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Profissão

Como me tornei atriz. E a vida entre palcos, sets e aulas

‘Cultura é a memória de um país. E eu não abandono isso nunca, porque eu acredito na potência que é a arte’

Nani de Oliveira começou a vida profissional na pedagogia, dando aulas para crianças em Ribeirão Preto, interior de São Paulo. Chegou a implementar o teatro amador como ferramenta pedagógica em sala de aula – até que escolheu se profissionalizar como atriz.

Para isso, na década de 1990, mudou-se para São Paulo e ingressou no Célia Helena Centro de Artes e Educação. Há nove anos, é coordenadora do curso técnico profissionalizante da mesma escola, que hoje oferece cursos para crianças e adolescentes, além de graduação, pós-graduação e mestrado. Nani também dá aulas para jovens, adultos e idosos, principalmente em técnicas de construção de personagens.

A atriz foi uma das fundadoras do grupo de teatro Folias, responsável por uma sala de espetáculos, ensaios e encontros em Santa Cecília, centro de São Paulo. Nani também já atuou em filmes, curtas-metragens e séries televisivas. Entre seus trabalhos mais conhecidos, estão a série “Carcereiros”, de 2017, inspirada na obra de Drauzio Varella, o filme “O Escaravelho do Diabo”, de 2016, e a série “Carandiru, outras histórias”, de 2005.

Nesta entrevista, Nani conta sobre sua trajetória como atriz em diferentes facetas: na escola, no teatro, no cinema e na televisão. E também dá dicas para quem quer seguir essa carreira.

Como você chegou a essa carreira? O que te motiva? Por que você a escolheu?

NANI DE OLIVEIRA Eu assisti a um espetáculo para crianças em Ribeirão Preto. Eu trabalhava com crianças, levei os alunos para assistir [ao espetáculo] e me encantei com a possibilidade de fazer de conta. Acho que [a profissão] tem muito disso. É um fazer de conta, um brincar eternamente. Acho que foi isso que me chamou a atenção muito fortemente: a diversão. Depois, com a formação profissional, esse olhar foi mudando. E aí também foi sobre acreditar que é uma profissão que, por meio da capacidade de sonhar, te dá a possibilidade de levar uma pessoa a refletir sobre a vida, sobre o mundo. Essa profissão fez com que eu tivesse um olhar crítico em relação a tudo, um olhar pensante em relação a não só a minha vida, mas ao lugar em que eu vivo. É do micro ao macro: [um olhar crítico em relação] à cidade, ao país, ao mundo, a tudo. A capacidade de ter um olhar crítico e se posicionar, se entender dentro de um contexto, entender um contexto. Isso me instigou como atriz: uma vontade de pensar, uma vontade de investigar. A arte como uma função social. A arte como um caminho para refletir de fato sobre a vida, a política, o outro. Principalmente sobre o outro. Tudo fica muito voltado a nós mesmos, ainda mais na época em que estamos escolhendo uma profissão. Já a arte supre não só seu desejo muito particular e íntimo, como também o seu desejo de interferir coletivamente. A arte tem esse poder e essa função também.

Como sua formação está presente no trabalho que você faz hoje?

NANI DE OLIVEIRA Eu falo de teatro o dia inteiro. E eu continuo aprendendo muito também. O fato de ser coordenadora não me dá nenhum lugar que não seja sempre de muita troca, porque a cena é sempre muito reveladora. Assistir às cenas dos alunos, ver o processo dos alunos... isso faz com que ao mesmo tempo eu também vá me alimentando tecnicamente, eticamente, dentro do que eu acredito, dentro do que o Célia Helena acredita como função do ator – que é provocar o pensamento o tempo todo, é o exercício do pensamento. O aluno chega na escola num lugar muito genuíno, num lugar que não tem vícios, o vício da cena. Do ponto de vista do trabalho deles, há uma simplicidade que para mim é uma escola depois de 30 anos de carreira. O adolescente chega com 14 anos e vai fazer uma cena, e você olha e fala: “nossa, como ele está verdadeiro, como ele está inteiro”. E isso me alimenta, isso faz com que eu aprenda, com que eu resgate também um jeito de trabalhar como atriz.

