Profissão

‘Estereótipos afastam as meninas da ciência’

Conheça Pâmela Carpes, professora na Universidade Federal do Pampa e idealizadora do programa Popneuro, que ajuda a divulgar a neurociência nas comunidades de Uruguaiana

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Pâmela Billig Mello Carpes é mãe, neurocientista e há 11 anos dedica-se ao serviço público como professora na Unipampa (Universidade Federal do Pampa). Por si só, a Unipampa, primeira instituição pública de ensino superior na região, teve um poder transformador na pequena cidade de Uruguaiana, que passou a atender alunos de diferentes níveis sociais. O impacto visível de seu trabalho junto a uma parcela da população que antes não tinha acesso ao ensino superior gratuito faz com que Carpes não imagine outra vida que não a de servidora.

Dentro do laboratório, Carpes estuda como o cuidado parental nos primeiros anos de vida, ou a falta dele, afeta o cérebro do indivíduo a longo prazo. Suas descobertas mostram que a negligência dos cuidadores pode causar distúrbios cerebrais que se manifestam apenas na vida adulta. Ela investiga também formas de prevenir ou reduzir esses danos cerebrais causados pela privação dos cuidados parentais. Sua pesquisa lhe rendeu o Prêmio Para Mulheres na Ciência, em 2017. A iniciativa, organizada pela L'Oréal, Unesco e Academia Brasileira de Ciências, ocorre anualmente e contempla com uma bolsa-auxílio de R$ 50 mil jovens doutoras brasileiras responsáveis por projetos científicos de alto mérito a serem desenvolvidos em instituições nacionais durante 12 meses.

As ações de Carpes não se restringem apenas ao laboratório. Ela é ainda uma das idealizadoras do programa de extensão Popneuro, que, desde 2013, leva a neurociência para as escolas e comunidades de Uruguaiana. O Popneuro, cujo objetivo é popularizar a neurociência, quebrar o “tabu” de que informação científica é difícil e contribuir com a melhora da aprendizagem e práticas de ensino, já atingiu mais de 2.000 estudantes e contribuiu com a formação de cerca de 100 professores de educação básica. Além disso, mais de 2.500 pessoas da comunidade participaram de ações abertas.

Carpes também se valeu da visibilidade que o prêmio lhe deu para chamar atenção para a causa das mulheres na ciência. O grupo Cientistas do Pampa, um dos muitos do qual faz parte, desenvolve projetos e ações para ampliar a participação das mulheres na ciência.

Pâmela Billig Mello Carpes é a 14ª entrevistada da série “Gestão Pública”, uma parceria do Nexo com a república.org. O projeto traz, ao longo dos meses, entrevistas em texto na seção “Profissões” — são conversas com profissionais que atuam na administração pública e ajudam a transformar a vida dos brasileiros.

Gestão Pública

Quem: Pâmela Billig Mello Carpes

O que: Professora associada

Onde: Na Unipampa (Universidade Federal do Pampa)

No serviço público: Pesquisa em laboratório os efeitos do cuidado parental no desenvolvimento do cérebro, e ajuda a divulgar a neurociência com um projeto de extensão voltado à educação básica

Por que escolheu o serviço público?

PÂMELA CARPES Porque considero que hoje a universidade pública consegue atingir uma parcela da população junto a qual o meu trabalho tem maior impacto. Eu trabalho em uma universidade pública que fica no interior do Rio Grande do Sul (Uruguaiana), uma cidade na fronteira oeste do estado, onde, antes da Unipampa, não havia opções de ensino superior gratuito.

Como se inseriu na área da ciência, um universo majoritariamente masculino?

PÂMELA CARPES Foi acontecendo. Digo isso porque eu não via a ciência como uma possibilidade de carreira. Justamente por ser um universo historicamente masculino. Mesmo hoje, quando as mulheres já ocupam alguns espaços de ciência, o estereótipo predominante é do cientista homem, branco, de jaleco. Então, ciência não era uma opção de carreira para mim na época que estava no ensino médio. E eu não sabia o que queria ser. Gostava da área de ciências biológicas, mas não queria fazer biologia.

