Profissão

Como me tornei restauradora e conservadora de arte. E a vida entre museus

Foto: Denise Andrade

Coordenadora do acervo do Masp, ela afirma que há grandes desafios para essa área no Brasil, sendo o principal deles a falta de reconhecimento da profissão

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Formada em história, Cecília Winter conta que a princípio visualizava a trajetória acadêmica como sua única via. Aos poucos, começou a se interessar pelos estudos de patrimônio e cultura material e, quando fez seus primeiros trabalhos com catalogação de acervos de museus, sentiu que se encontrou.

 

Atuando na produção e montagem de exposições, descobriu a existência do trabalho de courier – pessoa que acompanha as obras em exposições itinerantes, garantindo sua conservação e integridade. Para fazer isso profissionalmente, no entanto, precisava se especializar em conservação e restauro, o que a levou a uma nova graduação e um mestrado na área, numa temporada de seis anos na França e estágios em museus nos EUA.

 

Atualmente, ela é coordenadora do acervo do Masp (Museu de Arte de São Paulo), onde trabalha com conservação preventiva e documentação de acervos. Ela conta que se decepcionou com o trabalho de restauro quando voltou ao Brasil: os colecionadores não estão interessados em conservação preventiva, os museus brasileiros não investem tanto em pesquisa quanto nos EUA e na Europa, e a profissão não é muito reconhecida no país. Ela aponta, por outro lado, que o desafio é justamente este, trabalhar para que a conservação e o restauro sejam vistos como uma área produtora de conhecimento.

Como você chegou a essa carreira? O que te motiva? Por que você a escolheu?

 

CECÍLIA WINTER Eu fui descobrindo a existência da possibilidade de trabalhar com exposições e conservação de obras de arte aos poucos, ao longo da minha formação e empregos – nunca foi uma escolha de fato. Tive um professor de história incrível nos dois últimos anos de colégio, então na hora de prestar vestibular nunca tive muita dúvida do que fazer. Comecei a fazer iniciação científica logo no primeiro ano. O contato com as pesquisas acadêmicas me fascinava e me assustava ao mesmo tempo, porque no fundo sabia que aquele mundo puramente intelectual não era muito a minha praia.

 

No segundo ano da faculdade, entrei em contato com o mundo dos museus em um curso optativo no MAE-USP (Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo). Também se tratava de um curso teórico, mas que introduziu um elemento importante: a possibilidade de estudar a cultura material e o patrimônio.

 

No ano em que terminei a graduação estavam abertas as inscrições para a terceira turma do curso de especialização em museologia do MAE. Achei que seria uma ótima oportunidade de juntar o assunto da iniciação científica e o interesse pelo estudo de patrimônio e cultura material, além de adiar por um tempo a responsabilidade de entrar no mestrado.

 

Nessa época ainda não via outra carreira possível que não fosse a acadêmica. Isso durou até o momento dos estágios do curso de museologia, quando fiz meus primeiros trabalhos com catalogação de acervos no Solar da Marquesa e adorei.

 

Logo depois do curso apareceu uma vaga temporária para trabalhar com o acervo museológico do IEB (Instituto de Estudos Brasileiros), uma ótima maneira de adiar o mestrado mais um pouquinho. Fiz o concurso e não entrei, mas uma das pessoas da banca me indicou para uma vaga na Expomus e assim fui trabalhar na catalogação de uma coleção privada e depois na implementação do Museu Afro Brasil, no Ibirapuera. Trabalhando na produção e montagem da primeira exposição temporária do museu, vi que era aquilo que eu queria fazer, mas ainda tinha uma certa pressão para voltar ao mundo acadêmico.

 

Pedi demissão e entrei no mestrado. Mesmo com um orientador incrível, tema fascinante e bolsa em dólar, passava os dias deprimida na frente daqueles documentos e microfilmes, perguntando-me qual era o objetivo daquela pesquisa. Ao mesmo tempo, minha antiga chefe na Expomus me ligou falando de projetos de catalogação e exposições bastante tentadores.

 

Depois de seis infelizes meses no mestrado, passei a trabalhar meio período no projeto de uma exposição sobre os cem anos da imigração japonesa. O prazer de trabalhar com outras pessoas, e com um objetivo e data definidos, deixou claro que seria insustentável tocar o mestrado. Comuniquei meu desligamento quando já estava com a qualificação quase pronta e nunca me arrependi nem por um segundo.

