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De Chirac a Hollande: como a França passou de pomba a falcão
Foto: Mal Langsdon/Reuters

De Chirac a Hollande: como a França passou de pomba a falcão

Relutantes em embarcar na guerra de Bush, em 2003, franceses passaram a liderar intervenções no Mali, na Líbia e na Síria

    Quando o presidente dos EUA George W. Bush mandou tropas para o Afeganistão em resposta aos atentados de 11 de Setembro de 2001, encontrou na França um aliado. Mas, à medida que a Casa Branca expandiu sua "guerra ao terror" para o Iraque, o então presidente francês Jacques Chirac se postou como um obstáculo. Era a agressividade dos “falcões” se chocando com a resistência das “pombas”, que se opunham ao intervencionismo.

    A atitude francesa não foi mal recebida apenas pela Casa Branca. A sociedade americana também se ressentiu.

    Restaurantes trocaram o nome das batatas fritas de “french fries” para “freedom fries” ou “american fries”. Além de milhares de pequenos negócios espalhados pelo país, as três cafeterias instaladas dentro do Congresso americano foram obrigadas a trocar o nome do prato no menu, depois que o deputado republicano Bob Ney, do Estado de Ohio, responsável pelo Comitê de Administração da Casa, baixou uma norma interna envolta num discurso patriótico.

    A atitude de Chirac foi classificada como insensível e ingrata por americanos que se consideravam credores da França desde que os EUA ajudaram a livrar a Europa dos nazistas, na Segunda Guerra Mundial.

     

     

    Nos corredores da Casa Branca o incômodo era explícito. “É difícil levar a França a sério”, disse o vice-presidente americano Dick Cheney, em março de 2003, no momento em que os EUA defendiam a invasão do Iraque, enquanto os franceses pediam paciência. Para Cheney, Chirac apostava em “manobras protelatórias”.

    Respostas mais duras

    De lá para cá, nos últimos 14 anos, a política externa francesa deu uma guinada de 180º, na direção do unilateralismo e do intervencionismo. O movimento foi gradual. Teve início com Nicolas Sarkozy, sucessor de Chirac, e atingiu seu ponto alto este ano, depois que o presidente François Hollande decretou guerra ao Estado Islâmico, em resposta aos atentados de 13 de novembro, que deixaram 130 mortos em Paris.

    É certo que Hollande responde hoje a um ataque real ocorrido em solo francês, enquanto Chirac lidava com uma ameaça difusa, em território alheio. O peso da opinião pública que recaiu sobre Bush depois de 2001 é o mesmo que recai agora sobre a França. Toda essa mudança de cenário é determinante, mas a doutrina francesa de resposta ao terror não nasceu do dia 13 de novembro. A resposta aos atentados do Estado Islâmico em Paris foi o ápice de uma política externa que vem sendo construída, não o seu início.

    "A guerra é sempre uma admissão de fracasso e a pior de todas as soluções. Tudo deve ser feito para evitá-la"

    Jacques Chirac

    Presidente francês, em janeiro de 2003, ao se opôr à ação americana no Iraque

    "A França está em guerra. A República vai destruir o terrorismo”

    François Hollande

    Presidente francês, em novembro de 2015, conclamando à ação contra o Estado Islâmico na Síria

     

    Os atentados em Paris ocorreram numa sexta-feira. No domingo, Hollande fez decolar 12 aviões de combate que despejaram 20 bombas sobre a Síria, dirigidas contra o Estado Islâmico. Assim como os EUA de Bush em 2001, a França de Hollande em 2015 se valeu do artigo 51 do Capítulo 7 da Carta das Nações Unidas de 1945.

    A Carta é o único instrumento do direito internacional que determina quando um país pode ir à guerra. Ela diz em sua introdução que a guerra é proibida, mas abre duas exceções.

    A primeira permite o uso da força nas relações internacionais, desde que aprovado unanimemente pelo Conselho de Segurança da ONU, que é formado por cinco membros permanentes (França, Reino Unido, EUA, Rússia e China). O apreço francês por essa cláusula havia sido explicitado em 2003 por Chirac, ao se opôr à ação americana no Iraque: "qualquer decisão cabe ao Conselho de Segurança da ONU, e apenas a ele", advertiu, na época. Mas agora, 12 anos depois, Hollande sabia que o caminho do multilateralismo e da consulta mútua estava fechado para qualquer ação francesa, por oposição da Rússia, tanto quanto esteve fechado em 2003 para qualquer ação americana, por oposição da própria França. Os papéis se invertiam.

    Mudança de regime na Líbia

    O bloqueio russo no Conselho de Segurança é movido por um precedente. No passado, essa instância da ONU havia aprovado ações militares sob o pretexto de “proteger civis”, que acabaram sendo usadas para depor presidentes e mudar regimes. Essas práticas são chamadas “intervencionistas” porque colocam a soberania de um Estado-membro da ONU em segundo plano diante de outros imperativos, como, por exemplo, o de “proteger civis” contra agressões cometidas por seus próprios governos.

    O episódio mais recente foi o da Líbia, em 2011. E, curiosamente, ele marcou um capítulo importante da guinada da França. Foi Sarkozy quem liderou a aprovação da Resolução 1973/2011, que permitiu o uso de “todos os meios necessários” para a proteção dos líbios contra o ditador Muammar Gaddafi. A ação acabou com a morte e empalamento de Gaddafi em praça pública e com a mudança de regime.