Acabou que fiz vestibular para três carreiras totalmente diferentes e acabei iniciando o curso de fisioterapia. Nos primeiros semestres, tive aulas de anatomia, fisiologia, embriologia e me encantei pelo estudo desses temas. Comecei a fazer iniciação científica e trabalhar com um professor em projetos de pesquisa nos horários nos quais eu não tinha aula. Ali aprendi como a ciência funciona e entendi que queria ser cientista.

E por que a neurociência?

PÂMELA CARPES No primeiro ano da graduação, já tive contato com a neuroanatomia e a neurofisiologia e me encantei em conhecer o cérebro e a sua complexidade. Fui monitora dessas disciplinas. Depois, mais na metade do curso, comecei a contribuir em um projeto que trabalhava com idosos institucionalizados, muitos deles com deficits cognitivos. Acho que foram essas experiências e a vontade de entender como o cérebro funciona, como ele aprende, como evitar as perdas de memória que vêm com o envelhecimento que me levaram a essa área.

De que forma a academia e, mais especificamente, seus estudos podem ter um impacto na sociedade?

PÂMELA CARPES Os meus estudos são do tipo que chamamos de “pesquisa básica”, que servem de base para o estabelecimento de terapias, sejam medicamentosas ou não. Ou seja, embora demore um pouco mais, minha pesquisa tem um impacto importante na sociedade. Além disso, a partir da pesquisa básica, podemos entender os mecanismos envolvidos nos fenômenos biológicos. Entender esses mecanismos é essencial para pensar estratégias de intervenção eficazes. Por exemplo, em um dos nossos projetos, trabalhamos com animais privados de cuidado no início da vida. Esses animais de laboratório apresentam deficits de aprendizagem que persistem ao longo de toda a vida. Esse protocolo nos ajuda a mimetizar situações de trauma na infância e, com ele, estabelecemos que esses traumas causam alterações no cérebro, diminuindo a quantidade de uma proteína chamada BDNF (Brain Derived Neurotrophic Factor – Fator Neurotrófico Derivado do Cérebro). Essa proteína é essencial para que o cérebro aprenda, é uma proteína relacionada à plasticidade, isto é, à capacidade que o cérebro tem de se modificar diante dos estímulos que ele recebe. Sem ela, ou com menos BDNF, o cérebro tem dificuldade de se modificar, isto é, de aprender. Por outro lado, também verificamos que estratégias como a prática regular de exercício físico, por exemplo, promovem o aumento dos níveis de BDNF no cérebro dos animais. Para citar um exemplo, esses resultados ajudam a subsidiar a criação e adoção de políticas públicas que buscam garantir condições de cuidado e desenvolvimento adequado nos primeiros anos de vida.

O que é o Programa Popneuro?

PÂMELA CARPES No nosso laboratório, estudamos como o cérebro aprende, não só em condições de disfunções ou doenças, como a que eu citei acima, mas também em condições normais. Procuramos responder questões fundamentais como: o que é necessário para que o cérebro aprenda? Quais regiões do cérebro são mais importantes para cada tipo de aprendizagem? Que proteínas e neurotransmissores estão envolvidos no processo de aprendizagem? Por que algumas memórias duram tão pouco enquanto outras persistem por muito tempo? Esses e outros conhecimentos relacionados à aprendizagem são importantes para a educação. Entender como o cérebro aprende pode não só ajudar os professores a qualificar suas estratégias de ensino como também os estudantes a aprender mais e melhor. Foi justamente com o intuito de discutir estes aspectos junto a professores e estudantes da educação básica que surgiu o programa. O Popneuro envolve ações semanais de divulgação da neurociência junto a estudantes de escolas públicas e também ações de formação continuada junto a professores. Geralmente fazemos visitas a escolas e um curso de formação de professores a cada ano. Este ano foi totalmente atípico e tivemos que mudar o foco das nossas ações. Divulgamos conceitos de neurociência aplicados ao cotidiano nas redes sociais, por meio do Instagram @programapopneuro.

Por meio do programa é possível atrair meninas para a ciência?

