Ir direto ao conteúdo
Profissão

Como me tornei historiadora. E a vida entre livros e salas de aula

Foto: Robson Maia

A professora de história da UFRJ Giovana Xavier fala sobre sua trajetória como intelectual negra no Brasil

A carioca Giovana Xavier, de 38 anos, é historiadora, com sólida formação acadêmica em níveis de mestrado, doutorado e pós-doutorado, por UFRJ, UFF, Unicamp e New York University. Atualmente, é professora da Faculdade de Educação da UFRJ. Em 2017, organizou o catálogo  “Intelectuais Negras Visíveis”, que elenca 181 profissionais mulheres negras de diversas áreas em todo o Brasil.

Na entrevista abaixo, ela conta sobre sua trajetória como intelectual, fala dos percalços e especificidades da profissão do historiador e, em especial, dos desafios que enfrentou e enfrenta no combate à desigualdade racial brasileira.

Como você chegou a essa carreira? O que te motiva? Por que você a escolheu?

Giovana Xavier Esta é uma pergunta difícil de responder porque ela é resultado de muitas histórias. Fui criada por uma família de mulheres negras que acreditaram e colocaram em prática o poder da educação como instrumento de liberdade e ascensão social. Minha mãe, Sonia Regina (ancestral) foi a primeira da família a cursar a universidade. Isso revela uma característica típica de famílias negras: o investimento na formação de um indivíduo (geralmente o mais novo) como projeto de liberdade e transformação coletivo. Essa marca, sempre presente nas histórias que hoje escuto meus estudantes pretos contarem, é um saber que temos aprimorado como comunidade negra e que evidencia os limites da meritocracia como conceito que dê conta de explicar as oportunidades desiguais que recebemos a depender de quem somos em termos raciais, de gênero, de classe, sexualidade.

Então posso dizer que o fato de ter sido socializada em um matriarcado que acreditou que eu poderia ser quem eu quisesse, estimulando-me a ler, escrever, aprender outros idiomas, motivou-me a transgredir, indo além do destino esperado para as meninas negras do Brasil: o trabalho doméstico, ramo em que inclusive trabalhei por um tempo, quando fui arrumadeira de pousada na Ilha Grande na adolescência.

Meu primeiro trabalho foi aos 11 anos, entregando panfletos “Vendo Ouro” na ponte do subúrbio do Méier, no Rio de Janeiro, onde fui criada. Até hoje tenho pavor de receber esses papéis, por saber das violências e perversidades que rodeiam a juventude que desde cedo tem de se virar, encarando a rua como local de trabalho. Essas experiências de inserção no mercado informal somadas à oportunidade de ter estudado em uma escola branca de classe média me geraram um ponto de vista denso sobre como estar em dois mundos e, do interior deles, criar o meu próprio. Acho que esta tem sido minha busca pelo “caminho de casa”, para usar a expressão marcante da escritora ganense Yaa Gyasi. Na linha “força, foco e fé”, pergunto-me diariamente: como, na condição de mulheres negras, podemos e devemos reivindicar a intelectualidade, construindo um universo para chamar de nosso, dentro e fora da academia? A história, enquanto matéria dedicada à interpretação de processos sociais e à construção de identidades individuais e coletivas, oferece ferramentas para responder à minha pergunta. Entretanto, estamos falando ao mesmo tempo de uma disciplina que contradiz minha própria motivação se considerarmos que ela foi criada a partir de uma lógica branca, masculina e eurocêntrica. As ferramentas da história e da academia como um todo precisam ser empretecidas na forma de uma ciência para o negro, conforme sinalizado pelo sociólogo Eduardo Oliveira e Oliveira e pela historiadora Beatriz Nascimento nos anos 1980. Entendendo-me como continuidade, essa é minha missão, definida por meus ancestrais. É isso que me motiva a seguir fazendo ciência, diariamente.

Como sua formação está presente no trabalho que você faz hoje?

