Profissão

ʽEstamos redefinindo a história profunda da humanidadeʼ

Foto: Adriano Gambarini/Divulgação

O arqueólogo André Strauss está retraçando os passos dos primeiros habitantes da América do Sul, com base no DNA extraído de ossos que ele tira da terra

Quem sobe as escadas do Instituto de Biociências da USP (Universidade de São Paulo), quando chega ao segundo andar, depara com o sorriso despedaçado de dezenas de caveiras, por trás do vidro de um grande armário. São crânios, que um dia abrigaram os cérebros vivos de hominídeos que andaram pela Terra há milhares – em alguns casos milhões – de anos.

É nesse andar que fica o LAAAE (Laboratório de Arqueologia e Antropologia Ambiental e Evolutiva). E lá está o arqueólogo André Strauss, em pé atrás de uma bancada cheia de pequenos fragmentos de ossos humanos sujos da terra de Minas Gerais, de onde eles foram escavados em julho. Strauss é o responsável pelas escavações na Lapa do Santo, um dos mais famosos sítios arqueológicos do Brasil, situado em Lagoa Santa, a área hoje encostada no aeroporto de Confins, que serve Belo Horizonte. Mais de dez milênios antes de existirem aeroportos, aquela região de cavernas majestosas já era habitada por humanos, inclusive uma mulher de estatura baixa, que o professor de Strauss, o bioantropólogo Walter Neves, apelidou para a posteridade de Luzia – a primeira brasileira conhecida.

Aos 34 anos, Strauss, que em 2020 muda de casa na USP, para o Museu de Arqueologia e Etnologia, onde está construindo seu novo laboratório, é um dos herdeiros científicos de Neves, recém-aposentado da universidade. Em 2018, seu nome apareceu como coautor de dois papers importantes, publicados em duas das principais revistas científicas do mundo, a Science e a Cell. Em ambos, Strauss e seus colaboradores ao redor do mundo usam uma ferramenta nova – DNA extraído de ossos com milhares de anos de idade – para entender como se deu o povoamento da América do Sul.

Cientistas do Brasil

Quem: André Strauss, 34 anos

O quê: bioarqueólogo, especializado em esqueletos humanos antigos

Onde: no sítio arqueológico da Lapa do Santo, MG, no Instituto de Biociências da USP e no Museu de Arqueologia e Etnologia, onde é professor

Como: escavando em campo por um mês todos os anos, e depois passando muitos meses estudando os ossos encontrados

Esta entrevista é a décima-primeira da série do NexoCientistas do Brasil que você precisa conhecer, ontem e hoje”. O projeto tem duas frentes: uma traz 12 vídeos com a minibiografia de pesquisadores que marcaram a história. A outra traz 12 entrevistas em texto na seção “Profissões” – conversas conduzidas pelo jornalista Denis R. Burgierman com cientistas brasileiros em atuação hoje no mundo. São pesquisadores de áreas como ciências da vida, geociências, física, química, ciência da computação e matemática, que vêm tendo o reconhecimento de seus pares e trabalham em linhas de atuação promissoras. O projeto tem o apoio do Instituto Serrapilheira.

A pergunta que abre a entrevista é sempre a mesma:

O que você está querendo descobrir na sua carreira?

André Strauss Eu quero entender a história populacional dos nativos americanos. História populacional é o conjunto de eventos de divergência, mistura, migrações – quero saber de onde vieram, quando, quem eram, de que forma essas pessoas chegaram e se dispersaram pelo continente.

E como foi participar de uma contribuição importante sobre esse tema com dois papers que ajudaram a recontar essa história?

André strauss Não digo recontar, mas eles trazem uma linha independente e até então indisponível de evidências, que são os dados genéticos. No Brasil, as hipóteses anteriores eram muito baseadas em análises morfológicas, mais que tudo medições dos crânios, que é o que eu estudei durante todo o início da minha carreira, na escola do Walter Neves, com quem tive a sorte de trabalhar. Num determinado momento caiu minha ficha de que minha ferramenta de estudo, a medição de crânios, iria rapidamente se tornar obsoleta.

Você media ossos, mas sua formação era em ciências sociais na PUC-SP, certo?

