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Xin·ga·men·to

O “xingamento” é um brasileirismo da mesma idade de nossa República: nasceu em 1889. Quando assumiu o primeiro presidente, já tínhamos o xingamento para usar contra ele. Mas o substantivo deriva de um verbo mais antigo, “xingar”, datado do século 17, do quimbundo “xinga” no sentido de “insultar, ofender, blasfemar”. Esse deve ter sido traficado para cá no porão “negro, fundo/ infecto, apertado, imundo” dos navios, junto com escravizados angolanos que tinham todos os motivos do mundo para praguejar contra tudo e todos.

Em algum momento do passado recente, xingamento era coisa de estádio de futebol. Hoje já é coisa de rede social e Câmara dos Deputados. Xingar no direito é “crime de injúria”. Xingar na escola é “bullying”. Para alguns, xingar no sexo pode ser sexy. O xingamento nasce, muitas vezes, como preconceito. Tem gente que acha que “gay” e “veado” são vitupérios, assim como “puta” e “vagabunda”. Para Marcia Tiburi, “o xingamento fala mais de quem xinga do que de quem é xingado. Por mais violento que seja, todo xingamento esconde um desejo”.

Altair J. Aranha, pseudônimo de Luís Milanesi, reuniu 3.000 termos insultuosos em seu “Dicionário Brasileiro de Insultos”. O projeto começou como necessidade de ampliar seu vocabulário para a guerra verbal. Segundo ele, a injúria pouco conhecida é “duplamente contundente”, pois sempre acrescenta outra ofensa implícita: “ignorante”.

Outro dia, Sergio Rodrigues lançou: “escombruloso, remelético, xonho, gosmorrúnculo, viborongo, pustulibundo, espanta-mulho, esfornedor de bóstola, górgulo, nucuz”. As palavras se gastam, e escritores brasileiros têm se esforçado para encontrar adjetivos que qualifiquem seu presidente, recorrendo até a neologismos, palavras inventadas. Mas insultar presidente não é coisa nova. Em carta a Clarice Lispector em 1946, Fernando Sabino confessa: “Tenho xingado muito o Getúlio”.

Sofia Mariutti 

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