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Profissão

Como me tornei engenheiro. E a vida entre startups

Foto: Divulgação

'Você vai acabar não usando derivadas e integrais no seu dia a dia, mas os raciocínios envolvidos nesse aprendizado vão te preparar para os desafios do mercado de trabalho'

O engenheiro Renato Freitas é um dos criadores da Yellow, plataforma de compartilhamento de patinetes e bicicletas sem estação física. Formado em engenharia mecatrônica pela Universidade de São Paulo, ele se interessou pelo caminho do empreendedorismo ainda na época da faculdade.

Sua primeira startup foi a rede social ebaH, criada para facilitar o compartilhamento de conteúdos acadêmicos, desenvolvida com colegas ainda na graduação. O projeto foi vencedor de uma competição da Empresa Júnior de Engenharia da USP, o que motivou seus idealizadores a seguir com a rede social e atuar fora dos limites da universidade.

Freitas também idealizou a plataforma PatentesOnline e o aplicativo de transportes 99, primeira empresa no Brasil a ganhar a alcunha de unicórnio. O apelido é dado, no jargão empresarial, para startups avaliadas por investidores em US$ 1 bilhão ou mais.

Apesar de não trabalhar com engenharia mecatrônica, Renato conta que o curso foi bastante importante para desenvolver a capacidade de  resolver os problemas  e aprender novas coisas como empreendedor.

Nesta entrevista, ele conta sobre sua trajetória acadêmica e profissional e dá dicas para quem quer seguir tanto o caminho da engenharia como do empreendedorismo.

Como você chegou a essa carreira? O que te motiva? Por que você a escolheu?

Renato Freitas Eu escolhi fazer engenharia mecatrônica muito porque eu sou um nerd de nascença. Desde sempre eu gostei muito de tecnologia, sempre fui uma criança muito curiosa, gostava de montar as coisas, ver como funcionavam. Então engenharia foi algo que apareceu de uma forma bastante natural. Na minha época de colegial, eu fui uma das pessoas sortudas que, quando estava no primeiro, segundo colegial, já sabia o que queria fazer, sabia que queria engenharia. A hora que eu descobri engenharia mecatrônica, uma coisa relativamente nova na época,  achei bastante legal, principalmente por ser interdisciplinar. A faculdade trabalha não só com engenharia mecânica, mas com eletrônica e computação também. Geralmente é uma engenharia que está associada à construção de robôs, e isso me fascinava bastante.

E escolhi ser empreendedor basicamente porque desde sempre tive um exemplo de empreendedor em casa. Meu pai tinha uma metalúrgica pequena, e trabalhei com ele dos meus 14 anos até o fim da faculdade. Isso me fez considerar empreender como uma opção de carreira, e também me preparou com os principais aprendizados de tocar uma empresa. No fim da faculdade, gostava de falar para os meus amigos que preferia ter minha barraca de cachorro quente do que trabalhar na empresa de outra pessoa. O fato de ter liberdade de poder ter meu negócio me atraía bastante.

Como sua formação está presente no trabalho que você faz hoje?

Renato Freitas Muita gente me pergunta isso, eu gosto muito de voltar pra faculdade para conversar com os alunos. Me perguntam “você usa cálculo?” “você usa álgebra linear?”, algumas matérias do curso de engenharia que são bem esquisitas. E a resposta para essa pergunta é “não, não uso”. Não faz parte do meu dia a dia usar os conhecimentos técnicos que eu tive na faculdade. Mas uma coisa que a faculdade de engenharia ensina muito bem, e você acaba levando isso pra vida, é a capacidade de resolver problemas e a capacidade de aprender coisas novas. E isso eu uso no meu dia a dia o tempo todo. Então a forma de ser mais metódico na hora de resolver problemas, um pouquinho mais de pragmatismo na hora de resolver problemas, e o fato de que hoje, ao  ser empreendedor, você está o tempo todo com problemas novos, você tem que aprender coisas novas. Acho que a faculdade me ajudou bastante nisso.

O que mudou entre a sua expectativa e a realidade?

Renato Freitas Acho que mudou o fato de considerar de forma mais forte o empreendedorismo na minha vida. Acho que isso mudou bem. O mercado também mudou nesse período, então hoje as pessoas aceitam melhor ou entendem melhor uma opção de carreira como o empreendedorismo. Mas quando eu entrei na faculdade, os primeiros anos, o objetivo era me tornar um engenheiro e trabalhar numa grande empresa. Durante a faculdade é que eu acabei tendo a ideia de empreender.

Antes da faculdade, a ideia de empreender estava ligada a continuar a empresa do meu pai. Mas quando criamos o Ebah no fim da faculdade isso mudou. Participamos da competição de startups da Empresa Junior de Engenharia da USP e vencemos. Isso deu um grande gás e resolvemos tocar a ideia como uma empresa de verdade.

Qual a maior dificuldade da profissão que você escolheu? E qual o melhor aspecto?

 Renato Freitas O melhor aspecto acho que é ter a liberdade de construir as coisas que você quer construir, acho que isso é a parte mais legal. Ser protagonista em um negócio, mudar o mundo construindo novas soluções, fazendo as pessoas ganharem mais dinheiro, gerando empregos.

As dificuldades são justamente as dificuldades de startups: tudo é uma aposta, pode ser que o que você está construindo não se concretize, que apesar de você ter um sonho grande ele não é possível na prática. E, no meio do caminho, vai ter muita gente pra falar que sua ideia não dá certo, que empreender não é a melhor opção, que as pessoas não querem ou não precisam do que você está construindo. Um grande desafio é se manter energizado e focado, mesmo com tudo isso.

O que você diria para alguém que está pensando em trabalhar como engenheiro ou empreendedor?

Renato Freitas Para quem vai fazer engenharia acho que encarar a faculdade como um treinamento para a sua vida é uma coisa bastante legal. Muitas vezes o que você está aprendendo tecnicamente ali não é útil, mas o processo de aprendizado é bastante importante. Você vai acabar não usando derivadas e integrais no seu dia a dia, mas os raciocínios envolvidos nesse aprendizado vão te preparar para os desafios do mercado de trabalho. Por isso muito engenheiro vai trabalhar em banco, em consultoria. Porque a engenharia te prepara para resolver problemas, para aprender o desconhecido e descobrir como as coisas funcionam.

Como empreendedor, eu diria para se preparar para gastar muita energia e para passar por grandes dificuldades. Empreender é muito mais difícil do que se lê por aí: são noites sem dormir, contas para pagar sem dinheiro, decisões difíceis, demissões... Perrengue mesmo. E acho que é muito importante considerar empreender como opção de carreira, mesmo que depois você escolha outro rumo. Muita gente não empreende porque quer "fazer currículo", mas hoje em dia já existe muita empresa que valoriza quem tem no currículo alguma passagem como empreendedor.

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