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Luz

Conta Alice Ruiz que, quando sua filha Áurea nasceu, o pai Paulo Leminski ficou até tarde perambulando pela cidade e voltou com uma letra na cabeça, “Luzes”: “Essa noite/ essa noite vai ter sol”. O nascimento é cercado de metáforas luminosas. “Dar à luz” é parir e “vir à luz” é nascer. A luz gera a vida, através da fotossíntese. Não à toa, luz é substantivo feminino.

O livro também nasce e “vem à luz”, ou “a lume”, quando é publicado. A caixinha de fósforos diz “fiat lux”, “haja luz”, como teria dito Deus ao criar o dia, depois do céu e da terra. O Lúcio e a Lúcia nasceram ao alvorecer; o Luciano é matinal. Mas como explicar que “lúcifer” é ao mesmo tempo aquele que carrega a luz e o ilustre chefe dos demônios? Alguém me dá uma luz?

Luz, luce, lumière, light, Licht: todo mundo vem da mesma raiz indo-europeia “leuk”, “ser luminoso, iluminar”, que deu no grego “leukós” (donde “leucócito”) e em uma vasta cognação latina, conforme mostra o dicionário Houaiss. Inclua-se aí “luna”, na origem “leuk-s-na”, um epíteto que queria dizer “a brilhante” e se tornou substantivo. Os antigos evitavam pronunciar seu nome, pois a Lua era “um ente poderoso e malfazejo”, um pouco como o “coisa ruim”. Será todo brilho diabólico?

Quem lança luz sobre isso é Goethe, com seu célebre aforismo: “Onde há muita luz, mais forte é a sombra”. Andrew Solomon intitula seu livro sobre a depressão de “O demônio do meio-dia”, porque quando o Sol está no topo, toda tristeza é mais funda. Mas “perder a luz” é ficar cego ou desfalecer. E “perder a luz da razão” é ficar louco. Pois eu fico com a luz, mefistofélica ou não, no fim do túnel.

Sofia Mariutti é poeta e tradutora. Trabalhou como editora na Companhia das Letras entre 2012 e 2016. Em 2017, lançou pela Patuá a reunião de poemas “A orca no avião”, seu primeiro livro. Mestranda em literatura alemã pela USP, trabalha em 2019 na tradução da biografia de Franz Kafka para a editora Todavia.

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