Giovana Xavier Voltando à minha mãe para responder a pergunta, ela se formou em 1977 na Uerj, que atualmente encontra-se em estado de absoluta precariedade devido à corrupção e ao descaso do Estado com a educação, o que muito me entristece e indigna, sobretudo por saber do pioneirismo que esta universidade ocupa na implantação do sistema de ações afirmativas por raça e classe no Brasil, o que também justifica o desmonte a que está sujeita. Pode parecer que estou fugindo da pergunta, mas refletir sobre minha mãe, a Uerj e a precariedade atual tem a ver com com pensar na minha carreira. Em como me tornei uma professora doutora na maior universidade do Brasil aos 34 anos. Realizei toda a minha formação em história (graduação, mestrado, doutorado, pós-doutorado) em universidades públicas distintas (UFRJ, UFF, Unicamp) e com acesso a todas as modalidades de bolsa de pesquisa (com doutorado sanduiche de um ano na New York University).

O acúmulo dessas vivências torna minha trajetória representativa do poder das transformações sociais que vivenciamos nas duas últimas décadas. Como desdobramento das conquistas, posso dizer que a articulação entre subjetividade e objetividade, presente na autonomeação @pretadotora (minha conta no Instagram e meu blog) dão o tom a tudo que faço hoje. Embora já tenha desistido de enumerar as ações em que estou envolvida (projetos de pesquisa, aulas e orientação na graduação e na pós, produção de textos para revistas científicas, blogs e jornais, conferências, palestras etc.) creio que valha a pena me deter na criação e coordenação do Grupo Intelectuais Negras UFRJ. Trata-se de uma proposta pioneira no Brasil.

A de tecer um espaço acadêmico gerido exclusivamente por mulheres negras e que questione de dentro as estruturas da supremacia branca, estruturas estas que organizam a universidade desde a distribuição de recursos até a produção de currículos e programas de curso, na sua maioria, centrados nas experiências de sujeitos brancos. Assim, eu gosto muito de repassar minha trajetória.

Em um exercício complexo de produção de uma “escrita de mim”, observo que durante 13 anos fui protagonista de um processo de formação conduzido pelo mainstream acadêmico, que, sabemos, é branco. A questão aqui não é sobre individualização e culpa branca. Tenho muitos amigos brancos e alguns deles foram e continuam sendo essenciais para eu estar onde estou. São os casos, por exemplo, da jornalista Josélia Aguiar e da acadêmica Amana Mattos, feministas brancas com quem aprendo muito sobre cuidado, afeto e relações raciais. Mas falo aqui sobre como o racismo é uma estrutura que define lugares.

Ter sido formada no mundo acadêmico branco e, de certa forma, virar o jogo, recusando o posto de negra “brilhante” e “excepcional” como única possibilidade de inserção profissional e, em vez disso, colocando no centro da narrativa os saberes de mulheres negras como determinantes para a formação do Brasil, tem sido minha maior conquista e também meu maior desafio. Desafio porque essa vitória não é permanente. Ela requer muita escuta, observação e habilidade para manutenção e fortalecimento, pois seguimos em minoria nos espaços de prestígio e poder.

Vem daí a importância de termos projetos político acadêmicos individuais e coletivos centrado nas experiências de mulheres negras, sempre bom lembrar, maioria da população brasileira. O Grupo Intelectuais Negras UFRJ, assim como a disciplina homônima que criei e ministro desde 2015 na UFRJ são exemplos bem-sucedidos de criação e manutenção desse tipo de projeto. Professora e estudantes (na sua maioria negros) passam um semestre lendo, debatendo e produzindo única e exclusivamente a partir dos saberes orais e escritos de mulheres negras. Vêm daí ensinamentos muito potentes, como o do reconhecimento de avós, mães, irmãs, tias e vizinhas como intelectuais. Da descoberta do gosto pela escrita, do despertar do desejo de seguir na carreira acadêmica. Protagonizar essa transformação comprova que é possível e necessário produzir conhecimento a partir das nossas histórias pretas e, não menos importante: fazer isso por meio do reconhecimento do amor como ferramenta política de resistência e reinvenção.

É esse sentimento que explica o fato de estarmos aqui até hoje, a despeito de todas as violências e desumanizações que nos são impostas ao longo da história. Como diz a feminista afroamericana bell hooks (que escolhe assinar seu nome assim, com letras minúsculas) e a incrível filósofa e amiga Djamila Ribeiro “o amor cura”. O amor preto cura e reconhecer o papel que a subjetividade do corpo preto desempenha no conhecimento científico que produzimos dentro e fora da academia, na forma de aulas, artigos, livros, palestras, creio, é a maior contribuição que tenho ofertado à minha comunidade nos ��ltimos anos. Trata-se de um retorno do investimento que recebi de Sonia, Leonor, Elenir e do Estado brasileiro democrático.

