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Profissão

‘Quem sabe não aparece ainda uma oportunidade de ir a Marte?’

Foto: Cristiane Delfina /Comunicação CNPEM

Entre expedições aos lugares mais inóspitos da Terra e pesquisas no laboratório mais avançado do Brasil, o astrobiólogo Douglas Galante sonha em ir para o espaço

Num dia, ele escala os Andes, ou a parede gelada de um vulcão na Antártica. No outro, pilota um dos times que estão dando os últimos retoques no projeto do Sirius, o fantástico laboratório onde elétrons darão intermináveis rolês a bilhões de quilômetros por hora, disparando fótons para todos os lados, iluminando pesquisas para inventar materiais novos, desvendar as intimidades de cada organela de cada célula, decifrar rochas e fósseis e, quem sabe, encontrar vida fora da Terra.

Douglas Galante é um astrobiólogo – alguém dedicado a entender e procurar vida no Universo. Às vezes, ele vai coletar bactérias em lugares inóspitos como os vulcões submarinos, os desertos de sal ou regiões ensopadas de metais pesados. Aí leva essas bactérias resistentes para o laboratório UVX, um imenso tubo circular onde elétrons são acelerados à toda velocidade, para gerar uma imensidão de luz, que permite enxergar as coisas com a resolução de milhões de microscópios.

Mas, se o UVX é imenso – do tamanho de um prédio –, precisamos de um adjetivo melhor para qualificar o Sirius, que está sendo construído no Laboratório Nacional de Luz Síncrotron, em Campinas, onde Galante trabalha. Mastodôntico, talvez. Em 2020, o Sirius será inaugurado, tornando-se o melhor laboratório do tipo do mundo. É ele que Galante passará a usar para fazer o papel de Sol, bombardeando suas bactérias viajantes como se elas estivessem em Marte.

Cientistas do Brasil

Quem: Douglas Galante, 37 anosO quê: astrobiólogo, pesquisa a vida no UniversoOnde: no Laboratório Nacional de Luz Síncrotron, em Campinas, onde ele aperta parafusos no Sirius, laboratório a ser inaugurado em 2020Como: fazendo expedições a ambientes extremos para coletar bactérias capazes de sobreviver no espaço e bombardeando-as com fótons supervelozes num acelerador de partículas

Galante é um fã de Star Trek que sonhou em ser astronauta. Quem ouve suas histórias e vê seu laboratório, percebe que seu sonho de infância não ficou assim tão longe de ser realizado. “E quem sabe não aparece ainda uma oportunidade de ir a Marte?”, sonha.

Ele é o segundo entrevistado da nova série do NexoCientistas do Brasil que você precisa conhecer, ontem e hoje”.  O projeto tem duas frentes: uma delas traz 12 vídeos com a minibiografia de pesquisadores que marcaram a história.  A outra frente traz 12 entrevistas em texto na seção “Profissões” – são conversas conduzidas pelo jornalista e colunista do Nexo, Denis Burgierman, com cientistas brasileiros em atuação hoje no mundo. São pesquisadores de áreas como ciências da vida, geociências, física, química, ciência da computação e matemática, que vêm tendo o reconhecimento de seus pares e trabalham em linhas de atuação promissoras. O projeto tem o apoio do Instituto Serrapilheira.

Como sempre, a primeira pergunta é:

O que você está tentando descobrir?

Douglas Galante  Minha grande pergunta é: existe vida fora da Terra?

E aí? Existe?

Douglas Galante Não sei. Até hoje não foi detectada nenhuma evidência concreta indiscutível. O que a gente sabe é que esse evento, a origem da vida, não precisa de nada muito excepcional. Se tiver as condições adequadas – a situação física, os ingredientes químicos, o timing certo para que as moléculas se organizem –, a vida surge. Com a descoberta de tantos exoplanetas e as informações que temos coletado sobre as condições de habitabilidade neles, parece perfeitamente possível – na minha opinião, muito provável – que tenha acontecido em outros lugares.

E você acredita que vai saber a resposta logo?

