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Profissão

Como me tornei economista. E a vida entre finanças e leis

Foto: Arquivo pessoal

‘Me motiva conceber o economista desta forma, como alguém treinado para ter uma visão do todo e argumentar por quem não tem voz’

O economista Pedro Fernando Nery tem graduação e mestrado pela Universidade de Brasília,  mesma instituição onde cursa o  doutorado. Ele trabalha como consultor legislativo do Senado Federal e é professor do Instituto Brasiliense de Direito Público. Também mantém uma coluna no jornal Gazeta do Povo.

Em 2013, Nery foi premiado com o Edgardo Buscaglia Award on Empirical Research in Law and Economics, conferido pela Associação Latino Americana e Ibérica de Direito e Economia.

Para o economista, saber dialogar com profissionais de áreas diversas é fundamental para seguir caminho na profissão, seja no setor privado ou público. Nery diz que, em diversos nichos, um bom economista precisa ser um bom tradutor: alguém capaz de convencer quem não tem formação em economia.

Nesta entrevista, ele conta como é trabalhar com o impacto econômico das legislações trabalhista e previdenciária e dá dicas para quem quer seguir a carreira na economia.

Como você chegou a essa carreira? O que te motiva? Por que você a escolheu?

Pedro Fernando Nery  Cheguei na carreira lendo um texto sobre pobreza na África, na época da escola. Até então minha visão do economista era um estereótipo de mercado financeiro, de banco, e não de uma ciência social.

Como trabalho no setor público, o que motiva é pensar o Brasil, pensar em desenvolvimento – ainda que como uma peça bem pequenininha da engrenagem do Estado.

Gosto muito de uma frase do Gustavo Franco (ex-presidente do Banco Central), de que o economista é o sentinela das maiorias mudas.

De fato, a democracia dá peso desproporcional para grupos organizados, lobbies como empresas financiadoras de campanha e sindicatos. Isso nem sempre é em benefício da maioria da população, que é desorganizada, difusa. Tende-se também a priorizar ganhos de curto prazo ao invés de melhorias de longo prazo.

Me motiva conceber o economista dessa forma, alguém treinado para ter uma visão do todo e argumentar por quem não tem voz.

O economista é então um cara chato, meio do contra, o cara que fala de responsabilidade fiscal, de estabilidade da moeda. Porque entende que isso é o melhor para a coletividade – seja a atual sejam as próximas gerações.

Como sua formação está presente no trabalho que você faz hoje?

Pedro Fernando Nery Está bastante presente. Na verdade trabalho muito com direito, em um cargo em que não precisaria obrigatoriamente ter o diploma de economia. Ironicamente, não sou formalmente economista: ao contrário dos países desenvolvidos, economista no Brasil é quem tem o diploma de bacharel e está registrado no Conselho.  Henrique Meirelles e Joaquim Levy, últimos ministros da Fazenda, não são oficialmente economistas.

Como não preciso do diploma para trabalhar, apesar de formado, não me registro (economistas de verdade têm horror a reservas de mercado!).

Enfim, mexo com direito pela ótica da economia: sou consultor legislativo do Senado na área de Economia do Trabalho e Previdência. Então trabalho, simplificadamente, com o impacto econômico da legislação trabalhista e previdenciária.

Como uma reforma trabalhista pode reduzir o desemprego ou melhorar salários? Como uma reforma da Previdência pode fazer o país crescer ou melhorar a distribuição de renda? São instrumentos da teoria microeconômica e macroeconômica que permitem fazer esse tipo de análise, além de métodos quantitativos.

O que mudou entre a sua expectativa e a realidade?

Pedro Fernando Nery  O economista, no setor público ou no setor privado, trabalha muito com e para não-economistas. Ao contrário de um médico, que decide com base no seu diagnóstico, ou de um advogado, que decide a melhor estratégia para uma ação, o economista muitas vezes não tem poder de decisão.

Então certamente é algo que discutimos pouco na formação: comunicação. Em muitos nichos, um bom economista vai ser um bom tradutor – alguém que saiba convencer o não-economista. 

No caso do setor público, é natural e desejável em uma democracia que as escolhas sejam políticas, não tecnocráticas. Cabe ao economista explicitar os custos e benefícios de um conjunto de ações.  Como vai ser pago um determinado projeto? O resultado que se quer pode ser alcançado sem esse projeto? O dinheiro teria melhor uso se aplicado em outro projeto? Não cabe ao economista decidir, mas responder a essas perguntas.

Apesar disso,  penso que, no coletivo, como profissão, nosso fracasso de comunicação é retumbante. Falamos muito para nós mesmos, e a opinião pública em muitos temas é dominada por fake news.

Qual a maior dificuldade da profissão que você escolheu? E qual o melhor aspecto?

Pedro Fernando Nery A principal dificuldade é esta. Traduzir, argumentar – e serve também para o economista no setor privado. Economia pode ser uma área especializada, mas é uma área que interessa a todos.

Um dos melhores aspectos é poder trabalhar com diversos temas. As ferramentas do economista se aplicam a muitas áreas, principalmente nas ciências sociais. Há até uma expressão, “imperialismo econômico” (economics imperialism), para a dominância da economia em outros campos. O Nobel de Economia deste ano foi para quem estuda mudança climática. Ano passado, economia comportamental, que mistura economia com psicologia.  Na verdade, anos atrás, um psicólogo foi o vencedor do Prêmio.

Outro aspecto que pode ser considerado difícil ou bom dependendo do perfil é que o economista precisa estar ligado. Isso é verdade para várias profissões: o médico tem que estar antenado com novos resultados científicos, o advogado com jurisprudência dos tribunais. Mas o objeto do economista (a economia) é muito mais volátil, mesmo para quem não está no mercado financeiro. O economista é um ávido consumidor de notícias.

O que você diria para alguém que está pensando em trabalhar como economista?

Pedro Fernando Nery  Eu encorajaria, e recomendaria manter a cabeça aberta para outras disciplinas.

Também sugeriria usar muito a internet, porque permite ver o que é feito e discutido lá fora.  O estudo da economia se beneficia da internet mais do que outras áreas: um estudante de exatas precisa de laboratórios, o de saúde precisa de hospitais, mas o de ciências humanas não. Quero dizer que à distância dá pra aprender um monte. 

Nesse sentido, inglês é bem importante. Uma dica desde já é o blog Marginal Revolution, que é um grande agregador com diversas postagens por dia sobre estudos acadêmicos, política econômica em diversos países, dicas de livros etc.

 

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