Ir direto ao conteúdo

Cen·su·ra

No dia 18 de julho de 1968, integrantes do Comando de Caça aos Comunistas entraram no Teatro Ruth Escobar, em São Paulo, e bateram nos atores que acabavam de encenar a peça “Roda Viva” de Chico Buarque. Em setembro do mesmo ano, Caetano Veloso foi vaiado no Tuca e desclassificado do Festival Internacional da Canção, depois de cantar “É proibido proibir”. Poucos meses depois, em dezembro, o AI-5 foi promulgado. Censura rima com ditadura e com tortura. E com “porcaria na cultura tanto bate até que fura”, na voz de Itamar Assumpção.

“Não tem como vocês reprimirem a população em pleno 2019”, diz o youtuber Felipe Neto, otimista. Segundo reportagem da Folha de S.Paulo, a Caixa Econômica Federal criou nesse ano um sistema de censura prévia aos projetos aprovados em editais da Caixa Cultural. Alguns eventos programados foram cancelados pela instituição. E esse não é um caso isolado no Brasil de 2019.

Na antiga Roma, conta o dicionário Houaiss, o “censor” era o magistrado que “recenseava” a população, isto é, fazia o registro dos cidadãos e de suas propriedades, o “censo”, além de cuidar da arrecadação dos impostos. Uma mistura do que chamamos de “recenseador” do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) com fiscal da Receita Federal. Mas o censor também era o que conhecemos hoje: responsável pela manutenção dos bons costumes, julgava o comportamento e a moral das pessoas, além de criticar trabalhos literários. Daí a “recensão”, um dos sinônimos de “resenha”, feita a partir de leituras e releituras atentas.

A “censura” e seus irmãos vêm do verbo latino “censere”, “pesar, avaliar, julgar”. De outra origem, mas homônimo ao “censo”, o “senso” também pode ser a “faculdade de julgar” — mas muitas vezes falta senso ao censor: sensatez, prudência, entendimento.

Segundo Elisabeth Roudinesco e Michel Plon, Sigmund Freud teve o insight de comparar certos delírios à censura política em 1897, numa carta a Wilhelm Fliess, lembrando de um jornal estrangeiro censurado pelos russos na fronteira, com tarjas pretas que tornavam os textos ininteligíveis. A “Zensur” de Freud é definida pelos autores como uma “instância psíquica que proíbe que emerja na consciência um desejo de natureza inconsciente e o faz aparecer sob forma travestida”. Mais tarde, Freud falará em “censor do Eu”.

Antes da censura ao outro, há sempre a censura a si próprio: não fiz isso, e nem poderia ter feito, ainda que talvez quisesse. Seja na psicanálise, seja na política, a censura gera delírios ininteligíveis.

Sofia Mariutti é poeta e tradutora. Trabalhou como editora na Companhia das Letras entre 2012 e 2016. Em 2017, lançou pela Patuá a reunião de poemas “A orca no avião”, seu primeiro livro. Mestranda em literatura alemã pela USP, trabalha em 2019 na tradução da biografia de Franz Kafka para a editora Todavia.

Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões do Nexo.

Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa Equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project. Saiba mais.

Mais recentes

Você ainda tem 2 conteúdos grátis neste mês.

Informação com clareza, equilíbrio e qualidade.
Apoie o jornalismo independente. Junte-se ao Nexo!