Você precisa torcer para um estuprador?
Foto: Claudio Pozo/Flickr - creative commons

    Você precisa torcer para um estuprador?

    Robinho não entrará em campo por ora. Parece uma vitória. Mas não é. O Santos não viu problema na postura do homem que ri da mulher embriagada que ele estuprou com mais quatro amigos. O Santos achou que ele precisava focar na sua defesa

    O assédio na vida da mulher que trabalha no esporte é tão miseravelmente corriqueiro que várias vezes me esqueço de tudo que já passei e presenciei. Mas o caso Robinho fez ressurgir das cinzas uma fênix infeliz, exausta e chamuscada.

    O jogador foi condenado na Itália a nove anos de prisão, por estupro coletivo. Em janeiro de 2013, ele e mais quatro amigos teriam praticado violência sexual contra uma mulher de 23 anos, numa boate, em Milão. A sentença saiu em 2017 e a defesa recorre nas duas instâncias remanescentes. Conforme mostram os grampos realizados pela justiça italiana à época e revelados nesta sexta-feira (16), porém, não havia dúvida sobre a situação da vítima naquela noite: “Estou rindo porque não estou nem aí, a mulher estava completamente bêbada, não sabe nem o que aconteceu”, disse Robinho ao telefone. “Vi (Nome de Amigo 2) e os outros foderam ela, eles vão ter problemas, não eu... Lembro que os caras que pegaram ela foram (Nome de Amigo 1) e (Nome de Amigo 2)... Eram cinco em cima dela”, ele continuou. O interlocutor indagou se tinham transado, dizendo “eu te vi quando colocava o pênis dentro da boca dela”. Ao que Robinho respondeu apenas: “Isso não significa transar.”

    A pressão após a revelação das gravações foi tamanha que a noite da mesma sexta-feira terminou com a suspensão do contrato entre o atleta e o Santos. Houve ameaça de rescisão de contratos de patrocínio e enorme repercussão negativa entre conselheiros, torcedores e na imprensa. (Vale notar que apenas um dos dez parceiros, a Orthopride, anunciara sua saída de imediato, diante da contratação de um jogador condenado por estupro; os outros precisaram dos grampos para se convencer da insustentabilidade da situação.)

    Robinho não entrará em campo por ora. Parece uma vitória. Mas não é. Diz o seguinte a nota oficial: “O Santos Futebol Clube e o atleta Robinho informam que, em comum acordo, resolveram suspender a validade do contrato firmado no último dia 10 de outubro para que o jogador possa se concentrar exclusivamente na sua defesa no processo que corre na Itália.”

    O Santos, como instituição, não viu problema na postura do homem que ri da mulher embriagada que ele estuprou com mais quatro amigos. O Santos, como instituição, achou que ele precisava focar na sua defesa. Claro que, na verdade, o Santos, como instituição, entendeu que insistir na contratação custaria caro demais aos seus cofres (os contratos comerciais somam algo como R$ 20 milhões ao ano). Foi uma decisão econômica, não moral. O Santos que usou suas redes sociais este ano para falar da violência contra a mulher e da luta contra o feminicídio, deixou claro que, como instituição, não dá valor algum a mulheres.

    Quem acompanhou o caso na última semana viu tentativas incontáveis de se passar pano para o Menino da Vila. Ainda cabe recurso. Ninguém sabe o que realmente aconteceu. Talvez seja mentira.

    Mas por que é tão fácil acreditar que mulheres mentem sobre estupro e tão difícil conceber que homens ricos, famosos, celebrados, numa sociedade machista e com enorme histórico de impunidade, cruzam a linha? Quando a vasta maioria dos casos nem sequer é denunciada e homens seguem (muitíssimo bem) empregados mesmo condenados, o que nos faz acreditar que a mulher tem a ganhar inventando uma história tenebrosa de brutalidade? O tipo de publicidade ao qual se expõe a sobrevivente, afinal, quase nunca é favorável.

    O mais recente Anuário Brasileiro de Segurança Pública aponta que, em 2018, o Brasil bateu seu recorde anual de estupros reportados: 66 mil, ou 180 por dia. Acredita-se, porém, que o número seja profundamente subnotificado e que a realidade esteja mais próxima dos 300 a 500 mil casos por ano. É possível que, desde esse último levantamento, quase 1 milhão de mulheres tenham sido estupradas. Não existe estudo brasileiro sobre falsas notificações, mas na Europa e nos Estados Unidos trabalha-se com a estimativa de 5% do total. Lembremos, porém, que isso costuma incluir casos encerrados por falta de provas, que não equivalem, necessariamente, a denúncias falsas. Um dos elementos perversos sobre a violência sexual é justamente a dificuldade em prová-la, o que adiciona à receita mais um ingrediente cruel: a agressão à vítima com pitadas de vitimização do agressor.

