Profissão

Como me tornei médica infectologista. E a vida entre pacientes e hospitais

Foto: Arquivo pessoal

Ela passou pela organização Médicos Sem Fronteiras e vacinou indígenas no Xingu antes de escolher sua especialidade

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Ainda na faculdade de medicina, Sumire Sakabe vacinou a população indígena do Xingu e trabalhou no Programa Universidade Solidária de Ruth Cardoso, na Bahia e no Pará. Depois, atuou na organização Médicos Sem Fronteiras, no Sudão. Conheça a trajetória da médica infectologista, que trabalha atualmente no Centro de Referência em DST/Aids de São Paulo, suas dificuldades e motivações.

Como você chegou a essa carreira? O que te motiva? Por que você a escolheu?

SUMIRE SAKABE Filha de pai ortopedista, difícil saber exatamente como e quando decidi ser médica. O primeiro impulso (ou segundo, que o primeiro era estudar biologia marinha) foi ser aluna na FGV (Fundação Getúlio Vargas), "para ter um trabalho que fizesse diferença para muita gente ao mesmo tempo". Não me apaixonei e uma mistura de curiosidade e desafio (bons alunos são sempre empurrados para algumas carreiras...) me levou à Escola Paulista de Medicina, de onde eu pensei em fugir muitas vezes, maçantes que eram os cursos básicos. Fui "salva" pelo professor Luiz Eugenio Mello, na iniciação científica no laboratório de Neurofisiologia, que absorveu horas e horas dos meus primeiros anos de graduação. 

 

Daí a me apaixonar pela ideia de resolver problemas reais, foi um caminho longo e delicioso. A graduação ainda me abriria portas e olhos mundão afora, vacinando a população indígena do Xingu e trabalhando no Programa Universidade Solidária da professora Ruth Cardoso, na Bahia e no Pará. Ainda naqueles anos, em um tempo pré-Euro, mochilando na Europa, onde íamos a cada banco para trocar liras, pounds, francos, havia um cartaz e uma senhorinha fazendo um pequeno depósito na conta da organização MSF (Médicos Sem Fronteiras). Isso era 1995 e nessa mesma viagem fui visitar a sede [da organização] em Paris. Essa ideia me acompanhou sempre e influenciou minhas escolhas futuras.

 

O treinamento em infectologia saciava muitas das minhas necessidades: cuidar de pacientes e não de órgãos ou sistemas, curar doenças e tratar malária, HIV ou tuberculose me pareceu uma forma eficiente de fazer a diferença para muita gente ao mesmo tempo. Treinada em hospitais de alta complexidade, fiz mestrado na bancada de laboratório e fui me pôr à prova atendendo gente embaixo de árvore, com MSF, no Sudão. E porque o mundo é mesmo grande, tempos depois fui cuidar de gente (e brigar com bactéria) na Inglaterra, onde trabalhei com microbiologia médica e vivi a realidade de outro serviço público de saúde.

 

Como sua formação está presente no trabalho que você faz hoje?

SUMIRE SAKABE Hoje trabalho no nosso SUS (Sistema Único de Saúde), cuidando de gente com tuberculose e HIV. Trabalho ainda em um hospital privado de alta complexidade, na cidade de São Paulo. Costumo brincar que meu trabalho é um vício. Faz mal, dá um prazer incrível, mas pouco duradouro, o que faz você sempre procurar mais.

 

O que mudou entre a sua expectativa e a realidade?

SUMIRE SAKABE Acho que eu tinha poucas expectativas, minha visão era muito contaminada pelo trabalho do meu pai: para mim, a medicina era como a vida dele era. Isso foi bom, porque tudo de positivo que eu não sabia veio como bônus. Quanto às situações ruins que meu pai preferiu me deixar descobrir sozinha, penso que são parte da minha descoberta do nosso mundo e os jeitos perniciosos que norteiam muitos aspectos da vida.

Qual a maior dificuldade da profissão que você escolheu? E qual o melhor aspecto

SUMIRE SAKABE Você não desliga nunca. Mas sabe quando você faz uma boa ação gratuita? Aquela sensação de ajudar alguém a atravessar a rua, ou encontrar seu vizinho com muitos pacotes e dizer "eu ajudo você"? Pois sou paga para ter essa sensação em situações de vida e morte, todos os dias.

O que você diria para alguém que está pensado em ser médico?

SUMIRE SAKABE São intermináveis anos de treino e é um trabalho que, de algum jeito, define quem você é. Só vale a pena se lhe der prazer. Nessa situação, as noites em claro, as decisões difíceis, a vida social sempre atrapalhada, o desassossego de trabalhar em sistemas públicos e privados que ainda precisam melhorar muito, serão parte do desafio. Caso contrário, serão sacrifício cruel e fonte de sofrimento.

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