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Profissão

Como me tornei quadrinista. E a vida entre ilustrações

Foto: Rafael Roncato

A formação em artes plásticas foi importante para romper padrões nas histórias em quadrinhos, segundo Marcelo D’Salete

O paulistano Marcelo D’Salete é quadrinista, mestre em história da arte pela USP e professor de artes plásticas no ensino médio e fundamental. Começou publicando quadrinhos nas revistas Quadreca e Front, em 2001, e sua graphic novel de estreia é “Noite Luz” (Vila Lettera, 2008), lançada no Brasil e na Argentina. Ele também é autor de “Cumbe” (Veneta, 2014), que trata do período colonial e da resistência negra à escravidão, publicado em Portugal, França, Áustria, Itália e Estados Unidos.

Nos quadrinhos, D’Salete combina ficção com a pesquisa em documentos históricos, e propõe novas leituras ao revisitar passagens da história do país. Seu livro mais recente, “Angola Janga” remonta às últimas décadas do Quilombo dos Palmares, em Alagoas, em uma narrativa sob a olhar de protagonistas negros. A graphic novel, publicada pela editora Veneta, é resultado de 11 anos de trabalho.

Graduado em artes plásticas, o autor transita pelo universo do design gráfico, dos quadrinhos e das ilustrações. Para ele, uma das melhores partes da profissão é o contato com leitor. Leia, nesta entrevista, mais sobre a trajetória de D’Salete nas HQs.

Como você chegou a essa carreira? O que te motiva? Por que você a escolheu?

Marcelo D’Salete Tenho uma relação de muito tempo com o desenho. Minha forma de ver perpassa este meio, as ilustrações e os quadrinhos. Posso dizer que é uma paixão antiga. Lia muitas HQs quando criança, gostava muito de livros infantis, e eu e meu irmão desenhávamos bastante em casa. Na adolescência, decidi fazer um curso de design gráfico no colégio Carlos de Campos. Foi muito importante para conhecer um pouco mais e começar a trabalhar na área. Eu comecei fazendo ilustrações em uma editora.

Como sua formação está presente no trabalho que você faz hoje?

Marcelo D’Salete Minha formação é em artes plásticas. O curso me possibilitou encarar o desenho de outros modos. Dentro da área de quadrinhos, muitas vezes o desenho acaba sendo um pouco estreito e viciado dentro da linha de super-heróis. Então ver outras formas de lidar com o desenho foi importante para me libertar de certos vícios, que são muito fortes dentro dos quadrinhos. Também para pensar em outras formas de traço, de textura, e que existem outras maneiras de lidar com a composição da página. Isso tudo acabou sendo bom para desenvolver as histórias em outro caminho.

O contato e trabalho com obras em museus também foi fundamental para compreender outras formas de lidar com o traço e as possibilidades de narrativa.

O que mudou entre a sua expectativa e a realidade?

Marcelo D’Salete Difícil dizer, pois, quando jovem, não conhecia muitos artistas dessa área. Não pensava em trabalhar só com quadrinhos e, quando garoto, por não conhecer ninguém, isso era algo ainda mais distante. Com o tempo, quando estava começando a publicar, fui conhecendo alguns quadrinistas, e pessoas que trabalhavam com ilustração principalmente, que dá um retorno financeiro mais imediato.

Ainda não trabalho apenas com quadrinhos, sou professor também, mas é uma parte considerável da minha renda e, além disso, um universo de realização muito significativo para mim. Em termos de reconhecimento eu acho que já foi além das minhas expectativas.

Qual a maior dificuldade e melhor aspecto?

Marcelo D’Salete Cada novo trabalho se apresenta como um universo novo de pesquisas e estudos. Isso é difícil no início, mas muito enriquecedor com o tempo. É um aprendizado constante. Todo o processo de construção de um quadrinho é demorado e cansativo. Por outro lado, ver o trabalho pronto e conversar com os leitores é algo incrível, sem palavras. As pessoas geralmente entram em contato com o autor, e é interessante saber como as pessoas estão lendo  aquilo, que tipo de clima que você está conseguindo transmitir por essas histórias. São coisas que marcam as pessoas por muito tempo.

O que você diria para alguém que está pensando em trabalhar com quadrinhos?

Marcelo D’Salete Seja curioso e interessado nas mais diversas manifestações da arte. Aprenda sobre desenho, composição, cores e, claro, aprenda a ver o trabalho de outros artistas. Saiba selecionar bem o que pode ser interessante para o seu trabalho. Não deixe de criar, o tempo é um fator crucial para o amadurecimento de qualquer obra.

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