Douglas Galante Eu tenho esperança de que a gente vai encontrar sinais de vida em Marte nos próximos anos. Está acontecendo um boom da exploração espacial, com vários novos atores entrando, além dos americanos e dos russos: a China, a Índia, o Japão, Israel, Arábia Saudita. Vamos chegar a Marte com sondas cada vez mais avançadas, e espero ver o homem, ou, melhor ainda, uma mulher, pisar lá nas próximas décadas. Quando isso acontecer, acho que temos boas possibilidades de encontrar sinais de vida antiga, na forma de fósseis. Muito do que faço hoje é estudar o registro fóssil e geológico da Terra para embasar as missões de busca de vida em Marte.

De onde vem esse interesse?

Douglas Galante Eu morava numa vila de subúrbio na Mooca [zona leste da cidade de São Paulo], mas, desde pequeno, meus pais gostavam de colocar a família inteira numa Brasília, puxando uma carreta-baú e partir para longas viagens e explorações. Lembro muito das montanhas na Patagônia, o céu estrelado. Isso me tornou muito curioso do mundo. Desde criança, eu dizia que queria ser astronauta. Quando eu tinha uns 10 anos, participei do Space Camp, o acampamento da Nasa, no Alabama [sul dos Estados Unidos]. Conversei com astronautas de verdade e fui entendendo como se faz. Eu queria era pilotar o foguete, né? Mas descobri lá que não podia, porque você precisa ser americano nato para ser piloto de missão. Então sobrou a outra opção, que é ser especialista de missão: o tripulante responsável por fazer os experimentos a bordo. Entendi que o caminho para ir para o espaço era seguir a ciência.

 

Então ser cientista foi seu plano b?

Douglas Galante É, eu queria viajar entre as estrelas. Mas aí, trilhando o caminho, fui me encantando. Fui influenciado no colégio por um professor de Física excepcional, que me dava a oportunidade de fazer as perguntas mais esdrúxulas. Comecei a ajudá-lo, era monitor dele na faculdade onde ele ensinava. Foi assim que decidi prestar física no vestibular e fui estudar na USP.

Você se formou em física?

Douglas Galante Não. Tinha uma grande amiga na física e ela tinha esse plano de entrar no curso de ciências moleculares, que eu nem sabia o que era. É um curso interdisciplinar, aberto só para quem já entrou em algum outro curso, para formar cientistas, já bem encaminhados para o doutorado. Ela estava meio receosa de fazer a prova sozinha e me chamou para ir junto. Fiz, passei, pensei “por que não?”. Se não gostasse, a USP permitia que eu voltasse para a física. É um curso integral de turmas pequenas – a minha tinha só sete pessoas – com atenção bem individualizada dos professores, que dá uma base em física, química, matemática, biologia e computação.

E você já sabia que queria ser astrobiólogo?

Douglas Galante Eu nem sabia que isso existia. Soube em 2000, no meu primeiro semestre nas moleculares, no Congresso Internacional de Astronáutica, que aconteceu no Rio. A Agência Espacial Brasileira abriu um edital de chamada de propostas para alunos de graduação participarem com as despesas pagas. Eu me inscrevi, claro, e ganhei. Lá conheci um pesquisador do Instituto de Astrobiologia da Nasa chamado Antonio Lascano, que tinha sido aluno do Stanley Miller, do clássico experimento de Miller-Urey de origem da vida [que, em 1954, simulou as condições anteriores à vida na Terra e provou que era possível gerar moléculas orgânicas complexas a partir de chatos compostos inorgânicos]. Ele deu uma palestra naquele congresso fazendo a conexão entre os processos astrofísicos e planetários e o surgimento e a evolução da vida. Eu fiquei encantado. Mas não havia nenhum astrobiólogo para me orientar no Brasil e eu já estava encaminhado para um doutorado na França em astrofísica nuclear, para estudar reações nucleares no interior de estrelas [bem longe de qualquer coisa viva]. Já tinha começado a fazer aulas de francês quando comecei a repensar minha vida e me perguntar se era aquilo mesmo que eu queria. Percebi que eu gostava de astrofísica, mas não era um fogo aceso dentro de mim.

O que faltava?

Douglas Galante Faltava a pergunta empolgante.

E aí?