André strauss Fiz os dois primeiros anos de ciências sociais aqui na USP, com professores que me influenciaram muito, como a Lilia Schwarcz [historiadora de relações raciais e colunista do Nexo], o Flávio Pierucci [1945-2012, sociólogo da religião]. Mas, no terceiro ano, comecei a geologia na USP e, como não pode fazer dois cursos da USP ao mesmo tempo, transferi para a PUC. Eu nunca tinha pensado em ser arqueólogo. Mas, no primeiro semestre de geologia, em 2004, apareceu a chance meio por acaso de vir estagiar no laboratório do Walter, aqui na biologia. Eu trabalhava lavando ossinhos, fiz todas as tarefas ingratas. E me encantei com o tema da evolução humana. A paleoantropologia [estudo dos homens antigos] conectou tudo na minha vida: ciências sociais, geologia, evolução. Foi minha primeira grande paixão – a arqueologia veio depois, como consequência. Meu mestrado foi em arqueologia.

E o que você estudou no mestrado?

andré strauss Arqueologia das práticas funerárias. Desde que entrei aqui, minha paixão eram os esqueletos. Como o Walter, me especializei em ossos humanos, virei um bioarqueólogo. Mas, dentro da bioarqueologia, a área mais simbólica, mais antropológica, cultural, é o estudo das práticas funerárias. Meu mestrado focou em Lagoa Santa sob essa ótica. Até então, só se falava de morfologia craniana e de coexistência com megafauna [grandes herbívoros que existiram no Brasil, como preguiças de até seis metros de altura, tatus de mais de uma tonelada e mastodontes]. O Walter inclusive não queria que eu estudasse isso: queria que eu focasse nos crânios. Mas minha decisão foi um pouco pragmática. Olhei para cima: já tinha vários arqueólogos brilhantes trabalhando fazia tempo com morfologia craniana. Pensei: “vou achar meu nicho”. Até o fim o Walter dizia que o que eu estava fazendo não era ciência. Só quando terminei ele elogiou.

E hoje você é o arqueólogo responsável pelas escavações na Lapa do Santo?

andré strauss Sim, desde 2011 eu coordeno. Quando assumi, as escavações que existiam continuaram, mas resolvi abrir uma nova área de escavação, até para que houvesse uma coisa minha. O buraco é outro, começamos do zero. Dei muita sorte de conseguir assumir um sítio tão cedo na carreira, graças ao [Instituto] Max Planck.

Você já estava então no doutorado na Alemanha, no Instituto Max Planck [em Leipzig]?

andré strauss Sim. Fui em 2010. Eu terminei o mestrado, mas paralelamente continuava a estudar morfologia. O doutorado deu continuidade a isso, fui estudar o crescimento do crânio dos australopitecos [gênero humano extinto há cerca de 2 milhões de anos]. Eu tinha ido ao Quênia escavar em 2009 – meu sonho era participar de uma missão paleoantropológica na África [onde viveram os primeiros hominídeos, milhões de anos antes do homem chegar à América]. Mas, quando cheguei, estavam renovando o projeto, e não iria ter campo na África. Eu podia me encaixar em alguma outra escavação, como mão de obra. Mas tinha a possibilidade de escavar um sítio na América do Sul, que não é de hominídeos tão antigos, mas é “meu”. Aí bati, na cara de pau, na porta do diretor e disse “tenho um projeto maravilhoso, num sítio fantástico”. Ele conhecia Lagoa Santa, adorou a ideia. Lembro que ele falou “de quanto você precisa?”, e eu: “15 mil euros”. “Não, dou 12”. Tá ótimo. Montamos a equipe correndo, eu não sabia nem como pedir as autorizações. E isso viria a se transformar no meu segundo doutorado, pela Universidade de Tübigen, que na verdade foi o único que defendi, porque o outro não terminei, por questões burocráticas. Tübigen tem tradição em arqueologia, eles escavaram Tróia, têm as primeiras flautas, estudam a emergência do comportamento simbólico. Acho que eles acharam legal, exótico até, ter um brasileiro trabalhando com Lagoa Santa.

E foi lá que você aprendeu genética?

André Strauss Eu não sou um geneticista, eu não faço a extração do DNA. Mas, quando eu estava no Max Planck, a gente convivia com o departamento de paleogenética, vizinho ao nosso, o famoso departamento do Svante Pääbo [geneticista sueco pioneiro do campo]. E eu tinha amigos lá. Foi aí que caiu a ficha de que, na tarefa de fazer inferências sobre ancestralidade, o DNA antigo era o futuro. Quando comecei a escavar em Lagoa Santa, meu plano era que meu projeto servisse de base para institucionalizar esse novo campo, a paleogenética, no Brasil, na USP. As amostras teriam que ser processadas por alunos brasileiros, os alemães teriam que passar o know how para a gente, apoiar a construção do laboratório. Arqueogenética não é só coisa de geneticista - tem o arqueo e a genética. Não é justo que o protagonista seja apenas o geneticista. Na origem dessas pesquisas todas tem sempre o trabalho do arqueólogo, que faz as escavações. Por exemplo, esses papers de 2018 são baseados em escavações que começaram em 2012, o geneticista só entra no final, para analisar as amostras. Quando voltei ao Brasil, em 2015, saí batendo em portas, procurando por um geneticista para se integrar ao nosso laboratório. E acabei encontrando a Tábita [Hünemeier], que veio trabalhar junto. Estamos agora construindo um laboratório no Museu de Arqueologia e Etnologia, que vai custar R$ 1 milhão. Fica pronto ano que vem.

