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Profissão

Como me tornei psicanalista. E a vida entre pacientes

‘Cada vez que abro a porta do meu consultório, é um mundo novo que entra’

Alessandra Sapoznik formou-se em psicologia em 1996 pela PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo) e, em 2001, especializou-se em psicanálise pelo Instituto Sedes Sapientiae.

No mestrado, pela Universidade Complutense de Madrid, analisou o diálogo entre a experiência analítica e a de um viajante. No doutorado, pesquisa o tema “Cartografia da Errância”, sobre deslocamentos, a partir de quatro figuras: o judeu, o viajante, a cidade e o refugiado.

Sapoznik vive entre São Paulo e Madri, na Espanha. Tem consultórios em ambas as cidades. O seu trabalho não se resume à análise entre quatro paredes. Ela é membro do coletivo Escutando a Cidade, formado por psicanalistas e uma antropóloga, que faz percursos por São Paulo e intervenções em diferentes espaços, como ocupações.

Em Madri, fundou o projeto La Azotea: Psicoanálisis y Comunidad. “Azotea” faz referência ao último andar dos prédios, onde se tem uma ampla vista da cidade. O projeto utiliza a psicanálise como ferramenta de intervenção também em espaços comunitários, para trabalhar momentos de transição.

Nesta entrevista, Sapoznik conta por que escolheu a psicanálise, fala sobre o que considera importante para a formação de um analista e dá dicas para quem considera seguir essa carreira.

Como você chegou a essa carreira? O que te motiva? Por que você a escolheu?

Quando eu ainda era adolescente, sabia que tinha uma sensibilidade e um mundo interno muito próprio, mas não sabia exatamente para que servia isso. Houve uma época em que pensei que seria artista. Mas quando entrei na faculdade de psicologia, descobri que havia um campo do saber que se ocupava de explicar o que se passava nesse mundo interno e que dizia que somos governados por uma parte de nós mesmos que nos é estrangeira e enigmática, que Freud chamou de Inconsciente. A partir daí entendi que a minha sensibilidade poderia ser útil para ajudar as pessoas a lidarem com coisas que não vão bem em suas vidas, que parecem desencaixadas. [Ajudar as pessoas] a assumir seu desejo, ainda que isso possa dar medo ou implique em um risco. O que me motiva? Saber que cada vez que abro a porta do meu consultório, é um mundo novo que entra. A cada sessão os analisandos vêm compartilhar algo íntimo e particular que gera incômodo ou sofrimento, e cabe a mim acompanhá-los nesse processo de descobrir de que é feito esse incômodo e o que se pode fazer com ele.

 

Como sua formação está presente no trabalho que você faz hoje?

O saber psicanalítico é um saber sobre o inconsciente, ou seja, é um saber sobre aquilo que não sabemos a priori, que não está acessível à nossa consciência e que, portanto, não se adquire apenas fazendo um curso de formação. A análise do analista é muito importante. Se o analista não tem a experiência de ser escutado por outro analista, certamente não vai conseguir escutar seu paciente. Então a formação do psicanalista está apoiada em um tripé: formação teórico-clínica, análise do analista e supervisão clínica. Para o psicanalista, a teoria sem a clínica não existe. A psicanálise não é uma teoria em si mesma, ela não pode prescindir do campo da experiência, ou seja, do trabalho clínico. A formação de um psicanalista é permanente, não termina nunca e está presente sempre que escutamos um paciente, uma família ou que fazemos intervenções clínicas em espaços fora do consultório. Estamos sempre com um tipo de atenção que chamamos de flutuante, que nos permite escutar as variações no discurso, as repetições.

 

O que mudou entre a sua expectativa e a realidade?

Acho que a realidade vai ficando cada vez melhor com o passar dos anos. Ser psicanalista é um ofício que se beneficia do tempo. Quanto mais velho o analista fica, quanto mais ele vive, mais tempo de análise ele tem, mais ele se conhece. Quanto mais “tempo de estrada” se tem, mais afinada fica a escuta, mais segura(o) e livre você se sente nas suas intervenções. Desfruta-se muito mais de ser analista com o passar dos anos.

 

Qual a maior dificuldade da profissão que você escolheu? E o melhor aspecto?

A maior dificuldade é o começo de carreira, o estabelecer-se. Porque você é jovem, provavelmente se analisou pouco, tem pouca experiência clínica, conta com poucos recursos financeiros, porém é a época em que mais se tem que investir no tripé da formação que comentei antes.

Uma das coisas mais preciosas desse ofício (chamo de ofício porque tem algo de artesanal nele, algo que se vai tecendo lentamente) é poder acompanhar as pessoas em seus processos: de autonomia, separação, construção de novos projetos, mudanças de vida. Parece-me um privilégio.

 

O que você diria para alguém que está pensando em trabalhar como psicanalista?

Diria que a formação de um analista também se dá nas “bordas”, ou seja, não apenas no percurso teórico-clínico. Um analista precisa saber o que está passando ao seu redor, precisa frequentar o máximo de atividades culturais possível, conhecer o que se passa em seu país em nível político e social e desenvolver um pensamento crítico. A psicanálise e a alienação são antagônicas.

Penso que para quem está começando é muito importante ter uma experiência institucional em saúde mental ou em projetos que se dedicam a intervenções no campo social.

 

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