inovadoras, chama a atenção pela qualidade literária de seus relatórios de gestão e acaba desistindo do cargo. Se tornaria, tempos depois, um dos maiores escritores brasileiros.

Um candidato em meio a um banho de sangue

Em outubro de 1927, a população da pequena Palmeira dos Índios, em Alagoas, elegeu um prefeito sem muito jeito para a coisa, que não participou da própria campanha nem fazia questão de ganhar. Mas ganhou e fez bonito na administração pública. Tempos depois ganharia projeção nacional não como político, mas como escritor. Seu nome era Graciliano Ramos.

Candidato único, um dos mais célebres nomes da literatura brasileira foi eleito prefeito de Palmeira dos Índios pelo extinto Partido Democrata. Sua gestão ficou conhecida pelas realizações na pequena cidade do agreste alagoano e, principalmente, pelo zelo com o dinheiro público. Conhecido pela sisudez, sua candidatura foi resultado de uma articulação política envolvendo os chefes locais.

Palmeira vivia um período atribulado: o prefeito anterior, Lauro de Almeida Lima, fora assassinado a tiros um ano antes, após desentender-se com um fiscal de tributos. Este, por sua vez, foi fuzilado em seguida pelo delegado de polícia local. O banho de sangue traumatizou a população da cidade.

O vice-prefeito Manuel Sampaio Luz cumpriu o resto do mandato e, com a proximidade das eleições, os políticos começaram a se articular para escolher o sucessor e tentar dissipar o clima sombrio. Naquele ambiente típico da República Velha, os partidos interferiam pouco nas eleições locais, o que valia mesmo era o peso da botina dos caciques políticos, geralmente fazendeiros poderosos. Em Palmeira dos Índios, a cena política havia quatro décadas era dominada pela família Cavalcanti, aliados do governador alagoano Costa Rego, todos eles do Partido Democrata.

Após uma rodada de negociações, a cúpula se fixou no nome de Graciliano, um respeitado comerciante local que beirava os 35 anos, com fama de honesto, culto, austero e, principalmente, amigo dos caciques do partido. Aliado ao bom trânsito político, havia sido bem sucedido como presidente da Junta Escolar na gestão anterior, uma espécie de secretário municipal da educação. Chamado para uma reunião, Graciliano reagiu ao tomar conhecimento do projeto de torná-lo prefeito:

“Só se Palmeira do Índios estivesse com urucubaca.”

Após muita resistência, topou o desafio, movido mais pelos brios do que pela sede de poder. Os Cavalcanti, como bons coronéis, cuidaram para que tudo desse certo de acordo com o jeito de fazer eleição na época, conforme atestou o próprio prefeito eleito:

“Assassinaram meu antecessor. Escolheram-me por acaso. Fui eleito naquele velho sistema de atas falsas, os defuntos votando.”

A eleição ocorreu com velhas práticas. A administração de Graciliano, porém, inovou. Ao assumir, em janeiro de 1928, o novo prefeito cortou gastos, elaborou projetos, abriu estradas, construiu escolas, cuidou da limpeza pública e vetou apadrinhamentos políticos.

Enfrentou o trabalho com punho forte, mas não escondeu um certo desânimo diante do caos administrativo encontrado na prefeitura pouco tempo depois de assumir o cargo, conforme escreveu em carta à futura esposa, Heloísa, que nessa época ainda morava em Maceió:

“Para os cargos de administração municipal escolhem de preferência os imbecis e os gatunos.  Eu, que não sou gatuno, que tenho na cabeça uns parafusos de menos, mas não sou imbecil, não dou para o ofício e qualquer dia renuncio.”

Não renunciou naquele momento. E levou adiante seus projetos. Criou um Código de Postura Municipal, em agosto de 1928, que estabelecia uma série de normas dos cidadãos para dar fim à sujeira e aos caos urbano. Com 82 artigos, quase tudo era proibido: mendigar, vender remédio sem receita, jogar lixo em terrenos, deixar animais soltos nas ruas etc. Numa dessas, multou o próprio pai, Sebastião Ramos, que costumava criar porcos e cabras soltos em via pública. Ao reclamar, o filho foi direto:

“Prefeito não tem pai. Eu posso pagar a sua multa. Mas terei de apreender seus animais toda vez que o senhor os deixar na rua.”

É claro que as medidas moralizadoras desagradaram a muitos cidadãos, em especial os das classes mais altas. O prefeito descontentava os poderosos, inclusive os correligionários, mas a arraia miúda o adorava, pois colocou fim aos privilégios. Além de obras como a construção de estradas que ligavam a cidade ao distrito de Palmeira de Fora e à cidade de Santana do Ipanema, reformou escolas, cuidou da saúde pública e melhorou o salário dos professores.

