Profissão

Como me tornei ambientalista. E a vida entre florestas e conferências

Foto: Raquel Cunha

Discussões sobre a mudança do clima em nível nacional e internacional ocupam a vida de Carlos Rittl

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O paulistano Carlos Rittl tem 48 anos. Formou-se administrador pela Fundação Getúlio Vargas em São Paulo e fez mestrado e doutorado em biologia tropical e recursos naturais, pelo INPA (Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia). Atua há 20 anos na área ambiental e, nos últimos dez, dedicou-se ao tema de mudanças climáticas, tendo liderado a Campanha de Clima do Greenpeace no Brasil e o Programa de Mudanças Climáticas e Energia do WWF-Brasil.

Ao longo de sua carreira, trabalha pelo avanço do debate e progresso das políticas públicas sobre florestas, mudanças do clima, energia e sustentabilidade no Brasil. Participou das negociações multilaterais da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças do Clima (UNFCCC), que acompanha desde 2004, da Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável (Rio+20), e diversos processos de formulação de políticas públicas sobre temas de sua especialidade.

Em 2013, Carlos assumiu a Secretaria Executiva do Observatório do Clima, rede brasileira formada em 2002, composta por 43 organizações não governamentais e movimentos sociais e que atua para o progresso do diálogo, das políticas públicas e processos de tomada de decisão sobre mudanças climáticas no Brasil e globalmente.

Como você chegou a essa carreira? O que te motiva? Por que você a escolheu?

Carlos Rittl Gosto de meio ambiente desde pequeno. Meus programas de TV favoritos eram sobre natureza. A foto de que mais gosto quando criança é em cima de uma árvore. Mas acabei indo estudar primeiro engenharia, que troquei pelo curso de administração. Em 1990, viajei com amigos para Abrolhos. Voltei ao parque como voluntário de uma ONG local no início de 1992, por três semanas durante férias da faculdade – decidi ali que seria ambientalista. De volta a São Paulo, enviei meu currículo a algumas ONGs ambientais, sem sucesso. Fui trabalhar num banco como gerente de negócios. Pedi demissão depois de cinco meses, quando surgiu uma bolsa para ir trabalhar na área de planejamento do INPA  (Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia). Sabia que seria uma virada de página definitiva. No segundo ano de bolsa, decidi estudar para a prova do mestrado em ecologia no próprio INPA. Estudei só três meses, passei ‘raspando’, mas passei. Fiz mestrado de 1996 a 1998, em seguida entrei no doutorado no próprio INPA. Quando estava terminando o curso, em 2003, fui convidado a trabalhar na Campanha da Amazônia do Greenpeace. Em 2005, comecei a estruturar a campanha de clima da organização no Brasil. De lá para cá, trabalhei sempre com o tema: um ano na Embaixada Britânica, quatro anos no WWF Brasil. Em 2013, passei a trabalhar para o Observatório do Clima.

Continuo a trabalhar com mudanças climáticas por um imperativo moral - são um dos maiores desafios da humanidade no século 21, já trazem impactos às nossas vidas (saúde, segurança alimentar, hídrica, energética etc.), em especial às vidas de pessoas que não têm qualquer responsabilidade pelo problema, como populações em regiões muito pobres, e ameaçam tornar o futuro de nossos filhos, sua geração e as gerações futuras muito pior. Não acordo um só dia em que não seja motivado a agir por tudo isso.

Como sua formação está presente no trabalho que você faz hoje?

Carlos Rittl  Minha formação na graduação e pós-graduação é heterogênea, mas também complementar. Sou administrador, com alguns anos de estudo de economia, também. Ecologia e economia possuem a mesma raiz grega, “oikos”, que significa casa. São o conhecimento e o gerenciamento da “casa” juntos, no caso, nosso planeta e seus recursos. É muito importante para compreender-se as mudanças climáticas, suas causas, efeitos e soluções, o olhar sobre o planeta, o uso de seus recursos e a necessidade urgente de mudanças em nossos padrões de produção e consumo. O conhecimento específico de cada curso também me é muito útil no papel que desempenho junto ao Observatório do Clima – como administrador, atuo no gerenciamento da rede, na coordenação de processos de planejamento e execução de atividades, na articulação interna e externa. A ecologia e meus 14 anos de Amazônia trouxeram um bom conhecimento sobre a floresta e seu papel para o equilíbrio do planeta e de seu clima. A minha atuação profissional e o trabalho e o contato com pessoas com muita experiência, dos mais diferentes setores, criaram novas oportunidades para agregar mais conhecimento, informação e para usá-los como insumo para incidência no debate sobre políticas, medidas e ações necessárias para enfrentarmos o desafio das mudanças climáticas.

