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Cul·pa

“Mea culpa, mea culpa, mea maxima culpa”, os fiéis repetem enquanto se dão tapinhas no peito, reconhecendo que são pecadores, numa passagem do “confiteor”, oração canônica da liturgia cristã. É daí que vem a expressão “mea-culpa”; faz um mea-culpa quem se arrepende e quer se redimir, assumindo a quem quiser ouvir “a culpa é minha”. Com ou sem tapinhas no peito.

No poema “Mea culpa”, Jacques Prévert brinca com essas palavrinhas sagradas e com a ambiguidade de “faute” em francês, que quer dizer tanto “culpa” como “erro” (no caso, de ortografia): “C’est ma faute/ c’est ma faute/ c’est ma très grande faute d’orthographe/ voilà comment j’écris/ giraffe”. Na tradução de Mário Laranjeira: “Minha culpa/ minha culpa/ minha máxima culpa em ortografia/ vejam como escrevi/ bassia”.

A culpa pena para encontrar equivalentes exatos em outras línguas, e em inglês tem ao menos quatro traduções possíveis. Além de “fault”, análogo ao francês, e “culpability”, há “blame”, que vem do grego “blasphēmein”, e “guilt” do inglês antigo “gylt”, “delinquência”. A culpa nos faz delinquentes dignos de blasfêmia.

Já em alemão, “Schuld” serve tanto para “culpa” como para “dívida”. Na origem, o termo tinha a ver com o “dever de pagamento”. Só depois, sob a influência da Igreja, ganhou o sentido de “erro, pecado”, e passou a ser usado também no direito. Quem deve, tem culpa no cartório. Os sentidos financeiro e religioso vivem se cruzando. A expressão alemã “ter mais dívidas do que cabelos na cabeça”, por exemplo, vem do Salmo de Davi: “Tenho mais pecados do que cabelos na cabeça.”

Toda culpa tem um castigo. Ser preso, rezar dez ave-marias. Às vezes o castigo já está dado no próprio sentimento penoso de culpa. Para Freud, “o preço do progresso cultural é a perda da felicidade, pelo acréscimo do sentimento de culpa”. Quando não estamos lutando para nos defender da culpa que nos imputaram, estamos nos martirizando com uma culpa que nós mesmos criamos. Se somos autores e vítimas da nossa própria culpa, para quem vamos fazer mea-culpa? Como canta o paulistano Tim Bernardes, “Parece que eu fico o tempo todo culpado/ Com culpa eu não sei do quê/ Quem vai me desculpar se eu não fiz nada de errado/ Que mais que eu posso fazer?”.

Sofia Mariutti 

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