Ca·dê

“Vossa mercê” virou “vossemecê” que virou “vosmecê” que virou “você” que virou “ocê” que virou “cê”. Caetano Veloso dedicou todo um álbum a essa redução brasileiríssima. Ao longo das faixas, ouvimos versos como “Mas cê foi mesmo rata demais” e “Vi cê me fazer crescer também”. Com duas letras, o pronome de segunda pessoa finalmente se igualou ao “tu” na brevidade.

Assim também é a história do “cadê”, uma redução tipicamente brasileira da expressão interrogativa “que é de”, que poderia ser traduzida por “o que foi feito de” ou “onde está”. A princípio, o “e” e o “é” de “que é” se contraíram em “quede”; depois, por expressividade, a acentuação se deslocou para a sílaba final, em “quedê”; por fim, a primeira sílaba se abriu em “cadê”. Ainda considerado informal, o advérbio data do fim do século 19, e tem como principal vantagem a economia; diferente de “onde”, “cadê” dispensa o uso do verbo. É uma palavra só, de apenas quatro letras, que dá conta de todo o sentido do desaparecimento. A língua valoriza o mínimo esforço.

“Cadê” é também uma das primeiras palavras que as crianças brasileiras são obrigadas a aprender: “Cadê bebê?” “Achou!”. Conhecido em italiano como “cucù”, em alemão como “guckguck”, em francês como “coucou” e em inglês como “peek-a-boo”, esse jogo universal é estudado para demonstrar como os bebês são incapazes de entender a “permanência do objeto”. Segundo o psicólogo suíço Jean Piaget, desenvolvemos gradualmente essa compreensão durante a fase da inteligência sensório-motora, que dura até os dois anos de idade. Antes disso, é como se o que desaparece da vista deixasse de existir.

Dizem que é por isso que os bebês não têm memória, uma espécie de “permanência da imagem”. Viramos adultos e muitas vezes o “cadê” é acionado quando a memória falha. Em geral, quem perde a chave de casa esqueceu onde deixou. Ou um bebê pegou para investigar e escondeu pra deixar de existir. Aí não adianta perguntar “Cadê chave de casa” e abrir um sorriso bobão. Resta rezar pra São Longuinho.

Sofia Mariutti é poeta e tradutora. Trabalhou como editora na Companhia das Letras entre 2012 e 2016. Em 2017, lançou pela Patuá a reunião de poemas “A orca no avião”, seu primeiro livro. Mestranda em literatura alemã pela USP, trabalha em 2019 na tradução da biografia de Franz Kafka para a editora Todavia.

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