Douglas Galante Aí eu me vi perdido no último semestre da graduação, sem saber o que fazer, e resolvi voltar às minhas origens e procurar alguma coisa na astronomia, naquilo que me empolgou de início. Fui ao catálogo de disciplinas e pensei: vou escolher a que parecer mais estranha. Assim encontrei a astrofísica de altas energias, que era o estudo de processos estelares de alta energia: explosões, supernovas, quasares, pulsares, estrelas de nêutrons. De novo, conheci um professor que me empolgou, o Jorge Horvath, do Instituto de Astronomia da USP, um argentino grosseirão extremamente inteligente. Falei para ele do meu interesse em astrobiologia e ele falou que por acaso ele tinha tido uma aluna que começou um projeto sobre efeitos de explosões de estrelas na vida no planeta, mas que ela tinha tido que largar. Será que eu não queria dar seguimento? Meu doutorado, estudando os efeitos de explosões de estrelas sobre a química e a vida em planetas de um ponto de vista teórico, foi a primeira tese de pesquisa em astrobiologia no Brasil. Em 2006, no primeiro workshop de astrobiologia do país, conheci o biólogo Ivan Lima, que estava fazendo doutorado na UFRJ, estudando experimentalmente os efeitos da radiação em bactérias. A gente começou a colaborar e a fazer experimentos juntos aqui no Síncrotron, usando o acelerador de partículas para gerar luz ultravioleta e simular a radiação do espaço. Ele fez a parte experimental e eu a parte teórica.

E aí este campo, que não existia no Brasil, começou a se formar?

Douglas Galante  É. Durante meu pós-doutorado, que foi de 2009 a 2012, a gente criou o Núcleo de Pesquisa em Astrobiologia da USP. Em 2011, a gente organizou a primeira Escola de Astrobiologia no Brasil, em São Paulo, com mais de 80 estudantes de fora do país. Muitos dos alunos da escola formam a geração que está hoje terminando o doutorado em astrobiologia hoje.

Você veio então trabalhar no Síncrotron, onde você já fazia pesquisas?

Douglas Galante Sim. Fui contratado em dezembro de 2012 – eu já era usuário desde 2006. E hoje sou um pesquisador do Laboratório Nacional de Luz Síncrotron, dentro do CNPEM (Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais). Trabalho bastante no UVX, o acelerador atual, cujos fótons usamos para simular o Sol em Marte e bombardear fósseis antigos ou bactérias extremófilas que vamos buscar nos ambientes extremos da Terra, como vulcões na Antártica, desertos de sal no Atacama e regiões ultraferrosas em Minas Gerais. É uma preparação para o que a gente vai fazer quando tivermos o Sirius, que vai ser uma ferramenta fantástica para fazer essas perguntas sobre os primeiros seres vivos na Terra. Estou ajudando na construção das linhas do novo acelerador, que será inaugurado em 2020 [linhas são estações de pesquisa que catam os fótons disparados pelos elétrons rodando no acelerador, e síncrotron é o nome dessa técnica]. Talvez eu não seja um astronauta, mas espero contribuir para as missões espaciais de busca da vida em Marte. Talvez eu receba uma rocha marciana para estudar aqui no Sirius. E quem sabe não aparece ainda uma oportunidade de ir, eu mesmo, a Marte?

Não está descartado?

Douglas Galante Não está. Quem sabe… Está ficando mais barato, mais simples.

A astrobiologia é multidisciplinar, combinando geologia, química, física e biologia. Você teve contato com todos esses conhecimentos no curso de ciências moleculares?

Douglas Galante A gente tem uma visão geral. Acho que o melhor que eu tenho é o contato das pessoas que conhecem a fundo cada uma dessas áreas. Hoje, em ciência, em quase qualquer área, ter essa visão ampla é importante, ao mesmo tempo em que você tem que conseguir ir a fundo em cada uma das áreas. Acho que muitos jovens se deslumbram um pouco e acham que vão virar astrobiólogos sem se aprofundar em nenhuma disciplina. Uma coisa que eu tenho sugerido aos jovens que têm interesse em astrobiologia é que escolham uma área em que eles têm mais facilidade ou mais interesse e entrem num curso de graduação específico dessa área.

Você está aconselhando-os a fazer um caminho diferente do seu?

Douglas Galante [Risos]. Eu não acho que todo mundo tem que seguir o meu caminho. Mas mesmo eu entrei em ciências moleculares e mergulhei de cabeça na física. Eu sempre gostei de biologia, então fui puxando uma ou outra disciplina, de evolução, biologia molecular, microbiologia. Depois com tempo fui estudando cada vez mais geologia para me aprofundar em ciências planetárias. Mas o meu caminho base sempre foi norteado pela física.