PÂMELA CARPES Sim, acredito que o programa Popneuro contribui para desmistificar o estereótipo do cientista e mostrar que mulheres também podem ser cientistas. Esse é um dos temas que procuramos trabalhar com os estudantes. Falamos sobre quem produz os conhecimentos da neurociência, trazemos exemplos de cientistas mulheres e também abordamos aspectos como as diferenças entre o cérebro feminino e o masculino. De fato existem diferenças, mas não diferenças que permitam afirmar que homens têm maior capacidade que mulheres ou qualidades mais relevantes para serem cientistas — isso nada mais é que uma construção social que precisamos desmistificar. Usamos conceitos da neurociência e evidências científicas para esclarecer o que chamamos de “neuromitos”, entre eles a ideia de que “meninos são melhores em matemática” ou que “mulheres são melhores em multitarefas”.

Quais os principais fatores que afastam as meninas e mulheres da ciência?

PÂMELA CARPES Eu acho que o principal fator que afasta as meninas é o estereótipo. Todos ou quase todos os cientistas que conhecemos na escola, que estão nos livros didáticos, são homens brancos europeus. Einstein, Mendel, Newton, Darwin... Implicitamente, ficamos com a ideia de que mulheres não podem ser cientistas. Ao contrário, temos muitas mulheres que contribuíram para a história da ciência, embora muitas delas não tenham tido o reconhecimento que mereciam em função do contexto social da época em que viveram. Precisamos divulgar o trabalho de mulheres cientistas, mulheres que contribuíram com a ciência ao longo da história e mulheres que contribuem nos dias de hoje! E também de mulheres negras cientistas! Porque crianças escolhem sua profissão futura com base nos modelos que elas conhecem. Claro que depois, quando pensamos na progressão da carreira científica, encontramos muitos outros fatores que afastam as mulheres da carreira científica, fazendo com que elas abandonem sonhos e com que a ciência muitas vezes perca grandes profissionais. Esses fatores envolvem preconceitos, o assédio (moral e sexual) e outras dificuldades de progressão na carreira que mulheres encontram.

É importante falar com as meninas desde cedo?

PÂMELA CARPES Sem dúvida. Mostrar que existem mulheres cientistas, que não há fatores que tornem mulheres menos aptas a essa carreira do que homens, que a ciência precisa de mulheres, porque uma ciência diversa é uma ciência melhor, é essencial. Isso porque essa ideia de que homens são mais aptos a algumas profissões, enquanto mulheres a outras, está muito enraizada na nossa sociedade. Começa quando meninas recebem brinquedos mais relacionados ao cuidado (dos filhos e da casa — bonecas, brinquedos de cozinha), enquanto meninos recebem mais brinquedos que estimulam independência e criatividade. Para trabalhar esses aspectos especificamente, há cerca de três anos reunimos um grupo de cientistas da Unipampa e criamos o grupo Cientistas do Pampa — realizamos projetos com meninas de idade escolar e ministramos palestras em diversas escolas de Uruguaiana sobre o tema.

Como as desigualdades de gênero se apresentam no dia a dia de uma cientista?

PÂMELA CARPES Algumas vezes, as desigualdades apresentam-se de forma explícita, como quando você se dá conta que está num congresso onde quase todos os palestrantes principais são homens, ou quando você observa os cargos de diretoria de sociedades científicas, as posições de gestão, liderança e tomada de decisão, que são majoritariamente ocupadas por homens. Outras vezes, de forma implícita, quando um artigo ou projeto é mais bem avaliado por ter um primeiro ou último autor homem, quando a sua ideia é considerada válida somente quando sai da boca de um colega homem, quando preferimos um aluno de pós-graduação homem em vez de uma aluna mulher porque ela tem um filho pequeno (se o homem tem ou não não faz diferença na nossa escolha). Nessas situações, a desigualdade é implícita, ninguém conscientemente avalia um projeto melhor pelo gênero do autor, mas está tão intrínseco em nossa sociedade essa ideia do perfil do bom cientista que ela influencia inconscientemente nossas decisões e escolhas.

Houve avanços de quando você começou até hoje?

