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Si·lên·cio

“Silêncio!”, grita o professor. “Psiu”, “chiu”, dizemos com o indicador na frente da boca, “o papai dormiu”. Ninamos os bebês ao som de “shhh” para imitar o barulho do útero, em teoria, mas no fundo estamos implorando que parem de chorar, que façam silêncio. E tem aqueles versinhos pesados pra calar as crianças: “Vaca amarela/ fez cocô na panela/ quem falar primeiro/ come todo o cocô dela”. Sempre dá pra piorar: “Cala a boca, menino”.

O silêncio tem um quê de não, de proibição. Aparece em sua forma mais autoritária no verbo “silenciar”. Silencia-se a oposição. O dicionário Houaiss conta que um dos derivados do silêncio é o “silenciário”, o empregado encarregado de manter os escravos em silêncio nos palácios do baixo Império Romano. Diante do autoritarismo, surge a expressão “romper o silêncio”. O momento em que as vítimas vêm a público falar dos abusos que sofreram, não se calam.

 Datada do século 14, a palavra “silêncio” veio do verbo latino “silere”, que no a princípio se referia ao silêncio das coisas, enquanto “tacere” dizia respeito ao silêncio da fala. De “tacere” veio “taciturno”: quem se cala entristece. Ou então ouviu soar o último sino — Houaiss nota que “silentes” era usado na poesia para designar os mortos. Temos também aqueles lugares-comuns funestos: “silêncio sepulcral” e “silêncio de túmulo”.

Mas nem só de autoritarismo, tristeza e morte é feito o silêncio. Quando não constrange nem ensurdece, ele remete à tranquilidade, ao conforto, aos momentos de criatividade e meditação. É muito celebrado na música. “Vamos ouvir esse silêncio meu amor/ amplificado no amplificador”, canta Arnaldo Antunes na faixa-título do seu álbum de 1996. Para Caetano Veloso, o silêncio é melhor do que as melhores canções na voz dos melhores intérpretes, mas “melhor do que o silêncio só João”. Paulinho da Viola pede “uma pausa de mil compassos”, o que faz lembrar dos “4’33” de silêncio na performance de John Cage.

Também a poesia se ocupa do silêncio. “Silêncio na mata/ a mariposa pousa na flor/ outro silêncio”, escreve Alice Ruiz. O silêncio é sempre “outro”, nunca absoluto — pois ao fundo estamos ouvindo um ruído, da geladeira, do passarinho, do carro passando do outro lado da Rebouças, do universo em expansão. “Quando eu falo a palavra Silêncio,/ o destruo”, escreve a polonesa Wislawa Szymborska, implacável. (No mesmo poema, “As três palavras mais estranhas”, está o “futuro”, mas esse fica pra um futuro próximo.) 

Sofia Mariutti 

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