O que mudou entre a sua expectativa e a realidade?

Giovana Xavier Essa é uma pergunta boa para ser respondida porque ela aponta numa direção de transgressão, que eu curto muito. Em sendo uma jovem negra trabalhadora que chega na universidade no fim dos anos 1990 (num tempo sem cotas), conciliando estudo e trabalho em um país no qual o fazer intelectual é pensado como privilégio e não como profissão ou trabalho, eu tinha a expectativa de conseguir um “canudo” e me tornar professora de história da educação básica.

Comecei a dar aula aos 17 anos em um projeto social com meninos em cumprimento de medida socioeducativa. Eu tinha uma percepção que meu lugar era e deveria ser a escola pública, a qual aliás já estava bastante familiarizada tanto por minha inserção como pelas memórias de infância. Sou filha de uma professora que dedicou 30 anos de sua vida a educar crianças na Escola Municipal Senador Camará, no bairro da Vila Vintém, o qual frequentei durante toda minha vida.

Ao mesmo tempo que a sala de aula escolar se colocava como destino para pobres que chegam ao ensino superior, eu tive a oportunidade de experimentar um sentido mais literal de universo que a universidade deveria representar para todos e todas que por ela passam. No primeiro ano da graduação, fui convidada para ser bolsista de Iniciação Científica CNPq do professor doutor Carlos Fico. Na mesma época, fui aluna do professor doutor Flavio Gomes, o maior especialista em escravidão e história dos quilombos no Brasil. O fato de Flavio ser um historiador negro com conhecimentos profundos sobre a nossa história mexeu muito comigo.

Sacudiu mais ainda o fato dele ter apostado em mim. Acreditar em uma universidade como a UFRJ significa sentar contigo e te dizer: “olha, graduação é só um momento. Se você investir nas aulas, nas leituras e nos demais recursos que a universidade oferece, você pode fazer um mestrado, um doutorado e se tornar professora universitária como eu”. Flavio talvez não se lembre mais, mas ele, de formas plurais, ao longo de muitos anos como meu grande formador, me disse isso. E o fato de eu ter acreditado nele passa muito por ter sido um professor negro falando com uma aluna negra. Por isso a pauta da representatividade é central na luta contra o racismo.

Em paralelo ao trabalho impecável de Flavio, outras pessoas incríveis na academia apostaram em mim, como minha grande amiga e parceira de trabalho, a professora doutora Martha Abreu, meu amigo professor doutor Álvaro Nascimento e outros como a antropóloga doutora Olívia Cunha e a historiadora doutora Hebe Mattos. Todas essas pessoas me ensinaram a transgredir a expectativa de me tornar professora da educação básica como um limite. Elas foram decisivas para que eu ressignificasse o diploma da graduação como uma etapa inicial rumo à construção de uma carreira acadêmica sólida e respeitada.

Agora, a vida é uma encruzilhada, então não se trata de hierarquizar escola e universidade porque esse, a meu ver, é o maior erro que a academia e muitos de meus colegas cometem, por preconceito e desconhecimento. E eu fui entender isso por meio da minha própria trajetória acadêmica. Em 2012, defendi “Brancas de almas negras? Beleza, cosmética e racialização na imprensa afro-americana (EUA, 1890-1930)”, uma pesquisa inédita sobre a cosmética negra no pós-abolição dos EUA, orientada pelo querido professor doutor Sidney Chalhoub.

De novo, o “destino esperado” era que eu me tornasse professora de história da América. Como dizem os novinhos, “tudo armado”. Mas, como historiadora, eu sei que passado e presente caminham juntos. Assim, em 2013, dei um passo importante na busca pelo meu caminho de casa, fazendo concurso para Faculdade de Educação da UFRJ e tornando-me professora do curso de licenciatura em história. Quero dizer com isso que, de uma maneira não linear, minha expectativa de ser professora da educação básica pública abriu os caminhos para a realidade que hoje me define: uma acadêmica que reforça o compromisso com a educação pública por meio da formação de futuros professores de história e pedagogas.

Qual a maior dificuldade da profissão que você escolheu? E qual o melhor aspecto?