Você lembra como foi o impacto de quando você chegou à Lapa do Santo para escavar pela primeira vez, em 2005?

André Strauss A Lapa do Santo é uma caverna majestosa. A primeira coisa que te encanta é a caverna, as formações calcárias, os espeleotemas. E depois você repara que tem um buraco lá, uma espécie de uma piscina. Num primeiro olhar, não tem basicamente nada dentro, mas, quando começam a surgir os esqueletos humanos, eles têm um apelo simbólico, visceral gigantesco. Na primeira escavação, em 2005, passei as quatro semanas dentro de uma trincheira, que é a parte menos nobre de um sítio. Imagine um buraco, de seis, sete metros de comprimento, uns dois de profundidade, e meio de largura. É basicamente uma cova: você fica olhando para cima e cavando. Eu era estagiário, tinha acabado de começar, fiquei um mês lá dentro. Lembro que eu tinha que olhar para cima para ver os arqueólogos sênior lá longe, discutindo as interpretações do sítio. Mas, quando eu saía para almoçar, ou para tomar uma água, de repente tinha um esqueleto sendo estudado, e isso me impressionou. Foi aí que decidi que eu queria fazer isso da minha vida.

Essa parte do trabalho é o centro de tudo, né? É também o que você passa menos tempo fazendo…

André Strauss É. Passamos cinco semanas em campo. Aí o material vem para o laboratório e precisamos curar, que é uma das nossas principais atividades. Curar é pegar esse esqueleto sujo de terra, limpar, remontar, fazer a identificação anatômica, entender quantos indivíduos tem, quantos homens, quantas mulheres, idade. E depois ir fazer os estudos: as análises morfológicas, paleopatológicas, a tentativa de tirar o DNA.

E o DNA é então sequenciado?

André Strauss É. Tivemos algumas fases diferentes nesse ponto. Entre 2012 e 2017, mandávamos amostras para o laboratório alemão processar. Aí, em 2017, um aluno brilhante aqui do departamento, o Tiago Ferraz, foi para o Max Planck, para ser treinado. Ele é quem faz as análises agora. E deve voltar em abril de 2020, quando inauguramos o laboratório no Museu de Arqueologia e Etnologia. Vamos ter um clean lab, que é esse aquário onde você só entra fantasiado de astronauta, onde se faz desde a extração do DNA até a preparação da amostra para o sequenciamento.

Desde quando o sequenciamento de DNA antigo virou uma ferramenta da arqueologia e da paleontologia?

André Strauss É recente. Até 2000 e pouco, as tecnologias disponíveis de sequenciamento não funcionavam para DNA antigo. DNA antigo é como se fosse podre, todo fragmentado – depois que morremos, nossos mecanismos moleculares de reparação param de funcionar, e ele vai se degradando. Por isso, as moléculas de DNA antigo são curtas demais para serem sequenciadas pelo método tradicional. Mas aí foram surgindo novos equipamentos, chamados de NGS – Next Generation Sequencing –, que têm uma abordagem massiva e paralela. Em vez de pegar uma molécula e ler do começo a fim, ele lê milhões de fragmentos, e estatisticamente monta um genoma inteiro. Essa tecnologia funciona com moléculas pequenas. Funcionou primeiro com amostras de lugares mais frios, que se preservam melhor, mas, de 2015 para cá, tornou-se possível extrair DNA com alguma facilidade no mundo todo.

E, usando essa ferramenta, você chegou a uma conclusão importante sobre a sua pergunta na ciência, aquela que você falou no começo da entrevista. Basicamente, vocês concluíram que uma única migração vinda da Ásia, pelo estreito de Bering, há cerca de 20 mil anos, é capaz de explicar todo o povoamento das Américas. Certo?

André Strauss Sim. É isso aí. Teve uma única migração que veio da Ásia para a América do Norte, isso já está consolidado. Mas uma história mais complexa aparece quando a gente dá o zoom para a América do Sul – e é preciso tomar cuidado com esse zoom, porque ainda são poucas amostras, num continente gigantesco.

Cinquenta ossadas, né? Amanhã vai ter centenas.