E o Sirius, seu outro foco? Por que ele é importante?

Douglas Galante O Sirius vai ser um avanço gigantesco em termos da qualidade de pesquisa que a gente consegue fazer no estudo de materiais – e estamos falando de uma variedade fantástica de aplicações, que vão da medicina à metalurgia. Dentro da minha área, de ciências planetárias, no estudo de rochas, a gente vai conseguir enxergar e medir rochas extremamente antigas com uma resolução espacial que é impossível em qualquer outro laboratório do mundo. Isso vai permitir que a gente retroceda no tempo do planeta até os primeiros milhões de anos para estudar como a Terra estava se formando, como os elementos químicos estavam se arranjando, originando os primeiros minerais, e como esses primeiros minerais possibilitaram as reações químicas prebióticas que deram origem à vida. O Sirius vai permitir também que a gente estude com uma resolução absurda os mecanismos de funcionamento de células atuais, para entendermos o metabolismo, a interação com o ambiente. Vai dar para ver como os extremófilos que encontramos lidam com os metais pesados, como fazem as reações químicas que permitem que eles produzam energia a partir de ferro, ou enxofre.

Você vai ter uma bela vantagem: uma ferramenta que permite enxergar o que nenhum cientista consegue ver.

Douglas Galante É. Eu e a comunidade científica brasileira como um todo, porque o Sirius é aberto ao país inteiro. O financiamento que a gente recebe para manutenção, do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovação e Comunicações, garante o acesso completamente gratuito para pesquisas acadêmicas. O laboratório garante o pagamento de despesas de transporte, estadia e alimentação de pesquisadores de fora do estado. Certamente o Sirius vai ser o melhor laboratório síncrotron do planeta quando ele for inaugurado.

A tendência é que essas instalações atraiam pesquisadores estrangeiros para o Brasil?

Douglas Galante A gente espera que sim. Mas claro que a conjuntura política conta. Às vezes a gente tem esse problema para atrair pessoas por conta da situação atual do país.

Neste cenário difícil, em que centros federais de ciência estão ameaçados, vocês conseguiram manter a construção do Sirius?

Douglas Galante Por enquanto a gente tem conseguido, porque o Sirius tem sido visto como o projeto de ciência mais importante do país. Mas é uma luta no dia a dia.

O que mudou entre a expectativa de quando você entrou na ciência e a realidade que você vive hoje?

Douglas Galante Descobri que, quando a gente vai para o dia a dia, tem uma série de balizadores, para usar uma palavra positiva. Tem que seguir por certos caminhos, ficar restrito a certos problemas e tem atribuições que são mais administrativas e de gestão, que consomem uma parte significativa do tempo. Aqui no laboratório é melhor, porque é administrado como uma empresa, mas nas universidades a burocracia é insuportável. Outra coisa para a qual não nos preparam é para fazer divulgação científica e educação. E esse é um é um problema central que temos hoje – vemos nossas universidades, nossas instituições de pesquisa, nossos pesquisadores sendo atacados pela classe política e pela população em geral, que desacreditam da ciência, embarcam no movimento antivacina, no terraplanismo, dizem que o laboratório é cabide de empregos. Acho que os pesquisadores têm que também enxergar sua responsabilidade social e mostrar mais para a sociedade o que eles fazem. O Sirius custou o mesmo que um estádio da Copa [o acelerador e as primeiras linhas de luz saíram por R$ 1,8 bilhão, pouco mais que o Mané Garrincha, em Brasília, que saiu por R$ 1,4 bilhões], e construímos vários estádios, muitos hoje abandonados. Ele vai durar décadas, formar milhares de pessoas, gerar milhares de descobertas e patentes.

O que motiva você?

Douglas Galante Olha, uma coisa que aprendi fazendo ciência foi que nosso papel é colocar um tijolinho numa grande história. Eu fui incentivado por grandes pesquisadores que eu vi como ídolos, empolgados em fazer ciência, sonhadores. E aprendi que também em algum momento eu tenho esse papel de formar pessoas. Isso é meu grande motivador: olhar para as próximas gerações e ver alunos empolgados, indo para campo, tendo suas próprias ideias, nas quais eu nunca teria pensado. Aí vejo que vai ter continuidade.

 

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