    A mesma pesquisa de 2018 mostra que os principais motivos por trás da baixa notificação são o medo de retaliação, julgamento e descrédito. Não espanta, então, um levantamento de 2016, segundo o qual 43% dos homens com mais de 16 anos pensam que “mulheres que não se dão ao respeito são estupradas”. Ou não vão acreditar em mim ou vão achar que, de algum modo, a culpa foi também minha.

    Esta que habitamos é uma sociedade desigual, machista, racista e patriarcal

    Como mulher e jornalista, sigo querendo driblar o assunto estupro. O problema é que ele não desaparece de vista, como um zagueiro entortado por Garrincha ou um goleiro que escolhe o canto errado de um pênalti bem batido. Uma rápida passagem pelo Google nos traz histórias deprimentes de Robinho, Cristiano Ronaldo, Marcelinho Paraíba, Mancini e companhia. Dentre esses muitos, dois casos me chamam a atenção.

    Cuca, acusado com outros três jogadores do Grêmio, de estuprar uma menina de 13 anos num hotel suíço, em 1987, foi também condenado pela justiça local. Ele, Eduardo Hamester, Fernando Castoldi e Henrique Etges tê-la-iam imobilizado e estuprado, no que os jogadores depois disseram considerar uma orgia. A defesa e a imprensa brasileira focaram no fato de que ela “não parecia” ser menor de idade e de que haveria se oferecido aos rapazes. Após 28 dias na cadeia em Berna, os atletas pagaram fiança e se viram liberados até a conclusão do julgamento. Ao pousar no aeroporto, em Porto Alegre, foram recebidos como heróis, vítimas, mártires. A condenação saiu, mas eles nunca voltaram à Suíça para cumprir pena. Cuca alcançou enorme sucesso na carreira de treinador. A menina violentada tentou se matar dois anos depois. Cuca é hoje técnico do Santos.

    Nessa realidade inescapável, o caso do Jobson é especialmente chocante. Acusado de estuprar cinco meninas menores de idade depois de embebedá-las, foi por causa do uso de cocaína que se viu suspenso pela Fifa. Nem a violência sexual contra crianças nem um acidente de carro com morte foram suficientes para tirá-lo do futebol uma vez cumprida a suspensão.

    Sem falar no goleiro Bruno, aquele que, condenado por mandar matar e esquartejar a namorada grávida, saiu da cadeia com propostas para voltar a atuar nos campos.

    Apoio incondicionalmente a presunção de inocência e a reintegração à sociedade. Esta que habitamos, contudo, é uma sociedade desigual, machista, racista e patriarcal, em que as vítimas lutam não só contra seus agressores, mas também contra o sistema e a opinião pública. Permitir que pessoas como Robinhos e Cucas e Jobsons e Brunos ocupem lugar de destaque, posição de idolatria, sirvam de exemplo para crianças e adultos é inaceitável. Há aí, sem dúvida, um recorte de raça e classe que não deve ser ignorado, mas a mensagem que se transmite é de que seu comportamento fora de campo é basicamente irrelevante, desde que entreguem resultados dentro dele. Fica o recado de que mulheres e meninas valem pouco ou quase nada.

    Na falta de certezas, trago apenas perguntas: você precisa ter como ídolo alguém acusado (em alguns casos, diversas vezes) de estupro? Seu clube precisa contratar alguém que responde na justiça por um crime hediondo? Você precisa comprar para seu filho ou filha a camisa de um cara que despreza mulheres e as trata como objeto? Você precisa ser fã de um abusador? Você aceitaria que alguém condenado por estupro cuidasse de seus filhos, justificando: ah, mas foi só na primeira instância! Talvez ele moleste crianças, todavia ainda cabe recurso!

    É difícil mudar o curso do mercado do futebol e a misoginia planetária em geral, mas é possível controlar para quem oferecer nosso dinheiro e atenção. Não basta postar discurso de combate ao preconceito, faz-se necessário agir na carne para eliminar a inconcebível realidade de ainda sermos tratadas, na prática, como cidadãs de segunda classe. Faça sua parte. Não seja conivente. Não corra o risco de torcer para estupradores.

    Alicia Klein é jornalista, consultora e professora do MBA de Gestão Esportiva do Ibmec. Trabalhou na NFL, no Comitê Olímpico do Brasil, em agências de marketing esportivo e na Federação Internacional de Atletismo. É autora de “A Máquina - Michael Schumacher, o Melhor de Todos os Tempos” (editora Best Seller).

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