Si·lên·cio

“Silêncio!”, grita o professor. “Psiu”, “chiu”, dizemos com o indicador na frente da boca, “o papai dormiu”. Ninamos os bebês ao som de “shhh” para imitar o barulho do útero, em teoria, mas no fundo estamos implorando que parem de chorar, que façam silêncio. E tem aqueles versinhos pesados pra calar as crianças: “Vaca amarela/ fez cocô na panela/ quem falar primeiro/ come todo o cocô dela”. Sempre dá pra piorar: “Cala a boca, menino”.

O silêncio tem um quê de não, de proibição. Aparece em sua forma mais autoritária no verbo “silenciar”. Silencia-se a oposição. O dicionário Houaiss conta que um dos derivados do silêncio é o “silenciário”, o empregado encarregado de manter os escravos em silêncio nos palácios do baixo Império Romano. Diante do autoritarismo, surge a expressão “romper o silêncio”. O momento em que as vítimas vêm a público falar dos abusos que sofreram, não se calam.

Datada do século 14, a palavra “silêncio” veio do verbo latino “silere”, que no a princípio se referia ao silêncio das coisas, enquanto “tacere” dizia respeito ao silêncio da fala. De “tacere” veio “taciturno”: quem se cala entristece. Ou então ouviu soar o último sino — Houaiss nota que “silentes” era usado na poesia para designar os mortos. Temos também aqueles lugares-comuns funestos: “silêncio sepulcral” e “silêncio de túmulo”.

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Sofia Mariutti é poeta e tradutora. Trabalhou como editora na Companhia das Letras entre 2012 e 2016. Em 2017, lançou pela Patuá a reunião de poemas “A orca no avião”, seu primeiro livro. Mestranda em literatura alemã pela USP, trabalha em 2019 na tradução da biografia de Franz Kafka para a editora Todavia.

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