O que mudou entre a sua expectativa e a realidade?

NANI DE OLIVEIRA [A realidade] é acima de qualquer expectativa. Eu também me transformei humanamente com essa escolha. Por mais que eu achasse que poderia acontecer alguma coisa interessante, do ponto de vista profissional, eu acho que não foi só isso – aconteceu todos os dias. Eu sou uma pessoa que busco todos os dias me transformar por meio da arte. E isso para mim foi e ainda é uma experiência que eu não esperava. Quando a gente entra numa profissão, pensa em como vai se formar naquilo, desenvolver-se tecnicamente, exercer sua função, seu trabalho. Só que a arte te provoca todos os dias sob várias perspectivas – pessoal, humana, o olhar sobre o outro. É acima de qualquer expectativa. Eu falei: vou me formar como atriz. Eu me formei como atriz, eu me formo todos os dias como ser humano, como um ser que compõe vários coletivos, como a minha família, o meu trabalho, o projeto que eu faço, a série que eu faço.

Qual a maior dificuldade da profissão que você escolheu? E o melhor aspecto?

NANI DE OLIVEIRA A maior dificuldade acho que é ter sempre que remar contra uma sociedade que não entende a importância da cultura neste país. Esse é um lugar que é duro. Todos os dias você tem que fazer escolhas, e essas escolhas têm muita responsabilidade. Não é uma escolha aleatória e babaca. É uma escolha séria. E fazer essa escolha dentro de um contexto que apresenta a cultura sem a menor importância é muito duro. Ao mesmo tempo, guerra é para guerreiros. Cultura é a memória de um país. E eu não abandono isso nunca, porque eu acredito na potência que é a arte. O que não é legal hoje é ver que de fato a gente está num contexto que tira um pouco o chão às vezes.

O melhor aspecto é que eu não saberia fazer outra coisa da minha vida. Isso é muito forte. Eu não me vejo fazendo outra coisa. Eu acho que o  teatro escolhe a gente, a arte escolhe – não somos nós que escolhemos a arte. O mais bonito disso é que ela me supre em todos os sentidos. Eu gosto de pensar, eu gosto de olhar o mundo, de pensar humanamente sobre todas as coisas, ser escolhida como um ser que trabalha com arte é o que pode haver de mais genuíno, mais potente.

O que você diria para alguém que está pensando em trabalhar como atriz?

NANI DE OLIVEIRA Eu diria: estude muito. Independentemente de hoje eu ser coordenadora no Célia Helena, sou atriz formada por essa escola. Sem demagogia de nenhuma ordem, eu sei também de formação e eu sei o que isso me proporcionou como trajetória de vida, como trajetória de carreira.

[Sobre as possibilidades de formação,] o curso técnico forma o indivíduo como ator. A graduação é um curso superior, e esse fato abre uma possibilidade de trabalhar na área acadêmica – ou seja, você não se forma somente como ator. Há frentes de pesquisa, pós-graduação, especializações. Hoje em dia, viver de teatro neste país é muito difícil. Ter uma graduação, não só o DRT [registro de capacitação profissional obtido por atores], que é o que o curso técnico dá, é uma segurança também, do ponto de vista de sobrevivência. Se é isso que se quer fazer da vida, fazer a graduação também dá a possibilidade de caminhar com uma carreira paralela, dentro da arte, dentro do teatro, que é na pesquisa, na academia.

Escolha um lugar [para se formar] que te faça pensar, que provoque o pensamento, provoque o olhar sobre o mundo, coloque o teatro como ética. Um lugar que te alimente a capacidade de sonhar, de transformar, de interferir. Ser ator é uma vida muito dura. É um fazer de conta, mas ao mesmo tempo é uma responsabilidade absurda – a contradição também está presente nisso. É você saber que dependendo de como isso for feito, é absolutamente impotente.

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