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Em junho de 1934, o ator mexicano Ramón Novarro, então sex symbol do cinema americano, participou de um campeonato de bridge no Copacabana Palace. O hotel “encheu-se de aficionados de bridge e de fans do astro cinematographico”, conforme conta a revista carioca Fon-fon. O Houaiss considera esse o primeiro registro do anglicismo “fã” na língua portuguesa, ainda com a grafia inglesa.

O dicionário americano Merriam Webster conta que a palavra “fan” teve uma rápida aparição no fim do século 17, desapareceu por dois séculos e ressurgiu no fim do 19, quando costumava ser usada para se referir a devotos espectadores de esportes. O termo não deve ser confundido com seu homônimo em inglês, que quer dizer “ventilador”, “leque” ou “ventoinha” e tem uma origem totalmente diversa. Ainda que os “fans” exaltados possam precisar de um “fan” para esfriar o sangue durante um jogo disputado.

É bastante provável que o “fan” importado por nós seja uma redução de “fanatic”, que por sua vez remonta ao latim “fanum”: “santuário, templo, lugar sagrado”. É uma dessas muitas voltas que a língua dá: nos anos 1930, nós já tínhamos a palavra “fanático” no nosso vocabulário, mas a redução do português veio por influência da redução inglesa. Pois da indústria cinematográfica americana vieram astros como Novarro, e colados neles os seus fans.

Em latim, segundo o Houaiss, “fanaticus” é aquele “que pertence ao templo” — daí o sentido religioso que damos à palavra — e pejorativamente, um “entusiasmado; louco, delirante, furioso”. Na abreviação, talvez os fãs tenham se tornado um pouco menos delirantes que os fanáticos, ou pelo contrário: a fúria daqueles que vemos perseguir seus ídolos ficou ainda mais concentrada em duas letrinhas. Mesmo com toda a loucura, o fã apaixonado tem um apelido carinhoso, “fanzoca”. Concorrem com ele o “fã de carteirinha”, o “fã incondicional” e o “fã número 1”.

“Fanum” não resistiu ao tempo como seu sinônimo “templum”, mas deixou um bom legado na nossa língua. É a ele que devemos, também, o “profano”, formado de “pro-” no sentido de “diante de” e “fanum”: o profano é aquele que está diante do templo e nele não entra, portanto não é iniciado nos rituais sagrados.

Já o fã, filho do fanático, vive em seus santuários. Seu templo é o palanque do político, a casa de show, o teatro, o estádio. Ou uma mesa de bridge do Copacabana Palace.

Sofia Mariutti é poeta e tradutora. Trabalhou como editora na Companhia das Letras entre 2012 e 2016. Em 2017, lançou pela Patuá a reunião de poemas “A orca no avião”, seu primeiro livro. Mestranda em literatura alemã pela USP, trabalha em 2019 na tradução da biografia de Franz Kafka para a editora Todavia.

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