PÂMELA CARPES Sem dúvida. Hoje, temos mulheres em praticamente todas as áreas da ciência, embora em algumas ainda haja uma quantidade significativamente maior de homens. Hoje, falamos sobre gênero e ciência. Hoje, pensamos políticas para estimular as meninas e mulheres na ciência. Hoje, falamos de maternidade e ciência e vemos universidades e agências de fomento discutindo políticas de apoio às cientistas mães. Isso se deve ao trabalho de muitos grupos. Eu destaco aqui o Parent in Science, um grupo de cientistas brasileiras e brasileiros do qual eu faço parte, que tem levantado dados sobre o impacto da maternidade na carreira das cientistas e apoiado a adoção de políticas de apoio. Ainda há muito o que avançar, sem dúvidas, mas precisamos reconhecer as conquistas atuais.

Além de cientista, você é mãe e luta para que a licença-maternidade conste no Currículo Lattes. Quais outras dificuldades mães cientistas atravessam no Brasil hoje?

PÂMELA CARPES É muito complicado comparar o currículo de uma mãe que esteve em licença-maternidade com o currículo de uma mulher que não esteve ou com o currículo de um homem. O tempo de licença é um tempo longe do laboratório ou do campo de pesquisa, e sabemos que, especialmente no início da vida, o filho requer muitos cuidados, e esses vêm, especialmente, da mãe. Inserir a informação da maternidade no Currículo Lattes permite que essa comparação seja mais justa, pois o avaliador do currículo pode entender um possível gap na produção da cientista mulher relacionando-o com a licença-maternidade. A maternidade precisa ser valorizada.

Criamos filhos para o mundo, e hoje sabemos da importância dos primeiros anos de vida. Infelizmente, a maternidade frequentemente prejudica a carreira (não só a científica) das mulheres. Eu mesma tive muita dificuldade de encontrar um orientador de mestrado porque tinha um filho pequeno quando finalizei a graduação e queria fazer o mestrado. Obviamente eu não teria a mesma disponibilidade de dedicação que um colega sem filhos. Acaba sendo comum em bancas de seleção de ingresso na pós-graduação e até mesmo em concursos docentes e outros processos seletivos questionar as mulheres sobre como farão para conciliar a maternidade com o trabalho, ou, até mesmo, se pretendem ter filhos. Raramente esse tipo de pergunta é feita aos homens. Hoje é inadmissível esse tipo de situação.

Você acha que enfrentou mais preconceito por ser mãe ou por ser mulher?

PÂMELA CARPES Hoje eu entendo que enfrentei situações de preconceito. Acho que as mulheres em geral enfrentam preconceitos, muitos implícitos. A maternidade pode ser um deles e é atrelada ao gênero. Acho difícil separar. A principal situação que enfrentei foi bem no início da minha carreira. Na época, não tinha essa perspectiva. Como comentei, quando finalizei a graduação e busquei oportunidades de cursar o mestrado, eu tinha um filho pequeno. Ao enviar e-mails para possíveis orientadores que trabalhavam na área que queria pesquisar, contando meus interesses e planos, e mencionando que eu tinha um filho pequeno e como pretendia me organizar, recebi várias negativas, de professores que me afirmavam não ter vagas disponíveis naquele momento. Nunca ninguém mencionou que não queria orientar uma mulher com filho pequeno. Mas os mesmos orientadores que disseram não ter vagas para mim naquele momento, abriram vagas para outros colegas, a maioria homens.

Você estuda como o cuidado parental, ou a falta dele, afeta o cérebro da criança a longo prazo. Quais as principais descobertas?

PÂMELA CARPES Hoje, sabemos que os primeiros anos de vida são cruciais e determinantes para o desenvolvimento da criança. Nesses primeiros anos, o cérebro é muito suscetível a influências externas. E também a criança é muito dependente de cuidados. Esses cuidados não precisam ser necessariamente vindos da mãe. Na sociedade os pais, avós, tios podem exercer a tarefa de cuidado das crianças sem prejuízo nenhum ao desenvolvimento delas. O importante é ter cuidado, carinho, atenção. Nosso grupo mostrou que a falta de cuidados no início da vida gera diminuição da plasticidade cerebral, estresse oxidativo em diferentes regiões do cérebro, além de alterar os níveis de neurotransmissores importantes, como a noradrenalina, a acetilcolina e a dopamina. Esse conjunto de alterações prejudica funções cognitivas importantes, como a capacidade de aprendizagem e formação de memória.