O que mudou entre a sua expectativa e a realidade?

Carlos Rittl Quando tomei a decisão de ir para a Amazônia, sabia que estava abrindo um caminho inteiramente novo. Começava minha trajetória profissional em meio ambiente, sem ter o lastro de um curso superior na área. Só conhecia o ponto de partida. Não imaginava todo o caminho até hoje, onde chegaria e não planejei, naquele momento, nem mesmo os passos seguintes. Todas as mudanças de rumos, de emprego foram respeitando, sempre, meus valores, princípios e ideais e considerando onde achava que, com base em minha experiência e conhecimento, eu poderia realizar o melhor trabalho e provocar mais impacto positivo. Minhas expectativas foram, portanto, sempre dosadas conforme o momento e a posição que ocupava e é assim até hoje. Mas quem trabalha com questões socioambientais ou com mudanças climáticas sempre vê diante de si um desafio enorme, muito maior que as “próprias pernas”, ou seja, muitas mudanças, como em políticas públicas, não dependem apenas de você e de sua organização. Nesse sentido, o tempo me ensinou a graduar minhas expectativas, pois algumas frustrações podem ser grandes, se você não o fizer. Mas também tento, sempre, puxar a “barra para cima”, ultrapassar limites.

Qual a maior dificuldade e melhor aspecto?

Carlos Rittl  Ser ambientalista e trabalhar com mudanças climáticas significa lutar para reduzir impactos e perdas, ou seja, o sucesso do seu trabalho começa lidando com o negativo - impactos e perdas sobre ecossistemas, espécies, vidas humanas. Além disso, trabalhamos com base em evidências, na ciência, no conhecimento. Mas as decisões políticas muitas vezes ignoram tudo isso. Vejamos dois grandes recentes casos de corrupção no Brasil, o “mensalão” e o “petrolão”, que envolvem três setores estratégicos: infraestrutura, energia e agronegócio. Somente a corrupção explica o porquê de termos feito escolhas insustentáveis sob o ponto de vista socioambiental e climático. Mudaram-se leis ambientais, os combustíveis fósseis passaram a ser a prioridade do setor de energia. E hoje a situação é mais crítica. No governo Temer, meio ambiente virou moeda de troca por votos no Congresso. É preciso muito trabalho para fazer frente a todos esses interesses e tentar colocar o Brasil no rumo correto, do desenvolvimento sustentável, de baixo carbono.

O melhor aspecto da profissão é encontrar em seu caminho muita gente que compartilha os mesmos valores, que luta pelos mesmos ideais. Encontrar esta força ao nosso redor nos torna mais fortes e é fundamental para se fazer a diferença, gerar impactos e resultados.

O que você diria para alguém que está pensando em trabalhar com mudanças climáticas?

Carlos Rittl  Venha! E se prepare para ter muito trabalho. O desafio é imenso, de longuíssimo prazo, mas exige já hoje cada vez mais profissionais empenhados e das mais diferentes áreas do conhecimento. Haverá muitas oportunidades. Até cerca de oito anos atrás, a agenda global de clima era uma agenda de riscos e custos – quanto custa e quem vai pagar pela redução de emissões ou para estratégias de adaptação aos efeitos das mudanças climáticas. De lá para cá, e cada vez mais, fala-se também das oportunidades que o desenvolvimento com base em redução progressiva de emissões de gases de efeito estufa traz para a economia. A economia de baixo carbono é mais competitiva e eficiente. E se vale muito do conhecimento, tradicional e científico, mas também da inovação, principalmente a inovação disruptiva, que quebra paradigmas e que nos leva e nos levará a grandes saltos em setores como tecnologia da informação, energia, finanças, transportes, alimentos, comunicação etc. E nós, no terceiro setor, também precisamos de novos e bons profissionais para lidar com este imenso desafio.

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