Profissão

‘Trabalho para que meus alunos voltem a sonhar com o futuro’

Conheça a coordenadora pedagógica responsável por criar um plano de avaliação que virou referência nas escolas municipais de Seabra, na Bahia, projeto que lhe rendeu o Prêmio Educador Nota 10

Os benefícios de uma educação pública de qualidade são inúmeros e inquestionáveis. A melhora da educação, além de aumentar a produtividade da economia como um todo, também reduz desigualdades sociais ao promover uma maior igualdade de oportunidades entre aqueles que podem e os que não podem pagar por alternativas privadas. É para que seus alunos de escola pública não tenham suas possibilidades de futuro reduzidas que Janaína Barros trabalha, há mais de 20 anos, como coordenadora pedagógica no município de Seabra, na Bahia.

Em 2012, quando Barros assumiu a coordenação pedagógica do colégio municipal Ivani Oliveira, que atende crianças e adolescentes do ensino fundamental dois (6º ao 9º ano), a instituição era um retrato dos problemas educacionais no país: estrutura física precária, alto índice de reprovação e uma taxa de evasão de 40%. O Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica) era de 2,9. Três anos depois, na edição seguinte da prova, o colégio Ivani passou para o Ideb 5,9 (a meta do Brasil para 2022 é um índice de 6). A evasão escolar passou para 2% e a escola passou a ter pais acampados na porta fazendo fila para conseguir uma vaga.

Entre as duas edições da prova, Barros e o diretor Lauro Roberto elaboraram um plano de avaliação, criaram e implementaram um currículo escolar, cadastraram todos os alunos na biblioteca municipal e teceram uma comunidade escolar. Barros investiu na formação dos professores, mas também na dos pais que foram convidados para participar da vida escolar e até mesmo dos porteiros que passaram a fazer tabelas com registros de entradas e atrasos dos alunos. Ela usa essas tabelas para fazer reunião de pais, ligar para as famílias e evitar evasão.

Para Barros, quanto mais perto um educador consegue chegar da vida das pessoas, mais recursos ele tem para contribuir no processo de aprendizado. Na relação com os alunos, ela passou a observar todas as pichações em muros, portas de banheiro e carteiras como forma de se aproximar e entender como está a vida afetiva, a família, a relação com os pais, com os amigos, os medos, os preconceitos, a autoestima, as relações com os professores. Os projetos desenvolvidos na escola eram inspirados em uma demanda e interesse genuíno dos alunos.

O plano de avaliação, que mais tarde foi usado como referência por toda a rede municipal de Seabra e outras capitais brasileiras, lhe rendeu o Prêmio Educador Nota 10, da Fundação Victor Civita, na categoria Gestão. Barros também representou o Brasil em 2014 na ONU (Organização das Nações Unidas) no Reduca e foi finalista em 2018 do Prêmio Espírito Público.

O Brasil ainda tem um longo percurso a percorrer para alcançar o tão desejado “padrão Fifa” de qualidade no ensino público brasileiro. Histórias como a de Barros mostram que, enquanto não chegamos lá, é possível realizar um trabalho de excelência.

Janaína Barros é a quarta entrevistada da série “Gestão Pública”, uma parceria do Nexo com a república.org. O projeto traz, ao longo dos próximos meses, 18 entrevistas em texto na seção “Profissões” — são conversas com profissionais que atuam na administração pública e ajudam a transformar a vida dos brasileiros.

Gestão Pública

Quem: Janaína Barros

O quê: Coordenadora pedagógica

Onde: No Colégio Estadual de Seabra, na Bahia

Na pandemia: Trabalha dia e noite para sustentar a aprendizagem a distância de seus 1.155 alunos, com o projeto “Colégio Estadual Seabra em ação”

Como você conseguiu elevar o Ideb da escola municipal Ivani Oliveira de 2,9 para 5,9 em 3 anos?