Giovana Xavier A maior dificuldade de ser historiadora no Brasil passa por tudo escrito acima. Dedicar-se à pesquisa num país em que 19,8 milhões de pessoas vivem a condição da pobreza (com recursos de até R$140) e em que oito pessoas concentram metade da renda de toda a população pobre não é tarefa simples, relacionada apenas a uma ideia universal e falsa da palavra “escolha”. Questões relacionadas às desigualdades raciais e de classe interferem diretamente na ordem do querer. Do que cada pessoa será “quando crescer”. E precisamos encarar isso como uma premissa se quisermos de fato democratizar a produção e o acesso ao conhecimento no país.

A profissão do historiador exige uma disciplina rigorosa de escrita, leitura, pesquisa em arquivos (que, em geral, funcionam em dias e horários restritos), conhecimento de outros idiomas e poder aquisitivo para compra de livros, realização de viagens e outros movimentos intelectuais. Isso não condiz com a realidade da maioria da juventude brasileira, que acaba sendo empurrada para o mercado informal ou para os empregos de bater cartão de ponto.

Diariamente recebo e-mails e escuto histórias de estudantes que desistem de estudar porque “precisam trabalhar”. São arrimos de suas famílias. Esse é o Brasil da casa-grande que é difícil à pampa transgredir. Ao mesmo tempo, essa avaliação macro não é determinante das experiências de todo mundo que ingressa na carreira. As formas de sermos historiadores têm também se ampliado. Falei bastante da sala de aula, tanto na universidade quanto na educação básica, que são as, digamos assim, clássicas formas de inserção na área. Mas há também os centros de pesquisa, de memória, os museus, as empresas de consultoria, o turismo étnico, a televisão. Todos esses são nichos do fazer histórico que têm se fortalecido no Brasil, embora as oportunidades ainda sejam menores do que as demandas.

O que você diria para alguém que está pensando em trabalhar com história?

Giovana Xavier“Se quer ir rápido vá sozinho, se quer ir longe vá em grupo”. Esse provérbio africano mostra a importância de desde cedo aprendermos a valorizar a construção de redes e as experiências coletivas em nossas formação profissional. No caso da história, isso é muito importante porque infelizmente a cultura hegemônica da academia nos ensina de formas muito perversas que para nos afirmarmos na área científica devemos primar pelo individualismo e pela competitividade.

Nesse sentido, sendo quem sou, proponho que quem pensa em trabalhar com história comece desde cedo a dar vida e alimentar sonhos e projetos de transgressão. Ao chegar à universidade,  invista em criar seus ídolos, suas referências. Para viver no espaço acadêmico precisamos oxigenar nossas mentes com pessoas e projetos que nos inspiram. Se não tudo pode ser muito monótono e traumatizante.

Busque amigos, grupos de pesquisa e disciplinas que estimulem as formas de produção de conhecimento cooperativas. Procure coletivos de estudantes universitários que ofereçam redes de apoio. Elas vão desde receber aquele sorriso, dividir um pacote de biscoito, até escrever e revisar textos em grupo, aprender idiomas, potencializando as habilidades do eu em proveito de uma comunidade.

Ao mesmo tempo, investir na formação individual  é essencial. Reserve no mínimo quatro horas por dia para leituras e registros acerca de textos de diferentes gêneros (acadêmicos, literários, de blogs etc.), visitas a instituições de pesquisa, lugares de memória. Eu sei que vamos cair naquela perguntinha básica: quem pode reservar quatro horas ao dia para ler e investir no trabalho intelectual em nosso país? De fato, não é fácil, eu sei. Mas ninguém disse que seria. Existe o elemento prático do cansaço, quando chegamos à universidade após um dia de trabalho, com fome, sem grana. Mas há também a guerra que precisamos travar contra nós mesmos, reconhecendo a importância de reeducarmos nosso corpo e nossa mente para sermos quem quisermos ser. Isso passa por forjar tempo para leitura e escrita, usando por exemplo os celulares como nossas bibliotecas móveis. As condições nesse caso não são as ideais, mas são as possíveis. Aconteça o que acontecer como seres humanos poderemos sempre nos reinventar, como costumo dizer, transformando margens em centros.

Você pode substituir Mulheres Negras como objeto de estudo por Mulheres Negras contando as suas próprias histórias.

Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project.

Já é assinante?

Entre aqui

Continue sua leitura

Para acessar este conteúdo, inscreva-se abaixo no Boletim Coronavírus, uma newsletter diária do Nexo: