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Do·min·go

Como os seres humanos, que põem outros seres humanos no mundo, as palavras geram outras palavras. A relação entre vocábulos da mesma origem é chamada de “cognação”, um termo que também serve para o parentesco de sangue entre membros da mesma família. Palavras cognatas são praticamente consanguíneas. E como os nossos filhos, elas crescem e se desprendem de seus ancestrais, traçando caminhos inesperados.

Assim foi com “dŏmus”, a casa, uma matriarca latina cheia de descendentes. Dela nasceu o “dominus”, o dono da casa, que logo abandonou a mãe, dando nome a senhores em geral e, com a chegada da Igreja, a um Senhor maiúsculo – considerado por muitos o dono desse nosso casebre chamado Universo. O “dominus” possuía tantas coisas que teve como descendente um adjetivo só para qualificar o que era seu: o “dominicus”, que significava “do senhor”. Esse adjetivo aliou-se a um substantivo e criou a expressão “dies Dominicus”, o “dia do Senhor”. Dominador como o pai, quando não precisou mais do “dies”, chutou-o pra fora da expressão, dando conta do sentido sozinho.

O domingo foi registrado lá pelo século 13 em português e nem conheceu a bisavó, mas é curioso que hoje muitos aproveitem para passar os domingos no próprio domicílio, honrando a matriarca. Faz sentido pensar no domingo como “o dia do dono da casa”: é quando podemos cuidar do lar e habitá-lo. Mas esse é só um encontro casual entre a árvore genealógica e a prática. O senhor que o domingo celebra é Deus.

Isso só depois do advento do cristianismo e do latim eclesiástico. Antes disso, o domingo era pagão como os romanos, dedicado a uma divindade chamada Sol, algo que foi preservado em línguas germânicas (daí o “Sunday”). Todos os dias da semana homenageavam corpos celestes, o que ainda acontece em línguas românicas como o espanhol, o francês e o italiano. Antes da influência hebraica do “shabat”, o dia do repouso, o sábado já foi o dia de Saturno, ainda mantido no “Saturday”.

É preciso admitir: não está muito claro qual é o primeiro e qual é o último dia da semana, nem qual é o dia do repouso. A convenção do ISO 8601 determina que tudo começa na segunda e termina no domingo. E realmente descansamos no domingo, o que coincide com a tradição cristã do dia dedicado à oração. Mas essa ideia entra em conflito com outra, que importamos do Velho Testamento, de que o domingo é o primeiro dia da semana, em que Deus começa a criar o universo, e sábado é o último, de descanso. Entra em conflito também com o nome da segunda-feira, o segundo dia da semana.

Chamamos o domingo de dia do Senhor, um dia que na tradição cristã deve ser consagrado a ele, em repouso. Chamamos o sábado de dia de repouso, segundo a tradição judaica. E chamamos todos os outros dias da semana de feriados, que é o sentido por trás da palavra “feira”, inventada por um bispo de Braga para dar cabo dos dias pagãos. Enquanto alguns alegam que domingo é dia de trabalho como qualquer outro, sugiro que respeitemos os nomes dos dias da semana e apenas descansemos. Todos os dias.

Sofia Mariutti é poeta e tradutora. Trabalhou como editora na Companhia das Letras entre 2012 e 2016. Em 2017, lançou pela Patuá a reunião de poemas “A orca no avião”, seu primeiro livro. Mestranda em literatura alemã pela USP, trabalha em 2019 na tradução da biografia de Franz Kafka para a editora Todavia.

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