Janaína Barros Eu tive uma parceria incrível com o diretor Lauro Roberto e construímos alguns caminhos para chegar nesse resultado. Um deles foi a formação de pais. Organizamos reuniões periódicas para trazê-los para dentro da comunidade escolar. E fazíamos reunião para tudo, não só sobre desempenho na classe no final do semestre. Falávamos sobre alunos tímidos, alunos que não se alimentavam direito na escola, alunos que não faziam os deveres de casa, alunos que tinham dificuldades de relações interpessoais com os colegas e alunos com defasagem na escola. Além disso, claro, fazíamos também as reuniões de fim de unidade em que compartilhávamos os projetos que a gente tinha desenvolvido, os resultados desses projetos e próximos passos para os pais poderem acompanhar o que se passava na escola. E conseguimos uma média de 95% de participação.

Mas não é só inclusão dos pais na comunidade escolar que eleva o Ideb. Até porque não é responsabilidade deles melhorar a aprendizagem dos alunos. Mas cabe à escola formar pais que possam contribuir com os processos da escola em prol desse objetivo.

Outro ponto importante foi a criação de uma cultura de apego à leitura; cadastramos todos os alunos na biblioteca municipal. O plano de avaliação que desenvolvemos foi fundamental para investigar o baixo desempenho dos alunos. Entendemos que era muito importante olhar por trás daquilo que a gente estava avaliando. Por que um percentual tão grande de alunos não estava se saindo bem nas situações em que eram avaliados? Com esse projeto de avaliação ganhamos o prêmio Educador Nota 10, na área de gestão.

Destaco também a elaboração do nosso currículo. Fizemos uma dinâmica com os alunos e perguntamos quais eram os sonhos deles e pedimos que eles escrevessem em uma estrelinha e colocassem no quadro na escola. Muitos escreveram que sonhavam em estudar no IFBA (Instituto Federal da Bahia), que é uma das melhores escolas de ensino médio aqui da região. Além de buscar o currículo da prova para o próprio IFBA, eu fui a várias escolas particulares da minha cidade e consegui alguns currículos. Eu lembro de colocar todos eles em cima da minha mesa e junto com o diretor selecionamos os conteúdos que não podiam faltar para viabilizar o sonho dos alunos. A elaboração do currículo foi bem importante, mas a implementação também foi fundamental. Finalmente, metade das vagas do IFBA foram ocupadas por nossos alunos do nono ano.

Eu diria que até a formação dos porteiros também contribuiu para esse resultado. Os porteiros aprenderam regra de três e passaram a trabalhar com planilhas onde anotavam quem chegava sempre atrasado no primeiro horário, quem deixou de chegar com a mãe, quem chegava chorando, a gente tinha até anotações das crianças que de repente passaram a aparecer “ricas” com notas de R$ 20 e R$ 50. Todas essas informações eram cruzadas e ajudavam a gente a entender as mudanças de comportamento em sala de aula. Eu também usava essas tabelas para fazer reunião de pais, ligar para as famílias e isso evitava a evasão.

Você acha que a sua experiência pode ser replicada em outros lugares?

Janaína Barros Não sei se é escalável o que eu faço. É uma pergunta que me acompanha, que eu me faço e as pessoas sempre me questionam. Talvez seja possível, mas escalar é uma habilidade que eu não tenho. As avaliações, estimular a leitura, envolver e formar os pais, trabalhar relações interpessoais, tecer uma comunidade, tudo isso está dentro da minha concepção do que é o trabalho de uma coordenação pedagógica, não são projetos. Olhar as escritas dos alunos pela escola para dali tirar pistas do que eles sabem, do que precisam aprender e do que gostam também faz parte da minha concepção de trabalho de coordenador.

Alcançar esse tipo de resultado exige muito sacrifício da vida pessoal?

