Do·min·go

Como os seres humanos, que põem outros seres humanos no mundo, as palavras geram outras palavras. A relação entre vocábulos da mesma origem é chamada de “cognação”, um termo que também serve para o parentesco de sangue entre membros da mesma família. Palavras cognatas são praticamente consanguíneas. E como os nossos filhos, elas crescem e se desprendem de seus ancestrais, traçando caminhos inesperados.

Assim foi com “dŏmus”, a casa, uma matriarca latina cheia de descendentes. Dela nasceu o “dominus”, o dono da casa, que logo abandonou a mãe, dando nome a senhores em geral e, com a chegada da Igreja, a um Senhor maiúsculo – considerado por muitos o dono desse nosso casebre chamado Universo. O “dominus” possuía tantas coisas que teve como descendente um adjetivo só para qualificar o que era seu: o “dominicus”, que significava “do senhor”. Esse adjetivo aliou-se a um substantivo e criou a expressão “dies Dominicus”, o “dia do Senhor”. Dominador como o pai, quando não precisou mais do “dies”, chutou-o pra fora da expressão, dando conta do sentido sozinho.

O domingo foi registrado lá pelo século 13 em português e nem conheceu a bisavó, mas é curioso que hoje muitos aproveitem para passar os domingos no próprio domicílio, honrando a matriarca. Faz sentido pensar no domingo como “o dia do dono da casa”: é quando podemos cuidar do lar e habitá-lo. Mas esse é só um encontro casual entre a árvore genealógica e a prática. O senhor que o domingo celebra é Deus.

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Sofia Mariutti é poeta e tradutora. Trabalhou como editora na Companhia das Letras entre 2012 e 2016. Em 2017, lançou pela Patuá a reunião de poemas “A orca no avião”, seu primeiro livro. Mestranda em literatura alemã pela USP, trabalha em 2019 na tradução da biografia de Franz Kafka para a editora Todavia.

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