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Ha·ter

A língua é como uma espécie em evolução. Com o tempo, alguns termos caem em desuso, feito os dentes de siso: “crás” já foi usado para o que hoje chamamos de “amanhã”, e “alacrão” para “lacraia”. Enquanto isso, termos antigos ganham novos usos e palavras novas surgem, muitas vezes por influência de outras línguas. São como mutações genéticas que garantem a sobrevivência da espécie na boca dos falantes.

“Hater” é uma mutação em curso, que testemunhamos neste século. Já parece fazer parte da língua portuguesa, mas ainda não está definida em dicionários consagrados, como Houaiss e Aulete. O Word do meu computador não a reconhece, acaba de grifá-la de vermelho. Por outro lado, é difícil passar um dia pela internet sem deparar com um hater – e o termo já está nas páginas dos jornais. Desde que o Nexo foi lançado, em 2015, são ao menos 20 aparições, nove delas em 2019: “Os haters definitivamente estão nas redes sociais, mas não nas ruas”, escreveu Tabata Amaral no dia 29 de novembro.

Uma busca no site da Folha de S.Paulo mostra que os “haters” foram mencionados pela primeira vez em 2011 no caderno de tecnologia, e desde então o uso do anglicismo se intensificou. “O ódio uniu 58 milhões de pessoas no Brasil, que elegeram o hater preferido dos haters”, afirmou a colunista Manuela Cantuária em agosto deste 2019. Nem no Nexo nem na Folha, o termo aparece em itálico ou entre aspas, códigos para identificar um estrangeirismo ainda não incorporado à língua. Será que o hater já faz parte do nosso corpo lexical? Sem dúvida faz parte do nosso corpo social.

Em inglês, “hater” não é uma palavra nova como parece; segundo o Etymonline, data do século 14. O Collins registra um uso frequente do termo já no século 18. Talvez a palavra só tenha amado nossos tempos virtuais, e seu uso esteja vendo um novo pico, que justifica a entrada da palavra no vocabulário português. Os futuros linguistas dirão.

O Cambridge se concentra no hater de hoje, e define o termo como “informal”: “pessoa que diz ou escreve coisas desagradáveis sobre alguém ou critica seus feitos, especialmente na internet”. A seguinte frase serve de exemplo: “esqueça os haters — eles só estão com inveja”. O Oxford já fala de modo genérico em “alguém que odeia alguma coisa/ alguém”, mas traz um exemplo específico, o “woman hater”, que é o misógino: “Não sou um hater de mulheres, só não gosto de Joan”. O ódio costuma andar na esteira das mulheres.

Deve ser por isso que a Taylor Swift é obrigada a repetir que “haters gonna hate hate hate hate hate”. Se puder escolher entre ser um “lover” que ama, um amante, e um “hater” que odeia, odioso odiento, prefira sempre o primeiro.

Sofia Mariutti é poeta e tradutora. Trabalhou como editora na Companhia das Letras entre 2012 e 2016. Em 2017, lançou pela Patuá a reunião de poemas “A orca no avião”, seu primeiro livro. Mestranda em literatura alemã pela USP, trabalha em 2019 na tradução da biografia de Franz Kafka para a editora Todavia.

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