Janaína Barros Já exigiu muito, principalmente nos meus primeiros dez anos de serviço, eu trabalhava oito horas na escola e depois quatro a seis horas em casa porque eu tinha muito o que aprender e era muito afoita. Hoje eu consigo organizar melhor a minha rotina. Eu trabalho oito horas diárias e de vez em quando levo trabalho para casa. Mas aprendi não só a fazer educação pública com mais qualidade, como também a me organizar como profissional para que a qualidade do meu trabalho não fosse em detrimento do meu tempo com família, filhos e com o meu ócio. O que não significa que eu não continue lendo e estudando em casa. Mas isso foi um processo de aprendizagem, todos nós aprendemos quando estamos na escola.

De onde veio a sua ideia de usar as pichações dos seus alunos como ferramenta de ensino?

Janaína Barros Eu não gosto da palavra pichação porque ela carrega um estigma negativo, eu chamo de escrita mesmo. Recentemente uma aluna postou na minha página de rede social “até que enfim alguém leu”. Foi quando eu li esse comentário dela que eu entendi que muitas dessas coisas que eu leio são quase bilhetes. Por isso, esse projeto se chama “quase bilhetes”.

E como ele surge?

Janaína Barros Há uns 15 anos, chegando numa classe do sexto ano, a professora me disse que tinha uma aluna muito tímida e com muita dificuldade de aprendizagem. E a primeira coisa que fiz foi pedir para olhar o que ela escrevia. Eu me lembro que ela tinha um caderno rosa de dez matérias com um bolso na frente. Aí comecei a ler o que ela anotava das aulas, mas também comecei a ler o que estava escrito na capa, na contra-capa e o que estava nesse bolso. Eu vi que ela escrevia versos e neles aparecia muito a família, a timidez, uma não aceitação do corpo. Percebi que era o que estava se passando com ela que a estava impedindo de aprender. E naquele momento entendi que havia algo nas escritas e nos desenhos dos meninos e meninas maiores do qual a gente precisava se aproximar.

Logo depois fui convidada para ir para a escola Ivani, que era uma escola municipalizada e não tinha dados sobre as crianças. Não tinha diagnóstico delas, não tinha atas dos conselhos de classe com narrativas sobre os alunos ou ocorrências envolvendo-os. Eu não tinha textos produzidos por eles. E logo que entramos tinha muitos conflitos, brigas, crianças que choravam querendo ir embora — crianças e adolescentes, porque era fundamental dois. Tinha muita coisa acontecendo ao mesmo tempo e eu não tinha um lugar em que eu pudesse compreender o que estava acontecendo e desenvolver um senso de empatia com todas aquelas questões. Eu me lembro que, quando comecei, usava os mesmos banheiros que os alunos, não tinha banheiro separado para os professores. E lá na última cabine começaram a aparecer frases com combinados para brigar, meninas sofrendo com anorexia, bulimia. Começaram a aparecer frases apaixonadas. Comecei a comparar as letras das frases nos banheiros com os textos produzidos no primeiro diagnóstico que realizamos. E conseguia saber mais ou menos em quais classes esses alunos estavam a partir das frases escritas. Com isso eu fazia reuniões mais individualizadas, alimentadas dessas escritas. No momento de conflito, era possível compreender algumas dores daquelas crianças. Eu me lembro que a gente conseguiu antecipar e intervir até em brigas combinadas a partir dessas escritas. No Ivani, esse processo virou uma forma de chegar mais perto e desenvolver empatia ou de ter aproximação com o inconsciente coletivo da escola.

Quando cheguei no Colégio Estadual de Seabra, em 2018, eu estava lidando com outro universo de alunos que são meninos e meninas de 14 até 25 anos. E, de novo, a ausência do histórico dos alunos foi me fazendo ter a necessidade de olhar a arquitetura da escola. Eu mapeei os alunos com dificuldades de aprender e depois assistia às aulas com eles para saber o que eles conversavam durante as aulas, quais eram as inquietações. Quando saíam da sala, eu procurava ver o que permanecia escrito nas carteiras. E dessa maneira ampliei o meu repertório para na hora de conversar com eles ter uma prosa mais genuína.

Por que você escolheu o serviço público?

