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Am·bi·en·te

Luz ambiente, som ambiente, pressão ambiente, temperatura ambiente. Segundo podcast do dicionário Merriam Webster, o adjetivo “ambient” pode parecer hoje um termo técnico, que cabe bem na boca dos especialistas, mas já foi muito usado por poetas, como John Milton e Alexander Pope.

Não que a poesia esteja tão distante da técnica, conforme mostram estes versos tirados de “Diamundo: 24h de informação na vida do jornaledor”, de Carlos Drummond de Andrade: “Nesta cobertura você vai descobrir/ novo conceito de viver/ living em duplo L e 3 ambientes/ música FM na área social/ acabamento para não acabar nunca/ piscina jardim/montanhas ao longe/ sem aumento de preço”. Aqui, emprestado do jargão arquitetônico, “ambiente” é substantivo com o sentido de “cômodo”.

Conterrâneo de Drummond e também talentoso criador de jornais imaginários, Paulo Mendes Campos usa a palavra de outro modo na abertura de “Andantino”, breve prosa poética em que se queixa das novas formas de se andar na praia. O autor lembra com nostalgia: “Andar era um gesto social, espairecer, embeber-se de ambiente”. A palavra aparece aqui como sinônimo de “atmosfera” — e muito falamos em ambiente tenso, saudável, insalubre, propício, festivo, familiar.

Mas o uso que mais nos interessa hoje, já que tudo aponta para uma catástrofe climática, é o de ambiente como “meio ambiente”. E para pensar essa acepção, a etimologia da palavra é iluminadora.

No princípio era o verbo “ire”, que deu no nosso “ir”. Ele segue ali, representado pelo “i” ilhado no meio do “ambiente”. A ele se somou o prefixo “amb”, forma alternativa de “am”, que significa “ao redor de”, dando origem ao verbo “ambire”, com o sentido primeiro de “andar ao redor”. Ambiente veio do particípio presente desse verbo: é, portanto, aquilo que rodeia. Poderia ser chamado de “circundante” ou “rodeante”.

Até aí, tudo bem. Só que, com o tempo, “ambire” se especializou na linguagem política, para falar de “candidatos que disputavam uma magistratura e faziam a corte aos eleitores”, segundo o Houaiss. E assim o verbo ganhou o sentido adicional de “ambicionar”. De modo que a “ambição”, que começou como “ação de rodear” e conquistou outras acepções, é a irmã queridíssima e mais velha do ambiente: chegou ao português pelo menos 300 anos antes, no século 13 (ambiente data de 1619).

Sabemos disso muito bem: candidatos ambiciosos rodeiam os cargos que almejam e seus eleitores. Para agradar a alguns deles, muitas vezes fazem cerco ao próprio meio ambiente, fonte de toda riqueza; e assim caminhamos, invertendo o sentido das palavras e rodeando aquilo que um dia nos rodeou.

Sofia Mariutti 

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