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Profissão

Como me tornei veterinário. E a vida entre animais e tutores

Foto: Arquivo pessoal

‘Sempre penso em beneficiar os outros dentro da minha limitação – e dentro da limitação dos outros’

Mauro Lantzman é veterinário especializado em homeopatia e comportamento animal. Formado pela Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da USP, fez mestrado em reprodução animal pela mesma instituição e doutorado em psicologia clínica pela PUC-SP.

Além das consultas veterinárias voltadas para o comportamento animal, Mauro é professor de psicobiologia da Faculdade de Ciêncas Humanas e da Saúde da PUC-SP. Seu trabalho é voltado para a etologia, área que investiga o comportamento animal, com base na teoria da evolução, e para a psicologia evolucionista, que é o estudo dos mecanismos comportamentais humanos vistos como características evolutivas.

Nesta entrevista, Mauro fala sobre sua trajetória e a relação do veterinário com os animais e seus tutores. E também dá dicas para quem quer seguir caminho na veterinária.

Como você chegou a essa carreira? O que te motiva? Por que você a escolheu?

Eu comecei sem saber o que eu estava fazendo. Foi uma escolha que não foi uma escolha, na verdade. Foi uma falta de escolha. Eu sempre gostei da área de biológicas, e pensei em fazer biologia, mas com medo de que eu não teria ganhos, de que eu teria problemas, e com isso acabei fazendo veterinária, que tinha a ver com animais. Ao longo da universidade, fiquei um pouco perdido, porque não tinha um histórico de ter animais ou contato com animais – eu gostava de biologia mesmo, mas também não era um grande aluno. Então durante muito tempo foi difícil.

Com o tempo, fui descobrindo onde estava e, depois, quando me formei, fui fazer meu mestrado e as coisas começaram a mudar.

Na época da minha formação, fui para uma clinica veterinária, e lá comecei a trabalhar nessa área de clínica geral. Com o passar do tempo, resolvi fazer terapia – o que me ajudou a me estruturar, me sentir mais centrado. Fiz mestrado em cirurgia, foi bem interessante, mas ainda não era a área que queria. No meio disso, conheci um professor que sugeriu que eu lesse um livro que mexeu muito comigo: “Zen e a arte de manutenção de motocicletas”. Fiz o curso de formação como homeopata e, no final dos anos 1990, comecei a me interessar pela área de comportamento. E aí, sim, tudo fez sentido.

Eu fazia supervisão com a única veterinária de São Paulo que trabalhava com estudos de comportamento em cães e gatos. Daí adiante deslanchei. Me destaquei nessa área, porque tinham poucos profissionais e porque me dediquei muito, tenho muito amor pelo que eu faço.

Como sua formação está presente no trabalho que você faz hoje?

Nesse caminho todo que segui, também acabei entrando em contato com a universidade. Porque, em um determinado momento, o comportamento me levou a perguntar qual era o papel do ser humano nessa dinâmica dos animais que atendia. Isso era uma coisa fundamental – e um vácuo na minha formação.

A homeopatia foi uma busca a que eu cheguei a partir do momento em que achava que o atendimento tradicional não era agradável para mim. Isso me abriu a possibilidade de ter uma atuação mais holística, mais completa, mais total. E me possibilitou amplificar o entendimento do que é saúde, da relação humano e animal, minha relação com o paciente, minha relação com o tutor do animal. A homeopatia me lançou uma pergunta, que era qual era o lugar do tutor nessa história. Fui fazer meu doutorado em psicologia, tentando responder a essa questão: a inserção do animal no contexto da família contemporânea. Foi uma experiência tão importante e profunda que fui convidado para ser professor na Faculdade de Psicologia, onde dou aula de comportamento e evolução humanos. Trabalho com a evolução humana, não do ponto de vista antropológico, mas evolucionista. Trabalho com etologia, que é o estudo do comportamento animal, tendo como base a teoria da evolução, e trabalho com psicologia evolucionista, que é o estudo dos mecanismos comportamentais humanos vistos como características evolutivas. Minha formação está totalmente presente na minha atuação.

O que mudou entre a sua expectativa e a realidade?

Eu não tinha expectativa nenhuma. Na verdade, a minha expectativa era ser feliz. Como ainda é. Ser feliz fazendo algo que tivesse significado pra mim. E isso foi muito interessante: minha profissão foi tendo cada vez mais significado ao longo do tempo. Então não tinha uma expectativa que foi frustrada, pelo contrário. Eu estava fazendo algo que fazia sentido pra mim: beneficiar os outros e ajudar os animais.

Essa motivação foi além da minha profissão e me trouxe ao budismo. Me dedico profundamente a esse aspecto mais espiritual. Hoje dou aula de meditação, mas não profissionalmente. Faço como um trabalho voluntário. Então adoro ser professor, tanto na PUC como na área de meditação.

Qual a maior dificuldade da profissão que você escolheu? E qual o melhor aspecto?

Nas profissões, dificuldades são desafios, não são problemas. Cheguei a essa conclusão. Toda vez que me vi diante de dificuldades, entendi que elas eram convites para eu tentar ficar melhor, tentar fazer algo mais legal, tentar entender por que isso aparecia como dificuldade e não como oportunidade. Por exemplo, para a maioria dos veterinários, o próprio tutor é uma dificuldade. Normalmente, o veterinário tem uma dificuldade muito grande de lidar com pessoas. Então, se ele não souber lidar com pessoas, é um grande problema, porque na verdade uma consulta veterinaria envolve mais  falar com as pessoas do que o próprio bichinho. Como sempre tive essa motivação de beneficiar não só o animal, mas as pessoas, para bem estar dos dois, fui buscando me aprimorar.

Algumas dificuldades, como lidar com a morte, com a doença, lidar com o proprietário confuso, lidar com o proprietário agressivo, enfim, todas as dificuldades que vinham aparecendo se tornaram oportunidades de desenvolver minha competência profissional. Dificuldades também com relação aos animais me levaram ao meu próprio desenvolvimento pessoal – fui buscar na terapia essas respostas – e também me levaram a buscas de respostas de como lidar com isso na prática. E o comportamento foi uma delas.

E quanto ao melhor aspecto, tem vários. A gente sempre pode conhecer muitas pessoas, muitos animais, e aprender muito. A gente pode beneficiar as pessoas e os animais de uma maneira muito significativa. Mas sem uma grande expectativa: em toda profissão médica, é preciso tomar muito cuidado com a relação de poder. É muito comum que médicos e outros prestadores de serviços de saúde, como dentistas, veterinários, psicólogos, possam cair numa ideia de poder – “eu posso curar, eu posso tratar, eu sou grande, sou fantástico”. Sempre penso em beneficiar os outros dentro da minha limitação e da limitação dos outros.

O que você diria para alguém que está pensando em trabalhar como veterinário?

Eu diria pense bem, conheça bem a profissão. Pense nos aspectos financeiros, qual sua expectativa de ganho e qual a realidade da profissão. Tem que entender que hoje, no Brasil, infelizmente, o número de faculdades que formam veterinários é gigantesco, muito fora da necessidade, muito além da demanda do mercado. Isso levou à queda da qualidade do ensino na área.

Tem inúmeros profissionais muito mal formados que estão aí tentando se inserir no mercado. É preciso pensar muito bem, escolher uma boa faculdade, entender que ela não pode ser meio período. É um curso muito puxado, precisa estudar muito e se dedicar muito. E, depois, até você se tornar um bom profissional leva uns dez anos, mais ou menos. Então você vai ter que investir muito na universidade, em cursos complementares de pós-graduação. Quando me formei não havia especialidades, hoje essa é uma realidade na veterinária também.

Recomendo pensar o que significa ser veterinário para você. O que você quer? Quais animais quer tratar? Qual a experiência tem com aqueles animais? Outra coisa é ver a faixa salarial, quanto tempo demora para um veterinário ter um ganho com o qual se sinta feliz. Conheço muitas pessoas que fizeram veterinária e até hoje não ganham bem, ou pior do que muita gente que tem um trabalho mais técnico. Então a dica é investigar bem o mercado. E a partir disso é tomar coragem, respirar fundo e ir em frente.

 

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