Janaína Barros Eu estava em São Paulo, já havia passado na primeira fase do vestibular de medicina da USP (Universidade de São Paulo), quando meu avô faleceu. Eu voltei para Seabra com a minha família sem sequer prestar a segunda fase. Minha mãe não queria deixar minha avó sozinha. E o serviço público se apresentou como uma forma de eu poder continuar estudando. Naquela época, quem passasse nesse concurso [de professora municipal] poderia ingressar com uma bolsa de estudos em pedagogia na Uneb (Universidade do Estado da Bahia), que estava com uma parceria com a rede municipal. Eu sabia que era uma oportunidade única de ingressar em uma universidade. Essa constante necessidade de aprender, me move, me desafia, me faz feliz, me renova as energias depois de 22 anos como servidora pública da educação.

E por que nunca saiu?

Janaína Barros Fiquei no serviço público porque nele eu sinto que tenho espaço para fazer uma diferença. Eu cheguei a receber convites para morar no Rio de Janeiro e em São Paulo, mas acho que em Seabra tenho mais qualidade de vida para cuidar também dos meus dois filhos. E o Nordeste é um território fértil para uma apaixonada por educação. Eu ainda tenho muito o que aprender e mostrar. Sonho em ganhar o Global Teacher Prize, o maior prêmio em educação.

Como sua rotina mudou com a pandemia?

Janaína Barros Em um primeiro momento me adaptar ao home office foi difícil. Isso trouxe dores e angústias. Aqui em casa eu não tinha um espaço para trabalhar, nem escritório, nem cadeira, nem mesa apropriada. Eu só tinha meu notebook. Eu comecei a trabalhar dez, 12 horas por dia. Tive que reaprender a organizar a minha rotina, teve dia de eu trabalhar das 8 da manhã até 1 da manhã do dia seguinte para atender todos os pedidos de professores, responder mensagens dos alunos, produzir material. Não era um ou dois alunos, eram todos os mais de 1.000 alunos e 50 professores precisando de atenção de uma vez só. O primeiro mês foi exaustivo e tive que aprender a ajudar os professores a planejarem as aulas online. Para alguns foi bem difícil. Mantive a comunicação com os alunos através das redes sociais e eles não têm horário. Foi um desafio me acostumar e cuidar desse novo canal de escuta. Era cada um no seu canto, sofrendo seu tanto e compartilhando tudo nos grupos de WhatsApp. Em um segundo momento, parei para entender esses apelos e encontrar meu lugar como profissional nessa interação virtual.

Na escola, a gente olhava no olho, via o movimento do corpo, sabia que a pessoa estava agoniada, sabia que estava falando mais de um sentimento do que de um fato. E no WhatsApp é difícil entender os sentimentos. Hoje finalmente consigo organizar meu tempo, conversar com os alunos, e trabalhar oito a dez horas por dia. Consigo ouvir o que os professores dizem e ter uma escuta mais atenta e mais qualificada e sensível.

Gosto de marcar que os desafios que surgiram na pandemia não são diferentes dos desafios que encontramos fora dela. Eles só aparecem em escala maior, mas as questões e conflitos são os mesmos. A necessidade de o aluno aprender, ter espaço para se comunicar, de acolher professor não são coisas da pandemia.

Outro desafio foi ter um projeto de manutenção das aprendizagens para os 1.155 alunos. Construímos o projeto “Colégio Estadual Seabra em ação” e ele já está na terceira versão e todas as revisões se pautaram no retorno dos alunos e dos professores. Foi um projeto que a gente descobriu, por exemplo, que não dava para fazer sem que alguns alunos se tornassem também monitores.

As escolas estão preparadas para receber alunos nas atuais circunstâncias?