 

Foi trabalhando com produção e montagem de exposições que fiquei sabendo que existia o trabalho de courier – a pessoa que acompanha as obras em exposições itinerantes em todas as etapas, garantindo sua conservação e integridade. Também fui percebendo que a maior parte das pessoas que viajavam como courier tinham uma formação em conservação e restauro. Fui atrás de cursos no Brasil e só existia uma especialização em Belo Horizonte. Conversei com um ex-professor do curso de museologia, que na época dirigia a Pinacoteca do Estado, e pedi um estágio na área de conservação, mas ele me disse que só aceitavam estagiários que estivessem cursando restauro. Foi ele que me deu o conselho de ir estudar fora do Brasil, procurei cursos nos EUA, França, Itália e Inglaterra e acabei optando pela França, por ser o único curso gratuito e por já ter alguma familiaridade com a língua.

 

Morei seis anos em Paris, um ano estudando para entrar no curso, afinal, são apenas cinco vagas por ano, e os restantes, cursando a graduação e um mestrado em conservação e restauro de pinturas. Sabendo da predileção francesa por materiais mais tradicionais e certa resistência pelos materiais sintéticos e técnicas experimentais, busquei fazer estágios nos EUA para complementar minha formação, passando pelo Lacma (Los Angeles County Museum of Art), Smithsonian e MoMA (The Museum of Modern Art).

 

Como sua formação está presente no trabalho que você faz hoje?

CECÍLIA WINTER Hoje não trabalho diretamente com restauro, mas com conservação preventiva e documentação de acervos. Gosto de dizer que sou historiadora quando trabalho com restauro e que sou conservadora-restauradora quando trabalho com documentação de acervo. Tudo se complementa.

 

O restaurador tem uma responsabilidade enorme de trabalhar diretamente na matéria de objetos e obras que terão uma existência muito maior que a nossa e são fontes de informação sobre a nossa sociedade tanto quando os documentos escritos.

 

Mesmo com uma base sólida em química e física dos materiais, temos que ter consciência de que nosso trabalho não deixa de ser subjetivo e é permeado por escolhas o tempo todo.

O que mudou entre a sua expectativa e a realidade?

CECÍLIA WINTER Como fui descobrindo a carreira e o trabalho com exposições e museus aos poucos, nunca tive uma expectativa do que poderia ser, já fui apresentada diretamente à realidade.

 

Já com o trabalho de restauro, tive muita expectativa e uma certa decepção quando voltei ao Brasil. Fui buscar uma formação no exterior com a expectativa de voltar e conseguir me estabelecer no mercado com facilidade, já que seria “mão de obra qualificada”. Mas a realidade é que os colecionadores brasileiros não são muito interessados em conservação preventiva e quando precisam restaurar uma obra não querem saber se a pessoa que vai restaurar tem formação ou não, basta apresentar o menor orçamento.

 

Nos museus, a realidade é um pouco diferente: os profissionais são qualificados e preocupados em se manter atualizados. Mas ainda estamos longe de ter departamentos de conservação e restauro como nos EUA e na Europa, onde eles são reconhecidos pelos próprios museus como centros de pesquisa e geradores de conhecimento sobre a coleção. Aqui, poucos museus têm ateliês de restauro próprios, e os que existem funcionam quase como um prestador de serviços internos.

 

Qual a maior dificuldade da profissão que você escolheu? E qual o melhor aspecto?

CECÍLIA WINTER Diria que, no Brasil, a maior dificuldade é trabalhar sem o reconhecimento da profissão: qualquer pessoa pode dizer que é restauradora e isso já basta para poder trabalhar no mercado e atuar em coleções institucionais ou museus.

 

O melhor aspecto é justamente o outro lado da moeda dessa falta de profissionalização; a conservação e o restauro ainda têm muito caminho até serem reconhecidos como uma área de pesquisa que seja vista como produtora de conhecimento; isso é muito desafiador.

 

O que você diria para alguém que está pensado em trabalhar com conservação e restauração de obras de arte?

CECÍLIA WINTER O principal é buscar uma boa formação, pois existem poucos cursos universitários bons no Brasil e muitos workshops rápidos que prometem formar conservadores e restauradores capazes de trabalhar com diversos materiais em poucos meses. Se houver interesse em trabalhar com restauro, recomendo buscar uma especialização em apenas um material, pois não tem como ser um bom restaurador de pintura e metal ao mesmo tempo.

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