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Ja·ne·la

Há um verbo próprio para estar à janela: “janelar”. Quem fica à janela, janela. E no imaginário comum, é “ela”. O tema da mulher esperando na janela é tão recorrente que, na falta da mulher, tem até enfeite para substituí-la, a chamada boneca namoradeira, típica de Minas Gerais. O motivo já nos rendeu até prêmio no Grammy Latino, com “Esperando na janela”, de Targino Gondim, Manuca e Raimundinho do Acordeon. Chico Buarque também o visitou diversas vezes. Diante da janela de Maria está sambando Juca, diante da janela de Carolina passa o tempo. Tem ainda “Ela e sua janela”, espiando, esperando, querendo. E “Toda gente homenageia/ Januária na janela”.

Chico sabe o que faz: a janela é prima da Januária, assim como é do deus Janus e do mês de janeiro, todos herdeiros distantes do verbo latino “ire”, “ir”, que deu em “ianus”, “passagem”. De “ianus” veio “janua”, com uma série de sentidos, entre eles “entrada”, “porta” e “caminho”. E do seu diminutivo, “janŭella”, veio a nossa janela, uma entradinha, uma pequena porta, um pequeno caminho por onde se passa. No “j” de janela, portanto, ainda se esconde o “i” de “ir”. Janela: quem ia nela?

O deus Janus, também conhecido como “deus dos começos”, tem duas faces: uma que olha para frente e outra para trás. É celebrado por proteger as “entradas e as saídas, o interior e o exterior”, segundo o dicionário Houaiss. Consagrado a ele, o mês “januarius” também olha para o ano que passou e para o ano que se inicia. É um começo, uma entrada, uma passagem.

E o que o francês “fenêtre”, o italiano “finestra” e o alemão “Fenster” têm a ver com tudo isso? “Janua” foi o termo do latim vulgar que substituiu “fenestra”, com o sentido de “janela, fresta, postigo”, que deu na nossa “fresta” e nas formas citadas acima. Respiremos aliviados: por pouco nossas janelas não são meras frestas.

O espanhol “ventana”, por sua vez, vem do latim “ventus”, “vento”. E o inglês “window”, segundo o dicionário Merriam Webster, vem do nórdico antigo “vindauga”, que provavelmente é a soma de “vindr”, “vento”, e “auga”, “olho”. Ou seja: a janela-window é um “olho de vento”. O que nos leva de volta ao português, pois para nós o plural “janelas” também é uma forma figurada de falar dos olhos.

No documentário Janela da Alma, o poeta Antonio Cícero questiona a própria metáfora que dá título ao filme: “Se o olho é a janela da alma, então você tem que olhar por essa janela com um outro olho. E se esse outro olho também é a janela da alma, você tem que olhar por essa janela com um outro olho. Quer dizer, a janela não olha, quem olha é um olho através da janela. (...) Você vai ao infinito com essa história de janela da alma, entende? E nunca chega de verdade à própria alma.”

Sofia Mariutti é poeta e tradutora. Trabalhou como editora na Companhia das Letras entre 2012 e 2016. Em 2017, lançou pela Patuá a reunião de poemas “A orca no avião”, seu primeiro livro. Mestranda em literatura alemã pela USP, trabalha em 2019 na tradução da biografia de Franz Kafka para a editora Todavia.

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