André Strauss E o resultado pode mudar. Mas parece bastante sólido que de fato existem dois estratos populacionais na América do Sul. Um existiu desde pelo menos 10,2 mil até 9 mil anos atrás. Encontramos em todos os esqueletos desse período o mesmo sinal genético. Nas populações de 9 mil anos até as de hoje, esse sinal inexiste. Se amanhã acharem um esqueleto de 8 mil anos com o sinal, mudam essas datas. Lagoa Santa faz parte dessa população mais antiga. Hoje o consenso é que o povoamento da América do Sul começou cerca de 15 mil anos atrás. Não tenho como ter certeza se as populações entre 15 e 10,2 mil anos atrás têm uma outra assinatura genética, porque inexistem na América do Sul esqueletos com mais de 10,5 mil anos. Então hoje não temos como saber se essa população, que esteve em Lagoa Santa, é a que chegou primeiro na América do Sul, aquela que esteve em Monte Verde [no Chile, onde foram encontrados indícios de vida humana de mais de 12 mil anos atrás, incluindo ossos de animais assados e a pegada de uma criança, mas nunca nenhum esqueleto].

Deve ser um momento bem interessante na sua área.

ANDRÉ STRAUSS Com certeza, a gente vive hoje um momento maravilhoso. Estamos redefinindo a história profunda da humanidade. A cada mês sai um artigo na Nature: tem muita gente descobrindo muito sobre o povoamento de todos os continentes. E às vezes esse conhecimento vem de um fragmento do tamanho de uma moeda. A gente tem ossadas aqui da Lapa do Santo tão fragmentadas que parecem sucrilhos, antes não tirávamos informação nenhuma delas. Agora a gente pega o DNA e descobre um monte de coisas sobre o sujeito. A América do Sul é um pouco o último dos moicanos das análises genéticas, é onde falta fazer. Todos os grandes grupos científicos que fazem essas análises estão trabalhando aqui agora. Não tenho dúvidas de que os próximos três, quatro anos serão uma época de muitas descobertas aqui no Brasil.

O que mudou entre sua expectativa quando resolveu ser arqueólogo e a realidade?

André Strauss Eu já fazia arqueologia antes de ser arqueólogo, ainda como estudante de graduação. Então, quando virei arqueólogo, eu já sabia como a banda toca. Tinha aprendido como estagiário, quando eu limpava osso, escavava, peneirava, triava, descrevia. Fui virando um arqueólogo na práxis. Mas só fui me assumir como arqueólogo muito tempo depois. Mesmo quando fazia mestrado em arqueologia, me identificava muito mais como antropólogo físico. Só depois, em 2011, quando assumi as escavações na Lapa do Santo, adotei essa identidade.

Qual a maior dificuldade e o melhor aspecto de ser arqueólogo?

André Strauss O melhor aspecto é que me coloca na linha de frente da produção de um conhecimento que sempre me fascinou. Para mim é um privilégio poder estar lá escavando, entrar nos bastidores dos museus. A dificuldade é ver o quanto ainda falta para a gente, na arqueologia brasileira, chegar no nível de profissionalismo que considero ideal. E, neste mundo que a gente está vivendo, só vai piorar. As pessoas estão deixando de receber bolsas. Nunca vivemos uma incerteza dessas na história.

E uma coisa que está acontecendo é a disseminação dessa ideia de que ciência tem que gerar valor imediatamente.

ANDRÉ STRAUSS É um absurdo, e é injusto. O que a gente está vivendo hoje é uma afronta não só às humanidades, mas a algo muito maior: ao Estado democrático, à civilização ocidental, ao iluminismo, à razão, à diversidade. Acho que isso é só o começo. E que o problema não é só o governo: eles encontram ressonância na sociedade quando dizem que o cientista não tem serventia. Está muito difícil para a gente. Botei imagens da nossa escavação este ano nas redes sociais, apareceram comentários do tipo “nossa, que perda de tempo”.

Não deve ser fácil para alguém que estuda “história indígena de longa duração”, como você define, conviver com o descaso com os indígenas de hoje…

André Strauss Pois é. E hoje a arqueologia deixou de ser só a ciência que estuda o passado. Ela tornou-se uma disciplina militante, com o poder de valorizar e empoderar as identidades indígenas, dando significado para a cultura material, criando discursos e narrativas onde antes havia o silêncio. Não é à toa que a arqueologia está na mira deste governo.

Algum conselho para quem quer seguir esse caminho?

André Strauss Bom, hoje acho que o conselho é para pensar bem se você quer mesmo ser cientista, porque não está fácil, tem gente trabalhando sem bolsa, não tem mais vaga para professor. Mas, se a pessoa quer mesmo, que venha. A disciplina precisa de gente. E é fascinante, maravilhosa.

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