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Fu·tu·ro

Na celebração dos 30 anos da independência de Moçambique, Mia Couto lançava a questão: “No passado, o futuro era melhor?”. No Brasil da ditadura, Ivan Lessa ironizava, na contracapa d’O Pasquim: “Num país onde o futuro a Deus pertence, os agnósticos perguntam: ‘e o passado? Quem vai se responsabilizar por ele?’.”

Para Wisława Szymborska, o futuro é uma das palavras mais estranhas: “Quando eu falo a palavra Futuro,/ a primeira sílaba já pertence ao passado.” Na literatura é assim: o futuro costuma aparecer ao lado do passado, mesmo que no tempo esteja mais perto do presente. Se enfileirarmos todas as frases que já juntaram passado e futuro, de Confúcio a Renato Russo, certamente vamos dar na eternidade.

No passado, “futurus” era o particípio futuro do verbo latino “esse”, “ser”, com o sentido de “o que há de ser”. O verbo “esse”, por sua vez, vinha da raiz indo-europeia “bhewē”, “crescer”. Assim que o futuro é, no fundo, “o que há de crescer”. Será o passado “o que há de diminuir”, conforme a memória desvanece?

Hoje, em português, a ideia de “particípio futuro” soa estranha: vemos o particípio como um modo próprio do passado. Mas a ligação estreita entre passado e futuro fica evidente no “futuro do pretérito”, ou “futuro anterior”, que é uma contradição em forma de tempo verbal: o futuro, que já ficou pra trás, de uma ação que ficou mais pra trás ainda. Conforme o exemplo do Houaiss, “a filha nasceu em 1976, e em 1977 nasceria o filho”. Mais ou menos como o futuro do romance “1984”, que em teoria já passou. Só que na prática está mais presente do que nunca.

“The future’s not ours to see, que sera, sera”, cantava a Doris Day. Futuro rima com escuro, e a gente também não consegue ver bem dentro dele. Em “cartomante”, a poeta carioca Luiza Mussnich prescreve: “Tomar decisões/ é a melhor forma/ de prever o futuro”.

Quem pensa demais no futuro é ansioso. Quem pensa demais no passado é melancólico. Sábio mesmo é Paulinho da Viola: “Quando eu penso no futuro não esqueço o meu passado”.

Sofia Mariutti é poeta e tradutora. Trabalhou como editora na Companhia das Letras entre 2012 e 2016. Em 2017, lançou pela Patuá a reunião de poemas “A orca no avião”, seu primeiro livro. Mestranda em literatura alemã pela USP, trabalha em 2019 na tradução da biografia de Franz Kafka para a editora Todavia.

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