A sociedade deveria se preocupar mais em garantir licença-maternidade prolongada e ambientes de trabalho mais amigáveis para as mães que trabalham?

PÂMELA CARPES Sem dúvida. Precisamos pensar no futuro da sociedade que queremos. Investir nos cuidados das crianças, especialmente no início da vida, é investir no futuro. Para além da licença-maternidade, precisamos discutir também a licença-paternidade em nosso país. Nem sei se podemos dizer que temos uma licença-paternidade, são muito poucos dias e isso reforça a ideia de que os cuidados dos filhos são responsabilidade da mãe. Para uma sociedade mais justa, precisamos estimular o papel ativo dos pais no cuidado dos filhos. Jornadas de trabalho mais flexíveis também são importantes.

Com a pandemia, a ciência e estudos científicos ganharam bastante destaque. Ao mesmo tempo em que os cientistas foram valorizados por alguns, também foram atacados por outros. Você acha que a ciência sairá maior ou menor da pandemia?

PÂMELA CARPES Eu espero que saia maior. Realmente tivemos um debate que ultrapassou as questões científicas e misturou interesses e motivações políticas. Isso não cabe em um momento como este. De qualquer forma, acho que no final das contas as pessoas perceberão que superaremos os desafios da pandemia por meio da ciência. Só cientistas podem estudar o vírus, suas características, seus mecanismos de ação. Desenvolver uma vacina, tratamentos realmente efetivos, etc. Apesar dos desafios que vivenciamos, creio que nunca se falou tanto de ciência e dos cientistas como agora. Espero que, depois de vacinados e de superarmos a pandemia, não esqueçamos do papel que a ciência teve.

Existe muita desinformação acerca dos processos científicos e do que são evidências científicas. Essa incompreensão já levou muitos brasileiros a deixarem de se vacinar ou vacinar seus filhos, por exemplo. De que maneira os cientistas podem comunicar melhor o que fazem?

PÂMELA CARPES Este é um grande desafio. De fato, não é a primeira vez que a vacinação é questionada. Há alguns anos, ganhou muita força uma ideia que associava a vacina tríplice viral com a incidência de autismo. Isso surgiu a partir de uma publicação científica, que depois foi retratada, pois envolvia conflitos de interesse sérios e o estudo tinha problemas. De qualquer forma, o estrago já estava feito, e grupos ativistas levantam essa bandeira até hoje. Houve uma redução grande da vacinação com isso, e doenças erradicadas voltaram a aparecer. Veja bem, isso tudo começou por uma ação inadequada de um cientista. Infelizmente, temos muitos gaps na nossa formação científica. Esse caso específico foi uma falha ética grave. Mas, de modo geral, não formamos os cientistas de forma que eles estejam aptos a divulgar ciência para a população. Isso é algo que melhoramos nos últimos anos, mas que ainda precisamos melhorar muito. Ensinar futuros cientistas a comunicar ciência para a população é fundamental — precisamos incluir esses aspectos como essenciais na formação dos cientistas.

Governos importam?

PÂMELA CARPES Sem dúvida. Os governos tomam decisões que impactam fortemente na nossa vida. E nós elegemos o nosso governo. São os governos que discutem questões que influenciam nosso bem-estar, saúde, educação etc. e, com base nessas discussões, tomam decisões, apoiam iniciativas, contribuem (ou não) para a solução de problemas. Governos são essenciais, e precisamos disseminar mais essa noção. Felizmente, vivemos numa democracia que nos permite eleger os nossos governos. Infelizmente, nos últimos anos grande parte da população tem se desiludido e acaba por desvalorizar o poder do voto.

“Gestão Pública” é uma série do Nexo em parceria com a república.org, um instituto apartidário e não-corporativo, dedicado a melhorar a gestão de pessoas no serviço público, em todas as esferas de governo. Em quase quatro anos de atividade, já apoiou mais de 100 projetos. Este projeto conta com a consultoria de Daniela Pinheiro e com edição de Marcelo Coppola.

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