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Profissão

Como me tornei jornalista. E uma vida de reportagens

Foto: Reprodução

“Hoje em dia, quem quer fazer jornalismo é porque quer ser jornalista, sabe que vai ser uma longa e dura carreira, mas, por outro lado é muito recompensadora”

A jornalista Natalia Viana é cofundadora e codiretora da Pública, primeira agência de jornalismo investigativo sem fins lucrativos no Brasil. Criada em 2011, a agência produz reportagens de investigação da administração pública, dos impactos sociais e ambientais de empresas e da violência contra populações vulneráveis, entre outros assuntos.

Natalia Viana trabalhou com temas sociais internacionais, como indígenas sob massacre na Colômbia e em favelas em Cancún, no México. É autora e coautora de quatro livros sobre violações de direitos humanos. Entre eles, “Plantados no Chão”, sobre assassinatos políticos no Brasil entre 2003 e 2006, e  “Habeas Corpus: Que Se Apresente o Corpo”, sobre os desaparecidos políticos.

Como repórter e editora, venceu diversos prêmios de jornalismo, como o Vladimir Herzog de Direitos Humanos em 2005 e 2016 e o prêmio Gabriel García Márquez em 2016.

Nesta entrevista, a jornalista fala sobre sua trajetória, os novos modelos de redação e dá dicas para quem quer seguir a carreira.

Como você chegou a essa carreira? O que te motiva? Por que você a escolheu?

Natalia Viana Eu sempre quis ser jornalista, desde pequena, porque sempre gostei de escrever e sempre fui muito curiosa. Então, quando estava no colégio, junto com as minhas melhores amigas fiz um jornal, o Vem (Veículo Estudantil de Manifestação), e foi no colégio que eu conheci pela primeira vez um jornalista. Eu nunca tinha visto um jornalista na minha vida, e reforçou a minha vontade. Saindo do colégio, fui direto para a faculdade de jornalismo, estudei na PUC e nunca quis ser outra coisa.

Na verdade, a faculdade me desestimulou muito. Eu não fui feliz na minha faculdade, não aprendi coisas que achei que foram tão significativas, inclusive até hoje tenho sérias dúvidas sobre a obrigatoriedade do diploma. Eu aprendi coisas como assessoria de imprensa, coisas técnicas que não me ajudaram em ser uma jornalista boa. Muitos professores não iam, etc.

Saí bastante desestimulada da faculdade, no final eu já tinha quase desistido de ser jornalista quando algumas amigas foram fazer o curso da Abril e ficaram muito estimuladas. E aí comecei a fazer reportagens como freelancer, por minha própria conta, oferecendo a diversos editores que eu nem conhecia, porque eu ia na banca de jornal, abria uma revista, pegava o nome do editor e mandava  propostas que eu tinha na minha cabeça. E assim que eu comecei a fazer jornalismo.

Como sua formação está presente no trabalho que você faz hoje?

Natalia Viana Justamente, não acredito que minha formação foi tão fundamental. Tenho sérios questionamentos sobre as faculdades de jornalismo, embora como profissional, já à frente da Pública, tenha conhecido professores muito bons e faculdades que tentam manter o passo com o mercado, o nosso currículo é ultrapassado. Eu tinha na minha faculdade aulas de diagramação de jornal em papel com um programa antiquíssimo, era uma perda de tempo enorme de todo mundo que estava ali. Eu vejo professores se esforçando, mas, no geral,  nosso currículo é muito fraco, a gente não aprende empreendedorismo na faculdade, não aprende jornalismo digital de verdade. A gente ainda tá focada muito no papel. Acho que a nossa faculdade precisa se dinamizar muito para chegar no que é o mercado. A minha verdadeira escola foi a revista Caros Amigos, onde eu entrei quando tinha 20 anos e fiquei ao longo de quatro anos. E uma das proprietárias era a Marina Amaral, que hoje é minha codiretora. Ela fundou e dirige a Agência Pública junto comigo.

Qual a maior dificuldade da profissão que você escolheu? E qual o melhor aspecto?

Natalia Viana A maior dificuldade do jornalismo é que há uma crise grande no modelo. Assim como em várias outras profissões, a tecnologia está criando uma modernização e uma mudança muito radical na profissão. Então é muito fácil compreender se você pensar que, antes, quando eu era pequena, todo mundo no café da manhã sentava para ler um jornal. Hoje em dia, as pessoas que tem menos de 30, 25 anos já obviamente não fazem isso, é tudo na internet. Isso muda a economia da profissão. O que não significa que as pessoas não continuam consumindo notícia, notícia de qualidade, notícia que tenha reputabilidade. Então tem muitos grupos que estão aí se lançando no mercado para desenvolver novas formas tanto de ganhar dinheiro como novos modelos que funcionem. Ou seja, redações mais enxutas, profissionais que fazem diferentes tarefas, e não só uma tarefa específica, para se adaptar ao que é uma nova economia do jornalismo, digamos. Essa é uma das principais dificuldades no momento. Também há outra dificuldade que está havendo principalmente com a radicalização  da sociedade e a polarização: uma maior quantidade de ataques a jornalistas. Então o jornalista que é sério, que é investigativo, como é o trabalho que a gente faz na Agência Pública, está sendo mais atacado na redes. Às  vezes são até ameaçados, e isso cria um ambiente que é muito delicado para o jornalista.

O que você diria para alguém que está pensando em trabalhar como jornalista?

Natalia Viana Acho que é importante, se alguém quer ser jornalista, que tenha muito claro que hoje em dia o jornalismo é uma profissão - o jornalismo mesmo, de reportagem, de apurar e de você tentar narrar a realidade do seu tempo - que acaba sendo feita por poucas pessoas. Essas pessoas são pessoas obstinadas, que sabem que é isso o que querem da vida. E a carreira do jornalismo não é uma carreira que está oferecendo uma trajetória financeira muito positiva. Então, eu digo que se você quer se lançar a ser jornalista, tem que saber que é isso que você quer. Se você tem um plano de uma vida mais estável, de ganhar dinheiro etc, acho que esse não é o caminho. Há muitas outras profissões em que você pode trabalhar, como assessor de imprensa, por exemplo, que têm um mercado legal, você pode ter uma segurança. Mas, hoje em dia, quem quer fazer jornalismo é porque quer ser jornalista, sabe que vai ser uma longa e dura carreira, mas, por outro lado é muito recompensadora. Porque, como eu já disse, hoje, assim como sempre, mas também mais do que nunca, o bom jornalismo é muito necessário. Até para preservar a democracia e o bom funcionamento da sociedade.

 

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