Profissão

‘Os enfermeiros trabalham sob condições muito difíceis. Precisam ser valorizados’

Conheça o enfermeiro que criou uma rede de apoio emocional aos colegas de profissão envolvidos no tratamento da covid-19

Jarbas Vieira de Oliveira é enfermeiro, especializado em saúde mental, no Centro de Atenção Psicossocial para Usuários de Álcool e outras Drogas de Belo Horizonte, e integrante do Coren-MG (Conselho Regional de Enfermagem de Minas Gerais). Ele faz parte de uma categoria de profissionais absolutamente fundamental no enfrentamento à pandemia de covid-19 e que trabalha sob o risco constante de contrair o novo coronavírus. Segundo dados do Observatório da Enfermagem, mais de 28 mil profissionais já foram infectados no país, dos quais 295 morreram.

Assim como muitos enfermeiros, Oliveira se afastou dos familiares para evitar o risco de exposição deles ao vírus. Sua esposa, asmática, se mudou para a casa da mãe. Faz 115 dias que ele não a vê presencialmente. Ele se considera privilegiado por contar com a estrutura da casa da sogra. Alguns de seus colegas se mudaram para garagens, dormem em seus carros ou, apesar de salários baixos, alugaram quitinetes para manterem o distanciamento e protegerem suas famílias.

Enfermeiros, ao mesmo tempo em que recebem homenagens e salvas de palmas em todas as regiões do país, são estigmatizados como transmissores do vírus. Muitos já sofreram agressões físicas e verbais nas ruas e transportes públicos. A falta de equipamento adequado, a sobrecarga de trabalho, a desvalorização da profissão e o convívio com colegas que adoecem são outras dificuldades enfrentadas pela categoria. Muitos foram afastados por falta de condições psicológicas para trabalhar.

Foi nesse cenário que Oliveira sentiu a necessidade de ajudar seus colegas e implementou o projeto Suporte Emocional, que oferece uma rede de apoio para que enfermeiros consigam lidar com as ansiedades decorrentes do trabalho. Nele, uma equipe de 17 enfermeiros, todos especializados em saúde mental, se revezam para acolher a angústia dos colegas. “Também é preciso cuidar de quem cuida da gente”, lembra Oliveira.

Jarbas de Oliveira é o segundo entrevistado da série “Gestão Pública”, uma parceria do Nexo com a república.org. O projeto traz, ao longo dos próximos meses, 18 entrevistas em texto na seção “Profissões” — são conversas com profissionais que atuam na administração pública e ajudam a transformar a vida dos brasileiros.

Gestão Pública

Quem: Jarbas Vieira de Oliveira, 39 anos

O quê: Enfermeiro

Onde: No Centro de Atenção Psicossocial para Usuários de Álcool e Outras Drogas de Belo Horizonte

Na pandemia: Desenvolveu e implementou uma rede de apoio para que enfermeiros consigam lidar com as ansiedades decorrentes do trabalho

Como a pandemia mudou a sua rotina de trabalho?

Jarbas Vieira de Oliveira Mudou minha rotina de forma abrupta. Apesar de trabalhar com saúde mental e não estar na linha de frente direta no combate à covid-19, mudamos os protocolos de higienização das mãos, adotamos o uso de máscara e orientamos os pacientes a usá-las também. Passamos a evitar o contato físico com nossos pacientes, o que nem sempre é possível. Nos casos extremos de desorganização psíquica em que é necessário fazer uma imobilização, tomamos todos os cuidados necessários para fazê-la da forma mais rápida possível e devidamente paramentados.

Apesar de a [equipe que trabalha com] saúde mental não ter contato direto com o coronavírus, temos contatos indiretos com pacientes com sintomas gripais e prestamos assistência a eles. Os pacientes graves de covid-19 são encaminhados para unidades clínicas destinadas a esse cuidado. Já tivemos mais de dez casos de pacientes com síndromes gripais severas, alguns testaram positivo [para covid-19].

E como foi afetada a sua rotina em casa?

Jarbas Vieira de Oliveira Eu tive que me separar de minha esposa e do filho dela. Minha esposa tem como comorbidade uma doença crônica respiratória e está em isolamento na casa da mãe dela. Tem cerca de 115 dias que eu não os vejo. Ficar sem contato afetivo tem sido a pior das mudanças para mim. Eu passei a viver entre trabalho e casa, casa e trabalho.

De toda forma, é um privilégio minha esposa poder morar com a mãe. Se não fosse assim, eu teria que alugar uma quitinete. Muitos profissionais de saúde estão angustiados por não terem como se isolar dos familiares e vivem com medo de contaminá-los.

Por que criar um projeto de suporte emocional aos enfermeiros?

Jarbas Vieira de Oliveira Eu sou enfermeiro especialista em saúde mental e trabalho nessa área há mais de dez anos. Além disso, faço supervisão dos técnicos e auxiliares de enfermagem em saúde mental e ainda atuo como conselheiro efetivo do Coren-MG. No meu constante contato com colegas, percebi que nossa categoria sofre de uma sobrecarga mental de trabalho muito forte, independentemente do contexto da pandemia. Entretanto, com ela, a situação se agravou. Entendo que os nossos profissionais estão em trabalhos estressantes e, por avaliar o quão pior pode se tornar o cotidiano de trabalho por causa da pandemia, eu levei a proposta de dar ouvidos e voz aos que necessitam dessa escuta ao Coren-MG.