“Em dois anos ele conseguiu avançar Palmeira dos Índios em uma velocidade impensável naquele contexto de República Velha e de um município pequeno no interior do Nordeste”, diz o escritor Dênis de Moraes, autor de “O Velho Graça - Uma biografia de Graciliano Ramos” (Boitempo Editorial). “Além do novo Código de Postura estabelecer novos parâmetros para a conservação da cidade, ele revisou todo o sistema tributário e fechou as brechas para sonegação. Colocou o serviço público a bem do público”, completa Moraes.

Relatórios eram tão bons que chamaram a atenção de jornais

 

Naquele tempo, os prefeitos prestavam contas de suas administrações diretamente aos governadores dos Estados. O jovem prefeito de Palmeira dos Índios transformou o que seria um relatório burocrático recheado de números em peça literária. Foram dois relatórios anuais enviados ao governador de Alagoas –  1929 e 1930 – relatando de uma maneira especial o exercício do mandato. No primeiro, explica como encontrou a prefeitura:

“Havia em Palmeira inúmeros prefeitos: os cobradores de impostos, o Comandante do Destacamento, os soldados, outros que desejassem administrar. Cada pedaço do município tinha a sua administração particular, com prefeitos coronéis e prefeitos inspetores de quarteirões. Os fiscais, esses, resolviam questões de polícia e advogavam.”

Em seguida, afirma que realizou uma reforma administrativa que resultou em uma verdadeira limpeza dos quadros do funcionalismo e fim dos cabides de emprego:

“Dos funcionários que encontrei em janeiro do ano passado restam poucos: saíram os que faziam política e os que não faziam coisa nenhuma. Os atuais não se metem onde não são necessários, cumprem as suas obrigações e, sobretudo, não se enganam em contas.”

No texto, o autor usa e abusa de uma ironia fina para criticar questões como o nepotismo e os contratos públicos suspeitos.

“Convenho que o dinheiro do povo poderia ser mais útil e estivesse nas mãos, ou nos bolsos, de outro menos incompetente do que eu. Em todo o caso, transformando-o em pedra, cal, cimento, etc, sempre procedo melhor que se o distribuísse com os meus parentes, que necessitam, coitados.”

No segundo relatório, de 1930, o prefeito levanta suspeitas em contratos firmados pelos seus antecessores ao citar o gasto com iluminação pública.

“A Prefeitura foi intrujada quando, em 1920, aqui se firmou um contrato para fornecimento de luz. Apesar de ser um negócio referente à claridade, julgo que assinaram aquilo às escuras. É um bluff. Pagamos até a luz que a lua nos dá.”

Os textos escritos por um prefeito sertanejo tiveram grande repercussão. Foram publicados em diversos jornais de Alagoas e ecoaram até no Rio de Janeiro, com trechos destacados pelo “Jornal do Brasil”. Por ironia do destino, os textos, que por vezes se transformam em um verdadeiro desabafo diante das dificuldades administrativas, alavancaram sua carreira literária. “Graciliano passou a ter uma visibilidade intelectual a partir dos relatórios”, afirma o cientista político Rodrigo Prando, professor da Universidade Mackenzie.

Escritores e poder

Estudioso das relações dos intelectuais com o poder público, Prando explica que, geralmente, os intelectuais criticam ou participam do poder. “Graciliano está numa terceira categoria, mais rara, a dos que exerceram o poder”, diz Prando, que em sua tese de doutorado estudou o lado intelectual do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.

“Apesar da cultura patrimonialista da época, exercida pelos coronéis, Graciliano Ramos exerceu a política de uma maneira ética e sem se envolver com atos ilícitos”, diz o cientista político, lembrando que estamos em um ano de eleições municipais. “É o momento de trazer a experiência de Palmeira dos Índios para os dias atuais”, completa.

Uma renúncia após ‘empobrecer’

Graciliano não chegou a cumprir o seu mandato. Cansado das pressões políticas contra seu trabalho na prefeitura e com dificuldades financeiras privadas decorrentes agravadas pela crise de 1929, que afetou os negócios da família, renunciou ao mandato dois anos após assumir e entregou o cargo ao vice-prefeito. “As dificuldades financeiras acumulavam-se na medida em que ele ganhava subsídios simbólicos como prefeito e não se locupletava com a corrupção. Empobrecera em dois anos de mandato”, explica o biógrafo do escritor. 

Mas esse foi o começo de uma nova carreira para Graciliano. Além de receber um convite do governador para dirigir a Imprensa Oficial de Alagoas, em Maceió, os relatórios chamaram a atenção do editor Augusto Frederico Schmidt, no Rio de Janeiro. Ele queria saber se aquele prefeito que escrevia balanços burocráticos daquela maneira tinha algum livro guardado na gaveta. Acertou na mosca: “Caetés”, seu primeiro romance, foi publicado pela editora Schmidt, em 1933.

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