    Essa história pregressa é um dos fatores que movem a Rússia a bloquear qualquer nova resolução semelhante, contra a Síria, no Conselho. Os russos temem que aconteça com seu aliado, o presidente sírio, Bashar al-Assad, o mesmo que aconteceu com Gaddafi na Líbia. O máximo que os franceses arrancaram, no dia 20 de novembro, foi a Resolução 2249/2015, que pede ação coordenada contra o Estado Islâmico, mas sequer menciona o uso da força.

    Diante desse cenário, Hollande lançou os bombardeios com base na segunda brecha da Carta, o artigo 51.

    “Nada na presente Carta prejudicará o direito inerente de legítima defesa individual ou coletiva, no caso de ocorrer um ataque armado contra um membro das Nações Unidas, até que o Conselho de Segurança tenha tomado as medidas necessárias para a manutenção da paz e da segurança internacionais”

    Artigo 51 do Capítulo 7 da Carta da ONU

    Com base nesse trecho da Carta, a França lançou 20 bombas ao sul e a oeste da cidade síria de Raqqa, logo após os ataques sofridos em Paris, para "debilitar e reduzir os dois principais pilares sobre os quais se apoia o grupo terrorista para cometer seus atentados". Mas isso não inaugurou a ação francesa. Ainda antes de ter sido atacada pelo Estado Islâmico, a França já havia bombardeado a Síria um mês antes, como parte da coalizão liderada pelos EUA. Nos dois casos, o multilateralismo e a busca de uma solução de consenso no Conselho de Segurança foram vistas como obstáculos ao imperativo da guerra ao terror. A diferença é que, após os atentados, o governo francês passou a agir revestido de uma razão moral advinda da comoção e da solidariedade irrestritas da opinião pública mundial.

    Alvos

     

     

    O escritor e jornalista Christophe Ayad, chefe do Serviço Internacional do “Le Monde” e especialista em Norte da África e Oriente Médio, atribuiu ao governo francês, em artigo publicado no dia 18 de novembro, “um intervencionismo militarizado sempre crescente, que pode às vezes levar a um neoconservadorismo à francesa”. O título do artigo resume uma opinião presente entre muitos analistas franceses de Relações Internacionais: “Como Paris se converteu num intervencionista”.

    As características deste intervencionismo francês se revelam, nesse caso, não apenas na decisão de atacar o território sírio à revelia do Conselho de Segurança, mas também no fato de o país, à época, já se encontrar engajado militarmente nestas ações, como parte da coalizão americana. A estratégia havia sido classificada como “grotesca” por seu impacto humanitário sobre a população civil, nas palavras de Paulo Sergio Pinheiro, presidente da Comissão Independente Internacional de Investigação sobre a República Árabe da Síria, em discurso aos Estados-membros do Conselho de Direitos Humanos da ONU, em Genebra.

    A guerra no Mali como inspiração

     

    Hollande é tratado como herói no Mali, muito antes de o país africano ganhar as manchetes em 20 de novembro, depois que terroristas sequestraram hóspedes do hotel Radissom, na capital, Bamaco, deixando 21 mortos.

    Ainda em 2013, em resposta a um pedido de socorro do governo local, o presidente francês havia despachado tropas para acabar com um movimento separatista ligado à Al-Qaeda. O grupo queria estabelecer um território autônomo e tinha se envolvido em sequestros de estrangeiros, entre eles, cidadãos franceses.

    Neste caso, a operação foi aprovada pela ONU e contou com reforço de tropas do Chade. O sucesso da empreitada fez subir a popularidade do presidente da França, que, internamente, era chamado por seus críticos de “pudim” desde a campanha eleitoral de 2011.

    “Hollande sempre se apresentou no âmbito doméstico como um conciliador, um apaziguador revestido de pouca autoridade”, diz ao Nexo a francesa Cecília Baeza, doutora em Relações Internacionais pelo Instituto de Estudos Políticos de Paris (Science-Po) e, há um ano, professora da Fundação Getúlio Vargas em São Paulo. Ela diz que o presidente francês “encontrou na política externa agressiva uma forma de balancear esse perfil, projetar força e se fortalecer”.

    Cecília lembra que a França não apenas interveio no Mali, na Líbia e na Síria, mas também foi quem mais endureceu a negociação de um acordo nuclear com o Irã, fazendo um papel de “bad cop (policial durão)” que nem os EUA de Barack Obama se dispunham a fazer.

    De forma ainda mais direta, o cientista político e diretor da pós-graduação da Sciene-Po, Bertrand Badie, disse aos jornalistas Angela Boldrini e Philippe Scerb, da “Folha de S. Paulo”, no dia 16 de novembro, que os atentados em Paris foram resultado da “intervenção francesa na Síria e no Iraque, e, como pano de fundo, a política geral de intervenção da França, especialmente no Mali”. Para ele, “a França tem uma política muito mais favorável à intervenção exterior, particularmente no Oriente Médio, que os outros países ocidentais”.

    Badie lembra ainda que “o governo francês escolheu, paradoxalmente, intervir contra o regime do sírio Bashar al-Assad em agosto de 2013, mas não foi seguido por ninguém”. Nem mesmo os EUA consideraram oportuno intervir militarmente para depor Assad.

    Com esse afã de se lançar num voo de falcão sobre a Síria, a França deixa para trás o Reino Unido como maior aliado americano da Europa na Guerra ao Terror. A atitude é oposta ao que fez, por exemplo, a Espanha, depois do atentado que deixou 191 mortos no metrô de Madri, em março de 2004. A ação ocorreu três dias antes das eleições gerais e marcou a decisão do novo governo espanhol de simplesmente abandonar a coalizão americana que enfrentava a Al-Qaeda.

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