Janaína Barros Eu me pergunto se as escolas em algum momento estiveram de fato preparadas para receber os alunos, sabe? Focar o problema na pandemia é fazer a gente esquecer da nossa história. Já tínhamos salas cheias demais sem condições para os professores trabalharem, já tínhamos escolas com ineficiência na infraestrutura, já tínhamos escolas sem espaços externos arejados, sem refeitórios, sem acesso à internet. Já tínhamos alunos que moravam longe da escola e pegavam muitas horas em ônibus lotados. Todos esses problemas já estavam aí. Como só agora não ter sabão líquido para os alunos lavarem as mãos virou um problema? Nós não estamos prontos para receber os alunos durante a pandemia porque já não estávamos prontos antes. As escolas públicas em países desenvolvidos estão pensando em rodízio de alunos, mas nós temos problemas muito profundos. A pandemia só tornou mais evidente a falta de estrutura que já deveria estar garantida antes dela. São direitos que eram negados aos alunos.

Quais são os seus desafios pessoais?

Janaína Barros Meu maior desafio pessoal é seguir encontrando caminhos para permitir que os alunos das escolas públicas possam fazer escolhas para os caminhos da sua vida, que não tenham um futuro restrito por falta de educação. Parece clichê, mas o que a gente vê de verdade na educação das escolas públicas, principalmente nas que eu trabalho, são meninas e meninos que guardaram seus sonhos, que não se sentem autorizados a sonhar e que quando perguntados o que querem para o futuro não sabem nem responder. Então, não negociar o direito que esses meninos e meninas sonhem é meu maior desafio profissional e pessoal, porque a gente está na escola para contribuir com pessoas. Se eu não colaborar com elas, como garantir um futuro melhor para minha comunidade, para a próxima década? Então trabalho para que meus alunos possam planejar seus futuros, para que elas se conectem com propósitos ou se reconectem com propósitos muitas vezes esquecidos. É um desafio que todos nós educadores com compromisso social precisamos enfrentar.

Você diz que a autoestima tem uma grande influência na aprendizagem dos alunos. Como as escolas podem trabalhar a autoestima deles?

Janaína Barros Não sei se a gente trabalha a autoestima. Penso que para que haja aprendizagem é preciso conhecer o sujeito da aprendizagem. E quando você se aproxima desse sujeito, onde vive, suas histórias, seus projetos ou a ausência deles, você consegue fazer escolhas mais ajustadas nas suas atividades escolares e planos de ensino. É mais uma questão de empatia. Eu, como coordenadora, vou fazer uma reunião de pais melhor se eu tiver mais conhecimento sobre quem são os pais daquela comunidade e quais as suas expectativas. Se vou fazer uma formação de professores e quero discutir leitura, é importante conhecer como os alunos leem, o que não gostam, o que gostariam de ler e quais são suas expectativas. O que pode aproximar os alunos daquilo que a gente quer fazer. É importante que os projetos da escola tenham relação íntima com os anseios de toda a comunidade.

O plano de avaliação que você criou foi adotado e ampliado para toda a rede de Seabra. Onde ele acertou?

Janaína Barros O plano não foi só meu, foi da escola, em parceria com o diretor Lauro Roberto. A partir do momento que instauramos um plano de avaliação e olhamos os resultados de redução na reprovação e evasão e avanços na proficiência de leitura e matemática, com base na análise da Prova Brasil, a Secretaria Municipal de Educação juntou ele a outros planos de outras escolas e construiu um parâmetro de avaliação para a rede.

Você elaborou um plano de apoio à alfabetização e cadastrou os alunos na biblioteca municipal. Como é possível despertar o prazer pela leitura?

Janaína Barros Entre 2012 e 2017, quando trabalhei na escola Ivani, ela não tinha uma biblioteca no seu espaço. E nós queríamos que os alunos melhorassem na proficiência da leitura. Para isso, precisávamos que os alunos tivessem acesso a livros em quantidade para todos. Muitas vezes, eu tenho uma biblioteca ampla, mas apenas um exemplar de cada título impossibilita que uma turma inteira tenha acesso à obra e que o professor possa fazer uma leitura compartilhada com o livro na mão. Para minimizar esse problema, fizemos inscrições e carteirinhas para todos os mais de 400 alunos da escola na biblioteca da cidade. Nós também levantamos quais os títulos que tinham mais de 30 exemplares e com isso foi possível desenvolver na escola um projeto de leitura de livros. Além de bons títulos, conseguimos em quantidade suficiente para que cada aluno pudesse ter um livro na mão acompanhando a leitura do professor. O prazer de ler do aluno só vai ser despertado se o professor também tiver prazer em ler. Um professor apaixonado por um autor, por um gênero literário, por um livro, por ler em voz alta. Ele seduz seus alunos a se enveredarem pela leitura.

Qual a importância da formação continuada dos professores no ensino?

JANAÍNA BARROS A formação continuada é importante porque ela nos ensina a pensar sobre o nosso fazer. Na nossa primeira formação, não temos como entrar em contato com todos os desafios que vamos encontrar quando em ação. Os desafios e projetos pessoais aparecem no dia a dia. Novas formações possibilitam aperfeiçoar o nosso fazer. Por exemplo, eu fiz minha graduação e depois me especializei na Uneb, mas foi no Instituto Chapada de Educação e Pesquisa que eu encontrei espaço para questionar o meu fazer: como as crianças aprendem, como o sujeito aprende. Como funciona o triângulo didático e como professor, aluno e conhecimento se comunicam cada vez melhor, quais condições precisam ser garantidas. Como me comunicar melhor com os alunos? O que tem por trás do que os alunos dizem e fazem? São coisas que só a leitura não basta. Precisamos, sim, ler, mas também fazer e analisar o nosso fazer, o que vai permitir que sejamos profissionais melhores.

O que 20 anos na educação ensinaram?

JANAÍNA BARROS Que é possível oferecer uma educação pública de qualidade. Meus filhos, sempre que possível, estudaram nas escolas em que eu trabalhei porque acredito que em escolas públicas temos profissionais qualificados, excelentes professores, diretores e coordenadores. Outra lição que fica é que não se deve negociar aprendizagens, e o Brasil vive ainda um conflito muito grande em acolher minorias e oferecer um conhecimento que não se nega às elites. Quantos são os de escolas públicas que saem falando inglês porque aprenderam na escola?

A gente precisa formar educadores, professores, coordenadores e diretores que entendam que o currículo não se negocia. Não é porque o menino é da zona rural, não é porque ele trabalha, não é porque falta acesso a alguns objetos de conhecimento que eu vou descer a régua. Ao fazer isso, eu estreito suas possibilidades de futuro e de realizar seus sonhos. Isso ainda é muito comum: o aluno tem estrutura familiar precária, ou a menina engravidou, então não vamos ensinar as coisas difíceis. Pobres, negros ou adolescentes grávidas não são coitados, são pessoas que constroem e sustentam nosso país e deveriam ter direito a ascender socialmente. Então, na escola precisamos dar as ferramentas para que eles saiam em busca dos seus sonhos.

Governos importam?

Janaína Barros Sem o Estado, a gente não vai muito longe. Claro que é possível fazer algumas coisas independentes como fizemos no Ivani. Com recursos próprios e sem uma política pública instaurada pela Secretaria Municipal de Educação, nós conseguimos pensar um currículo, pensar um plano de avaliação, fizemos formações com os pais e com toda a equipe. Conseguimos formar porteiros. Mas aí esbarramos em limites como a ausência de livros, de biblioteca nas escolas, de internet, de laboratório de informática com computadores, laboratório de ciências, contratação de professores, qualidade da merenda. Tudo isso são exemplos de investimentos que uma escola não tem recursos e depende de políticas públicas para levar adiante.

“Gestão Pública” é uma série do Nexo em parceria com a república.org, um instituto apartidário dedicado a melhorar a gestão de pessoas no serviço público, em todas as esferas de governo. Em quase quatro anos de atividade, já apoiou mais de 100 projetos. Este projeto conta com a consultoria de Daniela Pinheiro e com edição de Marcelo Coppola.

Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project.

Já é assinante? x

Entre aqui

Continue sua leitura

Inscreva-se abaixo no Boletim Coronavírus, uma newsletter diária do Nexo: