Profissão

‘A redução dos investimentos está atrasando a pesquisa de uma forma geral no Brasil’

Foto: L'Oréal/Divulgação

A pesquisadora mineira Rafaela Ferreira usa computadores para encontrar remédios para doenças nas quais a indústria farmacêutica não tem interesse

Desenvolver um novo medicamento custa centenas de milhões — ou bilhões — de dólares e leva mais de uma década. Lógico que as empresas farmacêuticas têm um incentivo fortíssimo para só criar remédios que depois possam ser vendidos a preços altos. Com isso, há doenças sérias que acabam sendo negligenciadas: aquelas que atingem os países pobres, ou as que afetam as classes mais baixas. Males como a doença de Chagas e a doença do sono africana, frequentes em áreas sem saneamento em países tropicais, acabam contando com pouquíssimas opções de tratamento.

Encontrar respostas para esse problema tem sido a missão de vida da farmacêutica Rafaela Ferreira, da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), desde que ela encontrou sua vocação, ainda na adolescência. Num doutorado nos Estados Unidos, ela aprendeu a usar computadores para encontrar atalhos no caro e demorado processo de desenvolvimento de fármacos. Agora, ela usa recursos públicos e do terceiro setor para encontrar fármacos no Brasil.

Nesta entrevista, Rafaela falou sobre a necessidade de instituições públicas de ensino e pesquisa e a dificuldade do momento atual, em que elas estão enfrentando forte crise financeira.

Cientistas do Brasil

Quem: Rafaela Salgado Ferreira, 36 anos

O quê: farmacêutica, busca tratamentos para doenças negligenciadas

Onde: nos computadores e nas bancadas de química da UFMG

Como: com o planejamento racional de fármacos, que poupa tempo e dinheiro usando computadores para diminuir a necessidade de experimentos em laboratório

Esta entrevista é a última da série do NexoCientistas do Brasil que você precisa conhecer, ontem e hoje”. O projeto tem duas frentes: uma traz 12 vídeos com a minibiografia de pesquisadores que marcaram a história. A outra, que se encerra hoje, traz 12 entrevistas em texto na seção “Profissões” — conversas conduzidas pelo jornalista Denis R. Burgierman com cientistas brasileiros em atuação hoje no mundo. São pesquisadores de áreas como ciências da vida, geociências, física, química, ciência da computação e matemática, que vêm tendo o reconhecimento de seus pares e trabalham em linhas de atuação promissoras. O projeto tem o apoio do Instituto Serrapilheira.

A pergunta que abre a entrevista é sempre a mesma:

Qual é sua pergunta na ciência? O que é que você está tentando descobrir?

Rafaela Ferreira Eu quero descobrir novas alternativas de tratamentos para algumas doenças que são negligenciadas: doenças que afetam muitas pessoas, mas que não são tão pesquisadas pelas indústrias farmacêuticas. Trabalho principalmente com doença de Chagas, doença do sono africana, e também com leishmaniose, esquistossomose, infecção por zika. O conjunto de doenças negligenciadas abrange 17 enfermidades, segundo a definição da Organização Mundial da Saúde.

Estamos falando então de doenças que afetam muita gente e contam com muito pouco investimento, correto? Significa então que não deve ser fácil para você bancar essas pesquisas?

Rafaela Ferreira Significa isso sim [diz, sorrindo].

E qual a estratégia para encontrar respostas para essas doenças?

Rafaela Ferreira Trabalhamos com uma estratégia chamada planejamento racional de fármacos. O processo para descobrir um novo fármaco costuma ser muito complicado, muito caro — para descobrir um, é preciso avaliar milhares de substâncias dentro do laboratório. A ideia dessa nova estratégia é utilizar informações conhecidas sobre a estrutura do alvo para fazer uma busca mais racional, com programas computacionais. Muita coisa é feita no computador para filtrar a quantidade de experimentos que temos que fazer no laboratório. Isso reduz tempo e custo.

E há pesquisas promissoras para tratar algumas dessas doenças?

Rafaela Ferreira Nós estamos chegando na descoberta das primeiras moléculas-líder. Funciona assim: primeiro identificamos moléculas que têm algum tipo de atividade nos alvos — essas são as moléculas-líder. Para encontrar um novo fármaco, depois essas moléculas têm que passar por um processo de otimização, para melhorar o efeito delas nos alvos, e só depois disso elas poderão ser testadas.

É claro que é cedo para saber o quanto esses fármacos são promissores, antes de qualquer teste, mas você vê razões para otimismo?

Rafaela Ferreira Bom, tem que ter otimismo [risos]. Nesse estágio não tem como ter certeza, mas precisamos de otimismo para progredir, levar cada molécula o mais longe possível, primeiro na otimização, depois, se tudo certo, buscando parcerias para fazer testes. Em algum ponto precisaremos da indústria farmacêutica ou de instituições como o Drug for Neglected Diseases Initiative, uma organização não-governamental.

E o quanto é relevante pesquisar essas doenças? Qual o tamanho do problema?

Rafaela Ferreira São doenças que atingem milhões de pessoas — no caso da doença de Chagas, 6 a 7 milhões, principalmente na América Latina, muito no Brasil, e pode levar à morte. E a gente não pode pensar só em morte: tem que calcular todos os dias em que o paciente fica debilitado, no quanto a doença vai piorar a qualidade de vida das pessoas, vai tirá-las do trabalho.

E são doenças que atingem principalmente os mais pobres, as comunidades sem saneamento...

Rafaela Ferreira Sim. Mas a doença de Chagas, embora tenda a atingir uma porção mais pobre da sociedade, também hoje em dia está se espalhando por transmissão oral, através de alimentos contaminados, o que aumenta a chance de outros grupos sociais serem infectados. Isso está muito relacionado com o açaí, quando preparado sem as condições adequadas de higiene. O alimento acaba contaminado pelo barbeiro em si ou pelas fezes dele.

E como você acabou trabalhando com isso? Onde começou essa história para você?

Rafaela Ferreira Eu comecei no ensino médio. Fui aluna do Colégio Técnico da UFMG [Coltec], que tem muitas iniciativas de desenvolvimento de projetos — os alunos não ficam só focados nas aulas tradicionais. Lá, tive a oportunidade de fazer fazer um estágio de iniciação científica, no programa de vocação científica. Trabalhei no Centro de Pesquisas René Rachou, que é a unidade da Fundação Oswaldo Cruz aqui em Belo Horizonte.

E sobre o que era esse projeto?

Rafaela Ferreira Era com helmintoses [verminoses] intestinais. Eu trabalhava com o Ascaris lumbricoides, a lombriga.

Quer dizer que você está trabalhando no mesmo campo desde os 15 anos de idade?

Rafaela Ferreira É. Desde essa idade foi sem parar, o tempo inteiro em laboratório de pesquisa. No caso do ascaris, a gente estava pesquisando formas de interromper o ciclo de transmissão da doença. As pessoas se infectam pela ingestão de ovos que estão em um determinado estágio. Aí testávamos substâncias — por exemplo, produtos de limpeza — para saber quais delas eram capazes de interromper o desenvolvimento do ovo, de forma que, mesmo se eles fossem ingeridos, a pessoa não seria contaminada.

E aí você seguiu direto? Foi para a faculdade e já continuou na mesma área?

Rafaela Ferreira Na faculdade de farmácia, na UFMG, trabalhei um pouco com outras áreas. Pesquisei uma planta, uma espécie de mamão, a Carica namarcensis. A gente extraía o látex, purificava, dividia em frações e avaliava a atividade dessas frações. É uma pesquisa que depois evoluiu para a produção de uma pomada com efeito cicatrizante.

E você trabalhou nesse projeto desde o início do curso?

Rafaela Ferreira [Sorri] Na verdade, comecei antes de começarem as aulas. Já tinha conseguido essa oportunidade graças a contatos entre os professores do Coltec com os do Instituto de Ciências Biológicas, então comecei logo. Fiquei nesse projeto por dois anos, depois trabalhei em outro, num intercâmbio que fiz com a Universidade do Texas em Austin, com síntese orgânica, preparando moléculas para um outro alvo, a ricina, uma proteína extremamente tóxica, presente na mamona. Buscamos substâncias para inibir essa toxina. Nesse projeto fiquei um período mais curto, cerca de quatro meses, enquanto estava no intercâmbio, e aí voltei e fui para um outro projeto, relacionado com a doença de Chagas. Terminei a graduação já estudando Chagas, com uma abordagem semelhante à que trabalho hoje, o planejamento racional de inibidores.

Quer dizer que você nunca teve dúvida quanto a sua vocação? Sabia o que queria desde cedo.

Rafaela Ferreira Sim. Desde que comecei a trabalhar com pesquisa, decidi que era isso que eu queria fazer.

E de onde você acha que veio isso? Foi a escola? Teve a ver com a família?

Rafaela Ferreira Veio da minha experiência mesmo, do contato com o laboratório. Sou a primeira cientista da família — a primeira a fazer pós-graduação. Meu pai hoje é aposentado, era bancário. Minha mãe teve formação de pedagoga e atualmente trabalha como agente comunitária de saúde.

E o que você foi fazer quando terminou a graduação?

Rafaela Ferreira Fui fazer o doutorado em seguida…

Doutorado direto?

Rafaela Ferreira Sim, muito pela minha decisão de fazer a pós-graduação no exterior. Nos EUA, nessa área, o mais normal é isso mesmo, fazer o doutorado direto. E é um doutorado um pouco mais longo, de cinco a seis anos.

Você fez o doutorado em San Francisco?

Rafaela Ferreira Sim, na UCSF [Universidade da Califórnia em San Francisco], em química e química biológica. Fui em 2005, com 22 anos. Lá comecei a trabalhar com um dos alvos com que trabalho até hoje, a proteína cruzaína, alvo para a doença de Chagas. A maneira como organizo meu laboratório hoje tem muito a ver com as pesquisas que realizei nessa época.

E por que a cruzaína é um bom alvo?

Rafaela Ferreira A cruzaína é muito importante para a sobrevivência do parasito. Ele tem vários estágios em seu ciclo de vida e a cruzaína assume funções diferentes em cada estágio. Elas está envolvida na alimentação dele, na entrada nas células do hospedeiro, na transformação do parasito para um novo estágio. São diversas funções e, se conseguirmos inibir seu funcionamento, isso levaria à morte dele.

Aí você voltou ao Brasil com 26, 27 anos?

Rafaela Ferreira Voltei… com 27, em 2010. E fui para o Instituto de Física de São Carlos, da USP [Universidade de São Paulo], para o meu pós-doutorado, que foi bem curto, só dez meses, porque abriu um concurso aqui na UFMG, para uma vaga de bioinformática, no departamento de bioquímica e imunologia, e fui aprovada. Em 2011, vim como professora para a UFMG, com 28 anos.

E quanto tempo mais você acha que você precisa para que seu trabalho de pesquisa aí resulte em novos fármacos?

Rafaela Ferreira É muito difícil responder mesmo. Porque depende do estabelecimento de parcerias. Se a gente tivesse os recursos, a mão-de-obra, a infraestrutura necessária, uma indústria farmacêutica leva cerca de 10 a 15 anos no desenvolvimento de um medicamento. Na academia, a gente depende de uma parceria, então é difícil estimar.

E hoje você depende de financiamento público?

Rafaela Ferreira Sim, principalmente. Durante a minha carreira, já recebi financiamento da Capes [Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior], do CNPq [Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico], da Fapemig [Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais] e, mais recentemente, prêmios da L’Oreal e da Unesco [Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura]. A L’Oréal foi o único financiamento privado que recebi. Em 2017, ganhei um prêmio nacional deles para mulheres na ciência, e, em 2018, o International Rising Talents [que concede uma bolsa de 15 mil euros para pesquisadoras]. São recursos de que a gente precisa para a compra de reagentes, para contratar serviços.

E como está o momento atual para você que depende de verbas públicas para fazer pesquisa?

Rafaela Ferreira Está extremamente difícil. Alguns editais não tem nem acontecido. Quando acontecem, são extremamente competitivos. Por exemplo, o edital universal do CNPq era anual até recentemente. Desde 2014, não tem mais sido. A Fapemig também tinha editais anuais que não foram liberados este ano. Está muito difícil conseguir novos financiamentos.

Deve estar difícil também atrair gente para trabalhar no laboratório, né?

Rafaela Ferreira Exato. O número de bolsas tem sido reduzido. Além disso, tem havido uma incerteza quanto ao pagamento dessas bolsas, e isso desmotiva muito o estudante. Como ele vai entrar num programa de doutorado, que tem quatro anos de duração, exige dedicação exclusiva, sem ter certeza de que vai receber bolsa durante o período inteiro? Temos tido notícia de que as agências podem interromper o pagamento, de repente, de um mês para o outro. Felizmente não aconteceu, mas isso gera uma insegurança muito grande e desmotiva a carreira científica.

Então o desenvolvimento de tratamentos para a doença de Chagas provavelmente já foi atrasado pelo que aconteceu nos últimos anos?

Rafaela Ferreira Já. Acho que essa pergunta, para qualquer área que ela for feita, a resposta é sim. A redução dos investimentos está atrasando a pesquisa de uma forma geral no Brasil.

E como você está pensando sobre isso hoje? Vale a pena, para uma cientista com o seu currículo, doutorada nos EUA, ficar no Brasil?

Rafaela Ferreira Existe uma motivação grande para vir para cá. Essa é uma realidade de muitos colegas aqui no meu departamento — muitos colegas escolheram voltar, porque a gente acha que pode contribuir. Eu quero trabalhar na formação de recursos humanos aqui. Mas, certamente, em momentos como este, com os cortes, com as dificuldades para conseguir verbas, muitas pessoas pensam em ir para o exterior. Isso já está acontecendo: tenho visto colegas que haviam decidido estabelecer uma carreira aqui, mas estão aceitando cargos fora do país. Se a gente não tem condição de fazer pesquisa e a pessoa quer contribuir com a ciência, uma saída é deixar o Brasil.

Estamos conversando na volta de sua licença-maternidade. Seu primeiro filho nasceu, não é?

Rafaela Ferreira Sim, meu primeiro, nasceu em março [de 2019].

Como é conciliar a maternidade com a carreira científica?

Rafaela Ferreira É um desafio muito grande, porque são duas demandas muito importantes na minha vida, e há uma preocupação quanto ao impacto na produtividade. Como eu disse, está difícil conseguir financiamento. Na hora em que eu for buscar, vou concorrer com pessoas que não têm filhos, que não tiveram esse período de dedicação, e a maioria das agências não leva isso em conta no momento de selecionar os projetos.

Você estudou e hoje trabalha numa instituição pública brasileira, e também já esteve numa instituição pública americana, a Universidade da Califórnia. Você pode contar um pouquinho sobre as diferenças entre instituições públicas aqui e lá, e também sobre a importância de existirem instituições públicas?

Rafaela Ferreira Quando a gente pensa o que é uma instituição pública no Brasil, a gente associa imediatamente ao ensino gratuito. Isso é verdade aqui e no exterior não necessariamente. Nos Estados Unidos há taxas. No meu caso eu tinha uma bolsa, então o laboratório pagava as taxas, não eu. Eu acho essencial que a gente tenha instituições de qualidade gratuitas para garantirmos uma diversidade maior, um acesso mais democrático...

E para que possam haver pesquisas de temas que não interessam à indústria, como por exemplo as doenças negligenciadas…

Rafaela Ferreira Sim. Uma diferença fundamental quando se compara as instituições públicas e privadas aqui e nos EUA é que lá as universidades privadas fazem muita pesquisa — elas se destacam. No Brasil isso praticamente não acontece. A produtividade científica brasileira, na sua esmagadora maioria, é proveniente de instituições públicas. Se elas não forem fortes e bem financiadas, a gente vai reduzir drasticamente a produtividade científica brasileira.

O que motiva você?

Rafaela Ferreira Acho que o desafio me motiva muito — saber que existe um problema muito importante que pode ser resolvido pela ciência. Também me motiva muito, como professora, contribuir para a formação de recursos humanos. É fantástico ver as pessoas crescendo profissionalmente dentro do laboratório, ou na sala de aula.

O que mudou entre sua expectativa lá atrás, quando você tinha 15 anos, e a realidade que você vive hoje em dia?

Rafaela Ferreira Acho que a grande diferença é que, quando comecei, eu só via o executar da pesquisa. E atualmente eu vejo esse projeto dentro de uma complexidade muito maior, que envolve conseguir financiamentos, manter uma linha de pesquisa com um fluxo constante de estudantes, sempre avançando, apesar da grande rotatividade de pessoas, da incerteza do financiamento, da compatibilização com outras atividades — dar aulas, funções administrativas, bancas. Lá no início era só desenvolver o projeto.

E você continua passando muito tempo na bancada?

Rafaela Ferreira Eu ainda passo um bom tempo com a mão na massa, mas principalmente no computador. Para a bancada eu não tenho ido mais.

Qual é a maior dificuldade da sua profissão e qual é o melhor aspecto dela?

Rafaela Ferreira A maior dificuldade é em relação à infraestrutura — tanto os equipamentos quanto o financiamento do laboratório. Isso é muito diferente do que vivi nos EUA e faz com que seja muito difícil ser competitivo. Trabalhamos numa realidade muito diversa da de pesquisadores que estão nos EUA e na Europa. O ponto mais positivo é a paixão pela ciência — ter um trabalho de que eu gosto muito. É uma carreira que traz novidade o tempo inteiro, preciso me atualizar constantemente. Não tem monotonia.

E você tem algum conselho para as pessoas que querem seguir seu caminho?

Rafaela Ferreira Não desanimar. Aproveitar as oportunidades, porque é uma profissão que tem ficado cada vez mais competitiva. E às vezes a gente não se dá conta de que uma oportunidade — um estágio, um curso — vai abrir portas.

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