A oportunidade do projeto surgiu a partir da pandemia, mas isso era um desejo antigo meu enquanto conselheiro do Coren-MG. Para mim, esse projeto também é uma forma de a instituição saber como está a categoria em todo o estado. Minas Gerais tem 190 mil enfermeiros espalhados em 853 municípios, é difícil para o Coren entender em tempo real as demandas específicas de cada lugar. Além do objetivo principal, de oferecer suporte emocional para a categoria, nós saberemos em quais lugares de Minas Gerais os profissionais estão sofrendo mais dificuldades no exercício profissional, onde eles estão com as condições de trabalho mais precárias.

Quais as principais angústias dos profissionais de enfermagem hoje?

Jarbas Vieira de Oliveira As angústias são as mais variadas: não estar se sentindo bem no cotidiano com o que faz; sobrecarga de trabalho; vivência de perda familiar ou de colegas pela covid-19; relação estressante com o seu chefe imediato, entre outras. Os enfermeiros são mal-remunerados e muitos têm dois ou três vínculos de trabalho.

Nossa categoria está trabalhando sob condições muito aquém do digno para um exercício tão singular. Não somos valorizados e isso faz com que os profissionais estejam cada vez mais angustiados nos seus processos de trabalho, o que faz com que eles adoeçam psicologicamente.

Foi difícil implementar seu projeto?

Jarbas Vieira de Oliveira A implantação do projeto em si não foi difícil. O Cofen (Conselho Federal de Enfermagem) já havia feito uma proposta de atendimento parecido, mas via chat pela internet. Eu gostei da proposta, mas, a meu ver, seria mais interessante se a gente ligasse para as pessoas. Avaliei que ao ligarmos ativamente estaríamos mais próximos daquele profissional que se sente angustiado, ansioso, com sintomas de depressão. Assim, sugeri que a gente fizesse um pouco diferente do Cofen e propus ligações para os inscritos e não via chat.

Felizmente, o Coren-MG viu uma oportunidade de fortalecimento da instituição por meio do suporte de apoio emocional aos inscritos. Todas as enfermeiras e enfermeiros, técnicos e auxiliares de enfermagem que sentirem a necessidade de serem ouvidos t��m a oportunidade de agendar um atendimento individualizado de suporte emocional. Temos 17 colaboradores da enfermagem especialistas em saúde mental que se revezam em atendimentos entre as 8h e 21h. O inscrito consegue horário para o mesmo dia em que ele entrar no site do Coren ou enviar uma mensagem via WhatsApp.

Como se trata de uma ação que o Coren-MG nunca realizou antes, ainda estamos na fase de anunciar o projeto pelas redes sociais, grupos de WhatsApp e boca a boca. Passados 60 dias, estamos tendo mais agendamentos nesse momento. Na fase inicial tínhamos pouca procura.

Quais impactos o projeto já gerou?

Jarbas Vieira de Oliveira Com o andar do projeto, estamos conseguindo atrair cada vez mais enfermeiros. Já atendemos cerca de 200. Temos também um número crescente de profissionais que procuram uma vez por semana o suporte emocional. Nas nossas pesquisas de satisfação, 100% dos atendidos pelo suporte emocional qualificam o projeto como muito bom ou ótimo. Tivemos apenas uma queixa de um profissional que esperava ser atendido por um psicólogo.

Também atingimos o nosso objetivo de saber como estão as condições de trabalho desses profissionais, os motivos que os fazem estar nesse trabalho, o que adoece esses profissionais, o que lhes deixam angustiados. Como voltar para casa? Como cuidar dos filhos? Como dar suporte também para seus familiares? Muitos profissionais são a única ou a maior fonte de renda em toda a família. Muitos profissionais gostariam, mas não podem ficar em casa, eles precisam trabalhar e a gente está ouvindo cotidianamente isso. Nós temos ouvido que o maior sofrimento deles é ter que dormir num carro; dormir na garagem porque eles estão em contato com covid-19 o tempo todo no trabalho e não seria legal eles dormirem na mesma cama que o cônjuge, ou abraçar seus filhos. Esse tipo de vivência que os profissionais estão tendo leva-os a ter mais sofrimento no trabalho e provoca, consequentemente, um certo adoecimento.

Enfermeiros são aptos a prestar atendimento psicológico?

Jarbas Vieira de Oliveira O enfermeiro não é psicólogo e o objetivo do projeto não é fazer psicoterapia. Nós damos suporte emocional por meio de atendimentos individualizados, via telefone, para esse profissional que está com problemas. Como somos profissionais da mesma categoria, a gente entende melhor o sofrimento do outro e temos empatia. Os colaboradores que fazem os atendimentos são especialistas em saúde mental e sabem dar suporte emocional, ouvir a pessoa que está do outro lado sem emitir juízo de valor sobre seu processo de adoecimento psíquico. Nós fazemos isso com os pacientes, damos cotidianamente suporte a eles, então, por que não poderíamos ofertar esse suporte aos nossos colegas?

Quais as dificuldades que os enfermeiros do SUS enfrentam no dia a dia? Muda muito o trabalho no setor público e privado?

Jarbas Vieira de Oliveira As dificuldades no trabalho da enfermagem são as mesmas independentemente do setor onde se trabalha. Precisamos de melhores condições de trabalho, melhor dimensionamento das jornadas para diminuir a sobrecarga, condições melhores de descanso durante o turno e valorização salarial.

Por que você escolheu o serviço público?

Jarbas Vieira de Oliveira O serviço público me oferece uma condição de trabalho com a qual me identifico mais, tanto pela remuneração quanto pela autonomia de trabalho. Não é que o setor privado não permita autonomia, mas entendo que no SUS essa autonomia é mais efetiva que relativa. Eu tenho cotidianamente contato com o meu chefe e o processo de trabalho é mais passível de mudança do que em um setor privado que tem como premissa o lucro. Sou defensor do SUS de qualidade, acessível em todos os níveis e financiado pelo Estado.

Os enfermeiros têm recebidos aplausos e agressões. Como você explica isso?

Jarbas Vieira de Oliveira É uma pergunta interessante. Por que nos aplaudir? Isso me fez parar para pensar que certa parte da população nos valoriza, mas outra parte não, e aplaude apenas pela pandemia.

Profissionais da saúde foram estigmatizados como transmissores do vírus. Conhecidos meus estão sofrendo discriminação nos prédios onde moram. Não se pode mais sair de jaleco de casa sob o risco de sermos hostilizados nas ruas e nos transportes públicos.

Na verdade, o que tem transmitido coronavírus é a falta de isolamento e o negacionismo da doença. Isso sim são os verdadeiros motivos para a transmissão vertical desse vírus. Nós saímos de casa porque prestamos um serviço essencial, não queremos transmitir vírus para ninguém.

Você perdeu algum colega para o coronavírus?

Jarbas Vieira de Oliveira Eu perdi três colegas que já trabalharam comigo: um enfermeiro e dois técnicos de enfermagem. Mesmo não sendo muito próximos, eu me emociono e me indigno todas as vezes que morre um profissional de enfermagem por covid-19. E penso que pode ser que eu seja o próximo. Também tenho duas colegas técnicas de enfermagem e uma médica que trabalham comigo que testaram positivo, mas estão bem. A gente está fazendo orações para que elas não piorem.

O que te move a seguir trabalhando em condições tão adversas?

Jarbas Vieira de Oliveira Quando fiz uma escolha pela enfermagem sabia que conviveria com a saúde e a doença, com a vida e a morte. E isso é pesado.

Eu tenho feito minha terapia, toda semana falo com meu analista para suportar os problemas dessa minha profissão. É uma escolha, mas ao mesmo tempo é muito difícil estar em contato com o sofrimento humano, e eu preciso estar fortalecido para dar conta e ter empatia com o sofrimento do outro.

Eu já pensei em desistir algumas vezes, não pelo processo de exacerbação das dificuldades, mas pela desvalorização da profissão cotidiana que eu sinto na pele. A minha profissão é altamente desvalorizada e trabalhar com sofrimento humano, com pessoas entre a vida e a morte de forma tão desvalorizada é muito desconfortante.

Ao mesmo tempo, cuidar do outro me traz muito prazer. Não o cuidado comum, mas aquele que sou formado tecnicamente para exercer sobre quem necessita dele. E é para lutar pela valorização dos enfermeiros que entrei no Coren-MG. O projeto Suporte Emocional não veio de forma fortuita, ele chega nesse sentido para tentar ouvir mais os profissionais e saber sobre o que cada um valoriza na profissão.

Governos importam?

Jarbas Vieira de Oliveira O governo federal e os governos estaduais importam muito, são eles que têm condições de controlar a pandemia. Neste momento, estamos vendo de maneira bem clara o quão necessário é o sistema de saúde pública. E, mais do que isso, estamos vendo o quão necessário é a intervenção do Estado no controle da saúde da população. Nos Estados Unidos muitos morreram em casa porque não tinham plano de saúde. Basta lembrar que os países onde o Estado conseguiu intervir de maneira mais efetiva e criteriosa tiveram melhores resultados na contenção da pandemia.

Quais seus planos para o pós-pandemia?

Jarbas Vieira de Oliveira Eu tenho tantos planos que eu nem sei por onde começar. Mas o principal deles é reencontrar com a minha esposa, abraçar os meus pais e amigos e entender o que foi essa pandemia.

“Gestão Pública” é uma série do Nexo em parceria com a república.org, um instituto apartidário dedicado a melhorar a gestão de pessoas no serviço público, em todas as esferas de governo. Em quase quatro anos de atividade, já apoiou mais de 100 projetos. Este projeto conta com a consultoria de Daniela Pinheiro e com edição de Marcelo Coppola.

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