Profissão

Como me tornei diplomata. E a vida entre países e culturas

Foto: Arquivo pessoal

Médico de formação, ele conta que o dinamismo e a diversidade que a nova carreira proporciona fizeram com que mudasse de rumo

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Marcelo Costa se formou em medicina e chegou a fazer residência em infectologia, mas não seguiu essa carreira. Decidiu alterar o rumo de sua trajetória e se tornar um diplomata, opção que nunca havia cogitado antes e que representou uma grande mudança de estilo de vida.  

 

Desde então, trabalhou na Agência Brasileira de Cooperação, em Brasília, na área de relações com o Haiti, e, em seguida, no departamento da África. Depois, foi chefe da assessoria internacional da Secretaria-Geral da Presidência da República e, finalmente, assessor especial do prefeito de São Paulo, Fernando Haddad - em ambos os casos, cedido pelo Ministério das Relações Exteriores. Hoje, atua na Missão do Brasil na ONU (Organização das Nações Unidas), em Nova York, onde acompanha temas de saúde global.

 

Buscando não romantizar a profissão, ele elogia o dinamismo e a diversidade que o trabalho proporciona, mas pondera que se tornou difícil planejar o futuro e conciliar vida profissional e pessoal. 

 

Como você chegou a essa carreira? O que te motiva? Por que você a escolheu?

 

MARCELO COSTA Estudei medicina, na Universidade Federal da Paraíba. Após me formar, iniciei a residência médica em infectologia, no Instituto Emílio Ribas, em São Paulo, com a perspectiva de seguir carreira acadêmica e de trabalhar em uma organização internacional da área de saúde.

 

No fim de 2006, quando o Brasil vivia um período de ativa presença internacional, e o Itamaraty passava por um processo de expansão dos seus quadros, achei que seria um bom momento para fazer uma mudança de rumos profissionais. Até então, nunca havia cogitado ser diplomata. Embora admirasse a carreira, não parecia factível para quem vinha se preparando há tanto tempo para se tornar médico.

 

A diplomacia me interessou por ser uma profissão dinâmica, em que é preciso estar sempre se reinventando para lidar com temas e realidades muito variados, e, especialmente, por  poder fazer isso em prol do interesse público.

 

Como sua formação está presente no trabalho que você faz hoje?

 

MARCELO COSTA Atualmente, na Missão do Brasil na ONU, em Nova York, acompanho temas de saúde global. É uma feliz coincidência, mas uma circunstância muito específica, que me faz ter a chance de lidar objetivamente com assuntos estudados durante minha graduação.

 

No entanto, acredito que a maior contribuição da formação médica para minha atuação diplomática foi a noção de que é preciso estabelecer empatia com o outro e buscar compreender meu interlocutor sem ideias preconcebidas. Além disso, creio que a experiência de ter atuado no sistema público de saúde brasileiro me ajuda a entender melhor o país.

 

O que mudou entre a sua expectativa e a realidade?

 

MARCELO COSTA Entendo que, de forma geral, ainda existe uma imagem pública romantizada do exercício da diplomacia. Quem se basear nessa ideia para fazer a escolha poderá se surpreender, ao se confrontar com uma realidade mais complexa. Acho importante ter em mente que a diplomacia, não só no Brasil, mas em todo o mundo, tem passado por importantes transformações.

 

As mudanças decorrem, por um lado, de novas configurações de poder internacional, e, sobretudo, eu diria, dos avanços tecnológicos recentes, que têm alterado a forma de nos comunicarmos, contribuindo, por exemplo, para despertar maior interesse da sociedade por temas de política externa.

 

Dessa forma, imagino ter observado, em quase uma década de carreira, algumas tensões que refletiriam essas mudanças na “maneira de fazer” a diplomacia.

 

Qual a maior dificuldade da profissão que você escolheu? E qual o melhor aspecto?

 

MARCELO COSTA Sem considerar questões extremas e muito eventuais, como possíveis dilemas de consciência, diria que uma grande e usual dificuldade é a imprevisibilidade sobre o futuro. Isso nos leva frequentemente a situações em que não é simples conciliar interesses profissionais e pessoais ao longo dos anos.

 

O melhor aspecto é o dinamismo do trabalho e a possibilidade de conhecer novos lugares, culturas e de conviver com pessoas de diferentes origens e trajetórias, tanto internamente no Itamaraty, quanto com os colegas estrangeiros com quem nos relacionamos.

 

O que você diria para alguém que está pensando em ser diplomata?

 

MARCELO COSTA Trata-se, como tantas outras, de uma carreira muito interessante e desafiadora, mas com algumas peculiaridades. Não deve ser vista com deslumbramentos, pois isso poderá levar, cedo ou tarde, a frustrações.

Além de uma opção de carreira profissional, é também uma escolha de estilo de vida que irá impactar sua relação com a família, amigos e com seu lugar de origem.

Em geral, incentivo a escolha, pois acredito que é uma carreira que pode oferecer oportunidades únicas e muitas possibilidades de realizações tanto pessoais quanto profissionais. Sem contar que o próprio processo preparatório para admissão no Instituto Rio Branco é, por si só, bastante enriquecedor.

 

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